Mais um capítulo! Nem acredito que Obscuridão já está na reta final.

Boa leitura! Me digam o que estão achando da história até aqui.

Naruto não me pertence.


Obscuridão

Capítulo 8: Ignorância

Sakura pensou que ficaria sozinha por alguns dias; Ino e Tenten em uma missão, Hinata ocupada com algo relacionado ao clã Hyuuga, e Shisui… Shisui não a procuraria, certamente. Não depois do que aconteceu na floresta.

Em breve.

Ela franziu o cenho. Essas palavras ecoavam em sua mente a cada cinco minutos, fazendo-a deduzir sem parar o que poderia ser o significado delas. Shisui não era o tipo de pessoa que favorecia palavras enigmáticas, então talvez devesse fazer sentido para ela. Mas, por mais que tentasse, nada vinha à cabeça.

O que aconteceria em breve? O que ele faria em breve? Ela se sentia em um jogo de adivinhação, tentando prever os próximos passos de Shisui.

Mas nem as experiências anteriores foram uma indicação para o que aconteceu no dia seguinte.

Sakura decidiu levar Kaito e seu grupo (exceto Ichiro-san, mas ela não estava preocupada com isso; ele provavelmente estava ocupado com algum outro negócio que veio para resolver) para seu restaurante de tempura favorito. Eles mal haviam escolhido uma mesa, com Sakura recebendo o cardápio da garçonete, quando a porta abriu novamente e Shisui entrou com Itachi logo atrás.

Kaito imediatamente parou de falar e a olhou com sobrancelhas escuras erguidas, enquanto Sakura estava boquiaberta e imóvel ao lado de seu assento. Ocupavam uma mesa sozinhos, enquanto os guardas e o cozinheiro de Kaito sentavam em uma próxima. Nem Shisui nem Itachi olhavam em sua direção. Como há algum tempo, eles tinham tantōs amarrados às costas e aparências desgrenhadas–provavelmente resultado de um treinamento.

Em todo esse tempo, eles se livraram de cruzar com Shisui nas ruas, mas é claro que teria que acontecer cedo ou tarde. Ultimamente praticamente tudo estava indo de mal a pior para Sakura; por que isso não iria?

Sakura sentou na cadeira devagar, dando as costas para a entrada e sentindo uma inquietação de que não seria tão fácil quanto ignorar e esperar que eles não a vissem.

Kaito limpou a garganta, chamando sua atenção hesitante, e prontamente olhou para a mulher parada perto deles que esperava os pedidos. Sakura fez o seu pedido de sempre e passou o menu para Kaito, que observou atentamente, mas não pediu a opinião dela, como era de costume. Olhos azuis profundos continuavam roubando olhares por cima do ombro dela nervosamente. Sakura franziu o cenho. Ele estava com medo deles?

Ela abaixou a cabeça um pouco quando a mulher os deixou com os pedidos anotados, tentando esconder-se em vão; a cor de seus cabelos era inconfundível, especialmente para Shisui a esse ponto. Kaito não disse nada, mas Sakura o viu olhar na direção em que imaginava que Shisui e Itachi estavam várias vezes. Depois de vários tensos minutos em que os dois permaneciam em um estado de silêncio paranóico, dois corpos pararam ao lado da mesa deles, tão silenciosamente que Sakura quase pulou em seu assento com a repentina aparição.

"Tudo bem se nos juntarmos a vocês?" Shisui perguntou com sobrancelhas erguidas quando Sakura finalmente olhou para cima. Ele não parecia exatamente irritado, mas ainda sim estava sério demais para ele, seus olhos pareciam duas pedras ônix. Itachi, ao seu lado, olhava para o primo com o que parecia ser uma expressão incerta (para Itachi; ela duvidava que Kaito havia notado a diferença) antes de voltar-se para Sakura e Kaito com um pequeno sorriso educado.

"Sakura-san, Kaito-san."

"Olá, Itachi-san, Shisui-san," Kaito replicou e Sakura direcionou olhos arregalados para ele em surpresa em vez de responder a saudação de Itachi. Kaito conhecia Itachi também? "Podem se sentar, não há problema algum nisso. Sakura-san estava me dizendo sobre o tempura daqui."

Kaito disse tudo isso muito rápido, como se Shisui e Itachi estivessem prestes a sair em vez de sentando nos assentos vazios. Sakura ergueu uma sobrancelha para ele que claramente dizia estava? e ele moveu os olhos rapidamente para Shisui e de volta a ela, que provavelmente significava só concorda, por favor.

Mas então Shisui sentou ao seu lado, mais perto que necessário, encostando a perna dele com a dela, e Sakura pensou que isso era altamente impróprio–ainda mais com o que havia acontecido na noite anterior ainda claro em sua memória. O pensamento a deixou um pouco nervosa e a perna encostada na sua de repente estava quente demais. Shisui a enfrentou e manteve seus olhos nela atentamente, como se estivesse muito interessado em algo em seu rosto. Sakura não sabia o que dizer, então ignorou isso com um pouco de dificuldade e voltou-se para os dois homens a sua frente, mas sem antes perceber a maneira como os olhos dele suavizaram.

"Vocês se conhecem?"

Kaito ainda parecia nervoso por algum motivo. Itachi foi quem assentiu em resposta. "Kaito-san esteve no distrito Uchiha enquanto Ichiro-san participava de uma reunião."

"Oh." Sakura olhou de volta para Kaito especulativamente.

Ele coçou a garganta novamente, alisando as mãos uma sobre a outra em cima da mesa. "Itachi-san apresentou o distrito Uchiha enquanto Ichiro-oji estava ocupado. Você não foi necessária nessa ocasião," ele disse calmamente.

A mesa ficou em silêncio depois disso, com a garçonete de antes trazendo os pratos e cada um focando no seu. Durante todo o tempo, Sakura conseguia sentir Shisui olhando-a vez ou outra e a leve tensão que permeava o ar. Ele claramente não estava afetado pelo que havia transparecido na noite anterior. Ela não esperava por isso. Por algum motivo, assim que estivessem todos juntos, Sakura esperava uma crise de ciúmes e um ataque verbal–com Shisui sendo o responsável por ambos. Quando nada disso aconteceu, ela se sentiu estranha. Alguma coisa estava acontecendo.

Em breve. O que significava? Por que Shisui parecia mais tolerante com Kaito quando no dia anterior apenas a menção do nome dele foi o suficiente para mudar o humor entre eles?

Não podia deixar de pensar que as pessoas ao seu redor pareciam estar agindo misteriosamente ultimamente. De repente, as que via com frequência tinham coisas importantes a fazer ao mesmo tempo; Shisui, por outro lado, parecia estar por perto com mais frequência; Kaito quase sempre em silêncio, perdido em pensamentos, quando seu normal era socializar…

Até mesmo Tsunade e Shizune pareciam lidar com ela cuidadosamente, como se Sakura fosse feita de vidro e pudesse quebrar a qualquer momento.

"Você está ocupada depois daqui?" Shisui questionou quietamente ao seu lado, tirando-a de suas contemplações. Itachi e Kaito conversavam sobre algo em tons sussurrados. Ela fez o possível para não inclinar-se sobre a mesa com a intenção de saber sobre o que conversavam e se voltou ao homem envolvido em suas suspeitas.

Sakura ignorou os olhos esperançosos de Shisui e pensou um pouco, mesmo sabendo que não faria nada depois. "Não. Só voltarei para casa. Por quê?"

"Preciso de ajuda com uma observação no meu histórico médico," ele respondeu, inclinando o rosto para que ficasse mais próximo ao seu. Os olhos dele se prenderam aos seus com intensidade e Sakura foi lembrada de quando eles brilharam ao olhá-la no chão da floresta, no dia anterior.

Mas então, a menção da pasta médica dele, sua mente voltou a sala da Hokage, com Tsunade e Shizune avisando-a que tinha uma alta probabilidade de não voltarem atrás em questão do casamento arranjado.

Seu coração afundou. Sakura se afastou lentamente, dessa vez tentando ignorar a dor repentina nos olhos de Shisui. Ela assentiu educadamente, se não um pouco fria, enquanto observava suas mãos juntas em seu colo. "Eu posso ajudá-lo." Então chamou a atenção de Kaito para si. "Nós devíamos ir. Preciso ajudar Shisui com algo."

Todos se levantaram da mesa, mas Kaito e Shisui foram mais rápidos, ambos oferecendo-se para pagar a conta ao mesmo tempo. Pobre Kaito parecia apenas procurar por uma desculpa para livrar-se da presença deles enquanto Shisui parecia ter sido desafiado a uma batalha. Quando Kaito hesitantemente mencionou que pagaria para ela, como sua convidada e guia, foi a vez de Sakura de protestar, mas não parecia ter sido ouvida. Eles voltaram ao balcão na entrada, argumentando por todo o caminho.

Sakura exalou.

"Eu tentei desencorajar Shisui de vir aqui." A voz calma e profunda de Itachi soou do outro lado da mesa, atrás dela. "Mas ele não ouviu, claramente."

Sakura se virou de volta para a mesa, notando a maneira como as sobrancelhas de Itachi se alinhavam juntas ligeiramente em pensamento. Ele parecia intrigado com algo. Ela sorriu, cansada "Não. Eu suponho que ele não iria."

Itachi hesitou. Então, "Posso perguntar–"

"Não é uma boa ideia, Itachi-san," Sakura disse, voltando a olhar os dois homens ainda conversando agitadamente no balcão. Ela não sabia exatamente o que Itachi estava procurando saber, mas ela se referia ao fato de Shisui estar sempre por perto e não ter escrúpulos sobre ser visto ao redor dela em locais públicos–principalmente se ele fosse ter o mesmo comportamento de alguns minutos atrás. A julgar pelo brilho de sabedoria nos olhos de Itachi, no entanto, ele desconfiava. "E Shisui sabe disso."

"Não significa que ele se importe." Itachi andou até ela e observou a mesma cena atentamente.

"Eu sei," Sakura respondeu, lembrando da noite passada e de tudo que Shisui havia dito. "Eu sei que não."


Para sua suspeita, mas não podia dizer exatamente que estava surpresa, aquele dia não foi a última vez que viu Shisui.

De repente ele estava em todo lugar, fazendo-a lembrar de quando costumava segui-la e aparecer nos locais que mais frequentava. Dessa vez, no entanto, Shisui tinha reais motivos para vê-la e era só por isso que Sakura não teve aquela conversa com ele, como passou a referir-se a que sempre tinham depois dos dois fazerem algo que julgava estúpido.

No hospital, surpreendentemente em qualquer sala que ela estivesse, ele a acharia com uma dúvida real, ou um pergaminho de Tsunade, ou relatórios de missões com informações que precisariam para tratar pacientes, mesmo que Sakura raramente tratasse de pacientes agora. Quando ela questionou, Shisui disse que era porque ele não conhecia os procedimentos do hospital e ela era a chefe (nas palavras exatas dele).

Esses motivos, apesar de genuínos, eram extremamente suspeitos para ela. Por que Shisui estava fazendo um trabalho de chūnin? Pior de tudo: por que Tsunade pedia a ele para fazer esse tipo de trabalho? Tinha alguma coisa acontecendo, Sakura tinha certeza disso.

De fato, o único lugar que Shisui não aparecia era em sua casa. Até um de seus passeios pela aldeia com Kaito ele interrompeu, segurando-a em seus braços precipitadamente e transportando os dois, dizendo uma desculpa sarcástica para Kaito antes de sumirem. Kaito, para a perplexidade de Sakura, não parecia nem um pouco incomodado com a súbita saída. Ela até pensou que viu um pequeno sorriso nos lábios dele…

Ela já começava a sentir-se bastante irritada com a situação. E Shisui parecia perceber. Mais cedo naquele dia, antes dele sair com a ficha de um paciente do clã Hyuuga a pedido de Tsunade, ele pareceu esquecer de si mesmo, ou talvez fosse o costume–coisas que Sakura disse a si mesma como explicação–e roubou um beijo leve e rápido de seus lábios, mas que fez seu rosto corado com agitação mudar para vergonha. Ele sorriu atrevidamente quando percebeu o que havia feito, sem nenhum vestígio de remorso, e deixou a sala.

Por que estava surpresa era a real questão. Shisui nunca teve problemas em fazer coisas assim, independentemente da situação.

Apesar disso, ela passou o restante do dia em um ótimo humor.

Sakura quase cochilou, mas abriu os olhos assustada quando sentiu sua cabeça ficar mais pesada na mão onde segurava seu queixo. Tsunade não estava muito diferente, mas conseguia esconder melhor com a cabeça abaixada do jeito que estava, para ler um documento. O céu já escurecia do lado de fora da janela, mas ainda estava cedo para estarem sonolentas assim. A quantidade de trabalho que Sakura fez durante a semana era incomum e alguns ela até levou para casa. Tsunade parecia estar no mesmo dilema.

Parte do motivo de estar com tanto trabalho era a pesquisa; Shizune, no momento, realizava outros testes em alguns genins–os que tiveram alterações nos resultados dos testes feitos quando recém nascidos. Ela inclusive requisitou algumas pastas de Sakura, pedido esse que Shisui foi quem a deixou saber, pastas essas contendo outras informações de quando essas crianças ainda estavam na academia. Shizune já havia registrado que boa parte desses genins já haviam apresentado maiores dificuldades em controlar o chakra que o normal para a idade; inclusive em tarefas mais simples como canalizar chakra para alguma parte do corpo.

Por causa disso, porque não podia contar tanto com a ajuda de Shizune no hospital, Sakura ficava mais tempo que seus horários normais de turnos, inclusive tendo que cancelar uma de suas visitas ao redor de Konoha com Kaito.

Envolta a tudo isso, os resultados dos testes de Shizune estavam preocupando-a. E realmente era algo para preocupar-se. Sakura não conseguia aceitar que algo assim ainda podia ser decidido pelo clã. Será que não conseguiam ver que esse era um cenário ruim inclusive para os clãs? Principalmente para os clãs? Não que isso fosse o que importava mais; quão frustrante deve ser ter tanta dificuldade em algo tão simples quanto acessar o chakra? E a saúde mental dessas crianças? Ela sabia muito bem como clãs shinobi podiam ser exigentes; tinha a relação de Sasuke com Uchiha Fugaku como exemplo. Algo tão simples, mas que era determinante para qualquer técnica.

Shisui prontamente concordou com suas frustrações faladas em voz alta, em um tom irritado; apesar de Sakura não ter certeza se ele se ofendeu porque casamentos arranjados ainda seriam permitidos ou pelas crianças em si. O fato era que Shisui estava com ela quando leu um dos relatórios de Shizune–as mãos dele massageavam seus ombros.

"Algumas vezes sinto vergonha de fazer parte de um clã tão intolerante," Shisui disse entre dentes.

Seu primeiro pensamento foi que Shisui poderia estar pensando em fazer algo imprudente. Então ela dispensou esse pensamento; o que ele poderia fazer de qualquer jeito? "Você não pode generalizar; tenho certeza que há muitos Uchihas que assim como você não concordam com isso." Sakura balançou os papéis em sua mão como ênfase. "Se ao menos tivesse um jeito de fazê-los ver…" Ela parou de falar aos poucos, perdida em pensamentos. Shisui não disse nada em resposta, apenas continuou com sua massagem distraidamente.

Fora isso, ele não parecia tão preocupado, como Sakura achou que fosse ficar. Será que Shisui já estava acostumando-se com a ideia? Se sim, esse pensamento doía. Ele sempre parecia disposto a fazê-los ficarem juntos, mesmo estando comprometido. Ele disse que não se importava com o clã, nem com Mai; certamente Shisui não mentiria sobre isso, ainda mais naquele momento que compartilharam na floresta. Ele parecia tão sincero, genuinamente chateado com a ideia de não ficarem juntos, de Sakura não querendo-o…

Se Shisui desistisse deles, o que restava?

Mas então Shisui deu-lhe um beijo doce prolongado na bochecha antes de deixar sua sala e toda sua incerteza a deixou com ele… para um momento depois seu raciocínio lógico estragar tudo.

Shisui não deveria estar fazendo isso e Sakura certamente não deveria estar aproveitando. Ele estava prestes a casar; sem quase nada de chances de não acontecer. O que estavam fazendo?

Sakura sentiu seu coração quebrar em vários pedaços mais uma vez e colocou suas mãos no rosto, suspirando de forma cansada. Estava aproveitando tanto a presença quase diária dele, com seus pequenos gestos de afeto, que estava esquecendo de sua própria regra. Muito em breve Shisui estaria casado com Mai; Mai irritante, arrogante e nariz em pé. O que estava pensando em deixá-lo aproximar-se novamente quando logo ele não estaria mais por perto assim e ela ficaria miserável mais uma vez?

Sakura gemeu. Nada disso valia o risco.


A rua em que Kaito e seu grupo ficavam estava quase completamente escura quando Sakura finalmente começou a traçar o caminho de volta para o seu próprio apartamento. O passeio daquele dia havia sido um pouco mais demorado que o normal; uma visita ao topo das estátuas dos Hokages e um jantar antecipado para levar, que comeram no apartamento designado para os visitantes.

Sakura fechou mais do casaco que usava contra o vento frio que passava pela rua deserta. Estava cansada até os ossos naquela noite; acúmulo de todas as horas que estava dedicando ao trabalho nesses últimos dias. Entretanto, a reunião de clãs já se aproximava–que significava que logo poderia contar com a ajuda de Shizune novamente. Mas esse pensamento falhou em confortá-la. Como poderia, sabendo exatamente o que também implicava?

Ela suspirou e ao invés de perder-se em pensamentos negativos, focou-se no som que suas botas faziam contra o chão úmido da chuva de mais cedo. Ao final da rua havia uma pequena praça que, se seguisse o restante da rua que continuava depois, mais uns cinco minutos de caminhada, chegaria ao centro comercial de Konoha, onde ela esteve com Kaito em seu primeiro dia na aldeia. No entanto, Sakura iria para casa, então teria que entrar em um extenso beco que servia de atalho, bem antes da praça, que a levaria ao lado leste de Konoha.

Quando virou no beco, Sakura ficou imediatamente ciente de que não estava sozinha; quase ao fim tinha a sombra de uma pessoa andando em direção a ela. Era raro encontrar alguém passando por ali a qualquer hora. Com a distância e a escuridão, Sakura não conseguia distinguir nenhuma característica física além de ser uma pessoa de baixa estatura, como ela, e esguia.

Conforme se aproximavam, Sakura conseguiu ter uma melhor percepção. Era uma mulher com cabelos curtos, aparentemente escuros, vestida também em tons escuros, e que era na verdade um pouco mais alta que Sakura. Foi apenas quando estavam a três passos uma da outra que ela percebeu quem cruzava seu caminho.

"Uchiha," Sakura disse seriamente quando Mai seguiu seus movimentos e parou em frente a ela, cruzando os braços em frente ao peito com uma expressão de solenidade.

Mai não respondeu, então Sakura, não desejando perder tanto tempo na presença dela, deu um passo para o lado, quase colidindo com a parede do beco, na tentativa de seguir em frente. Mai, por outro lado, parecia ter outras ideias e seguiu seu movimento.

Sakura olhou para cima e estreitou os olhos, mas resolveu esperar. Era claro que a kunoichi em sua frente tinha algo a dizer para ela.

"Eu realmente pensei que você fosse uma kunoichi inteligente, pelo que ouvi incessantemente de algumas pessoas." Seu lábio superior se curvou em escárnio apesar do tom de voz suave. "Talvez eu estivesse errada."

Sakura franziu o cenho, mas mordeu a língua para evitar uma resposta raivosa. Através da raiva, um pensamento que fazia bastante sentido se fez presente em seu consciente. E se ela sabe sobre eu e Shisui…?

Mas, ao contrário do que Mai clamava, Sakura era, sim, uma kunoichi inteligente. Ela suavizou suas feições até que nenhum vestígio de seus sentimentos verdadeiros estivessem à mostra e olhou Mai de forma avaliadora, assistindo seu rosto intensamente, de uma maneira que deixava pessoas sem jeito, erguendo uma sobrancelha em questionamento.

"O que está dizendo exatamente?"

"Além de lenta você é estúpida?" Mai respondeu em uma voz que agora era pura repugnância.

Sakura apertou os dentes e levantou o queixo, murmurando em desprezo, "Você vai ficar no meu caminho e me insultar a noite toda ou você realmente tem algo significante a dizer?"

Ela podia ver que sua resposta atingiu um nervo; Mai parecia lutar contra a vontade de retornar com algo ainda mais petulante e, sem dúvida, insultante, pelo jeito que sua mandíbula contraía. Sakura apenas inclinou a cabeça de lado e esperou calmamente externamente, mas por dentro mal podia controlar seus batimentos erráticos.

Mai estreitou seu corpo, a famosa máscara impassível dos Uchiha encaixando-se em suas feições aristocráticas. "Você realmente não se enxerga, não é?"

Sakura se encontrou mais confusa que antes. Era uma pergunta retórica, com o intuito de diminuí-la mais uma vez? Seus lábios se partiram com uma questão na ponta da língua, mas Mai a interrompeu impacientemente.

"Por que você não abre esses seus olhinhos de princesa para o que está bem embaixo do seu nariz?"

O rosto de Sakura obscureceu e ela sentiu um sentimento familiar crescendo em seu peito a cada palavra que saia da boca de Mai. Era o mesmo sentimento que sentiu ao ouvi-la sendo rude com Tenten no mercado, semanas atrás.

"Parece que você está prestes a me avisar de qualquer jeito," ela disse de maneira estranhamente calma, gesticulando com uma mão em direção a Mai.

"Ah, não me entenda mal," Mai disse, sorrindo sarcasticamente. "Eu ainda não gosto de você–"

"E eu ainda não sei por que–"

"E definitivamente não estou fazendo isso para o seu benefício." Mai raivosamente aumentou o tom de voz para falar por cima de Sakura. "Eu não vou deixar você estragar isso."

Mas do que diabos essa mulher está falando?

"Shisui genuinamente parece gostar de você, apesar de eu não ver o motivo." Ela olhou Sakura da cabeça aos pés como se realmente tentasse ver o motivo. "Eu pude perceber isso nesses dias em que passei mais tempo com ele. Enfim," Mai disse, mas não fez nenhum movimento a mais para concluir o raciocínio ou explicar o que Sakura estava supostamente fazendo para ofendê-la.

Sakura assentiu devagar, tentando fazer a conversa que teve ter algum sentido em sua mente… e acabando com nada. De uma coisa podia ter certeza: Mai claramente não sabia de nada sobre Shisui estando em sua presença quase a todo o tempo. Por outro lado, ela sabia de algo; algo que Sakura estava completamente no escuro sobre.

O que ela deveria estar vendo? O que estava acontecendo?

"Eu me pergunto," Mai continuou curiosamente, como se tivesse tendo uma conversa normal com uma amiga. "Como você faz isso? Mantém certas pessoas tão leais a você que seriam capazes de quase tudo para te ajudar…"

Olhos verdes arregalaram em surpresa. Manter pessoas…

"Do que você está falando?" Sakura finalmente questionou em frustração. "O que você sabe?"

Mai rolou os olhos. "Shisui!" ela exclamou, sua voz um pouco mais alta. "Mas é claro! E todo o resto de nós envolvidos nisso! De repente o seu problema se tornou de todos nós. E depois do que eu presenciei Shisui quase fazer ao clã–"

Mas Mai se interrompeu abruptamente, olhando a expressão que Sakura possuía com uma mistura de descrença e alarme que seria hilária normalmente, mas que naquele momento só a fez estreitar os olhos em suspeita. Sakura pressionou os lábios juntos até que formassem uma linha fina e franziu a testa em pensamento.

O que Shisui quase fez ao clã?

"O que é isso?" ela questionou em um sussurro, dando um passo lento em direção a Mai, que se afastou precipitadamente, olhando o beco dos dois lados como se pensasse por onde seria mais rápido escapar. "O que Shisui fez?"

"Nada!" Mai retrucou rapidamente. "Não é do seu interesse o que acontece em nosso clã!"

"Ah," Sakura disse condescendente. "Apenas é quando você acha conveniente. O que aconteceu? Do que você está falando? Quem é o resto de vocês que supostamente estão fazendo algo por mim?"

Mas Mai apenas estreitou os olhos, acalmando-se de vez. "Se ainda não percebeu então você é mais estúpida que pensei," ela disse friamente, dando as costas para Sakura e começando a andar para longe. "Não estrague tudo agora, Haruno. Mantenha essa conversa entre nós e não tente descobrir nada sobre isso."

E então ela sumiu no meio do beco escuro, deixando-a para tentar ligar os pontos sozinha.

Mai, Shisui e aparentemente outras pessoas estavam fazendo algo… mas como poderia ser verdade? Certamente Shisui estava agindo de forma estranha, mas sua primeira justificativa para isso era o que havia acontecido na floresta dias antes… certamente, ao contrário do que Sakura havia deduzido inicialmente, ele havia tomado aquele momento como incentivo mesmo com ela dizendo não, o que também era suspeito considerando como ele agiu em situações anteriores, respeitando todos os desejos dela.

E como logo Mai estava envolvida em algo que se relacionava a ela? Mai a odiava! E Sakura estava bem próxima de retornar o sentimento. Mas agora que pensava nisso, havia um bom tempo que não avistava a kunoichi ao redor de Konoha quando antes, se não tomasse cuidado, cruzaria com ela quase todos os dias… mas isso não era algo que a preocuparia ou pensasse ser peculiar simplesmente porque o que Mai fazia ou deixava de fazer não importava para ela–a não ser quando Shisui estava envolvido.

Sakura percebeu que ainda se encontrava parada no lugar, apoiada na parede ao seu lado. Ela balançou a cabeça, como se estivesse saindo de um transe, e voltou a andar lentamente em direção ao final do beco, pensando atentamente. O que estava diferente ao seu redor que podia perceber, tirando Shisui? A primeira resposta que veio a sua mente foi suas amigas. Estavam estranhamente ausentes.

Elas ficaram mais unidas com o passar dos anos; antigas rivalidades sendo deixadas de lado e conhecendo mais umas às outras. Chegou a um ponto em que eram quase inseparáveis, andando e fazendo qualquer coisa juntas. Mas ainda sim esse repentino desaparecimento não era nada fora do comum; Tenten e Ino estavam em uma missão e Hinata tinha deveres do clã para lidar…

Mesmo assim, a dúvida que Mai plantou em seu peito apenas cresceu enquanto tentava justificar essas ocorrências para si mesma. Tenten havia dito que não levaria muito tempo para completar a missão, que era apenas escolta… Hinata, mesmo com deveres do clã tomando seu tempo em situações anteriores, podia ser avistada ao redor do hospital, realizando seus turnos…

A luz de um poste próximo iluminou seu caminho assim que saiu do beco, seguindo-a pelas ruas residenciais seguintes até conseguir enxergar três prédios a distância, um deles sendo o qual Sakura habitava. Ela chutou uma pedra no caminho, protegendo suas mãos nos bolsos do casaco que usava. Era suspeito, mas, considerando que Mai estivesse correta, e que as pessoas de quem estivesse falando fossem Shisui e suas amigas, o que eles poderiam fazer que já não tivesse sido considerado por Tsunade? Se a própria Hokage estava sem opções, o que teria para eles?

Não fazia sentido, mas então por que logo Mai se incomodaria em dizer alguma coisa, de qualquer jeito? E o que foi aquilo? Um aviso? Uma ameaça?

Se considerasse de quem estava falando, não seria uma surpresa se fosse a última opção.

Sakura balançou a cabeça, dessa vez em reprovação. Absurdo, provavelmente. Por que aquela mulher iria querer ajudá-la com o que quer que fosse?

Mas ao chegar em seu andar e encontrar Shisui parado ao lado da porta de seu apartamento, Sakura rapidamente reconsiderou se realmente era um absurdo.

As roupas dele eram as mesmas que andava usando enquanto em Konoha; simples, de tons escuros, mas ainda sim impecáveis. A única diferença que ela notou foi que seus cabelos, ultimamente mais longos que Shisui normalmente usava, agora estavam mais curtos, em seu comprimento original, Sakura supôs; mas ainda sim levemente bagunçados.

Ele sorriu, parecendo muito satisfeito consigo mesmo para ser algo irrelevante; olhos negros brilhavam na quase total escuridão. "Boa noite, meu amor. Tsunade-sama pediu para avisar que você deve descansar bem hoje; amanhã será a reunião de clãs."

...e havia isso.


Capítulo transitório... coisas importantes acontecerão no próximo.