Eu saí correndo.
Acho que deve ter sido a coisa mais ridícula que alguém poderia ter feito numa situação dessas, mas foi a primeira ação que me veio à cabeça.
Eu tenho plena noção de que eu tinha deixado uma Susana morrendo de rir em frente à mesa do banquete, mas eu precisava sair de lá. Eu passei reto pela multidão e tenho quase certeza de que ouvi um "Gina" vindo de algum lugar, provavelmente da mesa de Rony e Hermione, mas eu ignorei e rumei para a saída principal, direto para os jardins.
O ar frio pareceu me devolver um pouco o fôlego e o oxigênio pareceu voltar a circular normalmente no meu cérebro. Eu parei em um banco próximo ao lago e ali fiquei durante um tempo, congelando e pensando. Imaginando quão ridícula eu deveria ter parecido cortando o salão com meu vestido verde farfalhando em meus pés e com a minha óbvia expressão de quem havia visto um dementador.
- Por quanto tempo mais você vai tentar esconder?
A nevasca mais forte do mundo não teria me trazido a sensação de frio na barriga que aquela voz me trouxe. Aquela voz levemente arrastada e rouca, mas sempre com aquele toque metido que devia ser uma herança eterna da família.
- Você pareceu ter visto a reencarnação de Voldemort quando me viu indo em direção à mesa do banquete.
Que ódio que eu tinha daquele garoto. O que Malfoy tinha que sua presença me tirava qualquer noção de diálogo da minha cabeça? Nenhuma palavra parecia nem dar sinal de vida em meu cérebro.
- E além de obviamente perturbada mentalmente, aparentemente você virou muda.
Eu juro, eu queria falar. Eu queria falar muita coisa, mas as palavras entalaram em minha garganta.
- Por que não fala comigo? – perguntou Malfoy em um tom diferente, como se fosse em tom de súplica.
- Porque eu não sei o que falar.
- Que tal começar me respondendo o que eu te perguntei? Por quanto tempo mais você vai tentar esconder?
- Esconder o que?
- Que gosta de mim.
Ta, eu definitivamente não estava esperando aquilo. Devo admitir que ouvir aquilo da boca de Malfoy foi mais chocante do que se eu ouvisse aquilo vindo da boca de alguém da minha família.
- Do que você está falando? – eu disse tentando infiltrar um ar de desdém.
- Você é péssima pra esconder as coisas, Weasley.
- Por que não está com Parkinson? Logo logo ela vai sair chorando e chamando seu nome. Se eu fosse você eu evitava esse mico.
- Ela está se dando bem demais com o ponche cheio de álcool para se lembrar de mim.
Silêncio.
- Eu não vou admitir isso. Nunca. – eu disse para mim mesma.
Ele obviamente ouviu e me olhou com expressão de dúvida.
- Eu não posso admitir que eu gosto de você, Malfoy. É puro suicídio. E quando eu digo isso eu digo em todas as maneiras: suicídio emocional, social...tudo. Não faz parte da nossa história gostar de inimigos, nem mesmo quando eles são ex-inimigos. Eu não posso arcar com isso agora. Eu não posso me dar ao luxo de me preocupar com isso.
Eu me levantei. Malfoy não deu nem sinal que iria se mexer do lugar onde estava.
- Você vai embora e eu vou poder ter meu último ano aqui como se você nunca tivesse existido.
Malfoy continuava de cabeça baixa. Fitando os próprios sapatos.
Mas sim, eu sempre te amei, mesmo sabendo que o ódio era o sentimento que eu mais queria nutrir por você.
Eu não sei exatamente de onde eu tirei toda aquela coragem, só sei que depois disso eu só consegui rumar de volta para o castelo e subir as escadas para o meu dormitório. Me sentei no parapeito da janela, ainda arrancando os grampos do meu coque, e olhei para baixo. Dali eu percebi que conseguia ver o banco em que eu me sentei ao lado de Malfoy, sentindo seu perfume e com medo demais para encarar seus olhos. Ele ainda estava ali sentado, se bobear na mesma posição, quando Pansy surgiu correndo, visivelmente bêbada, procurando por ele. Ao encontra-lo o agarrou pelo braço e arrastou de volta para o castelo.
Olhei para a minha mala parcialmente feita e olhei para o relógio. Tinha poucas horas antes de voltar para casa para aproveitar o feriado decretado pela escola então era melhor dar um jeito de fazer todas as minhas coisas caberem dentro do malão. Troquei de roupa e soquei tudo que não seria necessário dentro da mala. Exausta e tendo plena noção de que teria de sentar em cima do malão para fecha-lo, deitei em minha cama. Eu não vi quando as outras garotas retornaram para o quarto, apaguei tentando medir o nível da burrada que havia feito quando disse a Malfoy que meu coração sempre havia sido dele.
