Eu acordei no dia seguinte com o maior semblante de 'que diabos eu fui fazer' da face da terra. O arrependimento estava em mim, desde a minha unha até os fios de meus cabelos. Eu estava com dor de cabeça e mal humorada. Definitivamente nada pronta para agüentar uma viagem longa até minha casa.

Eu pedi ajuda para Susana para fechar minha mala. Lavei meu rosto e me certifiquei que havia deixado um pouco de meu desespero ir por ralo abaixo junto com a água.

- Pela sua cara você fez algo que não devia, ontem à noite. – disse Susana.

- Nem me fale... Eu te conto isso no trem, pode ser? Não quero correr o risco de mais alguém ouvir. – disse me referindo ao restante das meninas que travavam a mesma batalha com suas malas.

- Apesar de eu já imaginar o nível da cagada... de acordo, no trem conversamos melhor. Agora vamos tomar café, não quero viajar de barriga vazia.

Eu desci para o salão comunal me sentindo mais leve. A análise mais aprofundada de minha situação fez melhorar um pouco meu desespero: o semestre havia acabado. A idéia de ter férias no meio do ano muito me agradava. Eu não veria Malfoy por um mês inteiro, o que muito me ajudava na minha missão de esquecimento.

Nem tudo estava perdido.

Eu havia atingido um estado de conformidade. Eu estava exatamente assim, conformada.

- Neville se declarou ontem. – disse Susana de cabeça baixa e sorrindo abobadamente.

- Ah que gracinha! – exclamei. Era bom ter uma notícia boa, afinal. – Então quer dizer que agora é oficial? Vocês estão mesmo juntos?

Susana não respondeu. Dava para ver a vergonha estampada na cara dela de ponta a ponta em seu sorriso quilométrico.

- Fico feliz, Su. Você merece. O Neville é um rapaz legal. – disse sorrindo. A alegria que Susana demonstrava me fazia realmente feliz.

De repente, entre meu estado de alegria e conformidade, Harry surgiu do nada, elétrico e tagarela, com uma aparência de quem tinha acabado de achar um pote de ouro.

- Você sumiu ontem! Isso foi muita mancada!

- Pelo jeito isso não te afetou muito, parece tão felizinho! – respondi levantando uma sobrancelha estranhando a situação. – Ele tomou um porre ontem, não foi? - perguntei me virando para Rony.

- Só um pouco, – disse meu irmão, dando um tapinha amistoso no ombro de Harry – só dançou em cima da mesa e quase tentou beijar Pansy Parkinson.

- Eu não tentei beijar Parkinson! – disse Harry indignado.

- Claro que não, parceiro. Eu que tentei. – disse Rony balançando a cabeça, incrédulo. Nunca achei que ele fosse de beber tanto daquele jeito.

- Deve ter sido engraçado! – eu disse rindo.

- Foi é vergonhoso! – disse Hermione. – Não foi você que teve de ir carregando o Harry pelos ombros até o dormitório!

- Eu não a beijei! – Harry insistia.

- E aposto que ele teve de tomar um energético para conseguir levantar da cama, correto? – perguntou Susana avaliando-o melhor.

- Não foi fácil faze-lo beber aquele negócio... – suspirou Rony. – Vou ter de instalar um alarme nele para o baile de Natal. Qualquer movimento em direção ao ponche e ele vai tomar um choque.

- Vocês já tomaram café? – perguntou Harry. – Estou morrendo de fome!

- Eu também. – disse Susana.

- Vamos comer e parar de falar de porre. – eu disse massageando as têmporas. – Minha dor de cabeça já está forte o suficiente sem álcool envolvido na história.

Eu me sentei a mesa ainda rindo do estado de Harry, mas todo meu riso foi embora quando meus olhos encontraram Malfoy sentado à mesa da Sonserina.

Aquele loiro maldito.

Rindo, brincando e bancando o dono do mundo, Malfoy estava como sempre foi, absurdamente arrogante e metido. Eu baixei os olhos para meus ovos mexidos e pensei que aquilo na verdade poderia até ser algo bom. Sinal de que o que eu havia dito para ele não havia sido grande coisa.

De conformada eu passei para parcialmente aliviada.

Depois de matar a fome de quem não havia tido estômago suficiente para comer nada na noite anterior, subi para o quarto para descer o malão. O tumulto no salão já havia começado quando consegui descer as escadas.

Susana ainda havia ficado no quarto tentando encontrar seu brinco da noite anterior, enquanto eu, ia puxando calmamente minha mala pela multidão. Parei no portão principal, esperando Harry e o resto do pessoal, quando Malfoy passou pela minha frente.

Nariz empinado e com a natural expressão de desgosto no rosto. Como era lindo.

Ele me olhou de esgueira e eu fingi olhar impaciente para a escada, tentando evitar ao máximo contato visual.

Ele puxou sua mala e se encostou ao meu lado.

- Vá embora, por favor. – eu disse em tom de súplica.

- Não estou fazendo nada. – ele respondeu aparentemente se divertindo.

Eu não respondi. De aliviada eu pulei para desesperada mais rapidamente do que eu podia imaginar. Estava sendo um dia com emoções demais para uma pessoa só.

- Você esqueceu isso ontem à noite, no banco dos jardins. – disse Malfoy me entregando um pergaminho dobrado e ligeiramente amassado.

- Mas isso não é meu.- eu disse pegando o objeto de suas mãos.

Antes que eu pudesse olhar para Malfoy para devolver-lo, ele se foi. Tão rápido quanto uma fumaça, ele desapareceu.

Estranhando, abri o pergaminho.

'Cabine 153'.