Eu entrei com cautela, assim como se estivesse entrando em um covil de dementadores. Posso garantir que o frio que senti na espinha foi basicamente o mesmo.

Fechei a porta com cautela e reuni forças para me virar.

Cretino. Filho da mãe.

POR QUÊ, Merlim? Por que ele tinha de ser tão lindo pra mim? Lá estava ele. Parado que nem uma estatua – a cor da pele tinha uma tonalidade bem semelhante, na verdade – com as mãos enfiadas nos bolsos e aparentando, se eu não estava enganada, um certo nervosismo.

Eu devia estar enganada. A troco de que ele estaria nervoso?

Meus olhos percorreram a cabine numa tentativa besta de desviar o meu olhar do dele. Havia algumas malas nos compartimentos de cima e uns dois ou três casacos jogados pelos bancos.

- Onde estão todos? – perguntei analisando um casaco verde musgo, obviamente feminino.

- Pansy foi dar uma volta pelo trem, se é isso que está pensando. – disse Malfoy. – Pedi para levar o resto junto com ela, talvez achem alguém que valha a pena enfeitiçar.

Levantei meus olhos subitamente. A expressão 'você está falando sério?' estava estampada em mim.

- É brincadeira, Weasley. Essa época passou.

- Ah.

Alguns segundos extremamente desconfortáveis se passaram, onde tudo que ouvíamos eram os trilhos do trem sendo castigados pelas rodas e as conversas das cabines ao lado.

- Pode se sentar, sabe? – disse Malfoy.

Eu acenei com a cabeça e me sentei em um canto, tomando todo cuidado possível para não amassar o casaco de alguém.

- Isso é ridículo, Malfoy. – eu disse.

Na verdade fiquei bem surpresa comigo mesma já que, como pode ser notado, eu tinha a péssima mania de perder a noção de diálogo perto dele. Eu levantei meus olhos e encarei os dele. Ele continuava de pé, encostado na janela com as mãos nos bolsos e com olhos baixos, me encarando como se pudesse ler minha alma. Em algum ponto, achei que ele estava tentando descobrir, assim como eu, qual era a intenção daquilo tudo.

- Eu sei. – ele respondeu bufando.

Malfoy se sentou de frente a mim e apoiou os cotovelos em seus joelhos, se inclinando para frente. Eu me recolhi ainda mais em meu assento.

- O que você quer de mim? Não percebe que já arrancou tudo que queria ouvir de mim ontem? Ou que não queria ouvir... claro, depende das circunstâncias...

- O que te faz pensar isso? Até parece que eu pus uma varinha no seu pescoço e te ameacei para que abrisse a boca.

- A varinha não, mas pode ter certeza que eu me senti com a corda no pescoço. – olhei para a janela e para aquele tempo chuvoso. – Hogwarts inteira estava lá para que eu pudesse gostar da pessoa certa. Não da certa talvez, mas pelo menos de uma menos errada. Olhe onde fui amarrar meu burro.

- Sinto-me lisonjeado.

Eu me calei.

- Eu só queria saber o por quê. – ele disse olhando para o chão. – Eu entendo que ser bonito, hoje em dia principalmente é um artifício bom para chamar atenção das menininhas por aí, mas não de você. Você não parece o tipo de garota que segue muito os estereótipos... ou senão teria ficado com Potter, como manda o figurino.

- Acha que sei? Se eu soubesse, pelo menos metade de mim mesma estaria em paz. Infelizmente nem essa resposta eu consigo te dar.

Malfoy pareceu desapontado.

De repente eu parei e percebi que estava em frente a uma pessoa completamente diferente da do ano anterior. Draco Malfoy não parecia mais aquela pessoa perturbada, com medo de tudo e aterrorizada por qualquer sombra. Ele poderia continuar com medo da morte, afinal, a grande maioria tem, mas o que definitivamente havia mudado nele era que o mesmo não tinha mais medo de viver.

- Eu vi em você alguém que não era compreendido. Você estava em uma encruzilhada bem cretina... Voldemort no seu pescoço, seu pai te pressionando para que não falhasse com suas tarefas, sua vida em risco a cada passo em Hogwarts. Ai eu parei para pensar como devia estar sendo sua vida com toda aquela confusão. Quanto mais eu pensava, mais eu começava a querer te ajudar. Foi nessa que eu me lasquei... quando eu percebi que toda vez que eu descansava minha cabeça no travesseiro era em você que eu pensava. Não nos problemas que Harry estava enfrentando, ou em que meu irmão estava enfiado no meio do mundo atrás de coisas que uma hora poderiam mata-lo, nem mesmo em Hogwarts e em como o fim estava a um passo de distância em qualquer direção. Eu pensava em você, e torcia para que você colocasse a cabeça no lugar e tomasse as decisões corretas.

"Eu me apaixonei pelo menino desesperado, mas inteligente, que definitivamente era muito mais forte do que muitos de nós que nos denominávamos a Armada de Dumbledore. Mas eu me apaixonei ainda mais quando aquele menino com pose de durão e eternamente estressado desmoronou e deixou transparecer esse Draco Malfoy claramente mais tranqüilo".

Eu paro e penso até hoje nessa frase que falei naquele dia no trem.

Para ser franca, até hoje eu não sei de onde saiu tanta inspiração, mas eu fiquei feliz de ter falado tudo aquilo.

- Não acha que são muitas as virtudes que você viu em um Comensal da Morte?

- Ex-comensal. – relembrei-o. – E não, para ser franca, não acho.

Ele baixou a cabeça e, apesar de seus cabelos cobrirem boa parte de seu rosto, eu pude ver um traço singelo de um sorriso.

- Obrigado.

Eu sorri de volta.

Levantei, olhei mais uma vez pela janela e suspirei.

- Eu realmente espero que isso não saia daqui, Malfoy. – disse com uma voz mais dura. – Não quero deboche vindo dos parceiros da sua casa.

- Não corre esse risco. – ele disse levantando a cabeça.

Eu acenei com a cabeça e me dirigi à porta. Diferente de quando entrara, eu não queria mais sair dali, não queria deixa-lo.

- Fique bem.

Atravessei a porta e antes que pudesse fecha-la completamente, vi do corredor o pequeno papel em suas mãos.

O papel que eu havia deixado no banco antes de me levantar.

Malfoy dobrou o papel cuidadosamente e o guardou no bolso pouco antes de Pansy e o resto do pessoal de sua cabine chegar.

Eu andei de volta até onde tinha me despedido de Susana e me agachei.

Quanto mais eu fugia, mais eu me enrolava.

Maldito sonserino.