A volta pra casa depois desse acontecimento foi longa.

Eu me segurava ao máximo para não me levantar e sair de minha cabine, dando a desculpa que iria atrás do carrinho de doces, como a boa gordinha que eu sou, para passar em frente à cabine de Malfoy.

- Você é pior que criança. – dizia Susana. Ela não é um amor?

O desembarque em Londres foi aquela coisa... confusão, malas jogadas por todos os cantos, uma ou duas corujas voando por ai pois tinham fugido das gaiolas e um mundo de pessoas loucas para ver sua família.

Ok, eu não era uma delas. Eu via meus irmãos todos os dias!

- Que cara emburrada é essa, Gina? – disse minha mãe me abraçando como se não visse há décadas.

- Longa viagem.

- Mas você parece melhor do que da última vez que nos vimos. – disse meu pai. – Seu rostinho parece mais iluminado.

Nada disso era por causa de Malfoy. Garanto!

- Estou melhor.

Despedidas e abraços e até "alguns dias" depois, fomos para casa.

A Toca parecia mais organizada, mas era mais do que evidente que a falta que Fred fazia era definitivamente avassaladora. Em uma casa tão cheia como a nossa, um a menos definitivamente fazia a diferença.

O feriado tinha tudo para ser calmo e sem nenhuma novidade.

Mas não foi.

Eu lembro perfeitamente daquele dia.

Eu estava no meu quarto, costurando uma de minhas colchas que já era suficientemente remendada, quando um pedaço de papel voou janela adentro. Ele deu voltas em meu quarto, como se procurasse um lugar menos bagunçado para poder cair, quando, finalmente, parou em meu colo.

Franzi a testa e finquei a agulha em um canto que me livrasse de acidentes.

Quando peguei o papel e desdobrei-o, a primeira coisa que percebi foi a caligrafia.

Não é possível. – pensei.

No papel meio surrado, como se tivesse sido dobrado e desdobrado um milhão de vezes antes de chegar a mim, o recado mais inesperado jazia.

"Acho que é melhor verificar suas cenouras".

Mas – que – diabos?

Quantos recados assim você recebe durante sua vida?

Eu respirei fundo, calcei minhas botas e desci.

- Onde vai, filha? – perguntou minha mãe me vendo passar pela cozinha.

- Verificar as cenouras.

Sério, nem eu acreditei quando disse isso.

Estava frio lá fora, um tempinho chato com aquela garoa fina e irritante. Cada passo que eu dava em direção à porta dos fundos de casa eu rezava, pela saúde deles, que não fosse um de meus irmãos me pregando uma peça.

Abri a porta e dei dois passos em direção ao terreno quando eu o vi.

Ele estava vários metros longe de mim. Um casaco preto com o capuz cobrindo seus cabelos parcialmente molhados, as mãos nos bolsos e os sapatos finos cobertos de lama.

Eu não sabia se eu entrava em desespero por ele estar me vendo de calça de moletom, um casaquinho furreco e um par de botas marrom sujas, ou se eu ria pela tamanha expressão de cão sem dono que o mesmo ostentava por estar lá, de pé e molhado até os ossos.

Eu ri internamente enquanto cruzava os braços em frente ao corpo e andava em direção à ele.

- Minhas cenouras estão bem, aparentemente, mas tem um banana parado na minha frente que eu não lembro de ter deixado aqui.

- Muito engraçada, Weasley. – gruniu Malfoy. – Esqueci meu guarda-chuva.

- Percebe-se.

- O que é isso? – ele disse me mostrando o papel que havia deixado para ele no dia da volta para casa.

- Se não soubesse, não estaria aqui. Obviamente, é meu endereço.

- E por que deixou-o para mim naquele dia?

Dei ombros.

- Acredite, de todas as coisas que eu achei que você faria com essa informação a última era utiliza-la para chegar até mim. Na verdade, eu jurava que você tacaria fogo no pergaminho na primeira oportunidade...

- Quem disse que eu vim aqui por você?

- Veio por que, então? Para verificar minhas cenouras? – disse levantando uma sobrancelha.

Malfoy se calou. Eu estava no meu território. Uma brigada de irmãos brutamontes estava dentro de casa, caso precisasse, ao contrário de Malfoy que, se nem o guarda-chuva ele lembrava de pegar, talvez nem com a varinha estivesse. Era engraçado tirar uma com a cara dele pra variar.

- Por que aparatou tão longe do portão? – perguntei olhando em volta.

- Sua casa tem proteção. Não consegui aparatar dentro do terreno.

- Bem lembrado. – disse. – Vem, vamos entrar.

- Sério? – perguntou Malfoy.

- Está a fim de ficar na chuva?

- Na verdade, estava pensando em ir embora. Não sei nem o que estou fazendo aqui.

- Mas já que está, pelo menos entre pra se secar. Farei meu máximo para que meus irmãos não cheguem perto de você.

- E se seu máximo não for o suficiente? – ele perguntou.

- Eu tenho um kit de primeiros socorros.

Ele olhou para minha casa e de volta para mim. Rolou os olhos e começou a andar em direção da porta.

Até hoje acho que nenhum de nós estava entendendo muito bem o que estava acontecendo ali.

Naquela hora, a única coisa que importava era sair da chuva.