Eu devia ter tirado uma foto.
De verdade. A cara da minha família quando Malfoy cruzou a porta foi indescritível.
- Bom, - disse retirando meu casaco e me secando com um aceno da varinha. – acho que todos conhecem Draco Malfoy.
- Ah, claro – disse minha mãe gaguejando. – Olá, Malfoy.
- Sra. Weasley. – disse Draco fazendo um aceno com a cabeça, cumprimentando-a.
- O que ele está fazendo aqui? – disse George com o seu costumeiro e carinhoso tom surgindo na cozinha.
- Ele veio verificar as cenouras. – respondi com desdém. – Qual é, George, vá caçar o que fazer.
- Quem te convidou? – perguntou Rony com o nariz empinado.
- Olhe, Weasley... – começou Draco. – Não te respondo como merece por respeito à sua mãe.
"Draco Malfoy mostrando respeito. Essa eu nunca vi" pensei com meus miolos.
- Ah, obrigado Draco. – disse minha mãe surpresa. – Por que não se seca e eu preparo um chá para vocês?
- Não é má idéia. – respondi.
- Gina, pode me ajudar com o chá? – perguntou minha mãe com um olhar sugestivo de "venha comigo ou senão você vai ver".
- Claro.
Virei as costas e deixei Malfoy se secando para 'ajudar' minha mãe com o chá. Assim que encostei a barriga no balcão, ela me perguntou em um tom de nervosismo e aflição.
- Você está envolvida com Draco Malfoy?
- Não, mãe. – disse rolando os olhos. Ela e a péssima mania dela de procurar pêlo em ovo. – É uma longa história.
- Algum motivo em especial para que ele esteja aqui, então? Ele é um Malfoy, Gina. Temos de ter um pezinho atrás.
- A época em que esse nome significava alguma coisa já passou, mãe. – disse levemente indignada com minha mãe. – Ele mudou.
O jeito que minha mãe me olhou foi um jeito estranho. Eu não sei ela estava surpresa com o que eu havia dito, ou se ela estava chocada comigo defendendo Malfoy, ou se ela estava pensando 'aaaaaah, que graça', mas só sei que depois disso ela se voltou para o chá que estava preparando e não falou mais nada.
A cena na qual eu me vi inserida momentos depois foi uma na qual, até aquele momento pelo menos, eu nunca imaginaria estar.
Malfoy e eu, sozinhos na cozinha da minha casa, tomando chá.
Meus irmãos foram para os quartos, provavelmente planejar algo contra minha inesperada visita. Minha mãe se recolheu à horta, tentando fazer com que a idéia de que um Malfoy estava debaixo de seu teto sem querer destruí-lo entrasse em sua cabeça.
Então eu me vi ali, sentada na minha cadeira de madeira capenga, segurando uma xícara lascada entre minhas mãos geladas olhando para um Malfoy estático em seu lugar à mesa.
- Não acho que minha mãe tenha envenenado o chá. – disse vendo que ele nem encostara na xícara.
- Não é isso. – ele respondeu.
- A louça não é fina o suficiente? – disse zombando sua etiqueta refinada. Ele balançou a cabeça. – Por que veio aqui?
Silêncio.
Foi a primeira vez que vi um Malfoy sem uma resposta afiada na ponta da língua.
Foi a primeira vez que vi um Malfoy sem saber o que falar.
- Quando eu estava sentado no trem, ouvindo a voz estridente de Pansy aumentando conforme ela voltava para a cabine, eu abri o papelzinho que você tinha deixado no banco. Vi sua letra e imaginei que fosse seu endereço. – ele deu ombros. – Não sabia o que você queria dizer.
- Seja bem vindo ao próprio jogo. Aconteceu comigo quando me entregou o bilhete com o número de sua cabine.
- O que você pretendia quando você deixou isso lá? – perguntou Malfoy.
- Que você soubesse onde me encontrar.
Eu baixei meus olhos para meu chá.
- Eu pensei em escrever uma carta. – ele disse. – Mas eu não sabia o que escrever.
- Então preferiu vir aqui pessoalmente, ficar sem saber o que falar ao vivo.
- É, por ai.
Mais silêncio.
- Pensei que me odiasse, Malfoy.
- Também pensei. – ele disse olhando sua xícara.
- Pra ser sincera eu não sei o que estamos fazendo aqui. – eu admiti.
Silêncio, outra vez.
- Eu andava me sentindo vazio. Achava que todo mundo tinha ficado com a imagem de um Draco Malfoy comensal da morte, assassino ou covarde. Sempre esses dois. Eu não sabia com quem conversar porque nem meus pais pareciam querer saber o que estava acontecendo. Acho que depois que tudo acabou, eles assumiram que tudo ficaria bem automaticamente. Não tinha com quem falar dessas coisas sem que achassem que eu estava com ataques de viadagem.
- É, sua turma é bem nesse nível mesmo.
- Depois de tanto tempo vendo esse povo falso, você pareceu sincera naquele dia do baile.
- Mais do que eu gostaria, admito. – disse envergonhada.
- Não sei explicar o porque quis vir te ver.
- Pra mim, você não precisa de explicação.
Eu tomei meu chá até o fim depois daquela frase. Eu e minha mania de abrir demais a boca.
- Agradeça sua mãe pelo chá, Weasley. – ele disse se levantando da mesa. Eu acompanhei o movimento.
- Não por isso. – disse dando ombros.- Apareça quando quiser.
Malfoy acenou com a cabeça e se dirigiu a porta, porém, antes que ele cruzasse o batente, lhe chamei e lhe entreguei um guarda-chuva.
- Me devolva depois. – eu disse.
- Obrigado.
Ele abriu o guarda-chuva e começou a andar pelo terreno em direção a onde tinha aparatado. Me encostei no batente e vi sua figura negra se distanciar de mim com o grande guarda-chuva roto que havia lhe emprestado. Eu sorri assim que ele desaparatou após me dar um discreto aceno.
Torci para que ele chegasse bem.
E também para que não chovesse durante o restante do feriado.
