Bom, choveu.

Uma das cartas que Susana me escreveu chegou totalmente encharcada, porém graças a letra pouco grande que ela havia utilizado nas expressões "eu não acredito" e "por Merlim" eu imaginei sobre o que ela estava se referindo.

O feriado foi bom, mas a verdade é que desde que Malfoy havia passado em casa para o chá, o feriado pareceu se arrastar. Susana, se não estivesse em outro continente, apareceria em casa num estalar de dedos, mas como ela não tinha exatamente a melhor das habilidades quando o assunto era aparatar, a conversa ficou dependente de nossas corujas.

Muitas cartas vieram, cada uma pedindo uma novidade, mas a verdade era que não havia nenhuma. Malfoy nunca mais deu sinal de vida.

E eu, como uma boa mulher, fiquei imaginando que o motivo disso era que ele havia perdido meu endereço.

O dia de voltar às aulas chegou. Malões, malões e mais malões.

A plataforma 9 ¾ estava cheia como nunca. No meio da confusão, Susana me achou.

- Estou te procurando há uma eternidade! Onde você estava?

- Em casa! – respondi como se fosse óbvio. - Por que chegaria antes se o trem só sai daqui 15 minutos?

- Que inveja de você. – disse Susana suspirando. - Se eu soubesse aparatar ou se meus pais fossem bruxos eu estaria chegando agora. Como os bons trouxas que somos, sempre chegamos mais cedo com medo do trânsito. Fora que meu pai dirige um Chevette, então temos de contar com alguns probleminhas técnicos no caminho.

- Meus pêsames. – eu disse imaginando um tipo de carroça vindo a trancos e barrancos pelas ruas de Londres.

- Você tem algumas histórias para me contar, não? – perguntou Susana com um olhar sugestivo.

- Ah se tivesse. – disse olhando em volta.

- Ele não deu o ar da graça?

Balancei a cabeça negativamente.

A verdade é que eu não tinha o direito de cobrar nada dele. Não éramos nada. Nem amigos. Minha imaginação fértil sempre se encarregou de me deixar com as impressões erradas.

- Vamos entrar. – disse Susana vendo que eu procurava Malfoy. – Talvez tenhamos mais sorte dentro do trem.

Entrar e achar uma cabine vazia dentro daquela bagunça foi a parte mais fácil, acredite. Me segurar sentada em minha poltrona sem querer contorcer meus dedos e sair correndo até achar Malfoy era a mais complicada. Na verdade, eu estava bem irritada comigo mesma. O quê, no universo, me fez imaginar que ele me procuraria novamente?

- O desgraçado ainda está com o meu guarda-chuva. – sussurrei para mim mesma.

A viagem para Hogwarts foi longa. Bem longa.

Chegar em Hogwarts e sentar no salão foi basicamente uma romaria.

"Esse é meu castigo por gostar de um Malfoy? Tá ok, Merlim! Eu entendi". Só podia ser punição divina. Sério.

- Capricharam no banquete! – disse Rony devorando sua torta de maçã.

- É, já é o quarto pedaço de torta que você come. Deve estar bem caprichado mesmo! – Hermione respondeu com os olhos arregalados de espanto.

- Quem vê parece que não tem comida em casa. – lamentei balançando minha cabeça.

- Algumas cenouras não podem ser consideradas comida, Weasley. – disse uma voz arrastada atrás de mim. Aquilo me gelou a alma.

- Por que não volta para onde pertence, Malfoy? Para a mesa dos desprovidos de cérebro e nos deixa em paz? – disse Rony cuspindo maçã ao longo da frase.

Nos dois segundos que se passaram entre a resposta de Malfoy e de meu irmão, tudo que eu tinha construído em minha cabeça sobre Draco Malfoy ser uma pessoa diferente pareceu ser estilhaçado como uma parede de vidro. Eu levantei meus olhos para analisa-lo. Eu não sei explicar até hoje o que se passou na minha cabeça naquela hora, mas não foi nada bom. Eu me levantei e o olhei com desgosto.

- Falo com vocês mais tarde. – disse me voltando para Susana, Harry, Rony, Hermione, Luna, Neville. – Vou para o quarto tentar achar meu livro pra aula de amanhã.

- Já te alcanço. – disse Susana.

Acenei a cabeça esperando que ela entendesse.

Se Malfoy tivesse um pouquinho de decência que fosse...

Eu estava subindo as escadas tentando imaginar algum motivo que fosse para ele fazer o que fizera depois de tudo quando ouvi passos apressados subindo atrás de mim. Talvez ele tivesse um pouquinho de decência.

- Eu não quis falar aquilo. – ele disse sem fôlego.

Eu me virei e o encarei.

- Sei. – disse sem na verdade acreditar.

- É sério, Weasley.

- Não, não é. – respondi irritada. – No fundo você quis falar aquilo. A verdade é que é mais fácil culpar o seu histórico mal feitor filhinho de papai do que admitir que na verdade é isso mesmo que você pensa. Que a família Weasley não vale nada.

- Olhe, se eu realmente quisesse irritar você ou aos seus amiguinhos, acredite, meu arsenal de coisas ruins para se falar é bem mais extenso do que aquilo, eu teria cutucado mais fundo.

- Olhe, - eu disse descendo um degrau para nivelar meus olhos aos dele. – eu sou mais o Malfoy simpático que aparece no meu quintal e toma um chá na minha cozinha do que esse Malfoy cretino que rebaixa todos à sua volta só para fazer com que ele próprio se sinta melhor.

Ele franziu a testa.

- Você nunca vai conseguir nada com essa atitude, Malfoy. Olhe onde chegou. Olhe o que tem à sua volta. Você acha que vale a pena continuar sendo do jeito que você foi até agora?

- É complicado.

- Não, não é. – eu disse suspirando. – E se eu não soubesse que tem alguma coisa em você que ainda presta, eu não estaria falando isso. Mas de verdade, com essa atitude, eu às vezes tenho duvida sobre as coisas que eu vi em você.

- Você acha que ainda tenho jeito? – ele perguntou depois de um tempo.

- Sinceramente? Depois de hoje eu não sei. – disse dando ombros e voltando a subir as escadas. Malfoy não se mexeu.

Eu subi o restante da escadaria torcendo para que o que eu tinha falado tivesse algum efeito positivo nele. Fechei a porta do quarto e abri meu malão. Entre o processo de jogar tudo para fora novamente e imaginar o que Malfoy estaria pensando, um papel voou por debaixo de minha porta, brincou um pouco no ar e pousou em cima de minha cama.

- Ele e esse feitiço. – disse suspirando.

Abri o pedaço de pergaminho cortado manualmente e franzi a testa ao ler, novamente, uma mensagem confusa.

"Me encontre perto da cabana de Hagrid.

Tenho minhocas de gelatina".

Ah, o que é uma doce literatura, não?