- Você está tentando me comprar com minhocas de gelatina?
Malfoy estava sentado próximo ao lago, em um daqueles bancos duros em que até sua bunda acaba reta. Ele tinha um pacote de minhocas de gelatina aberto ao seu lado e os cabelos caídos nos olhos azuis.
- Achei que viria. – disse Malfoy dando ombros.
- Por minhocas de gelatina? – perguntei levantando uma sobrancelha em sinal de desconfiança.
- Por mim.
Revirei os olhos. Não tinha jeito, eu nunca ia conseguir tirar a elevada auto estima de dentro daquele corpo maravilhoso. Sentei-me ao seu lado sem responder esperando que ele se manifestasse. Roubei uma minhoca de gelatina do pacote e me pus a mastiga-la.
- Docinho cretino – disse Malfoy – Gruda no dente...
- Mas é gostoso. – respondi.
- Só no calor, porque no inverno as minhocas ficam duras e fica difícil demais de mastigar. Mal consigo corta-las com os dentes.
Estávamos mesmo discutindo minhocas?
- Por mais que essa conversa filosófica sobre minhocas de gelatina esteja fascinante, não acho que tenha sido por isso que tenha me chamado aqui. – disse o olhando de esguelha.
- Queira conversar com você. – ele disse como se confessasse algo tremendamente vergonhoso.
- Malfoy, você gosta de mim? – perguntei levemente irritada. Ele se virou para mim como se alguém tivesse perguntado se ele havia visto Voldemort ultimamente. – Pela cara de espanto não, então pare de fazer isso tão difícil pra mim, você sabe o que eu sinto. Se você quer se manter perto de mim só para sentir como é ter alguém que realmente gosta de você por esse ser imprestável que você é isso vai ter de parar por aqui. – terminei em tom de súplica.
Malfoy definitivamente não gostou do que falei. Fechou a cara e apoiou seus cotovelos em seus joelhos olhando furtivamente para frente.
- Eu quero largar esse meu histórico de 'mal'.
- Você nunca foi mal, você sempre foi um capacho, isso sim. – disse esfregando as mãos de frio.
- E só alguém doce como você pode me ajudar com isso. – ele disse com ironia.
Eu respirei fundo.
- Desculpe. – admiti. – Essa minha postura é a única defesa que eu tenho.
- Contra o quê? – ele perguntou como se não entendesse.
- Você.
- Você não precisa me tratar com tanto desgosto pra me afastar. É só me dizer que não me quer por perto. – disse ele olhando pra mim.
- Viu?
- Viu o que?
- Como é bom tomar o próprio veneno?
- Você quer dizer que eu faço isso com as pessoas?
- Todo o tempo.
Malfoy arqueou as sobrancelhas.
- Não devo ser tão bom como você nisso. – ele disse rindo.
- Dez vezes melhor, eu te garanto. A arte do insulto é de domínio seu.
Então eu parei para olhar Malfoy sorrindo.
Ele sorrindo parecia anos mais novo, ele parecia esquecer um pouco do seu passado. Ele parecia uma criança novamente, e aquilo me fazia sorrir. Sua beleza e sua inocência infantil escondidos atrás daquela máscara de ex comensal era uma das coisas mais preciosas que ele tinha em mãos, e mal ele sabia que era tudo que ele precisava para me deixar feliz.
- Você devia sorrir mais. – eu disse desviando meu olhar. – As pessoas iam gostar mais de você.
- Foi assim que você começou a gostar de mim?
- Aí está, inconveniente novamente. – eu disse jogando as mãos pra cima.
- Desculpe, mas ainda não me conformo que eu de fato tenha chamado a atenção de alguém pelo que eu sou e não pelo que tenho.
- Não sou interesseira e muito menos cega. Façamos um acordo: eu te ajudo com o que quer que você queira fazer e você para de me aporrinhar a paciência fazendo interrogatórios desconfortáveis sobre esse assunto em particular. Feito?
- Feito. – ele apertou minha mão em sinal de comprometimento com a promessa.
Eu nunca vou esquecer daquele aperto de mão. Se eu tinha alguma dúvida do que eu pudesse sentir por aquele loiro descarado, todas elas foram embora com aquele toque.
- Me dê mais uma minhoca. – pedi.
Enquanto mastigava com relutância meu doce, Malfoy me agradeceu.
- Obrigado.
Dei ombros. A presença de Malfoy era suave, confortante, então mesmo passando frio, aproveitei cada segundo que a sanidade e minha circulação permitiram. Terminei minha minhoca e me levantei.
- Bons sonhos Malfoy.
- Bom sonhos. – ele respondeu sorrindo de lado.
O doce nunca pareceu tão doce e minhas mãos melecadas de açúcar nunca sentiram um toque que mudasse tanto minha vida.
Ao deitar em minha cama, de volta ao calor do castelo aquecido por diversas tochas, o açúcar finalmente fez efeito.
Ou Malfoy, você que decida.
Mas a verdade é que não conseguia dormir. Recuperando o calor do corpo debaixo de diversos cobertores, Malfoy parecia mais presente do que nunca em minha cabeça.
Susana se irritou com a movimentação excessiva da minha cama e jogou uma almofada em minha cabeça.
- Tem pixies em sua cama? Você não pára de se mexer! – disse Susana sussurrando.
Eu me sentei na cama, afastei o cabelo dos olhos e suspirei.
- Qual seria sua reação se eu te contasse que Malfoy me pediu ajuda agora à noite?
- Puta merda. – respondeu Susana, incrédula. – Seria essa minha reação.
Ela levantou de sua cama e se sentou ao meu lado. As pantufas amarelas do Holiday Harpies em seus pés.
- Vai dar merda, não vai? – eu perguntei. – Não tem como isso dar certo. Quer dizer, eu vou acabar me apaixonando mais por ele, vou ouvir alguns insultos, vou discutir com ele, ai depois vou achar que ele está começando a gostar de mim, me iludir e daí vai vir o final do ano, ele vai embora sem nem dizer um 'obrigado por me fazer uma pessoa melhor' pra trabalhar no ministério e cá vou ficar sem ele, só com as minhas caraminholas na cabeça e uma aula de poções muito complicada pra tentar não reprovar.
- Ou você pensou muito nisso ou você comeu muito açúcar. – concluiu Susana me analisando.
- Ambos. – admiti suspirando.
Susana me abraçou.
Dino, Harry... nenhum foi assim. Ninguém me causava esse desespero tão gostoso que ele me dava.
- Isso é ser masoquista? – perguntei para Susana.
- Não. – ela disse como quem consola uma criança que acabou de descobrir que o Papai Noel não existe. – Isso é esperança. Esse pequeno fundinho de esperança é o que está fazendo você fazer isso.
Lá, no abraço de Susana que me acalmava quase como o de minha mãe, eu pensei que era possível que nem tudo estivesse perdido. No fundo, a verdade era que eu não tinha aceitado ajuda-lo com a intenção de fazer com que ele se apaixonasse por mim. Se isso acontecesse, ótimo. A realidade é que eu queria ajuda-lo pelo simples fato de ajudar.
Altruísmo.
E isso é amor.
