Altruísmo uma pinóia.
Ao levantar no dia seguinte para uma aula fatídica de feitiços o ato de escovar os cabelos deve ter ajudado a circulação de sangue em meu cérebro, por que foi exatamente aí que eu vi que eu tinha um problema maior do que eu podia imaginar.
- Você precisa de um tratamento de bipolaridade. – disse Susana revirando os olhos. – Sério! Não dá pra te entender... uma hora você fica feliz, outra hora você fica com essa cara de peixe morto reclamando da vida. Você vai ter Malfoy do seu lado, isso já não é bom o suficiente?
- Estou pensando pelo lado prático da coisa... Analise: trabalhar aquele ego inflado de Malfoy não vai ser coisa fácil, isso vai exigir um bocado de mim... TEMPO! Coisa que eu não tenho graças aos NOM's que temos de prestar esse ano.
- Nem me fale desse teste maldito. Preciso criar vergonha na cara e me enfurnar na biblioteca pra estudar um pouco... ando muito relapsa. – disse Susana analisando as unhas comidas de nervosismo.
Eu me levantei, ajeitei meu uniforme e suspirei. Era mais um dia de afazeres.
Na caminhada pelo corredor a caminho da aula, Susana e eu marcávamos de estudar na biblioteca quando Malfoy cruzou nosso caminho.
- Me encontre na torre de astronomia depois do seu último período. – ele disse secamente com as mãos nos bolsos das vestes.
- Oi, bom dia para você também! – disse sarcasticamente. – Minha coruja vai bem, obrigado.
Malfoy levantou uma sobrancelha e me olhou com aquela cara de desdém tão típica.
- Seu bico não vai te levar a lugar nenhum. Muito menos eu! Aprenda a ser um pouquinho educado antes de pedir as coisas.
- Ora, sua... – Malfoy começou, porém não finalizou a frase. Eu arqueei minha sobrancelha e voltei a caminhar em direção à sala.
Susana me olhava com cara de espanto. Na verdade eu sabia que ela estava segurando a risada. Não era porque Malfoy queria mudar que ele não a enfeitiçaria por rir da sua cara.
- Para quem estava em uma crise hoje pela manhã você está indo muito bem com essa história toda de lidar com Malfoy.
- Arrogantezinho...
Era incrível como ele tinha a capacidade de me tirar do sério antes das nove da manhã. Eram poucas as pessoas que conseguiam fazer isso.
Me sentei em minha cadeira habitual com Susana ao meu lado. Peguei minhas anotações e vi a realidade em minha letra rabiscada pelas folhas – eu precisava mesmo começar a estudar. Susana vivia me dizendo que quando o assunto era Feitiços e Defesa Contra Artes das Trevas, eu não precisava de muito esforço. Mal ela sabia que eu já quase havia tacado fogo em casa tentando acender o fogão.
- Talvez você só não seja uma boa dona de casa. – ela dizia.
A verdade é que eu gostava de feitiços. Artes das Trevas também, principalmente depois da morte de Voldemort onde aquela matéria não significava mais ter de praticar Crucio em alguém. Meu problema era Herbologia.
- Graças ao bom Merlim vou poder eliminar essa matéria ano que vem. – disse procurando minha pena em minha mochila.
- Enquanto isso é bom você se focar nessa matéria então... – disse Susana. – Vamos começar hoje depois da aula. Faltam só quatro meses pros testes...
Quatro meses.
Após a aula, conforme prometido, eu e Susana nos arrastamos com livros, penas e pergaminhos para a biblioteca. Despejamos nosso material em cima de uma das mesas disponíveis e lá ficamos. Eu, de vez em quando, encostava minha cabeça na parede ou deitava com minha testa em cima do livro – vai saber, vai que eu pegasse algo por osmose. Susana fazia questão de me cutucar toda vez que fazia isso.
- Vou ver se acho um livro de Transfiguração que eu preciso na ala norte. – disse Susana se erguendo da cadeira pela primeira vez em duas horas.
- Ok. – respondi.
- Já volto. E por favor, tente não pegar no sono enquanto não estiver aqui.
- Tentarei. – disse esfregando meus olhos.
Eu nunca fui uma das melhores alunas, tanto que eu odiava profundamente ficar sentada com pergaminhos e mais pergaminhos espalhados na minha frente. Susana me odiaria quando voltasse, mas não resisti – mais uma vez encostei minha testa em um dos pesados livros de Herbologia para descansar a vista.
Acho que passei uns cinco minutos daquele jeito até que um dedo furioso cutucou meu ombro – já podia ouvir o surto psicótico de Susana antes mesmo de abrir os olhos, porém, para minha surpresa, não foram os cabelos castanhos de Susana que eu encontrei.
Levantei meus olhos e encontrei cabelo loiro quase branco de Malfoy.
- Você está de TPM? – perguntou ele cruzando os braços em frente ao corpo.
- Quando estiver você vai saber. – disse franzindo a testa. – Por quê?
- Você me tratou bem mal no corredor hoje mais cedo. – respondeu Malfoy puxando uma cadeira.
- Ah-ah. – disse balançando a cabeça negativamente. – Você, me tratou mal. – finalizei apontando o dedo em direção ao seu nariz.
Malfoy fechou a cara e eu ajeitei em minha cadeira.
- Você nem me cumprimentou, me deu um bom dia... já veio impondo um compromisso e você nem sabia se eu podia ou não comparecer.
- Desde quando você é tão ocupada assim pra não comparecer? Algum encontro com Potter? – disse ele basicamente rindo da minha cara como se o fato de eu ter uma vida social fosse algo totalmente fora da realidade.
- Não. Sou ocupada assim desde que sou parte do time de quadribol da Grifinória e tenho várias matérias que preciso estudar para prestar os NOM's. Fiquei mais ocupada recentemente quando aceitei a idéia ridícula de ajudar um tal sonserino a melhorar de caráter.
- Ai vem sua proteção de novo...
- Shhhh! – exclamou furiosa Madame Pince. Baixei a cabeça, peguei um pedaço de pergaminho, rabisquei uma palavra e repassei para Malfoy.
'Bingo'
Malfoy apoiou o cotovelo direito na mesa e sustentou sua cabeça com sua mão. Olhou para o pergaminho e depois se voltou para mim, revirando os olhos. Pegou a pena que Susana havia deixado em cima da mesa e escreveu no pergaminho.
'Por mais grossa que você seja, até que você aponta umas coisas que merecem atenção.'
'Do tipo?' respondi.
'Que eu tenho que prestar atenção quando você estive de TPM para não dizer nada que te deixe mais brava do que você já vai estar. Por que se você é assim sem TPM...'
'Engraçadinho.'
Dobrei o papel esperando que ele entendesse que aquilo era o fim da conversa e que minha atenção, pelo menos naquele momento, precisava estar voltado para a Herbologia. Ele não pareceu irritado quando meus olhos se voltaram para a leitura. Ao contrário de como achei que seria sua reação, ele pegou minhas anotações e pôs-se a lê-las. Após 40 minutos sem sinal de Susana e já cansada de estudar, comecei a recolher minhas folhas.
- Posso? – perguntei para Malfoy estendendo minhas mãos para pegar de volta minhas anotações.
- Você parece ter dificuldade nessa matéria. – disse ele me devolvendo as folhas.
- E tenho.
Madame Pince nos olhou com uma cara feia novamente, então terminei de recolher minhas coisas e fiz sinal para Malfoy me seguir até para fora da biblioteca. Ao passarmos pela porta, continuamos a conversa.
- Tenho 4 meses até os NOM's. Desculpe se estou um pouco arisca... é culpa da pressão.
- EU tenho os NIEM's e não estou preocupado.
- Provavelmente seja porque você ainda não pensou muito no quanto seu futuro depende disso. – disse arqueando uma sobrancelha. – Preciso ir pro dormitório agora.
- Ok. – ele disse acenando com a cabeça. – Nos vemos amanhã.
- Está bem.
- Ah, Weasley? – chamou Malfoy antes de que eu virasse a esquina do corredor. – Pode me encontrar amanhã em frente à torre de astronomia?
- Estou te ensinando bem. – disse sorrindo. – Às 17h.
Malfoy simplesmente concordou a cabeça e começou seu caminho em direção oposta à minha.
Ao chegar em meu dormitório com um sorriso no rosto, larguei meus livros em minha cama e me sentei, afrouxando minha gravata. Ao olhar para meu material percebi que, no meio de tantas folhas, lá estava o pergaminho da conversa que tivera com Malfoy na biblioteca. O peguei em minhas mãos e analisei-o. A caligrafia fina e bem desenhada de Malfoy, como se alguém tivesse escrevendo uma carta para algum rei era quase uma obra de Picasso ao lado de minha letra gordinha e redonda.
Eu ri.
Dobrei o pergaminho cuidadosamente e guardei na gaveta de minha cômoda. Ao levantar os olhos, me deparei com meu reflexo em meu espelho e percebi algo que era impossível de não ser visto.
Malfoy me fazia feliz.
