Eu acordei feliz demais.

Sério. Isso não é normal.

Estava com todos os acontecimentos do dia anterior em minha cabeça, gravados como se tivessem sido pressionados em minha testa com um ferro quente. O sorriso ia de ponta a ponta do meu rosto e isso não podia ser pior.

- Bipolaridade. Eu digo, mas você não me ouve. – reclamou Susana uma vez que abri a boca xingando o sorriso que ficava suspenso eu meu rosto por mais que eu tentasse me manter irritada.

- Como vou aparecer na frente do Malfoy com essa cara de retardada? Eu preciso por jeito nele, não ficar sorrindo que nem uma novata caindo de amores por ele. – disse enfiando meu livro de Herbologia amarguradamente em minha mochila.

- Mas você está caindo de amores por ele. E ele JÁ SABE DISSO! Pra quê esconder?

- A verdade é que não é bem uma questão de esconder e sim de amenizar as conseqüências que esse estado de mente me trás. Eu não tenho pulso firme quando eu me encontro nesse estado de espírito. – respondi apontando para minha própria expressão.

- Quer dizer feliz?

- Não, quero dizer mentalmente ausente. – disse suspirando.

Descemos as escadas prontas para um frio cretino que nos aguardava a caminho da aula de Herbologia. O vento cortava nossos rostos e quando entramos na estufa, o alívio foi imediato. O ar abafado e quente que sempre amaldiçoávamos no verão vinha bem a calhar no inverno.

Herbologia... ah, eu já mencionei que eu odeio essa matéria, correto?

Eu tinha conseguido sair sem me machucar das ultimas 3 aulas, mas naquela eu não consegui me safar. Aquele tiozinho muito conhecido pelos trouxas chamado Murphy sempre dá o ar da graça pelo menos uma vez por mês. Na minha empreitada com uma faquinha muito afiada e uma planta satitante, uma mandrágora especial replantada por alunos do segundo ano que estava com uma mãozinha para fora graças à destreza do aluno encarregado dela (AH se eu pego esse cretino!) se agarrou fortemente eu meus cabelos e mordeu meu ombro.

P.S.: Aqueles dentinhos DOEM!

Enquanto eu me encaminhava com um pano gigante e sujo de terra tentando cobrir o meu ferimento (não, assepsia nunca foi o forte da profª. Sprout), me encontrei com Malfoy se dirigindo para o campo de quadribol trajado com suas vestes verde esmeralda de apanhador.

- O que aconteceu? – ele perguntou com uma cara de quem esperava uma resposta estúpida o suficiente vindo de mim.

- Mordida por uma mandrágora. – disse chacoalhando o único ombro sem escoriações.

- Isso é sério? - perguntou espantado.

- Não não. Joguei catchup no ombro pra fugir da aula da matéria na qual eu tenho mais dificuldade.

- Você devia cuidar desse sarcasmo menina, isso faz mal! – ele disse franzindo a testa.

- Vá para o treino, você está obviamente em cima da hora. – disse sinalizando com a cabeça o rumo para o campo.

- Vou te acompanhar até o ambulatório. – ele respondeu balançando a cabeça negativamente.

- Não é necessário.

- O que não é necessário é tomar um balaço na cabeça por que seu batedor tem problemas com direita e esquerda. Continue andando, Weasley. – ele disse me empurrando em direção ao castelo, se pondo ao meu lado logo depois.

O caminho até a enfermaria foi silencioso. A verdade é que quem não estava abrindo muito a boca era eu, visto que eu não sabia como reagir perante aquele ato humanitário fora do comum de Malfoy. A troco de quê ele me acompanharia de volta ao castelo?

- Alguém devia ter gravado você sendo atacada. Deve ter sido hilário. – ele disse enquanto assistia Madame Pomfrey remendando meu braço com a varinha.

Ele estava sentado em uma cama de frente da qual eu estava sendo atendida, me olhando com uma cara de como se estivesse tentando imaginar em sua própria cabecinha aquela sequencia desastrosa nas estufas.

- É. Hilário.

- Você está quieta. Mandrágoras causam esse efeito? Pois se sim, acho que vou encomendar algumas com a Profª. Sprout. – perguntou cruzando os braços.

- Só achei muito legal você ter me acompanhado. Estava pensando em alguma maneira de agradecer.

- Eu estava tentando fugir do meu treino. Você estava machucada. Parece uma boa desculpa, fora o fato de ganhar pontos com você visto que isso é uma coisa que eu nunca faria no meu antigo eu. – finalizou Malfoy com um tom de como se estivesse impressionado consigo mesmo.

- Incrível Malfoy, mas você não me compra com esse papinho furado. Você quis é fujir do treino, ou seja, essa ação altruísta foi na verdade um jeito de voce fugir da sua obrigação e de beneficiar a si próprio.

- Você tem um jeito de mostrar o pior lado de tudo que eu faço! Acabou de dizer que achou legal o que eu fiz!

- Sim, achei. Mas isso não muda o fato de que foi feito somente para te beneficiar.

- Eu estar preocupado com você nem entrou em sua equação?

- Não.

Malfoy fechou a cara e eu abri um sorriso. Parecia que eu tinha acabado de tirar o doce da boca de uma criança.

- Vai ter de ficar aqui por hoje, Stra. Weasley. Mandrágoras não costumam causar nenhum efeito colateram quando atacam dessa maneira, mas é sempre bom vigiar por algumas horas.

- Isso foi de longe um ataque... – disse Malfoy segurando o riso.

- Cale a boca. – sussurrei entre dentes.

- Mesmo assim, terá de pernoitar aqui.

Confirmei com a cabeça e Madame Ponfrey se distanciou de minha cama. Me deitei, cocei os olhos e disse olhando para o teto:

- Pode ir se quiser.

- Ou posso dar a desculpa que estou com você aqui e usar o silêncio daqui para estudar.

Eu olhei para aquele loiro aproveitador sentado na cama ao meu lado. Maldito.

- Só não faça barulho. – disse Madame Pomfrey passando pela minha cama novamente em direção à sala dela.

Eu sorri. Malfoy deu ombros.

Assim foi, até a hora da janta.