- Que coisa ridícula! Esse movimento é proibido!

Ele disse analisando o tabuleiro de xadrez que estávamos jogando há horas.

- Proibido uma pinóia! – disse rindo empurrando a última peça. – Você só não gosta de perder!

Um Malfoy emburrado, com os braços cruzados e a testa franzida, analisava minhas mãos enquanto eu recolhia as peças.

- Obrigado por ter ficado por aqui hoje. – eu disse encabulada.

- Disponha. – respondeu dando ombros.

Eu fiquei ali, olhando para o meu lençol branco, imaginando o que dizer, mas antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Malfoy se levantou.

- Acho que vou até o meu dormitório. Trocar de roupa e depois descer para comer.

- Bom apetite.

- Obrigado. – Malfoy deu um aceno se despedindo e saiu da enfermaria.

Enquanto eu guardava as peças no saquinho do jogo, Susana apareceu pela porta da enfermaria, olhando de esguelha para os lados para verificar se Madame Pomfrey estava em algum lugar próximo. Ao ver que a área estava limpa, Susana correu até minha cama e se sentou no lugar que antes era de Malfoy.

- Olha só quem apareceu. – disse fingindo estar surpresa.

- Nem venha com essa de 'você esqueceu de mim'. Eu vim aqui umas duas vezes ao longo do dia, mas você estava bem melhor acompanhada.

Baixei a cabeça e ri.

- Parece que alguém está de fato melhorando.

- Uma boa atitude não apaga tudo que ele já fez de ruim. Ele pode estar até sendo simpático, mas ainda acho que tem muito chão pela frente até ele largar a mania dele de se sentir superior a tudo e a todos.

- Acho que o que fez ele baixar um pouco a crista foi o fato de ter achado uma garota com o gênio tão ruim quanto o dele.

- Não exagere. Eu sou um doce perto de Malfoy. – eu disse fingindo estar ofendida.

- Ahã. – respondeu Susana com uma de suas sobrancelhas levantadas. – Como uma minhoca de gelatina.

Susana já estava lá há quase uma hora quando ela bocejou e disse que precisava dormir. Minha barriga roncava. Não sabia onde Madame Pomfrey tinha se enfiado, mas eu não via sinal de comida desde o almoço, porém achei indelicado pedir a Susana algo para comer uma vez que ela estava capengando de sono.

- Boa noite, Su. – me despedi quando ela anunciou que ia para o dormitório dormir.

Eu me deitei na cama pensando que viria bem a calhar umas horas de sono, mas infelizmente meu estômago não me deixava em paz. Eu então ouvi um barulho próximo à minha cama. Rezei para ser Madame Pomfrey com um sanduíche generoso, então me sentei na cama, mas diferente do que eu achava era Malfoy que estava ali.

- Te trouxe isso. – ele disse largando algo enrolado em um bando de guardanapos em cima de minha cama.

- Como soube que estava com fome? – perguntei estranhando sua adivinhação.

- Não sabia. Mas o sanduíche estava muito bom, então resolvi te trazer um. – ele respondeu dando ombros.

- Obrigado. – disse aceitando o sanduíche. – Não jantei ainda.

- Onde está Madame Pomfrey? – ele perguntou parecendo abismado com o que eu acabara de falar.

- Não sei...

- Bela enfermeira que temos que deixa os pacientes sem janta. Incompetente...

- Malfoy, não fale isso. Você não sabe o que aconteceu... pode ter sido um outro acidente com outro aluno ou talvez ela tenha tido um imprevisto. Você não pode presumir as coisas assim...

- Todos presumiram que eu era um comensal da morte.

- Mas isso era verdade. – dizendo algo com um tom de obviedade.

- Mas ninguém sabia o porque eu tinha me tornado um, e ainda sim tive de ouvir muita besteira ao longo desses anos que passaram. – ele disse amargurado, se sentando novamente na cadeira em frente a minha cama.

- Todos estavam com medo. Era um mecanismo de defesa pensar o pior dos outros até que se provasse o contrário. – disse dando ombros.

- Você pensou o pior?

- Claro que pensei. – disse dando uma mordida no sanduíche. Meu estômago recebeu com alegria o pedaço de pão.

Houve um silêncio chato enquanto eu mastigava meu pão e ele analisava o chão com demasiado interesse. Eu sabia que na verdade ele estava pensando no que eu havia falado. Esse assunto na era lá um dos melhores para se levantar em uma conversa qualquer.

- Hoje eu penso que existe esperança nesse loiro que está sentado na minha frente. – eu disse terminando meu sanduíche. - O que passou já era. Passado.

Ele balançou a cabeça positivamente.

- Estava pensando. Quer ir a Hogsmeade nesse fim de semana? – ele me olhou com cara de dúvida. – Por que o espanto?

- Sei lá...

- Se não quiser é só dizer.

- Não, não é isso! É que eu nunca fui a Hogsmeade com uma garota.

-A quem quer enganar, Malfoy? – disse levantando minha sobrancelha em sinal de desconfiança.

- É sério! Sempre fui com os retardados da Sonserina.

- Existe uma primeira vez pra tudo. – disse dando ombros.

Ele me olhou. Eu sorri.

- Qual é, Malfoy? Qual é o medo?

- De te dar a impressão errada.

- Eu tenho o quê? Doze anos? Estou te chamando para tomar uma cerveja amanteigada!

Eu olhei para ele. Ele sorriu.

- Ok. Encontro você no sábado em frente ao portão principal na hora da saída.

- Marcado.

- Vou dormir. Nos vemos amanhã.

- Bons sonhos.

- Bons sonhos.

Malfoy saiu logo em seguida. Eu me deitei na minha dura e horrível cama da enfermaria, torcendo para o sono dar o ar da graça. Eu tinha marcado de sair com Malfoy.

De onde tinha surgido tanta coragem?

Adormeci sorrindo, imaginando sobre que assunto banal discutiríamos no sábado entre uma cerveja e outra.