Estava frio. Só faltei me enforcar com o cachecol para tentar proteger minhas orelhas, mas os brincos enroscavam nele toda vez que eu me encolhia. Minhas mãos estavam frias mesmo por debaixo das luvas e minhas 4 camadas de blusas pareciam 1 só quando batia o vento cortante que passava pelo portão principal.
Malfoy era uma princesa. Havia me mandado um pergaminho dizendo que estaria pronto para sair às dez. Lá estava eu, às 10:15 esperando a senhoria aparecer.
- Já sei que estou atrasado, - ele disse aparecendo apressado ao meu lado. – nem adianta reclamar.
- Já reclamei demais para mim mesma durante os quinze minutos que estou aqui esperando a beldade aparecer. – disse rolando os olhos.
Malfoy estava vestido com um casaco longo de um tecido preto bem grosso, um cachecol listrado e botas. Ele estava lindo. Maldito.
- Parece estar com frio. – ele disse me analisando.
- Impressão! – disse ironicamente.
- Sério? Por Merlim, mulher, com quantas blusas está por debaixo desse seu casaco? Pelo volume não devem ser poucas.
- Não interessa. – disse fechando a cara. Malfoy olhou para minha cara, levantou uma sobrancelha e abriu um sorrisinho de quem tinha acabado de descobrir algo importante.
-TPM!
Eu fiquei vermelha. Não de raiva, como de costume, mas de vergonha. Todos sabiam que eu de TPM era pior do que todos os meus irmãos juntos, mas quando ele identificou minha mudança de humor repentina, eu me senti vulnerável. Era algo que fazia parte de mim, mas eu não queria que ele descobrisse isso – queria que ele achasse que era somente mais um dia em que minha ironia estava dando o ar da graça.
- Não precisa ficar vermelha! – ele disse começando a rir. – Acho que é normal de mulher, sei lá. – continuei calada. – Qual é, Weasley! Vai estragar o passeio porque eu descobri que está de TPM?
Eu o olhei, rolei meu olhos e cruzei os braços.
- Desculpe. – resmunguei. Ele deu ombros.
- Acredito que eu seja mais ou menos assim, uma mulher de TPM.
- Tem vezes que você é bem pior. – eu disse abrindo um sorriso. – Mas está melhorando.
- Vamos?
Saímos de Hogwarts reclamando sobre os professores que não gostávamos e chegamos em Hogsmeade comentando sobre os exames que faríamos no ano.
- Herbologia é meu maior problema. – disse caminhando ao seu lado com as mãos no bolso. – Conseqüentemente Poções me dá um pouco de dor de cabeça também.
- Eu não tenho muita dificuldade em nenhuma matéria específica, mas o problema maior está em Transfiguração. Da última vez que tentei transformar alguma coisa em um animal, o animal saiu com mais patas do que devia.
- Posso dar uma idéia? – perguntei. – E se nós nos ajudássemos nas matérias?
- Que lucro eu levaria nisso se você está abaixo de mim?
- Sou esperta. Se eu ler, eu aprendo. O que acha?
Ele parou no meio da rua e me olhou nos olhos avaliando a idéia. Senti-me ficando vermelha, mas naquele cenário, poderia culpar o frio.
- Parece bom. Pior do que está não fica. – ele disse dando ombros.
- Ótimo. Vamos tomar alguma coisa? Estou gélida até os ossos. – disse esfregando meus braços.
Ele acenou com a cabeça e juntos rumamos para os Três Vassouras.
Ao entrar no estabelecimento, um jorro de ar quente pareceu nos envolver e a sensação térmica melhorou consideravelmente. Tirei meu casaco e afrouxei o cachecol, Malfoy fez o mesmo e abriu um botão da camisa que matinha por debaixo do cardigã. Ele apontou uma mesa no canto direito, próximo a uma janela meio coberta de neve e no caminho pediu duas cervejas amanteigadas para um garçom que dançava entre as mesas entregando os pedidos. O garçom acenou com a cabeça e Malfoy se juntou a mim para nos acomodarmos.
Ele sentou de frente a mim e cruzou as mãos em cima da mesa. Eu me encostei ao máximo e analisei a janela cheia de neve.
- Já estamos próximos ao Natal.
- Duas semanas... – Malfoy concodou.
- Duas semanas para o baile também. – disse relembrando.
- Mas já está com isso na cabeça? – ele perguntou como se estivesse surpreso.
- Eu não, mas é difícil não lembrar disso quando em seu dormitório só se fala em vestidos, sapatos e maquiagens. – Malfoy revirou os olhos e nossas cervejas amanteigadas chegaram. Ficou um silêncio estranho entre nós, um tipo de silêncio desconfortável e embaraçoso.
- Obrigado por vir comigo. Fazia um tempo que eu não saia. – ele disse olhando para sua cerveja. Eu dei ombros.
- Foi um prazer. – respondi. – Nos períodos em que você não está sendo irônico e intragável, na verdade, você é uma pessoa legal de se conversar.
- Obrigado, Weasley.
- Gina.
Ele me olhou e acenou com a cabeça, afirmando que tinha entendido.
- Não se incomoda de te verem comigo? – perguntei ao repousar minha cerveja na mesa.
- Acho que já passamos dessa fase.
- Você está mais maduro, Malfoy. – disse apoiando os cotovelos na mesa.
- Acho que todas as más experiências e as coisas pelas quais eu e minha família passamos serviu pra alguma coisa.
- Dizem que há males que vem pra bem. – respondi.
- Como você.
- Me senti lisonjeada!
- É sério! Sei lá, se antes eu não suportava sua presença, agora com essa minha maturidade, eu consigo te aturar sem querer te enfeitiçar.
Acenei com a cabeça e ri. Peguei minha cerveja e a ergui.
- À nossa maturidade.
- A nós. – e brindamos.
Aquele "a nós" me arrepiou. Eu sabia que não havia sido bem como eu gostaria que aquele brinde tinha sido feito, mas ainda sim, eu e Malfoy, sentados em uma mesa nos Três Vassouras conversando sobre a vida, me parecia algo muito melhor do que eu havia imaginado.
Depois de terminarmos nossas bebidas, nos agasalhamos novamente e voltamos a andar. Dentre lojas e estabelecimentos diversos, nos sentamos em uma pedra para passar o tempo.
- Se era pra ficar sentada, preferia ter ficado sentada no Três Vassouras.
- Não reclame. – ele retrucou. – Eu queria conversar sério com você e não queria que ninguém ouvisse.
Eu não falei nada, só me voltei para ele e me pus a prestar atenção.
- Eu queria te agradecer... pela paciência que você está tendo comigo. Dizer que você está sendo uma amiga de verdade e que pra quem nunca pôde confiar muito em ninguém, isso significa muito.
Eu sorri. Dava para perceber que Malfoy estava sendo sincero pelo tom da sua voz e pelo jeito sem graça.
- Você não vai dizer nada? – ele perguntou depois de um tempo de silêncio.
- Não. – balancei a cabeça. – O que você precisava saber você descobriu no dia do baile, naquele dia em que conversou comigo lá fora. – Malfoy pareceu ficar vermelho e se silenciou durante alguns instantes. - Eu não estou te cobrando nada de volta, Malfoy...
- Não é isso. – ele me interrompeu e respirou fundo. – É que... eu sinto alguma coisa, mas eu não sei o que é.
- Você é a pior pessoa do mundo para se explicar Malfoy. – afoita, esperei ele falar algo.
- Quero dizer que eu já não sei o que eu sinto por você.
E foi aí que meu coração parou de bater momentaneamente.
