Naquele momento, mesmo com aquele vento gelado e meus dedos da mão quase azuis de frio, eu senti minhas bochechas ardendo. Eu sentia o pular do meu coração em minha garganta e, por mais incrível que pareça, me faltaram palavras naquele instante.
- Quer dizer, - ele começou. – às vezes você me irrita de uma tal maneira que me dá vontade de te dar uns tapas na orelha, mas quando eu sei que eu vou ter de te encontrar mais tarde ou quando nos encontramos no corredor por acidente, eu fico feliz. E você sabe que isso não é muito normal.
- Da mesma maneira que não é normal você desatar a falar desse jeito destrambelhado como você está fazendo agora. – eu disse dando risada. Ele olhou pra mim com um ar confuso.
- Isso é mais difícil do que imagina. – ele resmungou.
- Você vem dizer isso pra mim? – eu disse espantada erguendo uma de minhas sobrancelhas. – Eu gosto de você, esqueceu? Não pode ser mais difícil do que isso.
Ele se voltou para mim com um olhar levemente irritado.
- Olha, vamos deixar isso bem claro. – eu disse me aproximando dele. – Eu não estou te cobrando nada, certo? Desde aquele dia eu deixei bem explicado que eu nunca esperei nada de você, e isso ainda não mudou. Se um belo dia de sol você se virar pra mim e dizer 'eu amo você', maravilha. Caso contrário, tudo vai continuar exatamente do mesmo jeito. Eu te tirando do sério e você querendo me dar uns tapas na orelha.
Ele acenou com a cabeça e eu me levantei, batendo os flocos de neve do meu casaco.
- Preciso voltar. Tenho de tentar estudar um pouco ainda hoje. Você vem? – perguntei para Malfoy que ainda continuava sentado no mesmo lugar.
- Vou ficar mais um pouco. Boa sorte com os estudos. – ele disse se levantando também. – Te procuro quando chegar.
Afirmei com a cabeça e me despedi com um aceno. Quando virei as costas tive de me submeter a alguns minutos de respiração profunda para fazer meu coração voltar ao batimento normal – quando que eu imaginaria que Malfoy me soltaria uma daquelas?
Contorcia meus dedos e sorria que nem uma idiota no caminho de volta para Hogwarts. Ao chegar na escola novamente, suspirei e finalmente enfiei uma coisa em minha cabeça: não criaria expectativas. Caberia a ele entender a si próprio em seu próprio ritmo.
Fui até meu quarto, tirei as minhas trocentas blusas que agora seriam desnecessárias e me dirigi à biblioteca com meu livro de Herbologia. Encontrei Dino no meio do caminho que, pelos doces em suas mãos e pelo gorro cheio de neve, havia acabado de voltar de Hogsmeade.
- Indo estudar? – ele perguntou devorando suas guloseimas.
- Sim. Os exames estão quase aí.
- Preciso fazer o mesmo. – ele disse olhando para cima, fazendo ar de pensativo. - Vai estar na biblioteca? Estou pensando em fazer o mesmo que você... correr para o dormitório, pegar meu material e me empenhar um pouco.
- Estarei por lá se quiser se juntar a mim. – disse dando ombros.
- Maravilha! – ele disse tirando o gorro da cabeça. – Te encontro lá em dez minutos.
- Ok!
Dino saiu correndo para o dormitório e eu segui meu rumo para a biblioteca. Não deu tempo nem de arrumar meu material em cima da mesa escolhida quando Dino apareceu, ainda mastigando alguma coisa, mas com seus livros em mãos.
- Que rapidez! – me espantei ao vê-lo ofegante ao meu lado.
- Corri antes que a idéia de estudar corresse de mim. – ele respondeu rindo.
- Bom, sinta-se à vontade, vou procurar um livro que eu preciso. – disse virando as costas para Dino e me enfiando por dentre as estantes.
Procurei alguns livros que me pareciam relevantes à matéria e voltei à mesa. Peguei uma pena, abri um dos livros e me pus a estudar. O silêncio pairava entre eu e Dino, o que na verdade era surpreendentemente bom – Dino tinha o costume de falar mais que a boca e isso atrapalharia meus estudos, visto que eu tinha sérios problemas de concentração.
Me enfiando nos livros, Herbologia começara a me parecer mais compreensível. Eu tinha enfiado na cabeça que eu entenderia aquela matéria, e naquele instante, pela primeira vez, eu comecei a achar que seria capaz. Devo ter passado umas duas horas lendo, copiando e fazendo diagramas em meus pergaminhos, até que Dino se espreguiçou e se declarou derrotado.
- Ok. Não agüento mais. – ele disse fechando o livro e recolhendo as penas. – Para mim, deu por hoje. Você vai continuar?
- Vou... por mais um tempinho.
- Você é bem focada quando quer, Gina. – disse Dino pegando seu material da mesa e se levantando. – Nos vemos no Salão Comunal mais tarde.
- Até.
Estalei meus dedos, pronta para voltar aos meus estudos quando Malfoy pareceu se materializar do meu lado.
- Você aparatou por aqui, é? – disse me surpreendendo. – Nem vi você.
- Você estava concentrada. – ele disse se sentando ao meu lado.
- Chegou agora?
- Não, na verdade. Estava logo ali, - ele disse apontando uma mesa um pouco distante da minha. – cheguei e vim estudar. Isso faz quase uma hora.
- Por que não se sentou aqui?
- Você estava com Dino. Não quis me intrometer. – ele disse dando ombros. – Trouxe alguns doces de Hogsmeade.
- Uma injeção de glicose me faria bem agora. – eu disse procurando os doces nas mãos dele. – Onde estão?
- No quarto. Se eu entrasse com eles aqui, Madame Pince me amaldiçoaria até cansar.
- Pretende estudar mais um pouco? – perguntei.
- Na verdade não... por quê?
- Por que não jantamos e damos um fim nos doces depois?
Malfoy ficou em silêncio e franziu a testa como se estivesse pensando.
- Parece uma boa idéia. – ele disse. – Podemos nos encontrar nas escadas, daqui a umas duas horas?
- Parece bom. – disse fechando meus livros e recolhendo meu material. – Sem atrasos dessa vez, Malfoy. – disse apontando o indicador para seu nariz bem desenhado.
- Draco.
Eu encolhi meu dedo, sorri e acenei com a cabeça, indicando que tinha entendido. Me levantei, peguei minhas coisas e me despedi de Malfoy. Fui até o dormitório, larguei meus livros rapidamente em cima de minha cama, penteei o cabelo e, mais feliz do que jamais fiquei, desci correndo para o jantar.
Eu não lembro de ter engolido tão rápido meu ensopado quanto naquele dia. Pulei a sobremesa para ter espaço para os doces e voltei para meu dormitório. Tomei um banho, coloquei uma roupa mais quente e desci. Por um milagre, Malfoy estava lá no horário marcado, com um suéter verde escuro, com as mãos cobertas por luvas pretas e um cachecol de lã também preta no pescoço. Em uma das mãos, uma sacola da Honeydukes, a outra permanecia no bolso de sua calça jeans.
Havia bastante movimento pelas escadarias já que ainda estava cedo, mas parecia que ele não se importava com isso. Ele sorriu ao me ver descendo pela escada e levantou a sacola de doces para me mostrar.
- Isso é suficiente de glicose? – ele perguntou.
- Tem sapos de chocolate aí dentro?
- É sério que você gosta daquele treco? – ele perguntou surpreso.
- É de chocolate! Quem não gosta?
- Pessoas que não estão a fim de correr atrás da sua sobremesa! – ele disse vasculhando a sacola. – Não tem nenhum sapo de chocolate...
- Comprou varinhas de alcaçuz ao menos? – perguntei.
- Isso sim.
- Bom mesmo. – eu disse como se exigisse ao menos aquele item para poder dar continuidade ao nosso compromisso.
Pus-me a andar em direção à porta. Malfoy apressou seu passo e me alcançou. De repente estávamos lá, andando sob aquela noite gelada, tentando encontrar um lugar descente para sentarmos para apreciarmos nossos doces.
Nada podia ser melhor do que aquilo.
