Eu não tenho certeza de quanto tempo nós ficamos sentados embaixo de uma árvore qualquer próxima ao lago, comendo doces, xingando matérias cretinas e falando da vida. A verdade é que aquilo tudo parecia, por mais incrível que pareça, fácil.

Não era nenhum transtorno ficar próximo a ele. Eu não ficava acanhada, não me faltavam mais palavras e eu não precisava inventar histórias ou fingir ser algo que não era. O ponto alto de tudo isso é que eu havia parado de tentar descobrir aonde eu errara, de qual ponto da minha cabeça meio maluca eu tinha tirado a idéia de gostar de Draco Malfoy, porque no final das contas, descobrir isso não mudaria em nada a situação atual. A verdade é que eu nunca errara.

Foi entre uma varinha de alcaçuz e outra que eu me encostei no tronco da árvore sem folhas e, analisando o lago parcialmente congelado, perguntei:

- O que estamos fazendo aqui?

- O que quer dizer? – ele perguntou mordendo um pedaço de bolo de abóbora.

- Sei lá...a gente continua na missão de te melhorar como pessoa ou a gente está junto só para você descobrir o que está sentindo?

- Um pouco dos dois, talvez. – ele disse dando ombros. – Por que você tem essa mania de querer rotular tudo?

- Não é rotular! – disse arregalando os olhos. –Só queria entender o que está se passando pela sua cabeça agora.

- O que está passando na minha cabeça é que os doces estão bons, a companhia é boa e, fora o frio cretino que impede o movimento perfeito dos meus pés, a paisagem também está legal. Vocês mulheres tem mania de complicar as coisas... por que você não pode simplesmente curtir o momento?

- Meu Deus... falou como se tivesse tido uma experiência não muito boa com mulheres. – disse arcando uma de minhas sobrancelhas.

- Você acha que aturar Pansy foi o quê?

- Pensei que vocês realmente tinham chegado a ter alguma coisa.

- Na cabeça bitolada dela, talvez, mas eu nunca encostei nela. – ele disse despedaçando o bolo em migalhas. - A verdade é que eu nunca tive uma urgência em bancar o conquistador nem nada.

- Mas as meninas da Sonserina sempre se derreteram por você. Cansei de ouvir comentários nos banheiros.

- Isso é assustador. – ele disse arregalando os olhos. – Mas eu nunca encontrei ninguém que me chamasse atenção. Talvez porque eu sempre estive meio ocupado com coisas maiores do que achar uma namorada. Mas o jeito que vocês perseguem alguém quando estão apaixonadas é assustador.

- Deveria interpretar isso como um aviso?

- Não! – ele disse espantado e levemente embaraçado. – Você não! A verdade é que eu nunca ia saber que você gosta de mim se as pessoas não tivessem apontado pequenos traços de comportamento.

- Tipo?

- Que quando você senta pra comer no salão comunal, você sempre se senta de frente para a mesa da Sonserina. Que quando vamos ter aula na mesma sala que vocês, você sempre arranja alguma coisa pra perguntar para o professor até que eu chegue. Coisas assim...

Eu ri. Ri porque mesmo me achando tão inteligente e superior eu ainda era capaz de fazer aquele tipo de coisa infantil, esperando que ninguém pudesse perceber. Suspirei lembrando de todas as vezes que eu tinha feito aquelas pequenas coisas, lembrando que tinha feito tudo aquilo pelo garoto que estava sentado ao meu lado naquele instante.

- É verdade... nunca achei que fosse tão óbvio.

- E não era... a verdade é que se Blaise não tivesse me dito, eu provavelmente não teria percebido.

Fiquei em silêncio sorrindo para o chão.

O silêncio foi mais longo do que eu imaginara. Durante um tempo eu fiquei ali, olhando para o chão, apreciando minha varinha de alcaçuz, relembrando todas as vezes que eu calculei pequenos detalhes que nem aquele para ficar perto de Malfoy.

- Você sabe o que eu ia fazer quando estava indo a direção à mesa das comidas no baile?

- Pegar o ensopado de peixe? – chutei dando ombros.

- Te chamar para dançar. – ele disse com um tom de quem finalmente estava admitindo alguma coisa.

- Mentira.

- Não, é sério! Eu ia te chamar... mais para fazer com que a Pansy parasse de me atormentar do que outra coisa, mas ainda sim eu ia pedir para que você dançasse comigo.

- E eu saí correndo! – disse rindo. – Bela perspectiva hein?

- Você não tinha como saber.

- Então quer dizer que você ainda me deve uma dança. – eu disse brincando.

Ele se levantou. Bateu as mãos para retirar os farelos de bolo dos dedos e ajeitou seu casaco. Por fim, esticou a mão em minha direção.

- Eu estava brincando.

- Levanta logo.

Eu me levantei terminando de mastigar meu doce. Arrumei meu cachecol e larguei os braços na lateral do corpo. Olhei para ele sorrindo.

- Eu não posso fazer isso. – eu disse dando ombros.

- Não sabe dançar? – ele disse arqueando uma sobrancelha em sinal de dúvida.

- Não, mas se você me pedir isso enquanto você não tiver certeza do que sente, isso tudo só vai ficar pior.

- Mas eu estou tentando entender o que eu sinto. Não é tão fácil assim.

- Eu sei que não é. Eu já passei por isso. Mas eu não agüento, é doloroso demais pra mim...saber que a cada gesto eu me apaixono mais por você enquanto você ainda não tem certeza de nada. Você ainda pode muito bem decidir que o que você sente por mim é só um carinho por uma pessoa que te estendeu a mão quando você precisava e nada mais.

Ele ficou em silêncio e pôs as aos no bolso ao olhar para os próprios pés.

- Por mais que eu adore estar com você, eu peço com todas as minhas forças que não torne as coisas mais difíceis do que elas já estão pra mim.

- Você quer dizer que não quer mais ficar comigo?

- De forma alguma. Eu só estou dizendo que eu preciso que você me entenda.

Ele acenou a cabeça.

- Me desculpe. Eu nunca quis que isso fosse algo ruim para você.

- E não é. Não seria, na verdade, se você soubesse o que é esse sentimento que você tem por mim, mas como eu disse, não quero acelerar nada. – ele acenou novamente. – Acho que vou dormir, está ficando um pouco tarde.

- Posso ao menos fazer uma coisa antes de você ir embora? – ele perguntou. Eu acenei com a cabeça.

Em um passo e meio ele me alcançou e me envolveu em seus braços. Foi o abraço mais súbito que eu havia recebido. Naquele momento eu não sabia o que fazer. O corpo de Malfoy, por mais que estivesse frio, era quente, acolhedor. Ele encostou o rosto no meu e disse ao pé de meu ouvido.

Me desculpe. Eu sei que você na queria nada do gênero, mas era algo que eu queria fazer há um tempo.

Eu engoli minha saliva e afundei meu rosto no cachecol de Malfoy. Ele me abraçou mais forte e respirou fundo. Como eu queria que aquele abraço durasse para sempre.

- Eu te amo, Malfoy, mas se você não me largar eu vou pisar no seu pé. – eu disse me debatendo em seus braços.

Ele me soltou.

- Boa noite, Gina.

- Boa noite, Draco.

Simples assim, eu me virei, voltei para o castelo e me dirigi ao meu dormitório, sabendo que eu teria muitas perguntas a responder do por quê do meu sorriso gigantesco.