Eu não preciso dizer quanto tempo fiquei ali, deitada em minha cama relembrando aquele abraço. Foi tempo suficiente para a noite passar e o dia clarear e eu, mais uma vez, estar com aquela cara de idiota apaixonada, mas dessa vez, com olheiras ridículas.

Eu levantei, me espreguicei e troquei de roupa. Desci ao salão comunal, pela primeira vez em muito tempo, sem ninguém me encher o saco. Ao cruzar o portão do salão, vi Malfoy sentado em seu habitual lugar na mesa da Sonserina. Ele também me viu e, em sinal de cumprimento, me acenou com a cabeça. Sorri e me dirigi à minha mesa.

Enquanto estava demasiadamente envolvida em meus ovos mexidos, um papel pousou à minha frente, quase invadindo meu prato. Meu primeiro pensamento foi "é óbvio que é dele", porém, para minha surpresa, a letra que estava naquele papel não era floreada e bonita que nem a dele, mas sim um garrancho escrito por uma pena que tinha sido prensada demais contra o pergaminho.

"Te vejo em cinco minutos no salão comunal da Grifinória. Esteja lá."

Bufei. Não só porque tinha reconhecido a letra, mas também porque sabia que daquilo, nada de bom poderia sair. Engoli meus ovos prevendo uma enorme indigestão, recolhi minhas coisas e fui para o local combinado.

Milhares de coisas se passaram pela minha cabeça, mas tudo que eu pude falar quando entrei no salão comunal foi:

- Vou me atrasar para a aula, é bom ser rápido.

Rony estava sentado de braços cruzados no salão comunal vazio como se tivesse me aguardando há um século.

- Eu só quero saber o que é essa história sua com Malfoy.

- Onde, exatamente, isso é da sua conta, Ron? – perguntei franzindo a testa.

- Você é minha irmã. Ele é um ex-comensal. É normal ficar preocupado. – ele disse dando ombros como se fosse a coisa mais natural do mundo.

- Aham, desembucha porque eu sei que você não tirou isso do simples fato de ele ter ido em casa durante as férias.

- Eu vi vocês na biblioteca conversando um dia desses. E como se não bastasse vi vocês ontem sentados conversando. À noite. Do lado de fora do castelo. – ele disse enfatizando as duas últimas sentenças.

- A intenção era não sermos vistos por nenhum bisbilhoteiro, o que é óbvio que não deu certo. – disse sentando em uma cadeira próxima. – Por quê o nervosismo? Não confia em mim?

- Não é em você que não confio, e sim nele. Ele é um ex-comensal Gina. Mamãe me falou que vocês pareciam bem próximos tomando chá em casa. Agora vejo isso. É sério que você está nutrindo sentimentos por um Malfoy?

- E se estiver? O que há de errado com isso?

- Você sabe que você vai se machucar e que ele deve estar te usando para alguma coisa. A troco de quê ele gostaria de você, Gina, ele sempre nos detestou!

- Você sabe ser delicado quando quer, Ron. – disse me sentindo ofendida. Como assim 'a troco de quê ele gostaria de mim'? Eu não tenho atributos suficientes para atrair a atenção de um rapaz? – Ron, que tal, pela primeira vez na vida, você deixar eu me virar sozinha?

- Você realmente está afim de dar com os burros n'água, não é? Porque não poderia se conformar em namorar Harry? O cara salvou o mundo bruxo e é louco por você!

- Eu vou fingir que eu não ouvi isso, Ron. – disse levantando bruscamente. – Tenho de ir pra aula. E você, faça o favor de tirar essa ideia de 'Gina e Harry' da cabeça, porque isso não vai acontecer.

Eu tenho plena ciência de que eu deixei o salão comunal tão vermelha quanto o meu cabelo.

Depois que me acalmei e quando estava quase chegando à sala de aula, parei para analisar o que Ron havia me dito, e a verdade é que não era lá tão absurdo. Qual era a garantia que eu tinha de que Malfoy não estava simplesmente me usando? Qual era a certeza que eu tinha de que tudo que eu estava fazendo por ele daria em alguma coisa?

Eu me sentei ao lado de Susana que, dado a minha expressão de poucos amigos, não me fez perguntas. Eu não foquei minha atenção na aula sequer uma vez. Estava ocupada demais repassando o diálogo que tivera a pouco com meu irmão.

Ao termino da aula, me dirigi à biblioteca para estudar um pouco antes do almoço. Eu havia conseguido me concentrar na matéria e estava até que indo muito bem em entender os nomes complexos escritos no livro de Herbologia quando Malfoy se sentou ao meu lado.

- O que aconteceu? – ele perguntou.

- O que quer dizer? – perguntei sem tirar os olhos do livro.

- Você saiu correndo do café da manhã. Depois disso não te vi mais, e agora, você parece estressada.

Madame Pince nos olhou com uma cara de 'mais um pio e vocês vão ver', então peguei um pedaço de pergaminho e minha pena e comecei a escrever.

"Rony me disse algo que, talvez se eu não tivesse ouvido dele, eu não desenvolveria por mim mesma."

"Tipo?"

"Que eu estou absurdamente e me machucar nessa situação entre nós. E que nada me garante que você não esteja simplesmente tirando uma da minha cara ou me usando pra alguma coisa."

"E você acredita nele? Você acredita que estamos juntos só por causa de meu interesse?"

"Não estamos juntos."

Ele me olhou sério. Eu não conseguia ler nada naquela expressão que ele fizera. Era isso que mais me amedrontava.

"Não me olhe assim" – voltei a rabiscar.

"Você quer que eu te olhe como? Você percebe do que está me acusando?"

Eu não escrevi. Encostei-me na cadeira e cruzei os braços, me afundando em minha tristeza.

Ele suspirou e voltou a escrever.

"Eu sei que é difícil imaginar que as minhas intenções são as melhores, mas você tem de acreditar em mim. Eu sei como sangue é mais forte do que água, mas eu te peço pra que não dê ouvidos ao Ron e me escute. Me dê um voto de confiança."

Eu o analisei e suspirei.

Analisando seus olhos, eu não consegui ficar desconfiada como deveria. Eu queria acreditar nele. E foi o que fiz.

"Se te pegar mentindo, você está morto." – rabisquei.

Ele sorriu como se tivesse ganho uma batalha extremamente difícil dentro de uma guerra interminável.

Eu não era fácil. Muito menos meu temperamento, mas Malfoy sempre dava um jeito de me melhorar.