Os dias que seguiram não foram diferentes do normal. Encontrávamo-nos nos corredores de vez em quando, marcando de estudar na biblioteca. Lá ficávamos por algum tempo, absortos em nossos livros e deveres e, depois de julgar terminado nosso ânimo para estudos, voltávamos a conversar através de pedaços jogados de pergaminho.
"Lembro de você mencionando o baile a mais ou menos uma semana atrás."
"Lembro disso também"
"O que acha de irmos juntos?"
Eu fiquei olhando para aquela frase durante alguns segundos. Quantas vezes eu não sonhei com aquilo acontecendo? Mas por que então, naquele momento, aquilo não parecia certo?
Olhei para Malfoy e balancei a cabeça negativamente. Ele franziu o cenho em resposta.
- Por quê? - ele perguntou em sussurro.
- Porque não é uma boa ideia.
Ele pegou o pergaminho de minhas mãos e rabiscou rapidamente.
"Vamos sair daqui".
Enquanto eu recolhia minhas penas e meus livros, eu podia ver que Malfoy não havia ficado muito contente com minha rejeição. Ele enfiava os livros em sua mochila como se quisesse fazer com que os mesmos atravessassem o couro. Depois de estar com tudo pronto, ele fez um sinal com a cabeça para que eu o seguisse para fora da biblioteca. Já era quase hora do jantar e as salas estavam em sua grande maioria vazias, então ele girou a primeira maçaneta que encontrou pela frente e achou uma sala de aula que estivesse disponível.
- Entre. – ele pediu acenando com a cabeça.
Eu o fiz e sentei em uma das carteiras próximas à porta. Ele fechou a porta com um baque surdo e se sentou ao meu lado.
- Por que não quer ser vista comigo Weasley? – ele perguntou.
- Você bebeu? - perguntei com uma expressão de dúvida. - Por que está achando isso?
- Porque você parece ver um problema em me acompanhar no baile de Natal.
- Não é exatamente um problema. E se fosse, como você disse, o fato de ser vista com você, acha que eu estaria andando pra cima e pra baixo pelos corredores em sua companhia?
- Então me explica o porquê de eu não poder te levar ao baile.
- Porque por mais que eu ame você, eu me amo mais. É muito para mim.
- Isso tudo é por que eu não disse que te amo? E se eu disser que eu amo?
- Eu sei que você estará mentindo.
- Isso é ridículo! Olhe o que você está me cobrando! Eu... eu ainda não sei o que eu sinto por você, tá legal? – ele disse levantando da carteira e passando a mão nos cabelos.
- Eu disse, desde o primeiro dia, que eu não estava te cobrando nada. A única coisa que estou cobrando de você é um pouco de compreensão! Você acha que é fácil? Eu fui um livro aberto com você, eu entendi sua posição de não saber o que você sente e eu nunca, nem por um segundo, te disse para decidir logo, para se resolver. Mas apesar de tudo isso, eu não sou uma menina de meio sentimento.
Malfoy não olhava pra mim. Ele encarava o quadro negro como se tivesse algo de fascinante nele. Eu suspirei.
- Se for preciso te esquecer, eu vou te esquecer, Draco. Só não ache que eu sou aquela menininha de dois anos atrás. Eu não me contento com a metade de nada.
Ele não falou mais nada, então virei as costas e voltei para a torre da Grifinória, para largar meu material e descer para jantar.
Não posso dizer que estava com o melhor dos apetites, mas tinha de comer algo, então me arrastei até o salão principal para jantar.
- Finalmente! – disse Hermione ao me ver. – Não te vejo faz dias.
- Estudando muito. – respondi. Rony me olhou de esguelha.
Eles continuaram conversando, mas eu não estava prestando muita atenção. Não sei quantas vezes eu olhei para minha torta de carne antes de comê-la. Estava quase terminando de comer quando Malfoy entrou no salão acompanhado de Blaise. Quando nossos olhares se encontraram . Eu me levantei sem comer a sobremesa e fui para a saída. Passei por ele como um furacão, sem nem ao menos olha-lo. Ao dirigir-me para a minha torre, ainda sentia seu perfume.
Eu fiquei deitada na minha cama, lendo o mesmo trecho de Herbologia infinitas vezes sem entender uma letra. Eu nunca fui de brigar e me sentia péssima quando discutia com alguém. Eu estava prestes a fechar o livro de vez e me preparar para dormir quando Hermione bateu na porta de meu dormitório.
- Gina? Malfoy está na frente da entrada do salão comunal. Ele pediu para te chamar.
Suspirei, fechei o livro e me levantei. Peguei um casaco quente, joguei por cima da roupa que estava e o fechei.
- Está acontecendo alguma coisa que eu deveria saber? – ela perguntou com as sobrancelhas franzidas.
- Não, Hermione. Nada. – disse enquanto passava por ela me preparando psicologicamente pelo que devia estar por vir.
Desci, atravessei o salão comunal como um furacão e passei pelo retrato da mulher gorda, encontrando Malfoy escorado em uma parede, de braços cruzados em frente ao corpo.
- Tem um tempo pra mim? – ele perguntou se endireitando.
- Bom, se eu dissesse que o meu estudo está surtindo frutos lá em cima eu estaria mentindo. – eu disse cruzando os braços.
Nós caminhamos pela escuridão de Hogwarts sem falar nada. Cruzamos o lado externo do castelo em direção ao campo de quadribol. Achei estranho o cenário da conversa, mas não contestei. Subimos nas arquibancadas, ainda sem falar uma palavra sequer. Nos sentamos.
- Lugarzinho gelado que você escolheu, hein. – disse colocando o capuz do casaco por cima de meus cabelos.
- Me desculpe por hoje. – ele disse. – Eu fui um imbecil.
- Todo viciado tem sua recaída.
Ele me olhou de relance e voltou a baixar os olhos para os pés.
- Eu sei que eu estou te pedindo muito... ter paciência comigo não é fácil, principalmente porque eu nunca passei por uma situação dessa antes. Mas eu quero dizer que acho que estou perto de descobrir o que é isso que eu sinto por você.
- Como você sabe?
- Eu me senti mal quando nós discutimos. Eu quis remediar a situação o mais rápido possível. Eu vi que eu não consigo ficar longe de você por muito tempo e toda vez que algo acontece eu sempre penso primeiro que eu preciso te contar. – ele tomou fôlego, como se tivesse para fazer uma confissão dolorosa. - Fora que agora, o que eu mais quero, é segurar sua mão... e te beijar.
Eu me senti ficando vermelha, envergonhada até a raiz do cabelo. Senti minhas bochechas ficando quentes e minhas mãos tremendo. Eu fiquei olhando para aqueles olhos azuis, tentando lembrar direito como respirar. Então eu tirei minha mão de dentro do bolso do meu casaco e segurei a dele. Fria, com os dedos longos e a pele macia.
- Qual era a outra parte mesmo? – perguntei envergonhada.
Ele então apertou minha mão, me puxou para seus braços e encostou seus lábios nos meus.
