O drapeado da cortina da minha cama estava desfiado do lado esquerdo e eu achei uma mancha na parte inferior da cortina que eu nunca tinha visto na vida. É incrível a quantidade de conhecimento que você obtém sobre coisas inúteis quando você não consegue dormir de jeito algum.

Eu sorria para o teto revivendo os acontecimentos daquela noite, repassando todas as sensações deliciosas que aquele beijo havia me trazido. Sentava-me na cama, me levantava andando pelo quarto tentando me manter em silêncio, tentando fazer com que eu ficasse tão cansada a ponto de não conseguir mais ficar acordada.

Pena que não estava fazendo nenhum efeito.

Eu tinha de descansar, eu tinha de dormir pois no dia seguinte o jogo de quadribol seria logo de manhã e eu não perderia o jogo por nada, afinal, que melhor oportunidade eu tinha de ficar me deleitando na visão de Malfoy?

De manhã, o sono era o menor dos meus problemas. Depois de pouquíssimas horas de sono eu ainda fui a primeira a levantar do meu dormitório. Coloquei o uniforme voando, me agasalhei bem e por último joguei o cachecol de minha casa por cima de minha capa preta.

Desci as escadas correndo e passei rapidamente pelo salão para pegar rapidamente uma torrada, indo direto para os campos de quadribol logo depois.

Tudo ainda estava bem quieto. Somente uma meia dúzia de pessoas que talvez, como eu, tivessem acordado antes do esperado. Fiquei na entrada do campo, olhando a movimentação das pessoas que começavam a se dirigir para o jogo. Uma, cinco, quinze pessoas passaram por mim enquanto esperava em frente ao campo. Onde ele estava afinal?

De repente, senti alguém pegando minha mão direita e me puxando para o lado. Quando me virei para ver quem era, Malfoy estava lá, piscando com um olho e me pedindo silencio com seu dedo fino sobre seus lábios. Minhas preocupações migravam entre não agarrá-lo inconsequentemente enquanto ele me puxava e entre não ter sido vista por ninguém enquanto ele me arrastava por aí.

Ele me pedia silêncio, mas como eu podia ficar em silêncio se tudo que eu mais queria dizer era como eu tinha sentido sua falta?

Ele me "arrastou" até um local mais distante da entrada, atrás do campo de quadribol onde ninguém podia nosver. Ele parou em minha frente e sorriu.

- Odeio esse cachecol. – ele disse batendo nas franjas do tecido vermelho e amarelo pendurado em meu pescoço.

- Melhor do que esse seu uniforme verde-musgo-do-lago-podre. – respondi rindo. – Boa sorte hoje.

- Deve ser a primeira vez NA VIDA que eu ouço um "boa sorte" de uma grifinória. – ele disse cruzando os braços.

- Estamos cheios de primeiras vezes ultimamente. - disse dando ombros.

Ele sorriu e colocou a mão em meu rosto e tocou meus lábios com os seus.

Será que seria sempre assim? Essa descarga elétrica por todo meu corpo toda vez que ele me beijasse?

Ele usou a mão livre para aproximar meu corpo ao dele e me abraçou. Ah, os músculos do quadribol! Naquele momento desejei que ele nunca parasse de jogar se isso significasse ter sempre aquele corpo me segurando nos braços. Eu comecei a perder ainda mais o fôlego quando suas mãos apertaram minha cintura. Naquele momento eu me afastei.

- Wow! – eu exclamei quando meus lábios desencostaram dos dele. – De onde saiu isso?

- Desculpe. – ele suspirou.

- Não precisa se desculpar. – eu disse sorrindo abobadamente e tentando recuperar o fôlego em longas respirações.

Ele sorriu, me beijou delicadamente nos lábios e apertou minha cintura mais uma vez, acredito que só pelo fato de achar engraçada minha reação. Eu me arrepiei novamente e apertei fortemente seus braços em resposta.

Meu Deus, o que era aquilo que eu sentia por ele?

- Bom, bom jogo, Draco. – eu disse sorrindo, provavelmente vermelha e com as minhas pernas moles que nem gelatina.

- Temos que nos ver depois do jogo. - ele disse com um tom de urgência na voz.

- Como?

- Eu vou dar um jeito, mas agora tenho de ir. – ele disse, mas parecia não querer se mexer do lugar.

- Me faça orgulhosa, apanhador.

Ele saiu correndo para a entrada dos jogadores e me deixou ali, tentando recuperar a força nas pernas para subir até as arquibancadas. Quando consegui, a goles estava para ser lançada. Susana acenou para que eu fosse até ela e eu, após passar por estudantes eufóricos, consegui.

- Onde você estava? – ela gritou para que eu pudesse ouvi-la em meio à torcida. – Te procurei por todos os lugares.

Eu ouvi. Juro! E juro que processei a pergunta, mas não consegui pensar em nenhuma resposta boa suficiente para contar a ela que eu estava me agarrando com Malfoy atrás do campo de quadribol. Eu só sorri e olhei para Malfoy que estava voando em campo.

- Não! Não... NÃO! Jura? – ela disse gritando e olhando para Malfoy.

- Conversamos mais tarde! – gritei e volta e me pus a assistir o jogo.

Susana insistiu mais um pouco, mas ela não arrancaria mais nenhuma palavra de mim, principalmente naquele mundo de gente.

Sonserina ganhou.

E o que isso que importava? A única coisa que me importava era poder me encontrar com malfoy uma vez mais. O que era essa necessidade de estar sempre perto dele, o que era essa saudade absurda?

Enquanto os torcedores se dissipavam após o jogo, Susana pediu para que ficássemos nas arquibancadas para conversarmos.

- Explicações?

Começou o inquérito.

- Sobre? – perguntei como se não soubesse de nada.

- Qual é, Gina, me conte!

Eu raciocinei tudo que podia dar errado caso eu contasse para ela. E se meus irmãos a pressionassem para saberem de mais detalhes? Se por acaso alguém jogasse Veritasserum em seu suco quando ela não estivesse vendo? Valia mesmo a pena contar?

- Não há nada pra contar, sério. – disse dando ombros. – Eu só desencanei dessa história de ficar me torturando mentalmente por causa dessa situação. Eu gosto dele e pronto e não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Eu comecei a apreciar o que eu sinto por ele, porque querendo ou não ele me faz feliz.

- Pensei que tivesse acontecido algo bombástico. – ela diz parecendo desapontada.

- Me sinto ofendida! – retruquei em tom de brincadeira. – Mudo totalmente minha postura e abro meu coração para você e você me despreza assim?

- Não leve a mal, Gina! É que pelo andar da carruagem, pensei que estivesse dando em algo.

AAAHH se ela soubesse...

Dei ombros e sorri.

- Vamos, estou congelando. – disse levantando e indo em direção à saída do campo.

Susana me seguiu a contragosto. Até cheguei a pensar que ela não tinha exatamente acreditado em minha história, mas após de um tempo a expressão de ponto de interrogação dela desapareceu e eu relaxei.

Relaxei naquelas.

Draco havia dito que daria um jeito de nos encontrarmos após o jogo, mas depois do movimento ter acabado no campo, eu não o havia visto em lugar algum.

Ele não me deixara escolha. Fui até meu dormitório e tomei um banho, penteei meus cabelos e pus uma roupa mais quente.

E depois? Bom, sabe o que dizem sobre cabeça vazia ser oficina do diabo? Pois bem...

Fiquei lá pensando sobre se isso de fato daria certo, se eu realmente não estava me metendo em encrenca. Rony havia feito um belo trabalho plantando caraminholas em minha cabeça.

Ele não podia estar certo... quer dizer... até o momento ele não havia pisado na bola comigo uma vez sequer. Mas sempre há uma primeira vez, afinal, não era eu mesma que havia dito que estávamos cheios de primeiras vezes ultimamente?

Enquanto minha cabeça trabalhava de uma forma não lá muito produtiva, o tempo passou.

E como passou.

Onde ele estava? Será que esse seria o primeiro bolo que ele me daria?

Se fosse, seria o primeiro e o último.

Aaah Malfoy, sempre me tirando do sério.