2 – TEMPESTADE
Haldir permanecia com seus olhos fixos na mulher. O imortal se encontrava agora constrangido por haver reagido à provocação da jovem. Teria sido melhor ignorar, o que seria normalmente muito fácil para o guardião da floresta, afinal o elfo sabia que a mulher havia dito aquilo da boca pra fora. Parecia orgulhosa e era evidente que a insinuação de que estivesse encantada com o olhar de um 'homem' não lhe agradara.
Entretanto, os olhos da jovem também o intrigaram. Quando, ao entrar, a olhara rapidamente na janela, algo nela atraíra sua atenção. Sentira um leve interesse pela mortal: um misto de curiosidade e algo mais que o imortal não sabia exatamente como definir. A mulher estrangeira possuía um olhar de fera assustada aliado a uma beleza selvagem. Algo que o elfo não compreendera, mas que, definitivamente, o cativara.
Todavia, também sentira a presença de um mal oculto.
Nesse momento, Eowyn apareceu. Apenas uma vez vira a amiga com aquele olhar. Fora há quase um mês, quando a estrangeira lhe contou sobre sua vida e o que a fizera chegar a Rohan. A sobrinha do rei abaixou-se até a criada, indagando-a sobre o ocorrido:
- Em nome do Único, o que aconteceu aqui?
A mulher nada respondeu. Levantou-se com a ajuda de Eowyn que, pela expressão do rosto da criada, compreendeu que sua pergunta seria respondida no momento oportuno. Entretanto, o filho de Glóin não possuía a mesma paciência da Senhora de Rohan.
- Senhora, por conta de um incidente fútil sua amiga ofendeu a todos nós, inclusive ao Capitão Haldir!
- Gimli... – Aragorn tentou evitar o prolongamento da situação, pois sabia que não haveria nenhuma vantagem nisso. Todavia, o anão prosseguiu:
- Como se não bastasse, essa rameira quase se atirou nos braços do elfo, apenas para tentar esfaqueá-lo traiçoeiramente!
Éowyn olhou para a criada que respirava profundamente a fim de se controlar.
- Eu estou confusa...- disse a sobrinha do rei.
- Não foi nada demais, Senhora – o filho de Arathorn tentava contornar a situação que se tornava cada vez mais constrangedora para todos – tenho certeza de que sua amiga lhe explicará o que ocorreu e tudo ficará bem.
- O quê? Essa assassina quase mata a mim e ao Capitão e você diz que não aconteceu nada! E ainda por cima fica se fazendo de vítima sem dizer uma palavra!
- Gimli, já chega. Aragorn tem razão. Estamos apenas perdendo tempo – Legolas, interveio.
- De jeito nenhum! Se não se importam com a honra de vocês, eu não tenho nada a ver com isso, mas eu me importo com a minha e exijo que seja reparada. Essa mulher nos comparou a orcs! Que se retrate e peça perdão.
Os olhares se voltaram para a estrangeira e pela expressão de seu rosto, tiveram a certeza de que nenhum pedido de perdão seria feito. A criada deu as costas para todos e começou a ir embora, pois sabia que se ficasse...
- Para onde vai, sua rameira? Se seus pais não lhe ensinaram a ser uma mulher decente, poderiam ter pelo menos lhe ensinado boas maneiras.
Os presentes prenderam a respiração. Legolas e Aragorn levaram as mãos ao rosto. Pensaram em pedir mais uma vez ao amigo que se calasse, mas seria inútil. A teimosia dos anões não tinha precedentes. A jovem voltou-se novamente para o grupo. Cada um deles pode sentir seus os ossos gelarem diante daquele olhar, mesmo o anão pensou por um segundo que talvez houvesse exagerado. O olhar de pedra e gelo fixou-se no filho de Glóin e a mulher inquiriu pronunciando lenta e mortalmente cada palavra:
- O que você disse?
- ...
- Conheceu meus pais, anão? Como pode achar que tem o direito de ofendê-los assim? Agora é você quem vai se retratar ou arranco seus olhos com minhas próprias mãos.
A mulher apanhou uma espada do chão. O anão instintivamente levantou o machado. A jovem prosseguiu:
- Vejo que não vai dizer nada. Quer lavar sua honra? Que tal lavá-la com sangue?
- Uma luta? Seria covardia, não luto com mulheres.
Não se contendo em atiçar ainda mais a ira de seu futuro oponente, a criada sorriu sadicamente e indagou:
- Mulheres lhe apavoram tanto assim?
Gimli ficou possesso, aproximou-se da mulher e demonstrando sua indignação esbravejou:
- Como se atreve?
- Não foi uma mulher que quase cortou sua cabeça fora agora há pouco? – A jovem mal conseguia conter a satisfação em ver o filho de Glóin cair em sua teia.
Diante daquilo, Eowyn tomou a frente:
- Senhores, por favor, acho que é óbvio que nenhum desses dois vai abrir mão de suas convicções. Vamos deixar que resolvam isso de uma vez. Entretanto, que seja uma luta justa e nada de lavar a honra com sangue – disse ao olhar para a estrangeira que, levemente contrariada, baixou a cabeça em sinal de aceitação – o perdedor deverá se retratar.
- Senhora - disse o filho de Arathorn - sua criada poderá se machucar.
Eowyn não resistiu e com um leve sorriso respondeu:
- Com todo respeito meu Senhor, temo mais pela integridade física e moral do seu amigo do que pela dela.
As duas se afastaram um pouco e Eowyn, com um tom de repreensão disse à jovem:
- Espero que você saiba o que está fazendo.
- Sinto muito senhora, não era minha intenção. Quando isso terminar, garanto que posso lhe explicar tudo.
- Não será necessário, vi quase tudo que aconteceu quando estava descendo as escadas. Você precisa aprender a controlar esse seu gênio. Bastava ter apanhado as espadas e ido embora.
- Senhora...
- Além, disso, por que você foi demonstrar seu interesse pelo elfo?
- Meu interesse? Que interesse? Isso é ridículo!
- Olhe nos meus olhos e me convença de que o capitão não chamou sua atenção.
A criada calou-se. Era difícil negar algo tão evidente.
- Vai ficar fofocando o resto do dia? - Questionou Gimli impacientemente.
A mulher voltou-se para o anão e se postaram um diante do outro.
- Como é mesmo que você se chama? – indagou o filho de Glóin.
- Eu não tenho nome – disse a criada enquanto andava de um lado para o outro lentamente - não preciso de um nome.
- E essa agora, mulher, todo mundo tem um nome – comentou, Gimli irritado com a arrogância feminina – você sabe meu nome, tenho o direito de saber o seu.
- Pois não faço questão de pronunciá-lo. Prefiro simplesmente lhe chamar de anão. É apenas isso o que você é para mim.
- Quanta petulância!
- Que seja, então – a mulher parou e apontou sua espada para o filho de Glóin – se faz tanta questão de um nome, invente um.
- O quê?
- Pense, anão: o que eu significo para você? E enquanto pensa, sinta o gosto da minha espada!
A criada avançou em direção ao amigo de Aragorn e a luta começou. O anão parecia inicialmente pouco a vontade em lutar com uma mulher, mas não demorou muito em superar isso, afinal, em uma luta, ela realmente não lembrava em nada uma mulher. O vestido cinza escuro, que ia até um pouco abaixo dos joelhos, estava gasto. As botas que usava não estavam em melhor estado, contudo a jovem não parecia ser dada a vaidades. O anão a derrubou, uma, duas vezes. No terceiro golpe a criada foi jogada contra a parede e escorregou até o chão. Gimli voltou-se para os amigos e disse:
- Foi mais fácil do que pensei. Queria lhes proporcionar algum divertimento, sinto muito.
Haldir observava com interesse o desenrolar do combate. Para o elfo, experimentado como era nas artes da guerra, ficou claro que a mortal estava apenas se familiarizando com o estilo do anão. Testando sua força.
A jovem levantou-se. Estava na hora de ensinar de uma vez por todas aquele ser desprezível a respeitá-la.
- Quer desistir, Anão? É sua última chance.
- Acho que meu golpe rachou sua cabeça... Venha, mulher sem nome, não tenho medo de você.
A luta recomeçou. Entretanto, algo havia mudado. Os movimentos da mulher ficaram mais rápidos, embora não fossem refinados. Via-se claramente que ela antecipava os movimentos do anão. O barulho da espada se encontrado com o machado havia se intensificado, enquanto os presentes observavam que os golpes da criada eram de uma brutalidade incomum. Em sua fúria já não a comparavam mais a um homem e sim a uma fera. Nela, a força subjugava a técnica. A mortal lutava com um desespero no olhar como se sua vida dependesse disso. E então uniu sua espada ao machado, as armas se prenderam, a jovem girou a espada e o machado voou das mãos do anão. Antes que a mulher o pegasse com a mão livre, derrubou o anão com um golpe de pernas enquanto Gimli, filho de Glóin, olhava para cima tentando entender o que o fizera soltar seu machado. A mulher apoiou o joelho no peito do anão e com a espada e o machado voltados para sua garganta disse:
- Com qual dos dois o senhor deseja que eu o mate, mestre anão?
O silêncio reinou naquele corredor. Lentamente a criada se levantou e saboreando o gosto da vitória, pronunciou cuidadosamente cada palavra:
- Considere sua retratação aceita.
A mulher jogou o machado ao lado do corpo ainda caído de Gimli, deu as costas, apanhou as armas e foi embora, deixando para trás um anão insano de ódio. Legolas tentara ajudá-lo a se levantar, contudo o filho de Glóin recusou. Seria o golpe de misericórdia em sua dignidade aceitar a mão estendida do elfo. Enquanto isso, outro elfo acompanhava com grande interesse a mortal desaparecer no final do corredor.
Aragorn, refletia sobre tudo o que tinha acabado de ocorrer. Não passara despercebido ao herdeiro de Isildur que a jovem só se dispusera a retirar a adaga da garganta de Gimli instantes atrás após sua intervenção. Por que suas palavras teriam tido essa influência sobre ela? Dirigindo-se à Senhora de Rohan, comentou, o cavaleiro do Norte comentou:
- Ainda bem que ela está do nosso lado.
- Eu não estaria tão certo disso se fosse você - disse o Anão, tentando se recompor.
- Podemos contar com sua criada na batalha, Senhora? - Legolas perguntou.
- Pode ter certeza que sim – Eowyn sentia-se feliz pela pequena vitória da jovem. Pequena, sim, diante de tudo pelo qual aquela estrangeira passara e ainda passava,
- O que você acha Haldir? – Aragorn se dirigiu ao capitão – Você já enfrentou mais batalhas em seus séculos de existência do que todos nós. O que acha dessa mulher?
Haldir teve que se conter para não deixar transparecer a forte impressão que a mortal lhe causara:
- Muitas coisas podem alterar o curso de uma batalha, Senhor Aragorn, todavia algumas são imprevisíveis como as tempestades. Para mim, aquela jovem é como uma tempestade.
Os presentes olharam para o Guardião da floresta esperando que este concluísse seu raciocínio:
- Uma tempestade pode ajudar a um ou a outro exército, dependendo de que lado ela virá e de como estarão os soldados e o campo de batalha. Isso não pode ser previsto na maioria das vezes. Por isso é sempre bom estar preparado para o pior.
- Estão vendo, até o capitão concorda comigo. Não devemos confiar nela – disse o anão satisfeito por ter seu pensamento apoiado pelo imortal. Entretanto, Haldir ainda não tinha concluído seu raciocínio.
- Não, mestre anão, não foi isso que eu disse. Devemos estar preparados para o pior, mas isso não significa que também não possamos esperar pelo melhor. O conhecimento é a melhor estratégia em uma luta. Conhecer os inimigos e conhecer os aliados é o primeiro passo para a vitória. Na maioria das vezes esta é conseguida não durante a batalha e sim antes. Precisamos descobrir mais sobre aquela mulher.
O grupo se curvou diante das palavras do sábio guerreiro que pouco falava, porém quando o fazia, nunca deixava que suas palavras se perdessem.
- Há muitas perguntas a serem respondidas – disse Aragorn. Quem é ela? De onde veio? Como veio parar aqui? Por que falou de Sauron com tanta familiaridade?
O anão dirigiu-se a Eowyn:
- A Senhora poderia nos responder estas perguntas, não poderia minha Senhora?
- É melhor que ela mesma o faça.
- Aquela jovem realmente não tem nome? – Perguntou Aragorn.
- Não que eu saiba.
- Então como confia tanto naquela mulher? – Quis saber o filho de Thranduil.
- Às vezes, meu senhor Legolas, a informação menos importante que se tem de alguém é o nome. Os senhores entenderão quando falarem com ela.
- Acho que a pessoa mais indicada para fazer isso é o Senhor Aragorn. A jovem pareceu respeitá-lo - disse Haldir.
- Isso é verdade, ela o admira, assim como todos os soldados. - concordou Eowyn.
- Então é melhor eu ir procurá-la - disse Aragorn.
