3 – CONVERSAS

Haldir fora ver como estavam seus soldados antes de procurar um lugar na muralha onde pudesse ficar a sós com seus pensamentos. Recostara-se na parede fria e recordava sua conversa com o que restou da Sociedade do Anel. Disse que deveriam tentar descobrir quem era aquela estrangeira, como se fosse apenas um conselho militar, entretanto era mais do que isso. O elfo realmente desejava saber mais sobre aquela mulher.

- Há muito que eu não via alguém causar tamanha tempestade em seus pensamentos... e em seu coração, guardião – o filho de Thranduil aproximara-se sem que Haldir houvesse percebido.

- Sente-se, Legolas, meu irmão. Sei que de você não consigo esconder nada – Haldir não costumava expor seus pensamentos, contudo sentia-se a vontade com o jovem príncipe élfico.

- Já partilhamos muitas coisas juntos – o habilidoso arqueiro recostara-se na parede ao lado do guardião.

- É verdade... - o capitão dos elfos permanecia em silêncio enquanto Legolas aguardava que o amigo se sentisse a vontade.

- O que você achou da criada da senhora Eowyn? – perguntou finalmente o servo de Galadriel.

- Definição mais precisa que a sua eu não poderia dar. Ela é um turbilhão de pensamentos e sentimentos.

- Algo a está matando – disse Haldir pensativo.

Legolas questionou com o olhar.

- Sim, ela está morrendo, pude ver nos olhos dela. Quando segurei seu braço pude sentir a presença da morte. Você não notou que ela usava uma espécie de luva que cobria quase todo o braço direito? Lá existe um ferimento pelo qual sua vida está se esvaindo.

- Valar! Você prestou mesmo atenção naquela mortal. Mas como poderia ser? Ela segurou a espada com segurança, lutou e venceu.

- Aquela mulher tem muita vontade de viver. Deve ter um motivo muito forte para isso. Talvez tenha esperança de que consiga escapar.

- Apesar de aparentar gozar da confiança da senhora de Rohan, ela parece trazer um grande mal consigo - partilhou Legolas!

- Eu também senti isso, contudo não deixei de sentir nela algum bem.

Enquanto os elfos conversavam, a criada surgiu em uma parte mais elevada da muralha. Ficava um pouco acima de onde os imortais estavam. Uma escada ligava os dois vãos da muralha. A mulher não percebeu a presença dos imortais. Então, seus olhos se fixaram no Leste. Estava imóvel. Seu rosto não demonstrava nenhum sentimento. Parecia hipnotizada. Ficou assim por alguns minutos. Haldir e Legolas a observavam cuidadosamente e não se moviam a fim de não atrair a atenção da criada para si. A humana olhava para o Leste e isso não era bom. Olhava em direção a Mordor, lar de Sauron, Senhor do Escuro, de quem falara de uma forma que os havia intrigado.

- Vou avisar Aragorn, talvez ele ainda não tenha falado com ela. Não a perca de vista. Embora eu saiba que não preciso dizer isso...

Haldir olhou para seu amigo um pouco inconformado em saber que ele estava certo:

- Vá logo!

O guardião continuou a observá-la e quando a mulher se virou buscando um local onde se sentar, o elfo percebeu que ela segurava um pedaço de pergaminho o qual começou a rasgar em pedaços que levava à boca. 'Pelo Único, por que essa mortal está comendo isso?' refletia o imortal. A mulher sentou-se. Não mais olhava para o leste. Olhava para o céu contemplando as poucas estrelas que já começavam a aparecer. Passados alguns minutos, chegaram Aragorn e Legolas.

- Alguma novidade, Haldir?

- Não. Nenhuma – o imortal achou por bem guardar o fato do pergaminho consigo. Se no futuro julgasse que possuía alguma importância o revelaria. Não gostaria de aumentar as preocupações do já tão sobrecarregado filho de Arathorn .

- Vamos até lá – disse Aragorn.

Os três subiram a escada calmamente. Aragorn, Legolas e por último, mas não menos interessado, Haldir. Eles concordaram em deixar que Aragorn fizesse todas as perguntas. A mulher voltou o olhar para os guerreiros e, surpresa, levantou-se ao ser chamada por Aragorn:

- Senhora, precisamos lhe falar.

- Como, meu senhor? De que me chamou? – A mulher definitivamente não se sentia a vontade em ser tratada daquela maneira, entretanto os guerreiros se entreolharam sem compreender. O que havia de estranho no modo como se dirigiram a ela? Sem esperar que sua pergunta fosse respondida a criada prosseguiu - Chame-me do que quiser, meu senhor, mas não me trate com uma deferência da qual sei que não sou digna.

- E por que não seria? – Retrucou o herdeiro de Isildur.

- Bem se vê que sabe muito pouco sobre mim, meu senhor.

- É precisamente esse o assunto que nos traz aqui. – A mulher questionou Aragorn com o olhar e o guardião do Norte ficou grato pela oportunidade. Não estava certo de como deveria começar.

- Então irei chamá-la de Tempestade, senão se importa.

- Tempestade...?

- Afinal é isso o que a senhora significa para nós no momento. Algo imprevisível, já que não sabemos muito sobre a senhora. Não foram essas suas palavras?

- Sim, meu senhor, sendo assim, sinto-me honrada - disse baixando levemente a cabeça.

- Precisamos saber se devemos considerá-la uma inimiga ou uma aliada e creio que não pode negar que temos nossos motivos para isso.

Aquilo realmente a surpreendeu. Será que ela estaria preparada para responder? Seu desatino em ter se deixado levar pelo nome 'Haldir' estava tendo muitas conseqüências. Éowyn estava certa. Deveria simplesmente ter apanhado as espadas e ido embora, em vez de ceder a curiosidade de saber mais sobre aquele estrangeiro. E o capitão estava lá, aumentando ainda mais o risco que ela corria de mostrar mais do que poderia ou deveria.

- Estou a sua disposição, meu senhor.

- Pois bem. Já sabemos que não adianta perguntar seu nome. Então vamos à segunda pergunta: de onde você veio?

Tempestade respirou fundo. Tentaria falar o mínimo possível:

- De Mordor, meu senhor.

Os guerreiros se entreolharam. De todos os lugares da Terra Média, aquele era o menos provável. Mas já deveriam esperar por isso, pois foram estas as palavras de Haldir: 'É difícil saber de onde vem uma tempestade'. Contudo, isso explicava de onde ela 'conhecia' o senhor do escuro e sabia sua opinião sobre Haldir.

- De Mordor?

- Sim.

- Como alguém pode viver em Mordor ou vir de lá sem ser um orc?

Lembranças cruzaram a mente da mulher. Cenas do tempo em que vivera entre aquelas criaturas abomináveis, nas mãos das quais sua vida estivera e, de certa forma, ainda estava.

- Sendo um escravo ou, no meu caso, uma escrava, meu senhor. – Tempestade baixou o olhar fixando-o em um ponto qualquer do chão entre ela e seus inquisidores. Esperava não ter que dar mais nenhuma explicação.

O silêncio fez-se ouvir. Os elfos e o herdeiro de Isildur sabiam de rumores sobre humanos que eram capturados e mantidos como escravos em Mordor, contudo nunca tinham ouvido falar de alguém que tivesse vivido tempo suficiente ou que tivesse tido forças para conseguir escapar. Ainda mais sendo uma mulher. Aragorn resolveu não submeter a jovem a um constrangimento desnecessário. Os prováveis 'trabalhos' realizados por uma escrava em Mordor não seriam dignos de nota.

- Como isso aconteceu?

- Fui raptada pelos orcs.

- Você e sua família, eu suponho – o filho de Arathorn pronunciava cuidadosamente as palavras, pois sabia que o assunto deveria ser delicado e trazer lembranças dolorosas.

- Minha família foi morta por tentar reagir. Apenas eu fui poupada.

- Onde vocês viviam.

- Nos arredores de Mordor.

- Por quê?

- Há dez anos, antes do poder do Senhor do Escuro aumentar, ainda era possível viver por lá. Difícil, mas possível.

- Por que alguém escolheria morar lá?

- Eu não sei, meu pai sempre nos disse que não poderíamos morar em outro lugar. É tudo o que sei.

- Como você escapou de Mordor?

- Um dia eu estava muito ferida. Quase morta. Os servidores do senhor do escuro costumam jogar os cadáveres em um córrego apodrecido que passa lá perto e para não fazer o percurso muitas vezes, jogavam os moribundos também. Era o meu caso naquele dia. Então eu me apoiei nos cadáveres até me afastar da fortaleza. Saí do rio e caminhei por algumas horas. Com que forças? Não sei quais. Encontrei um cavalo. Ele parecia tão perdido quanto eu. Montei-o e fui levada por ele em direção à terra dos Senhores dos Cavalos onde a Senhora Eowyn me encontrou, cuidou de mim e me mandou para cá.

- Quando isso aconteceu?

- Há quase um mês.

- É uma história e tanto.

- É a pura verdade.

- Não estou dizendo que não seja - o herdeiro de Isildur e a ex-escrava de Mordor trocaram um olhar. Aragorn reafirmava acreditar nela.

- Está satisfeito, meu senhor.

- Ainda não.

A resposta do herdeiro do trono de Gondor a deixou angustiada. Já tinha dito todas as coisas que poderia dizer. Algumas eram verdades, outras, nem tanto...

- O que mais deseja saber, meu senhor?

- Onde você aprendeu a lutar?

- Em Mordor.

- Como?

- Dentre outras coisas – Tempestade baixou o olhar novamente por um breve momento antes de voltar a encarar seus interlocutores - os orcs fazem com que os escravos lutem entre si ou com outros orcs ou com ... wargs. Isso os diverte. Quem vence, vive. Quem perde é castigado ou morre.

- Perdeu muitas vezes, Tempestade? – A voz do guardião do norte soou compreensiva. Aragorn tentava uma aproximação e como era esperado o diálogo foi interrompido por um breve silêncio.

- Sim, meu senhor.

- Foi muito castigada então?

Um olhar feminino inconformado foi dirigido ao herdeiro de Isildur. 'Por que insistir neste assunto?'

- Sim – a resposta monossilábica fez Aragorn compreender que a ex-escrava de Mordor chegara ao limite de sua paciência.

Apenas Legolas e Haldir, com sua sensibilidade élfica perceberam como aquele sim fora pronunciado com uma dor que eles nunca tinham visto antes. Os imortais não suportavam pensar no tipo de castigo que era reservado a uma escrava em uma terra habitada por criaturas tão vis, como os orcs. Aragorn, que simpatizara com o jeito rebelde da jovem desde o primeiro momento, sentia agora por ela uma grande solidariedade. Era típico do herdeiro de Isildur tomar sobre si o sofrimento dos outros.

- Você disse que foi raptada há dez anos. Sobreviveu nessas condições todo esse tempo?

- Eu aprendi rápido: sem dor, sem medo, sem pena. Só assim se sobrevive em Mordor.

- Matou muitas pessoas?

A mulher baixou novamente a cabeça. Para que perguntar isso? Não era culpa sua. Estava lutando por sua sobrevivência.

- Alguns, infelizmente.

- Muitos orcs?

Tempestade ergueu a cabeça:

- Muitos, prazeirosamente.

Elfos e homem se entreolharam. O tom de vingança era latente na voz da jovem, cuja selvagem beleza era eclipsada pelo ódio.

- E wargs?

- Mais do que se possa contar.

- Isso é difícil de acreditar. Lutamos contra vários deles no caminho para cá e perdemos muitos homens.

- No começo nos davam uma espada e lutávamos com filhotes, com wargs feridos, só depois enfrentávamos wargs adultos e saudáveis.

- Você consegue matar um Warg adulto usando apenas uma espada?

- Já consegui matar dois em um mesmo combate, meu Senhor, mas apenas uma vez. Na segunda, me feri e... aqui estou.

Os elfos trocaram entre si um olhar de incredulidade diante da afirmação da mortal a sua frente: dois wargs? Uma mulher? Sozinha? Com apenas uma espada?

- Lutou contra Uruk-hais? – prosseguiu Aragorn sem perceber a reação dos elfos, contudo ele também partilhava da dúvida que desceu sobre seus aliados imortais.

- Não, nunca.

- Já os viu?

- Já.

- O que acha? Poderia matar muitos?

A mulher olhou para o céu.

- Tantos quanto as estrelas.

E olhou para eles.

- Tantos quantos forem necessários.

Aragorn considerou a afirmação da criada um tanto pretensiosa, entretanto sentira vontade de rir ao pensar no que seu amigo anão diria se a ouvisse falar daquela forma. Contudo além de pretensão, o herdeiro de Isildur percebeu algo pior:

- Há vingança no tom de sua voz, Tempestade. A vingança e a ira não são boas conselheiras.

- São as únicas que me restam, meu senhor.

- E que tal a gratidão? Gratidão ao povo de Rohan que lhe acolheu e salvou sua vida?

- ....

- Pense nisso, Tempestade e alivie seu coração. Já não a vejo como uma inimiga. Porém você continua sendo uma aliada imprevisível, como disse Haldir. Continuaremos lhe chamando de Tempestade.

A mulher olhou surpresa para o guerreiro élfico com a boca entreaberta. Antes de se retirarem Aragorn respondeu a pergunta que parou na garganta dela.

- Sim, foi ele quem lhe deu esse nome.