Aquele cartão já havia visto dias melhores. Eu havia colocado ele no bolso, tirado ele do bolso, amassado, desamassado, quase jogado ele no lixo umas mil vezes e ainda sim não tinha me decido o que faria com aquilo.
EU podia dar uma de orgulhosa ferida e me negara usar a cortesia de Malfoy naquela loja caríssima, mas não faria isso visto que não tinha um galeão no bolso e não queria repetir o vestido em meu primeiro encontro oficial com Malfoy.
Decisão mais sensata então seria ir sozinha, escondida, sem ninguém me ver, mas a loja fica em Hogsmeade – como me esconder lá?! A escola inteira vive perambulando por ali e obviamente, com minha grande sorte, alguém me veria justamente na hora que estivesse entrando na loja.
- Olá, Gina! O que está fazendo?
- Comprando um vestido com o dinheiro que não tenho para um baile que não sei se vou com um par que ainda não arranjei.
Não, não parece bom. Explicação mais furada impossível.
Agora eu podia dar ouvidos a Malfoy – meu Deus, eu realmente disse isso?! – e contar para Susana. Rezar para que ela entendesse e me desse cobertura. Ela poderia ir comigo e me ajudar com a minha infinita decisão para escolher o vestido certo.
Por fim pus o cartão no bolso e fui atrás dela.
Susana adorava a biblioteca mais que qualquer ser humano que já conheci – menos Hermione. Quando cheguei próximo a mesa à qual ela estava sentada, Susana levantou os olhos e junto com eles uma de suas sobrancelhas em sinal de questionamento.
- O que está fazendo aqui? – ela sussurrou.
- Preciso falar com você. Tipo agora. – sussurrei de volta lhe estendendo o cartão todo amassado.
Ela o pegou com um olhar de quem não estava entendendo nada e simplesmente concordou.
- É melhor que seja bom. Estou ferrada em Transfiguração. – ela disse mais uma vez me devolvendo o cartão e me acompanhando para a saída da biblioteca.
Fazer com que Susana se mantivesse calada durante toda a longa história que tive de contar foi, de fato, a coisa mais difícil que fiz em minha vida. Ela tentava me interromper a cada sentença, fosse para perguntar algo, fosse para fazer uma interjeição de surpresa. Quando finalmente cheguei ao beijo, tive de resumir todo o restante da história pois ela não parava de saltitar pelo quarto.
- Susana, fique quieta, por favor! – disse rindo de sua histeria sem fim. Ela parecia, se possível, ainda mais feliz que eu.
- Como você não me contou isso antes, sua cretina?! – perguntou enquanto me jogava uma almofada na cara. – Por que tanto segredo?!
- Não é exatamente o relacionamento que todos de Hogwarts sabiam que fosse acontecer, Susana! Imagine o bafafá que isso não vai gerar quando vier à tona?!
- E vocês resolveram mostrar para o mundo o amor de vocês do jeito mais dramático possível? No baile de Natal?! – ela disse rindo. – Isso sim vai ser um tumulto! Imagino todas as garotas da Sonserina que não vão querer cortar os pulsos por te ver do lado de Malfoy.
- Não estou a fim de ser responsabilizada por um suicídio em massa, muito obrigado! – disse fazendo Susana se sentar à minha frente. – Mas preciso muito de ajuda para comprar esse vestido. Você sabe que eu sou indecisa, não conseguirei fazer isso sem sua ajuda.
- Um trabalho e tanto esse, mas o farei com prazer! – disse Susana se empertigando na cama. – Serei sua dama de "desonra"!
Eu não fazia ideia do que tinha de fazer – era só aparecer lá e ela saberia quem eu sou? Teria de marcar horário, aparecer com uma melancia no pescoço ou dançar a Macarena? Será que tinha um código secreto para entrar naquele lugar com vestidos nunca nem imaginados pela minha cabeça?
Antes de passar vexame, resolvi passar um vexame um pouco menor e perguntar a Malfoy o que eu deveria fazer.
Em um dos intervalos que tínhamos para trocar de salas, resolvi passar na frente da que Malfoy estava tendo aula e espera-lo do lado de fora. Ao vê-lo saindo por aquela porta eu imaginei se seria sempre assim. Se todas as vezes que meus olhos encontrassem com os dele eu sentiria aquele formigamento nas mãos, como se elas não pudessem se aguentar de vontade de tocá-lo. Se todas as vezes que eu o visse em minha frente eu sorriria automaticamente e sentiria que meu coração estaria prestes a derreter.
Nossos olhos se encontraram e eu sorri. Ele me deu aquele sorriso de lado que tanto gostava e veio em minha direção depois de se despedir das pessoas ao seu redor.
- Veio fazer charme e dizer que ainda não sabe se vai comprar o vestido na loja? – ele disse fazendo sinal com a cabeça para que seguíssemos pelo corredor.
- Na verdade, seu sabe-tudo sem graça, vim te perguntar o que faço quando for lá... eu preciso dar seu nome ou algo assim?
- Já sabe quando pretende ir?
- Queria ir nesse sábado... já deixei combinado com a Susana. – disse lembrando da nossa conversa.
- Ah, então alguém resolveu me dar ouvidos! – ele disse me cutucando com o cotovelo.
- Cale a boca! – respondi rindo. – Algum conselho?
- Não. – disse sorrindo satisfeito. – Eu mandarei uma coruja para Madame Liz, tudo que você precisa fazer é comparecer.
- Parece fácil!
- Sim, nem você conseguiria estragar! - mostrei a língua e franzi o nariz. – Mal posso esperar para ver o que vai escolher.
- Você se surpreenderá.
- Não tenho parado de me surpreender desde que estou com você, Weasley.
Eu relaxei em meio àquela frase. Só deu tempo de parar em frente à minha sala de aula e sentir meu chão ir embora debaixo dos meus pés até a professora McGonagal nos chamar para dentro.
- Preciso ir. – disse basicamente suspirando.
- Não vejo a hora de poder te desejar boa aula do jeito que tanto quero.
- Que jeito é esse, Malfoy? – perguntei atiçando-o. Ele simplesmente passou por mim e sussurrou em minha orelha.
- Ah, você sabe bem que jeito é esse.
E então eu derreti, juntei meus restos e me arrastei para a aula de Transfiguração, repassando mil vezes aquele sussurro junto ao pé do meu ouvido.
