Gostaria de agradecer a todos aqueles que estão lendo e deixando suas impressões. Muito obrigada pelas belas palavras de carinho.

4 – Subjugada

No dia seguinte, logo cedo, Eowyn pedira a Tempestade que fosse ao arsenal verificar se ainda havia algum soldado que precisasse de armas. Enquanto se dirigia ao local onde os homens estavam reunidos, a criada da senhora de Rohan tentava assimilar o ocorrido no dia anterior. Por que se expusera daquela forma? Conseguira ficar no anonimato por tanto tempo... Ninguém nunca tinha sequer se dado ao trabalho de perguntar-lhe seu nome, o qual há tantos anos já não escutava... Optara por esquecê-lo. Esquecer de quem tinha sido, esquecer sua família, sua casa, esquecer de onde viera. Fora necessário ou não teria conseguido sobreviver. Em Mordor não havia lugar para lembranças...

...Mordor...

Revelara sua origem ao filho de Arathorn e a seus companheiros. Graças aos céus que não precisara contar certos detalhes... Certamente eles leram nas entrelinhas o que ela não tivera coragem de dizer. Não gostara da piedade que vira nos olhos dos elfos e de Aragorn. E por fim, ganhara um novo nome: Tempestade. Teria aquele imortal reparado nela...? 'Não!' disse para si mesma tentando afastar a lembrança daqueles olhos penetrantes. Não poderia se deixar distrair com isso. Precisava se concentrar no motivo que a trouxera a Rohan, a Helm.

Finalmente chegara ao arsenal. Estava lotado. Dentre meninos e velhos, todos buscavam se armar da melhor maneira possível. Uma parte dos elfos também estava lá auxiliando no treinamento dos mais inexperientes. A jovem atravessou a multidão, porém, enquanto verificava o que a sobrinha do rei lhe pedira, sentiu sobre si olhares curiosos e murmúrios atravessaram o ar chegando aos seus ouvidos. Permaneceu de cabeça baixa. Sentia-se pouco a vontade. Sabia o conteúdo dos cochichos. Poderia ser o indício de que problemas estavam a cominho e apressou-se em sair dali.

- Por que a pressa, mulher? – A voz de um dos soldados preencheu o ar. A criada parou por um instante, mas a prudência aconselhava que prosseguisse e foi o que fez.

- Está com medo de alguma coisa? – Outro soldado a interrogou.

- Está triste? Com saudades de seu antigo lar, Minha senhora? – Risadas encheram o ambiente. A mulher já não podia andar, pois seu caminho até a saída fora obstruído pelos homens que começaram a cercá-la.

- O que está acontecendo aqui? – Gamling percebeu a confusão.

- Nada, meu senhor – respondeu o primeiro soldado.

- Se não é nada, Éthain, voltem aos seus afazeres, não temos tempo a perder.- O capitão de Rohan não via com bons olhos o guerreiro a sua frente. Suas habilidades em batalha eram inquestionáveis, contudo seu caráter era, no mínimo, duvidoso.

- Exatamente por isso, meu senhor, pensei que poderíamos proporcionar aos homens alguma diversão.

O coração da criada disparou. Antigos temores começaram a tomar forma. Precisava sair dali. Gamling olhou de soslaio para a estrangeira que não ousava levantar os olhos.

- Isso está fora de questão! Se temos que enfrentar a morte em breve, o faremos com nossa honra intacta!

- De que nos adianta honra? Estamos condenados, vamos aproveitar o pouco tempo que ainda nos resta!

- Basta, Éthain. Mais nenhuma palavra!

- Éthain está certo, capitão. Não resta esperança alguma! – Outro soldado se pronunciou.

- Isso mesmo! Que chance temos contra Mordor e Isengard?

- E o que vocês pretendem fazer? Agir como animais? Vão manchar suas almas com tamanha infâmia!

- Calma, capitão. Acho que o senhor está dando muita importância a essa...

- Essa o quê? Continue, Éthain.

- Ora, capitão, todos sabemos o que uma mulher deve fazer para ser mantida viva em Mordor – Tempestade não se movia. Desejava apenas sair dali.

- Se você insistir nessa loucura, levarei esse assunto ao rei.

- Que seja, duvido que Théoden rei tenha tempo a perder com uma prostituta de orcs...

Estava dito. A criada sentiu seu corpo estremecer. Não era segredo para ninguém de Rohan a origem da estrangeira que a sobrinha do rei acolhera, porém, até aquele momento, os pensamentos ainda não haviam tomado a forma de palavras.

A maioria dos soldados não compartilhava do desejo de Éthain, mas este era um guerreiro temido por sua força e habilidade, então acharam melhor não se intrometerem na disputa entre ele e o capitão de Rohan. Dando as costas á multidão, Gamling saiu.

- E agora, minha senhora? Quem a defenderá?

A mulher tentava se esquivar. Era uma guerreira habilidosa, mas não poderia lutar contra todos aqueles homens. Os elfos observavam constrangidos. Éthain finalmente se cansara da intimidação psicológica e partiu para a física. Parou diante de Tempestade tentando intimidá-la com seu tamanho. Com os olhos em fúria, a mulher arfava, buscando por uma saída que não existia.

- Não se preocupe minha cara, tenho certeza de que seremos mais 'gentis' que os orcs.

- Disso eu duvido! – Falou entre os dentes. Tempestade não demonstrava seus temores, mas por dentro sentia-se acuada.

- Estão vendo! Está com saudade deles, rameira?

- Vocês são todos iguais! Animais desprezíveis!

- Cale-se!

Tempestade sentia pela primeira vez a força do braço do guerreiro de Rohan. Seu soco a deixou no chão. Outros dois agarraram seus braços enquanto Éthain colocava-se por cima dela. Homens e elfos que não queriam se intrometer, mas que também não suportavam tamanha selvageria, começaram a se retirar. A mulher lutava com todas as forças, mas em resposta aos seus esforços recebia apenas tapas e zombarias. Dolorosas lembranças que há muito haviam sido guardadas no fundo de sua memória afloravam e a jovem já não ouvia apenas as vozes dos homens, mas também os insultos dos orcs. Sua mente ainda lutava, mas seu corpo já não conseguia reagir. Éthain se satisfez e a entregou a outro. Tempestade não derramava lágrimas, mas seu coração chorava por toda sua miséria.

- O que, em nome do Único, está acontecendo aqui? – A voz do rei Théoden fora suficiente para trazer ao lugar um silêncio mortal. Gamling cumprira o que prometera. Éthain e seus comparsas afastaram-se da criada que permaneceu no chão, quieta, abraçando a si mesma. Os agressores estavam lívidos, de cabeça baixa.

- Pelo que vejo, Sauron já está conseguido sua maior vitória: está transformando meus soldados em animais.

O silêncio permanecia. Ninguém conseguia dizer nada. Théoden aproximou-se de Tempestade. Não sabia exatamente o que fazer. Queria ajudar a mulher, mas ela não se movia. O rei abaixou-se, estendendo a mão para tocá-la.

- Não, majestade! – Gritou Éthain. – Essa mulher é uma...

Théoden voltou o olhar para seu súdito. Apenas a expressão de seu rosto teria sido suficiente para silenciar o soldado, mas o rei acrescentou:

- Não me lembro que ter pedido o seu conselho.

Éthain calara-se. O rei estava furioso. Théoden aproximou sua mão da cabeça de Tempestade novamente, tocando seus cabelos com os dedos levemente. A criada se encolheu.

- Calma, não precisa ter medo, não vou machucá-la. – A voz do rei soava terna e gentil. A jovem não ousava se mexer. Como poderia encarar aqueles homens? Sentia vergonha de si mesma. Matar para sobreviver não era vergonhoso, embora não fosse nenhum ato de virtude, contudo aquilo... era nojento demais.

O rei estendeu a mão próxima ao rosto da mulher:

- Deixe-me ajudá-la a se levantar. Ninguém lhe fará mal, dou-lhe minha palavra.

Por um instante, Tempestade lembrara-se de outro homem que a presença do senhor de Rohan evocava. A figura de seu pai tomou forma em sua mente. Há muito deixara de pensar nele. Doía demais. Se estivesse vivo, com certeza morreria de desgosto pelo destino da filha. A mulher ergueu a cabeça o suficiente apenas para olhar o rosto do rei. Não havia condenação em seus olhos. Théoden não a julgava. A jovem sentiu dentro de si uma segurança repentina. O senhor de Rohan tinha o dom de transmitir esperança a seus soldados, embora na maioria das vezes não se apercebesse disso.

- Precisa se levantar agora, minha jovem.

Tempestade compreendeu o que o rei queria dizer: se não encarasse aqueles homens naquele momento, nunca mais conseguiria olhá-los nos olhos novamente. Voltou-se para a mão estendida do rei, assentiu com a cabeça, mas levantou-se sem aceitar a ajuda de Théoden.

A mulher ergueu o rosto em direção aos expectadores daquela cena lamentável buscando dentro de si o pouco que ainda lhe restava de sua dignidade. Seus olhos encontraram os rostos de seus agressores. Fixou-se neles demoradamente. Os dois estavam desconcertados diante da presença do rei. A jovem sentia-se vitoriosa, apesar da humilhação sofrida há pouco. E ignorando o conselho do herdeiro do trono de Gondor, deixou-se levar pelo sentimento de vingança: a fim de provocar e humilhar seus algozes,dirigiu-lhes o mais cínico dos sorrisos. Voltou-se para a saída. Quando começou a caminhar, a voz de Éthain preencheu o recinto:

- Volte para Mordor, rameira. Para junto de seus orcs nojentos...

Théoden fez menção de intervir, mas Tempestade parou e olhando de soslaio, disse:

- Em Mordor pelo menos havia regras – a voz da mulher soava grave. A ira prosseguia tomando conta de seus sentidos e guiando suas ações.

A declaração da criada chamou a atenção dos presentes que se puseram a pensar no que significaria semelhante afirmação.

- Regras? – Éthain perguntou.

- Sim, regras – Tempestade se virou completamente – para que um orc subjugasse uma escrava – a mulher começou a caminha na direção do soldado de Rohan – ele precisaria derrotá-la primeiro – e parou, sentido crescer dentro de si o desejo de vingança.

- Derrotá-la?

- Se considera melhor do que os orcs, mas nesse ponto, e acredito que em vários outros, eles lhe são superiores.

O senhor de Rohan estava prestes a intervir, quando Tempestade completou:

- Se quiserem realmente superá-los, pelo que fizeram comigo, vocês me devem uma luta.

- Minha jovem, não há tempo a perder com esse tipo coisa. Temos muito a fazer – o rei de Rohan interrompeu.

- Não se preocupe, meu senhor. Eu garanto que não tomarei muito de seu tempo.

O rei refletiu um pouco. Por que não dar aquela jovem o direito de defender sua honra? Suspirou rendendo-se aos fatos:

- Se é assim, na minha opinião, considero um pedido justo. Éthain – Théoden se dirigiu aos dois soldados – você será primeiro – um pouco constrangido o soldado desembainhou sua espada.

- Não, meu senhor – Tempestade prosseguiu – eu disse que não tomaria muito de seu tempo. Lutarei com os dois – a mulher pegou duas espadas que lhe estavam próximas e caminhou em direção aos soldados.

- Espere um pouco – disse Éthain – isso não me parece justo.

- Justo? – a criada debochou – se o senhor pensa assim – Tempestade largou uma das espadas do chão e empunhou a outra em frente ao rosto – e agora?

A provocação da ex-escrava de Mordor fez aflorar a ira de seus agressores. O combate teve início. O rei temia pelo bem estar da jovem, entretanto, após os primeiros golpes, percebeu quão infundados eram seus temores. Gamling observava com grande interesse o embate. Sabia das habilidades dos soldados, porém a história do recente duelo daquela mulher com Gimli, filho de Glóin já havia se espalhado. Presenciara o anão combatendo bravamente os orcs e wargs no caminho para o abismo de Helm e sabia que alguém que o houvesse derrotado não poderia ser negligenciado. Com movimentos fortes e rápidos, Tempestade desarmou o companheiro de Éthain, que ficou se protegendo por trás do amigo. A mulher sorriu debochadamente. A confiança de seu oponente fora abalada ao vê-la ostentando duas espadas.

- Não se preocupe – a jovem declarou – não vou usá-la – e atirou a espada que tirara do primeiro soldado para longe.

Tomado pela raiva, Éthain tentava desarmar a criada, contudo a ira da primeira em muito superava a dele. Logo foi desarmado e em questão de segundos, sua espada estava nas mãos de Tempestade. A mulher derrubou o soldado perplexo com um chute. Seu companheiro o seguiu na queda. A jovem cravou as espadas no meio das pernas de ambos. Todos prenderam a respiração. A criada falou com tom de ameaça:

- Só não os mato agora porque Rohan precisa de suas espadas, entretanto, se escaparem da fúria dos Uruk-hais, garanto que não escaparão da minha.

Tempestade já se dirigia para a saída quando, ao passar pelo rei, o senhor de Rohan se pronunciou.

- Então, em Mordor uma escrava só é subjugada se for derrotada?

- Sim, meu senhor – a mulher não estava entendendo onde o rei queria chegar.

- Há quanto tempo você não era subjugada?

- Há 3 anos, meu senhor.

- Foi o que pensei – a jovem pode ver no olhar do rei guerreiro o reconhecimento de suas habilidades.

Enquanto a ex-escrava de Mordor se retirava, o rei se dirigiu a Éthain e ao outro soldado:

- Da próxima vez, escolham oponentes mais de acordo com suas limitadas aptidões para não envergonharem ainda mais os Rohirrim.

O rei se retirou. A situação o fizera sorrir por dentro. Os elfos e os outros soldados se entreolhavam. Gamling tratou de continuar os preparativos para a batalha que se aproximava, tendo um só pensamento: Oxalá, ela esteja realmente do nosso lado.