Comprar um vestido para um baile quando você tem como acompanhante o homem dos seus sonhos – meu Merlin, eu realmente acabei de dizer isso? – deveria ser fácil para qualquer garota normal.

Mas eu parto do princípio que eu amo um Malfoy.

Logo, não sou normal.

- Você poderia, por favor, se decidir dentre um dos vinte e oito vestidos que você experimentou nas últimas duas horas? – disse Susana suplicando por misericórdia. – Eu tô com fome e você bem sabe como sou quando fico com fome.

- Pegue alguma coisa pra comer em qualquer lugar e traga para cá. Eu não vou sair daqui a não ser que eu esteja com o vestido perfeito.

- Ah tá bom, até parece que aquela doida varrida que se intitula como dona nessa loja deixaria eu entrar qualquer alimento próximo dos preciosos vestidos dela. – respondeu Susana olhando de esguelha e estranha criatura que era Madame Liz. Loira com os olhos esbugalhados atrás de um óculos de lentes roxas e em vestes advindas de, muito provavelmente, 1932, ela era de meter medo, mas ninguém podia discutir sobre suas habilidades com tecidos – ela fazia vestidos maravilhosos.

- Não deixam de ser preciosos... – divaguei olhando para um vestido dentre as araras que ainda não tinha experimentado – Você pode imaginar quanto um desses custa?

- Muito provavelmente mais do que minha família vai ganhar em duas vidas – disse Susana brincando com uma lantejoula de um vestido amarelo que até aquele momento não sabia porque havia decidido colocar no corpo. – Me explique novamente porquê Malfoy não quis vir com você se é ele que vai pagar essa preciosidade para você.

- Ele disse que quer que seja uma surpresa – disse abaixando o zíper de um vestido verde escuro.

- Por quê não esse?! Ele ficou lindo! – disse Susana indignada.

- Verde. Numa ruiva. É a obviedade do ano Su! Me passe aquele vermelho.

- Quer dizer que ele está numa dessa de noivo não poder ver a noiva antes do casamento. – ela disse me alcançando um vestido vinho, liso e de um tecido pesado, o que ajudaria bastante com as gordurinhas que eu não queria que fossem vistas.

- Está se adiantando um pouco com essa história de noiva, Susana. – disse rindo enquanto subia o vestido pelos meus quadris. – Mas é um bom modo de se analisar.

- Seus irmãos já sabem que você vai no baile com ele?

- Porque saberiam? Eu pretendo entrar com Malfoy vivo naquele salão de preferência e se meus irmãos sequer imaginarem que isso vai acontecer...

- Uma vez que você entrar com ele naquele salão Hogwarts toda vai saber, não só seus irmãos Gina. Você já pensou como vai reagir a isso? Como vocês vão reagir a isso?

Eu tinha ficado tão deslumbrada com a ideia de bancar a Cinderela com alguém que de fato eu gostava naquele baile que eu havia me desligado momentaneamente da verdade. Eu merecia um pouco de ilusão, isso é fato, pois os últimos anos não haviam sido bons para ninguém e um pouco de conto de fadas nunca matou nenhum bruxo, porém eu havia esquecido de pensar nas consequências do que estávamos prestes a fazer.

- Não. Não pensamos em nada.

- Acho que era uma boa ideia se você sentasse com Malfoy para conversar sobre isso. – disse Susana esquecendo a fome por um momento. – Claro que tudo pode dar super certo e ninguém ligar para o namorico de vocês...

- Namorico não...

- Namorico sim. Namoro às escondidas não pode ser levado à sério, Gina! Tudo é lindo quando não se tem ninguém para julgar e apontar o dedo para vocês, mas a realidade é mais embaixo e você sabe bem disso. Sonserina e Grifinória são rivais de longa data e não acho que a morte de Voldemort vai ser o fim dessa rivalidade.

- Não estou tentando ser iludida nem nada Susana, só quero, por uma noite, pensar que eu estou com o homem ao meu lado e me acompanhando no baile que eu sempre quis.

- Gina – ela disse se levantando da cadeira onde, pelas últimas duas horas, parecia ter criado raízes. Ela ficou de frente para mim, pegou minhas mãos e me olhou bem nos olhos. Susana não era exatamente a pessoa mais certa do mundo e nem a que mais me dava sermões – essa posição era de Hermione desde sempre – mas eu podia perceber que ela estava falando sério e que estava realmente preocupada comigo.

- Eu vou ficar bem Susana. – eu disse com uma falsa segurança na voz.

- É fácil dizer isso quando não se está em pedaços, Gina. Eu realmente não quero ter que te colar de volta se ele te quebrar, está entendo? – eu assenti.- E, amiga?

- Sim?

Susana me pegou pelos ombros e me virou para o espelho.

- Acho que você achou seu vestido.

Voltar para Hogwarts com o vestido em mãos foi algo além do normal. Agora eu entendia o porque nenhuma mulher subestimava o poder de uma boa terapia de compras.

Ao chegar em meu quarto guardei o vestido como se fosse uma joia. E era bem o que parecia no meio de tantas roupas velhas e gastas. Enquanto eu admirava o pequeno oceano que agora jazia guardado dentro de meu guarda-roupas, um pedaço de pergaminho voou por entre a fresta de minha janela e pousou em minha cama.

Malfoy parecia nunca se cansar desse feitiço.

"Me encontre em frente ao lago".

O clima de fim de tarde no castelo sempre fez com que eu divagasse sobre como deveria ser bom ficar abraçada com alguém em frente ao lago, esperando a noite cair. Quando vi Malfoy sentado, encostado em uma árvore em frente ao lago que jazia parado como se estivesse congelado, todas as minhas divagações pareceram criar forma e me beliscar, sussurrando em meu ouvido que podia sim se tornar realidade.

Ele não disse uma palavra quando me viu. Somente levantou, olhou para os lados e me abraçou.

- Parece que faz dias que não te vejo. – ele disse.

- Não achei que você, dentre todos os homens do mundo, seria o do tipo sentimental. – disse rindo enquanto sentia o calor de seus braços me envolver.

- Cale a boca, Weasley.

- Agora sim, esse é o Malfoy que conheço. – disse me separando dele somente o suficiente para que eu pudesse ver seu rosto. – Sabe, comprei um vestido realmente bonito hoje.

- Não duvido.

- Você tirou sarro do meu gosto duvidoso e do vestido que usei no último baile. Achei que não confiasse no meu gosto.

- Você escolheu a mim, então acho melhor eu confiar, não é? – ele disse acariciando meus cabelos.

- Está com medo do baile? Da reação das pessoas ao nos verem juntos? – perguntei para Malfoy que, por incrível que pareça, não se surpreendeu com a pergunta.

- Estou curioso na verdade. Você não é exatamente o tipo de mulher que todos imaginam comigo.

- Sim, não sou loira, de olhos azuis, rica e metida. – disse com ciúmes até da ideia de outra mulher com Malfoy.

Eu estava com sérios problemas.

- Não. Você é muito melhor.

- Odeio como você sempre diz a coisa certa.

- Não odeia não. Você me ama. – ele disse querendo me provocar.

- Amo mesmo.

E então ele não respondeu.

Não achei o silencio insultante. Não, pois lembro muito bem de entrar nessa sabendo que meus sentimentos por ele eram muito maiores do que os dele por mim. Mas ainda sim o silêncio doeu. E por mais que os braços quentes dele me mantivessem aquecida, um frio gelado percorreu a minha espinha.

Tudo por causa do silêncio.