6 - OLHARES
Tempestade olhava pela janela tentando vislumbrar o motivo pelo qual o elfo se dera ao trabalho de convencê-la a ficar. Por que ele fora até ela? Por quê?
- Como está, minha senhora?
Não foi necessário virar-se em direção a entrada para descobrir de quem era a voz que a cumprimentara. Contudo Tempestade realmente precisou resistir ao impulso de olhar para trás e encontrar os olhos imortais que a examinavam agora a espera de uma resposta:
- Estou bem, meu senhor Haldir, obrigada – disse, educada porém friamente. Não desejava que o elfo percebesse o quanto sua presença a perturbava.
- Não sei por que me ajudou, capitão, ainda mais depois de tê-lo ofendido pouco após sua chegada...
- Foi uma reação compreensível, senhora. Intrigante – ressaltou o elfo – porém compreensível - disse o guardião deixando claro que não havia nenhuma mágoa da parte dele.
Haldir adentrara a pequena sala, que ficava no topo de uma das torres cuja janela dava para a entrada do castelo, decidido a conseguir uma aproximação. Mantivera-se a uma certa distância, pois já havia percebido que a mortal não gostava muito de intimidades. Precisava descobrir mais sobre aquela mulher. Havia antes perguntas que respostas a respeito dela e o comandante do elfos deveria ter paciência e saber usar as palavras e mais 'alguma coisa' caso fosse preciso.
- E então? Eu não tinha razão? O anão foi derrotado mais uma vez – Disse o elfo com um sorriso na voz.
Ainda sem se voltar, a mulher comentou:
- Parece-me que o senhor também não nutre muita simpatia pelos anões...- constatou dando a entender que compartilhava do sentimento do elfo no que dizia respeito ao povo das montanhas.
- De fato, nossas relações não são... como direi... das mais amistosas.
- Entendo... pessoalmente eu preferiria tê-lo deixado no chão outra vez.
- Você é muito passional. É preciso haver estratégia em uma luta, não apenas força, Tempestade.
Pela primeira vez a mulher ouviu seu novo nome na boca de Haldir. E como lhe soou bem! O elfo quis aproveitar a abertura que Tempestade lhe dera:
- Se importaria em me dizer qual é o seu verdadeiro nome, minha senhora? Estou curioso... – as palavras do guerreiro soaram cautelosas.
- Eu não tenho nome.
- Não fale assim, seus pais devem ter lhe dado um nome. Como sua família a chamava?
Tempestade fechou os olhos. Lembranças confusas de sua infância invadiram sua alma e a encheram de dor e saudade. Haldir podia sentir o sofrimento que vinha dela.
- A garota que chegou a Mordor há dez anos tinha um nome, uma família, uma vida. Eu não tenho nada disso.
A ex-escrava de Mordor não estava se agradando de ser o centro da conversa. Se o tema continuasse a ser esse, se veria obrigada a revelar mais sobre si, o que não contribuiria em nada para sua missão. Percebendo que o elfo silenciara diante de sua resposta, tentou mudar de assunto:
- Satisfaça minha curiosidade, capitão: o que um imortal, alguém que pode ter uma vida de paz e felicidade eternas vem fazer neste lugar? Por que arriscar sua imortalidade assim?
A manobra da mulher não passou despercebida por Haldir Contudo este optou por aceita-la: não poderia perder o pouco terreno que já havia conquistado.
- Não basta que a vida seja longa, minha cara mortal, é preciso que signifique algo, que tenha um propósito. Todos esses soldados que me acompanham, assim como eu, estão aqui não por ordem de seus senhores e sim porque querem que suas vidas tenham um significado. Querem contribuir de alguma forma para que o mal seja derrotado. Uma vida longa e vazia está longe de ser o ideal de felicidade do para um elfo.
Nas palavras de Haldir aquela mortal sentiu a força da verdadeira imortalidade. O que realmente é eterno? Nossos atos e todas as suas conseqüências. Ela refletiu sobre o motivo que trouxera a Rohan... Sua vida sempre consistira em sobreviver a qualquer custo. Seus pensamentos foram interrompidos pela voz do capitão.
- Satisfaça agora você a minha curiosidade. O que mais ouviu falar de mim em Mordor?
- Está querendo alimentar o seu ego, meu senhor? – A mulher finalmente fitou o elfo.
- É sempre bom saber o que os inimigos pensam de nós.
- O que eu sabia já disse. Seu nome é temido pelos orcs como disse o Senhor do escuro.
- Isso é bom. Medo não vence uma luta, contudo pode ajudar de vez em quando, não acha?
- Não entendo de luta, capitão, entendo de sobrevivência. Apenas faço o que é preciso para continuar viva.
- Como fazia em Mordor...
- É...- a voz dela parecia cansada, como se lhe custasse admitir essa verdade. E novamente se distanciou voltando a fitar o horizonte através da janela.
O medo de falar sobre si era latente naquele coração mortal. O elfo percebendo isso fez uma pausa, examinado-a com os olhos e buscando por mais alguma coisa que pudesse aproximá-los. Tentaria uma abordagem direta para comprovar se a mulher começara a confiar nele após o incidente na sala real. Se não funcionasse, iria por outros caminhos.
- Diga-me, Tempestade, o que o seu coração teme?
- Como assim, meu senhor? Não se cansa de questionar minha coragem? A que se refere agora? – A mulher encarou o elfo.
- Não me entenda mal – Haldir sabia que se arriscava em terreno perigoso – não questiono sua coragem e nem poderia diante dos últimos acontecimentos.
- Então diga de uma vez do que está falando – a impaciência a fez abandonar o mínimo de cortesia que pudesse haver em seus modos.
- Refiro-me ao seu passado: Mordor.
A mulher estreitou o olhar. O elfo parou, tentando decidir se ela conseguiria escutar o que ele tinha a dizer sem deixar que seu temperamento exaltado jogasse por terra qualquer chance de aproximação. Seu coração lhe disse que sim e o guerreiro élfico prosseguiu:
- Sei que por mais que qualquer um tente, é impossível ter mais do que uma vaga idéia do seu sofrimento e das feridas que devem ter lhe deixado. Contudo, por que teme falar sobre isso?
- Está equivocado, meu senhor, não temo; apenas, não quero. Acha que me agrada a recordação de tais fatos?- Tempestade respondeu surpreendentemente calma, o que encorajou Haldir a prosseguir.
- Perdoe minha insistência, senhora, contudo acho que toma para si uma culpa que não lhe pertence.
- Só uma vez na vida, Elfo, pare de falar por enigmas e diga o que quer dizer!
- Por que teme ser julgada pelo que aconteceu se está claro que foi uma vítima da crueldade de Mordor?
A mortal silenciou. Não havia o que responder ao imortal a sua frente. Ninguém nunca tinha se aproximado tanto assim de seus pensamentos. Nunca permitira. Contudo aquele elfo era diferente. Haldir parecia entender o que se passava com ela. Como conseguiu ir tão fundo assim? Será que aquele ser era capaz de ler pensamentos?
E o imortal soube aproveitar a oportunidade. Deixou de lado, mais uma vez a formalidade:
- Não teme ser julgada por haver matado quando isso se fez necessário. E, certamente, ninguém a julga por isso. Contudo teme ser julgada por ter sido...forçada?
Tempestade sentiu o chão sumir sob seus pés. Por que Haldir abordara aquele assunto? Mais do que nunca, sentia vergonha de si mesma. Afinal, diante daquele ser tão perfeito, como não se sentir um nada? Ainda mais que da boca dele saía a confirmação de que o elfo sabia exatamente pelo que ela tinha passado. Não fosse estar com uma das mãos apoiada na janela, teria caído. O capitão dos elfos percebeu que conseguira imobilizar sua adversária e que, querendo ou não, esta teria que ouvir o que ele tinha a dizer. Haldir achou melhor encarar a vista da janela e não mais o rosto de Tempestade, liberando-a um pouco do seu olhar a fim de que ela se sentisse mais a vontade. Assim o elfo saberia a extensão da confiança que a mulher nutria por ele.
- Sei o que aconteceu em Mordor – a voz de Haldir soava pensativa - Ouvi falar sobre o incidente no arsenal. E não consigo compreender por que se culpa.
A mulher buscou no fundo de sua alma a força necessária para responder ao imortal. Já ficara em silêncio tempo demais:
- Sou eu quem não compreende sua dúvida, capitão – a voz da mortal tentava transmitir uma tranqüilidade que o elfo percebia ser artificial – Se está tão bem informado, e me parece que está, deve saber o tipo de ... como direi ... práticas... que agradam aquelas criaturas. Não há como não se contaminar com a sujeira deles. O Senhor me considera uma vítima? Disse que faço o que é preciso para continuar viva e foi o que fiz em Mordor. Tive uma escolha. Muitas escolheram a morte e mantiveram sua honra intacta. Eu optei por continuar viva, portanto, desonrada. Não se iluda. Por que acha que estou aqui? Por Rohan? – a mulher começava a externar a agonia que oprimia seu peito – Como disse o senhor Aragorn, sou guiada pela vingança. Dentro de mim queima um fogo que há muito venho procurando aplacar com sangue, e agora chegou a hora de aplacá-lo com o sangue dos Uruk-hais que, por ironia, são um misto dos dois seres que mais odeio no mundo. Sua intromissão em minha vida, elfo, me obriga apenas a admitir que, por fim, o anão e aqueles soldados estão certos: sou uma prostituta, uma assassina da qual o senhor deveria manter distância para não se contaminar. Será que me fiz entender?
A respiração de Tempestade era rápida e entrecortada. Aguardava pela resposta que aquele elfo poderia ter para ela.
Haldir estava satisfeito. A mulher conseguira desabafar. Confiou nele e não se fechou, ainda que estivesse tentando parecer indigna de qualquer bem. O capitão dos exércitos imortais armou-se de toda ternura de que era capaz e dirigiu à mortal o mais acolhedor de seus olhares.
- Você não conheceu nada além da crueldade e do pior que pode haver nesta terra, Tempestade. Pelo menos uma gota do sangue de Númemor deve estar em suas veias, ou você já teria enlouquecido. Sim, vejo um fogo dentro de você, contudo não este ao qual se referiu, e sim o fogo do orgulho e dignidade dos reis.
A mulher permaneceu com a boca entreaberta sem conseguir responder. O que encorajou o elfo a se aproximar:
- Então os Uruk-hais representam os dois seres que você mais odeia: orcs e homens.
O imortal dirigiu seu olhar ao chão:
- Sabe como os orcs surgiram?
- ...
- Eram elfos que foram tomados pelos poderes negros. Torturados e mutilados.
Haldir levantou o olhar, encarando Tempestade.
- Isso quer dizer que, de alguma forma, há uma relação entre orcs e elfos e portanto também deveríamos ser alvos do seu ódio. Diga-me, Tempestade, você seria capaz de me odiar?
Centímetros separavam olhos humanos e élficos. Contudo nenhum toque. O olhar da mulher revelava a luta que se passava em seu coração. O elfo via que o bem que ainda existia nela lutava contra a sujeira de Mordor. Apesar disso, achou por bem não arriscar tudo o que parecia haver conquistado. Afastou-se lentamente e com a ponta dos dedos tocou o queixo da mortal tão arredia a contatos físicos. Sorriu ao ver que ela não se esquivara.
- Você é linda aos meus olhos.
O Elfo afastou-se um pouco mais indo em direção à porta e completou:
- Meus pensamentos estarão com você. Fique em paz.
E saiu, sentindo que parte de si ficara com a mulher da qual não sabia sequer o nome. Contudo, tinha certeza, sabia coisas muito mais importantes, como dissera a sobrinha do rei.
