Não sei exatamente em que momento eu parei de achar que era uma brincadeira e encarei a realidade. Talvez tenha sido no momento em que olhei para Susana e os olhos dela estavam cheios de desespero e preocupação.
Me virei para fitar a longa escada que se estendia à minha frente. Um mar de pessoas transitava pelos degraus, descendo e se encontrando com seus respectivos pares. Nada de nenhum louro com olhos azuis e ar brincalhão.
- Ele deve estar atrasado – disse Susana.
- Não seja boba. – disse mal conseguindo ouvir minha própria voz – Estou vinte minutos atrasada.
Fiquei em silêncio olhando o mar de gente se formando à minha frente, tentando tomar uma decisão. Tentando, em vão, silenciar todas as vozes que conversavam em minha cabeça. Sentia Susana me olhando e, pela primeira vez na vida, desejei que ela não estivesse ali. Me sentia vulnerável, uma tola. Uma tola com um vestido muito caro, comprado por um rapaz que havia acabado de lhe dar um bolo.
- Susana, Neville vai ter um treco se não te ver logo. Pelo amor de Merlin, desça as escadas. – disse mordendo o interior de minhas bochechas.
- Não vou te deixar sozinha. – respondeu com os olhos cheios de pena. Como eu odiava aquele olhar.
- Alguém já fez isso hoje, Su, não tem problema. – senti minhas palavras cheias de amargura, algo entre o ódio e a tristeza.
Senti que Susana não se moveria se eu não fizesse algo, então sem dizer mais nada – afinal não aguentaria dizer nada sem que começasse a chorar – virei as costas e tentei encontrar um caminho para fora do aglomerado de pessoas.
Susana deve ter chamado meu nome umas três vezes, mas insisti em não dar ouvidos. Saberia que ela entenderia.
Não importava por onde eu ia, pessoas rindo, com seus pares ou indo se encontrar com eles, estavam com aquele ar de alegria. Onde tinha ido minha alegria?
Em que momento da minha vida eu deixei tudo dar tão errado a ponto de deixar um idiota acabar com a minha noite daquela maneira?
Saí para os jardins, para o frio que doía os ossos. A noite estava maravilhosamente gelada, mas encarei o vento frio como um tapa em meu rosto. O que eu estava fazendo comigo mesma? Estava com os braços cruzados contra o frio, olhando para o lago que se mexia com o vento, quando uma voz me assustou.
- Achei que estava aqui.
Ódio. Alívio. Não sei dizer ao certo o que me acometeu naquele momento. Não consegui virar para olhá-lo.
- Desculpe.
De novo, não me dei ao trabalho de me virar. Então veio o silêncio.
Várias respostas passaram pela minha cabeça, mas não consegui verbalizar nenhuma delas. Muitas delas continham altos palavrões envolvidos, mas não tive coragem.
Me virei e o vi com roupas normais. Uma calça jeans escura, um tênis qualquer e uma blusa de manga comprida que já tinha visto dias melhores. Os olhos azuis estavam sem brilho.
- Por quê? – foi o que consegui dizer.
Ele deu ombros.
- Medo, acho.
Assenti.
Essa resposta ligou algo em mim – talvez o demônio que estava em meu corpo esperando o momento correto para dar o ar da graça. Foi aí que tudo desandou.
- Medo. – disse cheia de ódio – Medo. E você acha que eu não tive medo? Eu tive medo desde quando comecei a sentir algo por você, seu boçal arrogante e egoísta! Pelo menos eu tive a decência de colocar o vestido que você tanto insistiu para que eu comprasse e fosse te encontrar nesse maldito baile! Eu tive coragem, acima do medo, pois achava que talvez valesse a pena!
Enquanto eu tomava fôlego, vi algum relance de brilho passar pelos olhos arregalados de Malfoy, mas tão rápido quando ele veio, se foi. Malfoy não conseguiu dizer nada, só murchar mais ainda. Sua postura não era aquela que eu estava costumada – ereto, de nariz empinado com um leve ar de deboche.
- Claramente eu estava errada.
- Talvez você tenha mais coragem do que eu. – ele disse em uma voz baixa.
Pisando forte, mirei a porta de entrada e me forcei a não parar quando passei por ele e senti seu perfume. Maldito perfume.
Quando alcancei a porta, olhei de relance para trás e o vi ali, parado do mesmo lugar.
Comecei a chorar e só fui parar quando adormeci em minha cama, muitas horas depois.
