7 – O HOMEM

No início da tarde um desconhecido apareceu diante dos portões da fortaleza. Sua aparência denunciava os dias de caminhada que devia ter enfrentando antes de chegar a Helm. Aos olhos dos guardas, nada havia de suspeito. Refugiados pedindo abrigo naqueles dias era algo bastante corriqueiro.

Contudo, ao ser introduzido na fortaleza, o homem fez uma solicitação inusitada. Disse que precisava falar urgentemente com o Soberano de Edoras. Com certa hesitação, um dos capitães do exército de Rohan o conduziu à sala do Rei.

Não houve que se interessaram em segui-lo, posto que um ferido em busca de ajuda já se tornara lugar comum naqueles dias. Entretanto, o recém chegado chamou a atenção de uma certa criada. Tempestade o reconhecera quando ainda estava no portão e seguiu a escolta.

Aragorn, Haldir e Legolas discutiam com o Senhor da Terra dos cavaleiros detalhes sobre a organização de suas forças quando foram interrompidos pelo soldado que trazia o homem ferido.

O anão também os havia seguido. Era de sua natureza desconfiar de todo e qualquer desconhecido, principalmente após o incidente com a ex-escrava de Mordor. Entretanto, o Rei solicitou que tanto Gimli quanto Tempestade aguardassem do lado de fora. O filho de Glóin ficou furioso por sua presença não ser permitida. Théoden tentou acalmá-lo.

- Não é nada pessoal mestre Gimli, mas é melhor que ambos – o rei fitou Tempestade – fiquem longe. Não dispomos mais de tempo para discussões desnecessárias.

O anão e a mulher se olharam com desprezo mútuo. Théoden se dirigiu á Éowyn:

- Se você quiser, pode entrar querida.

- Obrigada, meu senhor, mas minha presença é necessária nas cavernas.

O homem aguardava do lado de fora e seus olhos ainda não haviam cruzado com os de Tempestade. Contudo não demorou muito para que isso ocorresse:

- O que essa assassina está fazendo aqui?

As palavras dos desconhecido atraíram a atenção dos presentes.

Tempestade desembainhou a espada, não tardando em perceber o erro que cometera. Não poderia matá-lo ali. Lanças se voltaram para ela e a matadora de wargs teve que se dar por vencida. Hestou por um momento antes de guardar a espada. Teria que resolver aquele assunto de outra forma. Após dirigir a Éowyn um discreto olhar, a estrangeira se retirou.

A senhora de Rohan a seguiu, percebendo que a jovem tinha algo muito importante para lhe dizer. Aquela mulher trazia consigo muitos segredos que não poderiam ser negligenciados. Quando estavam sozinhas em outro corredor Tempestade disse com urgência na voz:

- Senhora eu preciso entrar naquela sala!

- O que está acontecendo? – indagou a senhora diante da inesperada solicitação.

- Aquele homem é um assassino! - revelou a jovem sem se deter em preâmbulos.

- Assassino? – Éowyn olhou por um segundo na direção da sala real. A preocupação com o tio estampada em seus olhos.

- Isso mesmo, senhora, um assassino – confirmou a criada.

- Como pode ter certeza disso? Não viu o estado dele? – argumentou a sobrinha do rei.

- Aquele mercenário está fingindo, minha senhora, não vê?

- De onde o conhece, Tempestade? – perguntou Éowyn tentando dar um voto de confiança à estrangeira.

- Ele veio de Mordor, senhora. Acredite em mim, ele é um assassino – afirmou com convicção.

- Não estou certa disso, minha cara, alem do mais, você é que o teria matado se os soldados do rei não estivessem lá.

- É o que eu tenho que fazer!

- O que está dizendo? – indagou a senhora de Rohan diante da naturalidade com a qual a jovem falava sobre a necessidade de matar um homem.

- Ele sabe a meu respeito! – completou – se revelar alguma coisa, tudo estará perdido.

Percebendo a hesitação da Senhora de Rohan, Tempestade insistiu:

- Por favor, minha senhora, não temos tempo. Preciso entrar naquela sala!

A sobrinha do rei sentia a indecisão penetrar seu coração, contudo optou por seguir a resolução que tomara desde o início: confiar naquela mulher.

- Só consigo pensar em uma maneira de você entrar lá sem ser pela porta da frente, porém é perigosa.

- Que seja, senhora...

- Venha comigo.

A senhora de Rohan a conduziu a uma sala próxima à sala do rei.

- Saia pela janela – orientou Éowyn – , a terceira janela à direita é a da sala real.

- Obrigada minha senhora.

Éowyn saiu da sala ao ver que Tempestade já havia atravessado a janela. Contudo não percebeu uma sombra a se esgueirar no encalço da ex-escrava de Mordor.

A senhora de Rohan tinha razão. O batente que Tempestade tinha para apoiar os pés era muito estreito. Demorou um pouco até ela chegar à janela tão almeja. 'Espero que não seja tarde', pensou.


Enquanto isso, na sala real o homem contava sua história:

- Meus senhores, não sei como agradecer a bondade com a qual fui acolhido.

- Pode começar nos dizendo o que o trouxe aqui e o que sabe sobre aquela mulher que você chamou de assassina - disse o rei com voz firme.

- Ela é uma assassina de Mordor, meu senhor. Como podem não saber?

- Aquela mulher nos disse que era uma escrava em Mordor - disse Aragorn.

- E que era forçada lutar para sobreviver – completou Haldir.

- Sim, mas ela gostava. Não havia remorso em seu rosto quando matava.

- Como pode ter tanta certeza disso? Você também veio de Mordor? – indagou Haldir, revelando em sua voz a mesma preocupação que invadiu a mente do todos: Gimli estaria certo, afinal?

O homem continuou com uma voz trêmula. Seu rosto parecendo reviver o que suas palavras contavam:

- Eu mesmo escapei dela recentemente. Essa assassina atacou minha aldeia com um grupo de orcs e destruiu tudo a sua frente, matando inclusive mulheres e crianças. Fiquei escondido com minha esposa e algumas pessoas de minha família. Quando eles pegaram tudo o que puderam, fugimos e vagamos por semanas sem rumo na floresta, até que avistei a fortaleza. Minha mulher e meus familiares estão muito doentes e famintos e não puderam vir comigo até aqui. Eu os deixei ali na floresta perto de uma cachoeira e imploro, meu senhor, que os ajude.

Os elfos se entreolharam. A história do edain era muito convincente, contudo algo dentro deles pedia cautela diante da situação. Théoden olhava fixo para o homem a sua frente. Nada nele parecia contradizer suas palavras. Entretanto, o rei estava dividido entre a palavra da sobrinha que acolhera a estrangeira ferida há algum tempo garantindo-lhe que não havia perigo algum, e a palavra do fugitivo. O Soberano de Rohan buscou com o olhar o conselho de seus aliados.

O homem olhou para o filho de Arathorn. O herdeiro de Isildur sentia uma piedade inquietante e, por fim, se decidiu:

- Sim, eu irei. Onde fica essa cachoeira?

O homem sorriu agradecido.

- Que o Único o abençoe, meu Senhor!

- Venha, Aragorn, eu lhe mostro aqui no mapa - disse Théoden ainda um pouco hesitante.

A matadora de wargs, do lado de fora da janela, já observava há alguns instantes a movimentação na sala do Rei. Não conseguia compreender o conteúdo do diálogo, contudo percebeu quando os guerreiros deram às costas ao recém chegado. 'Um erro primário', pensou a mulher 'só se deve dar as costas a um desconhecido se este for um cadáver', foi uma das 'preciosas lições' que os orcs a ensinaram.

Enquanto os quatro analisavam o mapa, o homem se aproximou calmamente retirando algo de seu peito. Algo que Tempestade reconhecera como um punhal. O desconhecido hesitou por um momento antes de erguê-lo. A mulher desceu pela janela com uma habilidade felina que contrastava com seu jeito naturalmente agressivo. Então a voz firme da ex-escrava de Mordor encheu a sala:

- Solte isso seu bastardo!

Os quatro olharam para trás. Tempestade apontava sua espada para a nuca do homem e este erguia seu punhal em direção aos que estavam reunidos em torno da mesa.

- E então? Quem é o assassino agora? – A matadora de wargs perguntou ao recém-chegado. Contudo, seu questionamento parecia se dirigir também aos presentes.

O homem se virou lentamente em direção à mulher.

- Tenha piedade, minha senhora, eu não tive escolha...

- Escolha? – indagou a mulher - sempre há uma escolha.

O homem caiu inerte aos pés da matadora de wargs após esta penetrar-lha a garganta com sua espada, para o espanto de todos os presentes.

- Eu não sei se devo lhe agradecer ou ter ainda mais medo de você, Tempestade - disse o senhor de Rohan fitando o cadáver.

- Nem uma coisa, nem outra, meu senhor. Fiz apenas o que deveria fazer.

Então ouviu-se um grito. Era a voz de Gimli. Legolas correu em direção à janela apenas para contemplar seu amigo deitado sobre um monte de feno. Aparentemente ele havia seguido Tempestade.

A mulher aproximou-se da janela e, sem conseguir conter sua satisfação, comentou:

- Alguns realmente não têm noção do próprio tamanho...

Tempestade embainhou a espada ainda suja com o sangue de sua mais recente vítima.

- O que faremos com o corpo, meu senhor? – perguntou Aragorn ao soberano de Rohan.

- Não se preocupem, meus senhores. Vou levar este infeliz para a floresta e deixá-lo lá para alimentar as feras – disse friamente a ex-escrava de Mordor – não vale a pena dispensar tempo e cuidados com ele.

- É muita consideração de sua parte para com seu... conhecido... - comentara Legolas admirado da crueldade com que a mulher pronunciara a macabra sentença.

- O senhor não espera que se tenha algum tipo de consideração com um assassino de Mordor, espera?

- Um assassino de Mordor? – Indagou o filho de Arathorn

- Sim, meu senhor. Nem todos os humanos que habitam a terra negra são, como direi, forçados a servir o Senhor do escuro. Alguns o fazem livremente.

- Foi isso que ele disse de você, minha jovem – Théoden completou intrigado com a semelhança que havia entre as palavras dos estrangeiros.

- Não tenho nada a dizer, meu senhor, creio que os fatos falam por si. – disse Tempestade tentando erguer o homem a fim de evitar o prolongamento da conversa para que não fosse obrigada a entrar em detalhes.

- Contudo – o príncipe do Reino da Floresta se pronunciou, interrompendo a ação da jovem – a senhora não deu a este homem a chance de se defender.

- O que queria que eu fizesse, mestre elfo? – perguntou inconformada com a dúvida que pairava a respeito do assassino morto – pretendia, por acaso, que eu o convidasse a se sentar e a repetir as mesmas mentiras que certamente ele sustentaria?

- Antes de ser interrompido tão bruscamente por sua espada – retorquiu Legolas já um pouco irritado com a intolerância da mulher – ele argumentou que não teve escolha. Merecia uma chance de se explicar.

- Não teve escolha... – murmurou a mulher olhando para o cadáver – sei muito bem o que vermes como ele costumam escolher... - concluiu chutando o corpo.

- Calma, minha senhora – interveio o Haldir – apenas achamos que a todos deve ser dado o direito de defesa.

- Direito de defesa? – indagou a mulher com um tom de deboche que desagradara o elfo mais jovem. – Que defesa pode haver contra isso? - Haldir, contudo, achou melhor não alimentar a discussão, ao contrário de Legolas, que tomou para si as dores do amigo.

- Se não está disposta a exercitar um pouco da misericórdia que nos diferencia dos orcs, minha senhora, deveria pelo menos aprender a controlar sua língua e a usar de gratidão. Esquece-se que deve a Haldir fato de ainda estar entre nós?

Os olhos da jovem faiscaram revelando o ódio que aquele coração era capaz de carregar.

O filho de Thranduil quase conseguiu entrever no olhar da mortal a chama da montanha da perdição. Não fosse pela presença de seus amigos, teria, pelo menos por um instante, temido o ser a sua frente.

- Está tudo bem, Legolas, isso não levará a nada – interrompeu o guardião da floresta antes que o vulcão que era o temperamento daquela mortal fosse provocado novamente.

O jovem príncipe reconheceu no olhar do servo de Galadriel um pedido de compreensão que não poderia ser recusado, então, em atenção ao amigo, calou-se.

- É melhor eu ir agora, a floresta não fica tão perto assim daqui – comentou Tempestade tentando novamente por fim a situação e se retirar. Quanto antes se livrasse daquele traste, melhor. Já chamara por demais a atenção sobre si.

- Você poderá encontrar orcs por lá - comentou Aragorn.

- Ótimo, seria bom reencontrar velhos amigos e cortar algumas cabeças para praticar – comentou chocando mais uma vez os guerreiros a sua volta. Contudo, Haldir tentava se convencer de que a intenção da edain era justamente essa: apenas chocar. Recusava-se a acreditar que a mulher fosse capaz de ser tão cruel quanto alardeava.

- Esse homem disse coisas horríveis sobre a senhora – disse o guardião da floresta sem conseguir esconder um que de decepção.

- E quem não diz? – disse a guerreira mortal se dirigindo ao capitão dos elfos.


Legolas tomou a resolução de segui-la. A frieza com que ela havia matado aquele homem fez seu sangue gelar. O príncipe da floresta negra ainda não se conformara com a situação. Diante da insistência de Haldir em acreditar nas palavras da edain, o filho de Thraduil optou por ir sozinho ver o que a estrangeira iria fazer.

A mulher colocou o homem em um cavalo e se dirigiu à floresta. O príncipe élfico foi cuidadoso a fim de não ser visto. Tempestade parou após a última colina que precedia a floresta. O elfo observou uma estranha movimentação. A matadora de Wargs aproximou-se com o corpo do homem nos braços e jogou-o aos pés de um grupo de orcs! A ex-escrava abria os braços, gesticulava, parecia discutir com eles ao apontar para o corpo. Legolas não conseguia escutar nada, mesmo com sua audição élfica. Decidiu se aproximar conseguindo, assim ouvir as últimas palavras.

- Não se intrometam em meu caminho novamente! Vou cumprir o que prometi, preciso apenas de um pouco mais de tempo – disse a mortal. Enquanto montava o cavalo e dava a volta a fim de retornar à fortaleza, ouviu a sentença da criatura de Mordor:

- Consultaremos o olho, enquanto isso, aguarde nossa resposta.

A mulher respirou aliviada. Conseguira, enfim, um pouco mais de tempo. Entretanto, pode usufruir apenas alguns segundos deste alívio. A voz do servo de Sauron chegou-lhe novamente aos ouvidos:

- E o que fazemos com esse inútil agora?

A humana, que já havia dado as costas ao grupo, virou calmamente a cabeça e disse:

- Não estão com fome?

Os orcs gruniram de satisfação e iniciaram o banquete, enquanto a mortal se distanciava.

O elfo, aterrorizado, não conseguia raciocinar. Nada fazia sentido. Ele tinha apenas uma certeza: aquela mulher era má! O imortal refletia ouvindo o som dos ossos se quebrando e tomou a resolução de não contar nada a Gimli nem a Aragorn. O primeiro era muito impulsivo e não teria o sangue frio para lhe dar com a situação e o segundo já tinha problemas demais. Ele decidiu que resolveria isso com Haldir.