Saudações, meu amigos.

Em primeiro lugar gostaria de agradecer aqueles que estão acompanhando esta história. Peços desculpas pela demora em atualizar, contudo o motivo que me impediu de fazê-lo foi nobre: dei à luz meu segundo filho dia 02/12.

Após um breve período de recuperação, volto à sua companhia. Aguardo ansiosamente pelas reviews.

um abraço a todos.

8 – VENENO

O sol já se punha no horizonte quando a matadora de wargs retornava ao abismo de Helm relembrando os acontecimentos desde a chegada de um certo elfo. 'Preciso parar de pensar nisso, está apenas desviando minha atenção.' Sem pressa alguma, a mulher cavalgava em direção aos imponentes portões da fortaleza, que se abriram para que ela pudesse entrar. Uma conversa entre dois soldados atraiu sua atenção:

- Seria melhor que parassem de entrar e sair o tempo todo! – disse o primeiro.

- Concordo! Em apenas uma tarde, além de abrirmos esse portão para aquele refugiado, tivemos que abri-lo mais de uma vez para essa estrangeira e depois para aquele elfo.

- Não sei o que há tanto para fazer fora destes muros!

A mente da mulher foi invadida por uma série de questionamentos: 'Aquele elfo? Terei sido seguida? Impossível! Tive tanta cautela! Quem teria sido? Haldir? Legolas? Ou algum dos soldados imortais? A mando de quem? Por Mordor! Eu realmente não precisava disso agora!'

A mulher apeou do cavalo deixando-o junto a um monte de feno para que se alimentasse.

-Pelo menos você pode fazer isso tranquilamente – disse a mulher.

Seu braço doía tanto que latejava. Sentia seu estômago embrulhado. Não conseguia comer nada desde cedo. Um pedaço de pão havia sido sua única refeição, contudo isso não era problema para alguém que se acostumara a viver do que sobrava das refeições de orcs. De fato, poder comer um bom pedaço de pão uma vez ao dia era um luxo, objeto de sonho nas miseráveis noites que passara em Mordor.

Seus pensamentos foram interrompidos ao dobrar uma esquina e encontrar um grupo de soldados fazendo uma refeição. Gimli, juntamente com alguns homens do exército de Rohan saboreavam uma sopa rala.

- Ainda em busca de mais alguma vítima, minha cara assassina? – Provocou o filho de Glóin – Nunca consegue se saciar?

- Pelo que vejo, é mais fácil saciar minha sede de sangue do que seu apetite desmedido, mestre anão – retorquiu a mulher.

Contudo, a provocação mútua não teve maiores conseqüências. Tornara-se mais um hábito mais do que qualquer outra coisa. Os soldados não puderam deixar de rir. A rixa entre mulher e anão não deixava de ser um divertimento que aliviava a tensão daqueles dias. Contudo, um deles se dirigiu à Tempestade.

- Sente-se e coma um pouco se quiser. Todos precisamos de forças para a batalha que está por vir.

- Não, obrigada, não tenho fome – disse a mulher tão amigável quanto era capaz.

- Como queira – o soldado respondeu e continuou sua refeição.

A ex-escrava de Mordor se retirou sem perceber que estava sendo observada cuidadosamente por um par de olhos élficos.

Legolas ficou satisfeito em saber que conseguira retornar ao castelo antes da edain e foi procurar por Haldir a fim de relatar o que ocorrera na floresta. Contudo, temendo que a estrangeira voltasse antes que ele conseguisse encontrar o servo de Galadriel, o filho de Thranduil pediu a um dos guerreiros élficos que o avisa-se do retorno da mortal.

Como não conseguira encontrar o amigo antes de ser avisado que a ex-escrava de Mordor cruzara os portões da fortaleza, Legolas tomou a resolução de que falaria com Haldir depois. Não queria perder a edain de vista. Quando a mulher se retirou, Legolas a seguiu. Gimli o viu e resolveu ir atrás dele. O elfo havia sumido a tarde toda e o anão já se habituara a sua companhia.

Tempestade se dirigia à muralha refletindo sobre o breve diálogo com o anão. Ele era como uma pedra que sempre se atravessava em seu caminho. 'Não posso desperdiçar tempo e energia com aquela criatura insignificante' pensava. Levou a mão ao braço direito mais uma vez. 'Mordor! Isso está ficando insuportável! Espero que a sobrinha do rei ainda tenha um pouco daquele ungüento...' Subitamente, seus pensamentos foram interrompidos por um ruído que normalmente não teria sido percebido por ouvidos humanos. Sua audição, contudo, fora bem treinada durante os anos vividos na presença dos traiçoeiros servos do senhor do escuro. A mulher parou, olhou ao redor tentando perceber algo. 'Será que estou ouvindo coisas?', pensou, todavia decidiu manter-se em estado de alerta, posto que, pelo menos aparentemente, havia a possibilidade de alguém havê-la seguido até a floresta.

Alcançou finalmente o local almejado. A tranqüilidade da qual podia desfrutar naquele canto isolado da muralha tomou conta do coração da mulher por alguns minutos. De pé, aguardava. A uma certa distância dali, Legolas a observava.

- O que você está fazendo aqui, elfo? – disse uma voz rude mais alto do que Legolas gostaria.

O elfo saltou sobre o anão tapando-lhe a boca e sussurrando:

- Cale-se ou ela nos ouvirá!

Gimli voltou seu olhar para a muralha e viu a mulher de pé, com o olhar fixo no Leste. A ex-escrava de Mordor olhou de soslaio na direção da porta que levava à escada que dava acesso ao ponto da muralha onde estava. 'Definitivamente, há algo de errado acontecendo aqui'. Iniciou a caminhada rumo às escadas, decidida a descobrir quem a seguia. Elfo e anão ficaram tensos. Contudo, foram salvos por algo deveras inesperado: uma flecha orc que viera cravar-se na parede da muralha. A jovem desistiu de se dirigir à escada e correu a pegar um pequeno pergaminho preso à flecha. 'Consegui um pouco mais de tempo', constatou após ler o conteúdo da mensagem.

- O que é isso em sua mão, mulher? – O filho de Glóin adiantou-se em perguntar.

A mulher, antes de se voltar em direção ao anão, amassou o pequeno papel e, levando-o à boca, engoliu-o.

- Está surda? Responda minha pergunta!

- Do que você está falando? – Respondeu a matadora de wargs com impaciência na voz a fim de despistar seu interlocutor com mais uma discussão.

- Desse pergaminho que está em sua mão. – Retrucou Gimli.

- Está cego, anão. Não há nada em minhas mãos – disse a mulher mostrando as mãos vazias.

- E que significa essa flecha? – Indagou Legolas.

- Bem, vamos pensar um pouco, mestre elfo – respondeu a guerreira debochadamente – estamos prestes a ser atacados por quem mesmo? Ah, Uruk-hais! E que armas ele usam? Flechas! Então o que essa flecha poderia significar? Que estão se aproximando? Testando nossas defesas? Tentando encontrar pontos fracos? São tantas as possibilidades, não acha?

Os olhos do elfo brilhavam de raiva diante do cinismo irritante da mortal a sua frente. Como Haldir conseguia ver algo de bom naquela mulher? Como a senhora de Rohan poderia confiar nela tão cegamente!

- Sabemos que havia algo naquela flecha, Tempestade – disse o imortal entre os dentes – vai nos dizer o que era por bem ou por mal.

- Por mal? – indagou a mulher – Não me faça perder tempo, mestre elfo! Não há nada a ser dito aqui!

A mortal fez a menção de se retirar, todavia sua passagem foi obstruída pelo anão que postou-se à sua frente.

- Não vai sair daqui, minha senhora, sem responder às nossas perguntas.

- O senhor não se cansa de me irritar, mestre anão – e aproximando seu rosto ao rosto do anão – e também não se cansa de ser derrotado?

Diante da provocação, Gimli agarrara o braço de Tempestade cuja mão direita já se aproximava da espada à sua cintura. Haldir já a havia imobilizado daquela maneira quando ela o provocara logo após sua chegada comparando-o a um orc, contudo havia mais habilidade do que força nas mãos do guerreio élfico. O anão, pelo contrário, segurava seu braço com uma brutalidade própria de seu temperamento e proporcional à ofensa que ela lhe fizera. Tempestade tentava suportar a dor e manter-se de pé, todavia, até mesmo ela, acostumada aos castigos de Mordor, tinha seu limite. A mulher caiu de joelhos diante de Gimli. A boca entreaberta e os olhos marejados de lágrimas surpreenderam o filho de Glóin que não esperava conseguir subjugá-la tão facilmente. O anão decidiu aproveitar a oportunidade:

- Diga-me de uma vez por todas quem é você e o que está fazendo aqui!

Mesmo que a matadora de wargs estivesse disposta a dizer alguma coisa, não conseguiria. Nem mesmo Gimli fazia idéia da dor que estava infligindo à mulher à sua frente, todavia, Legolas que, como era característico de sua raça, tinha a sensibilidade aguçada, resolveu intervir.

- Calma, Gimli! Não exagere!

- Exagerar! Afaste-se, meu rapaz, ou não responderei por mim!

Tempestade não conseguia sequer manter a cabeça erguida. Nem se lembrava mais da última vez que se sentira tão impotente diante de um oponente. Por fim, tomou a resolução de se render, mas não da maneira que o anão esperava. Por nada revelaria o que ele queria saber. Em vez disso, elfo e anão foram surpreendidos por um pedido inesperado!

- Tenha misericórdia mestre anão – a dor suplantava o orgulho – solte-me, por piedade – disse a mulher com a voz soando pouco mais do que um sussurro.

O filho de Glóin hesitou por um instante. Afinal, possuía um coração bondoso, apesar de seus modos grosseiros.

- Basta dizer a verdade – respondeu Gimli com um tom conciliador, porém firme – e eu a soltarei.

- A verdade? – sussurrou Tempestade

- Sim, a verdade!

- A verdade – prosseguiu a mulher – é que ...eu estou...morrendo... – a matadora de wargs não ousava sequer levantar a cabeça.

- Do que você está falando?

- Meu braço... a ferida... o veneno... – estava cada vez mais difícil escutar o que Tempestade tentava dizer. Por fim, o corpo da guerreira não suportou mais e ela desmaiou para desespero de Gimli e Legolas. O elfo correu a verificar se a mortal ainda respirava e após um suspiro de alívio dirigiu-se ao anão.

- Está viva – olhou para a mulher que jazia a seus pés – pelo menos por enquanto.

- O que vamos fazer agora? – Indagou o anão.

- Vamos levá-la à senhora Eowyn.

- O que acha que ela vai fazer?

- A sobrinha de Théoden vai ficar furiosa, dado a confiança cega que deposita em sua criada.

- Urrr! Por pouco não conseguimos extrair a verdade dessa serva do escuro! Vamos desmascará-la, contando aos outros o que vimos.

- Não se apresse, Gimli, não temos provas, seria nossa palavra contra a dela – Legolas tentava acalmar o amigo– vamos apenas ficar de olhos bem abertos por enquanto.

- E se essa filha de Mordor contar sobre o que aconteceu aqui?

- Não creio. Terá que falar da flecha e do pergaminho que engoliu.

- Então vamos levá-la à senhora de Rohan – disse o anão inconformado com o fato de o elfo estar com a razão mais uma vez.

Momentos depois, elfo e anão atraíam a atenção de todos por onde passaram. Legolas carregava Tempestade nos braços em busca da sobrinha do rei. Especulações a respeito do que poderia ter acontecido com a criada estrangeira da senhora dos cavalos corriam de boca em boca.

- O que aconteceu com ela? – Perguntou a sobrinha do rei ao ver-se frente a frente com os guerreiros e sua criada.

- Nós a encontramos na muralha desmaiada e...

- O corpo dela não deve mais estar conseguindo lutar contra o veneno – constatou Éowyn retirando de ambos a necessidade de entrar em detalhes, para alívio do imortal e do filho de Glóin.

- Veneno, senhora? – indagou Legolas dando a entender a Éowyn que sabia muito pouco sobre o ocorrido.

- A saliva de um warg é muito venenosa – explicava a sobrinha do rei enquanto o elfo depositava o corpo da mulher no local indicado por ela.

- Sei disso, minha senhora, contudo, pensava que o veneno matasse instantaneamente. Se Tempestade escapara, pensei que com o tempo a ferida cicatrizaria – comentara Legolas.

- Nas diversas incursões que os orcs vinham realizando em nossas terras, aprendermos muito sobre essas criaturas que eles usam como montaria. Um warg quase sempre mata suas vítimas com suas mordidas. O que na maioria das vezes é suficiente, contudo, quando a pessoa escapa apenas com os ferimentos, o seu sofrimento é muito maior. O veneno mata lentamente. É mais de um mês de lenta agonia. Com algumas ervas conseguimos retardar um pouco o efeito e diminuir o incômodo, porém, a morte é inevitável. Tempestade já está condenada – concluiu Éowyn fitando a amiga enquanto retirava a luva e as ataduras que cobriam ferida.

O odor fétido que saía da ferida infeccionada fez com que os guerreiros virassem o rosto. A senhora de Rohan, contudo, acostumada como estava a cuidar de tantos feridos naquela situação, não deixou transparecer seu incômodo. Lavou a ferida, tratou-a com um ungüento especial e cobriu-a novamente. Por um instante Legolas sentiu uma profunda compaixão pela branca senhora dos cavalos. Éowyn era tão nobre, tão boa e valorosa... Ele faria o que estivesse ao seu alcance a fim de libertá-la da influência daquela criatura maligna! Foi tirado de seus pensamentos pela voz da sobrinha do rei.

- Onde está o mestre anão, meu senhor?

- Não sei – Legolas olhou em volta – deve estar em busca de comida como sempre...

O inesperado comentário do elfo fez Éowyn sorrir.

- Vamos deixá-la descansar agora e ver se o corpo dela conseguirá reagir – falou a sobrinha do rei com a voz cheia de tristeza.

- Não me entenda mal, minha senhora – disse o Legolas – mas por que se importa tanto com ela? Entendo que sinta compaixão por alguém tão jovem com um destino tão cruel, contudo há tantos aqui neste estado ou pior. O que ela tem de especial.

Os olhos azuis de Éowyn encontraram os do elfo:

- Sigo meu coração, senhor Legolas, apenas isso.

O imortal abriu a boca a fim de tentar extrair um pouco mais da senhora de Rohan, contudo foi interrompido pelo capitão dos exércitos imortais:

- O que aconteceu, minha senhora? – Haldir parecia preocupado. Ouvira por acaso comentários a respeito da estrangeira desmaiada nos braços de Legolas. Supusera acertadamente que deveria estar sendo levada aos cuidados da sobrinha do rei.

- Tempestade teve uma recaída, meu senhor, vamos deixar que ela se recupere – disse Éowyn indicando aos elfos a porta que levava ao corredor.

- Recaída? – indagou o recém chegado elfo enquanto seguia para fora do recinto.

- Isso mesmo. Ela não tem muito tempo. Mais alguns dias e seu corpo sucumbirá ao efeito do veneno do warg que a feriu – Éowyn não sabia por quê, mas seu coração lhe dizia que deveria externar aquilo pra Haldir. O elfo fora uma das poucas coisas boas que aconteceram a sua criada em tantos anos de sofrimento.

O rosto do capitão se encheu de pesar e Éowyn sentia que deveria deixá-lo a sós com o amigo.

- Se me dão licença, meus senhores – disse afastando-se.

- Boa noite, senhora – respondera Legolas.

Haldir não prestava atenção a mais nada desde a declaração fúnebre da senhora da terra dos cavaleiros. Fitava a porta por trás da qual Tempestade lutava contra a morte.