Olá, Leitores!

Espero que tenham tido um ótimo final de ano. O meu, infelizmente foi um pouco conturbado, por isso a demora em atualizar. Porém, como tudo passa, aqui estamos nós outra vez.

Mais uma vez obrigada a todos aqueles que estão acompanhando Laços de Sangue, em especial aqueles que estão deixando reviews. Pode não parecer, mas faz toda diferença saber a opinião de vocês. Portanto, leiam e mandem, OK!

Um abraço a todos.


DECEPÇÃO

O servo de Galadriel andava de um lado para o outro, pensativo, mirando ocasionalmente a porta do aposento onde sabia que a ex-escrava de Mordor estava. Impaciente diante da ansiedade do amigo, Legolas perguntou:

- Não seria melhor irmos descansar um pouco Haldir? – a voz do elfo soou preocupada. Já havia passado algum tempo desde que a senhora de Rohan se retirara.

- Eu não conseguiria dormir mesmo que quisesse – respondeu o guardião enquanto levava a mão à testa em um gesto de preocupação latente.

- Não entendo o porquê de tanta ansiedade. Ela já está medicada, meu amigo.

- Entretanto a sobrinha do rei fez questão de frisar que Tempestade não resistirá por muito tempo. Eu não consigo me conformar com isso. Uma mulher tão forte e corajosa não merecia ter um fim como esse.

- E perder uma noite de sono diante dessa porta irá ajudar em alguma coisa?

- ...

- Além do mais.... - O jovem elfo calou-se ao refletir tardiamente nas palavras que quase pronunciara.

- Além do mais o quê, Legolas?

- A própria senhora de Rohan já está conformada com a situação. Tudo que era possível fazer por essa mortal, já foi feito – e colocando a mão do ombro do amigo – ela está condenada, Haldir. É a sina deles.

- Você está enganado, Legolas. Muito ainda pode ser feito para salvar tanto o corpo como a mente dessa mulher. – O capitão dos elfo declarou.

- Do que você está falando? Algum novo recurso élfico impetrado pela senhora da luz?

- É um recurso élfico, sem dúvida, meu irmão. Contudo não é novo, nem seria necessária a presença da senhora da luz para que eu o usasse.

Diante da insinuação do amigo, o príncipe do reino da floresta indagou, desejando secretamente que seus pensamentos não correspondessem à verdade:

- Você não pode estar se referindo a possibilidade de...

O olhar determinado do servo de Galadriel bastou para que Legolas percebesse que sua suposição estava correta.

- Você perdeu a sanidade, Haldir? – O jovem elfo estava inconformado - Como pode sequer cogitar em se arriscar dessa maneira por uma...

O filho de Tranduil parou mais uma vez diante do olhar de repreensão do amigo.

- Uma o quê, Legolas?

- Uma estranha, Haldir, apenas isso – disse o habilidoso arqueiro tentando acalmar a chama da ira que surgira nos olhos do guardião - Alguém que você nem conhece e de quem não sabe sequer o nome!

- Sei mais sobre ela do que você imagina, meu amigo – Haldir recordava a conversa ocorrida recentemente entre ele e a mulher e na qual tivera a certeza de que havia algo de muito especial naquela mortal.

- Não, Haldir, você não sabe – Legolas afirmou com tamanha convicção que deixou o capitão intrigado e certo de que o jovem príncipe estava querendo lhe dizer alguma coisa.

- O que você sabe que eu não sei?

Legolas voltou-se em direção à parede e permaneceu em silêncio por alguns instantes. Não seria fácil convencer o amigo da maldade daquela criatura infeliz. Ele parecia já estar enredado na teia tecida por ela. A mesma teia na qual a senhora de Rohan estava presa. Então o jovem elfo, ainda sem fitar o rosto de Haldir, cuidadosamente iniciou sua narrativa.

- Após o incidente com aquele estranho, hoje a tarde, resolvi seguir Tempestade. A frieza com a qual essa mulher matou aquele homem me deixou preocupado. Ela parece incapaz de sentir remorso.

- Ela passou por muita coisa, Legolas - Haldir não se conteve em defender aquela que ele sabia haver sido vítima da insana crueldade de Sauron.

- Não estou negando isso, meu irmão – Legolas encarou o amigo - contudo, seja qual for a causa, essa mortal traz dentro de si o mal com o qual conviveu por tanto tempo. A Terra Negra parece acompanhá-la aonde quer que vá. Isso você não pode negar.

- Não, não posso – admitiu Haldir, baixando a cabeça e fitando o chão.

- Pois bem – prosseguiu o filho de Tranduil – eu a segui até o limiar da floresta e qual não foi minha surpresa quando a vi depositar o corpo do homem diante de um bando de orcs, que em momento algum agiram de forma hostil para com ela.

Haldir levantou a cabeça. Até então imaginava que o discurso do amigo seria baseado em sua intuição – e a intuição de Legolas raramente falhava – contudo o príncipe élfico lhe trazia um fato concreto ao afirmar ter havido um encontro entre Tempestade e os servos do senhor do escuro!

- Sei como é difícil de acreditar Haldir – disse Legolas diante do olhar incrédulo do amigo – eu também fiquei em choque. Todavia resolvi arriscar mais um pouco e me aproximei a tempo de ouvir apenas o final da conversa. Algo sobre uma missão que ela recebera e que estava se demorando a cumprir.

- Que missão?

- Não sei. Ouvi apenas que ela precisava de um pouco mais de tempo e aguardaria pela resposta do senhor do escuro.

- Você tem razão, meu irmão, não é nada fácil acreditar nisso! Preciso falar com ela – disse o capitão dos elfos deixando-se levar pelo calor da situação.

- Calma meu irmão. Eu ainda não terminei – afirmou o filho de Thranduil surpreendendo o outro imortal – os orcs a questionaram sobre o que fariam com aquele homem, agora que estava morto. E para meu horror ela disse claramente: 'Não estão com fome?' E eles o devoraram enquanto ela se afastava tranquilamente retornando à fortaleza.

- Isso não pode ser verdade! – O guardião da floresta estava inconformado – Tem certeza do que está dizendo, Legolas?

Mais do que dúvidas em relação a palavra de seu amigo, a pergunta de Haldir refletia um desejo desesperado de que aquilo não fosse verdade. A voz do guerreiro parecia implorar por um fio de desconfiança. A mínima que fosse, contudo, o filho de Thranduil não sabia mentir, ainda que para poupar alguém que lhe era tão caro de um sofrimento desses.

- Sinto muito, Haldir, tenho absoluta certeza do que ouvi – o jovem elfo fitou novamente a parede fugindo do olhar desesperado de Haldir - E não é só isso.

- E o que, em nome do Único, pode haver além disso?

- Hoje, no final da tarde, eu a segui novamente até um ponto distante da muralha. Gimli me viu e foi comigo. Ambos a vimos receber uma espécie de mensagem enviada por uma flecha orc.

A cabeça de Haldir começou a rodar diante da quantidade de novos fatos que estavam sendo expostos pelo amigo. Aquela mulher estava se fazendo de vítima o tempo todo? O que ela era, afinal? Uma espiã? Uma assassina?

- Nós tentamos extrair a verdade dela. Gimli a segurou com força exatamente no local da ferida. Foi a dor causada pelo anão que a fez desmaiar.

- A senhora Éowyn sabe de tudo isso?

- Não, ela não sabe. Dissemos que encontramos por acaso sua criada desmaiada. Como não temos provas, achamos melhor assim, pois seria nossa palavra contra a dela e a bondosa sobrinha do rei parece alimentar uma confiança cega em sua criada.

- E quanto a mensagem que você mencionou? Ela não serviria como prova? O que dizia?

- Parece cômico, meu amigo, mas a mulher a devorou logo que percebeu nossa presença.

- Ela o quê?

- Ela comeu o pergaminho, Haldir! Fico imaginando quão terrível deveria ser o conteúdo da mensagem para que ela se sujeitasse a esse papel.

- Agora tudo faz sentido... – Após o choque inicial, o guardião voltava a pensar claramente.

- O que faz sentido?

- No dia em que chegamos, logo após o primeiro incidente com o anão, você deve ser lembrar que nós a vimos sozinha na muralha.

- Sim, você a ficou vigiando enquanto eu procurava por Aragorn.

- Exatamente. Na sua ausência, eu percebi que ela tinha um pedaço de pergaminho na mão. E ela o devorou. No momento eu não compreendi nem dei muita importância ao fato, mas agora...como pude ser tão tolo?

- Não se recrimine, meu amigo. A história dela é capaz comover a quem quer que seja. Até a sobrinha do rei confia cegamente nessa mulher.

- Não estou tão certo de que é uma confiança cega que une as duas...

- O que quer dizer com isso, meu irmão?

- Lembra-se de quando a convenci a pedir desculpas ao anão a fim de que ficasse na fortaleza?

- Claro que sim! Uma manobra de mestre! Mas o que isso tem a ver com o que estamos falando?

- Quando cheguei ao corredor, Tempestade e a sobrinha do rei conversavam sobre uma promessa que a estrangeira deveria cumprir e que seria muito difícil fazê-lo fora destes muros – refletia Haldir relembrando o momento em que desejara tão ardentemente descobrir quem era aquela jovem. E o imortal estava quase se arrependendo de haver conseguido.

- Uma promessa? Qual seria?

- Não sei. Talvez o conteúdo do pergaminho houvesse podido nos ajudar.

- Então ao que parece os orcs a mandaram até aqui com uma missão específica – concluiu Legolas.

- O que me intriga, contudo é a participação da sobrinha do rei. Que motivos ela teria para se aliar a alguém assim?

- É Tão difícil de acreditar que valorosa Éowyn tenha se deixado corromper... – refletiu Legolas.

- De qualquer forma, voltando à Tempestade: será que o incidente no arsenal não foi assim tão... por acaso? – Haldir recordava das palavras da mulher: 'Sou uma prostituta, uma assassina.' De certa forma, a mulher deixara claro para ele quem era ela. Ele é que parecia insistir em ver o bem onde só havia o mal.

- Isso eu não sei... pelo que ouvi, aqueles soldados não são exemplos de virtude.

- Sim, porém ela pode ter aproveitado a oportunidade para se fazer de vítima e conquistar a simpatia de todos, inclusive a do rei. Afinal, acostumada como estava a, como ela mesma disse, 'fazer o que era preciso para continuar viva', não deve ter lhe custado tanto 'servir' àqueles homens, já que serviu aos orc por tanto tempo – a voz do galadhrim transparecia todo seu ressentimento. Como pudera desejar alguém assim?

- Detesto tirar conclusões precipitadas, guardião, contudo, imagino que de alguém como ela podemos esperar tudo.

- Diante de tantas mentiras e dissimulações, podemos até nos perguntar se essa mortal realmente está ferida.

- Isso eu não posso negar, Haldir. O corpo dela está morrendo. Você mesmo sentiu isso logo que a conheceu. E depois de hoje, eu também não tenho motivos para duvidar.

- Então o que ela veio fazer aqui? Por que não ficou em Mordor para morrer entre seus iguais? – Indagou, Haldir, com o coração cheio de mágoa. 'Teria essa mortal vindo até aqui apenas para tirar a minha paz?', refletia o elfo.

- Quanto mais penso a respeito dessa mulher, mais chego a conclusão de que ela trás apenas o mal consigo. A única coisa que me vem em mente é que essa mortal veio aqui para poder terminar os seus dias fazendo o que sempre fez em vida: servir ao senhor do escuro e matar.

- Então é isso? Matar por matar? Sede de sangue? - Novamente o guardião recordava as palavras de estrangeira: 'Dentro de mim queima um fogo que só pode ser aplacado com sangue...'.

- Não – respondeu o filho de Thranduil – não acho que essa violência toda seja assim tão gratuita. Como disse, penso que ela veio aqui por um motivo. E você já disse qual: cumprir uma promessa. A questão é: qual seria essa promessa e o que ela ganharia em troca, já que está condenada?

- Se essa mortal está a serviço do senhor do escuro, meu amigo, levando em consideração suas habilidades seria muito mais útil no campo de batalha do que dentro destes muros - ponderou o capitão dos elfos.

- Contudo, estando entre os inimigos de seu senhor, aquela mulher poderia favorecer as forças do escuro com um golpe inesperado - Legolas esforçava-se em desvendar o mistério da ex-escrava de Mordor, contudo a resposta parecia escapar por entre seus dedos.

- Então, ao contrario do que eu disse, ela não seria apenas mais uma guerreira. Nisso Sauron está em franca vantagem. O que há dentro destes muros que o senhor da Terra Negra tanto teme?

- Isso é o que temos que descobrir, mas não precisa ser agora, talvez ela nem passe dessa noite. Estamos exaustos. Vamos descansar, meu amigo. Amanhã cedo cuidaremos disso.

Haldir finalmente concordou em se recolher um pouco. Com certeza não dormiria, todavia, precisava de tempo para colocar seus pensamentos em ordem.


Tempestade acordou com os primeiro raios de sol invadindo o quarto e sentido o conforto do leito onde dormira. Em seu braço, no lugar da dor dilacerante do dia anterior, havia uma sensação de dormência, pela qual sentiu-se grata:

- Éowyn...

Pronunciara o nome da sobrinha do rei, fitando o resto do ungüento que jazia ao lado da cama. Cama? Como poderia ter dormido na cama da senhora de Rohan? Tempestade ergueu-se a fim de conseguir raciocinar. A última coisa da qual lembrava era que estava na muralha...Ah! Não!... a mensagem... o anão... o elfo... A essa altura todos na fortaleza já deveriam saber. Como ainda estava viva? Seus pensamentos foram interrompidos pelo ranger da porta.

- Acordou, finalmente! – Éowyn se aproximava oferecendo um pedaço de pão – coma isso e recupere suas forças minha amiga.

- Senhora, o que está acontecendo? – disse a ex-escrava de Mordor pegando sem muito interesse o pão das mãos da sobrinha do rei.

- Pelo que os batedores comentam os Uruk-hais estão acampados muito próximos daqui. Podem nos atacar a qualquer momento. Talvez a batalha não passe de hoje.

- Era o que a mensagem dizia...

- Que mensagem?

- Recebi mais uma mensagem ontem, senhora, eles estão muito impacientes. Não deixarão que mais um sol se ponha antes do fim da era dos homens...

- Será o fim deles e não o nosso, Tempestade.

- O fim deles e o meu, senhora - retorquiu a mulher fitando seu braço.

- Não perca as esperanças – disse Éowyn segurando a mão da amiga.

- Que esperança pode haver para mim, minha senhora? Contudo, não é isso que me preocupa agora. Algo muito grave aconteceu.

- O quê?

- Legolas e o anão me viram enquanto eu recebia a mensagem.

- Como? Você sempre foi tão cautelosa?

- Eu não sei. Talvez o veneno finalmente esteja afetando meus sentidos. E desconfio que o elfo tenha me seguido até a floresta também.

- Conte-me tudo! – Determinou a sobrinha do rei.

- Como eu desconfiava, os orcs mandaram outro assassino a fim de realizar o trabalho que eu estava demorando em realizar. A muito custo consegui convencê-los a me darem um pouco mais de tempo. Eles disseram que eu aguardasse a resposta até o anoitecer. E foi o que fiz. Decidiram que esperariam até hoje, caso contrário agiriam por conta própria e eu perderia minha chance de...

- De continuar viva.

- Isso.

- Acha que eles tentariam mandar mais alguém?

- Não sei se haveria tempo para isso ou se eles tentariam outra coisa. Todavia, para os exércitos de Isengard seria muito melhor que ele estivesse morto quando chegassem. Enfim, Legolas e Gimli tentaram saber de mim o que significava o pergaminho enviado por uma flecha orc.

- E o que você disse?

- Como sempre, engoli o pergaminho e fingi que não sabia do que eles estavam falando. Inventei qualquer coisa sobre espiões orcs testando nossas defesas, mas como era de se esperar, eles não acreditaram.

- O que fizeram.

- Odeio ter que admitir, mas o anão me pegou desprevenida pelo meu braço ferido e exigiu a verdade. Poucas vezes em minha vida senti tanta dor, minha senhora, mas consegui resistir até que devo ter desmaiado. A essa altura, todo o abismo de Helm deve estar sabendo dessa história...

- Não, não está – disse Éowyn acalmando Tempestade.

- Como não?

- Eu não sei para quem eles contaram essa história, mas não foi nem para mim, nem para o rei ou para ninguém que eu saiba.

- Por quê? – A mulher sentia-se confusa – O que eles pretendem?

- Não tenho resposta para isso, Tempestade, mas é melhor você redobrar seus cuidados de agora em diante. Agora venha, o rei solicitou sua presença.

- O quê?

- Ele me pediu para chamá-la.

- Então o senhor de Rohan já deve saber de alguma coisa, minha senhora.

- Não se preocupe, Tempestade, eu conversei com meu tio e o rei não faz idéia do que está acontecendo. Termine seu pão e vamos!

- Não quero comer nada, minha senhora! – afirmou a mulher impacientemente.

- Como poderá cumprir sua promessa se não se alimentar, minha cara? – disse ternamente a senhora dos cavalos.

- Está bem! – respondeu Tesmpestade rendendo-se à bondade de Éowyn.


Enquanto isso, olhos élficos insones contemplavam o nascer do sol. Uma resolução tomando forma em seu coração.