Olá leitores, muito obrigada pelos carinhosos reviews. E aos que ainda não mandaram, mandem tá! Não demora muito e um pequena frase ou um alô fazem toda diferença para qualquer autor!

Um abraço e boa leitura.


Tempestade apresentou-se à Théoden, atendendo ao seu chamado o quanto antes. Contudo, não esperava encontrar ali Aragorn, Haldir, Legolas e Gimli. 'Mordor, eles nunca se separam!'

- Mandou me chamar, meu senhor?

- Sim minha jovem, pode entrar – disse cordialmente o rei.

A mulher aproximou-se um tanto desconfiada. Deveria tomar cuidado. Legolas a fuzilava com o olhar, contudo o imortal era tão discreto que apenas ela percebia isso. O desprezo nos olhos do anão já não era surpresa. Contudo, a frieza no olhar de Haldir a surpreendeu. 'Tão diferente do último olhar que trocamos' refletiu a mulher.

- Como você está, minha jovem? Soube que teve uma indisposição? – indagou o senhor dos cavalos.

- Sim, meu senhor, mas já estou melhor, obrigada – Tempestade olhava de um rosto para outro tentando encontrar pistas de quem sabia o quê naquele jogo perigoso em que ela se arriscara.

- Que bom. Faz idéia do motivo pelo qual a chamei aqui? – Prosseguiu o rei.

- Não, meu senhor – o coração mortal disparou diante do sorriso quase imperceptível que vira nos lábios de Legolas quando da indagação do rei.

- Tem certeza de que está se sentido melhor, Tempestade? – O filho de Arathorn finalmente se pronunciou – Está tão pálida!

- Isso é devido à minha condição, senhor Aragorn, como o senhor já deve saber. Estou lutando contra o tempo.

- E contra o veneno que corre em suas veias, não é minha senhora? – a pergunta de Legolas só não pode ser compreendida em sua totalidade por Théoden e Aragorn, os quais pensaram que o elfo se referia apenas ao problema de saúde da mulher.

- Sim, mestre elfo, contra o veneno – disse Tempestade, tentando parecer agradecida pelo 'interesse' do elfo por seu estado.

- É realmente uma pena que para certos males não haja um antídoto – foi a vez de Gimli provocar Tempestade.

- Isso é algo com o qual já me conformei, mestre anão – a matadora de wargs estava no seu limite, quando Théoden interveio.

- Sinto muito interrompê-los, meus senhores, pois muito me alegro em ver que o clima de animosidade entre meus aliados está diminuindo. Contudo tenho algo muito importante para perguntar a você, minha jovem.

- Sim, meu senhor.

- Há alguns dias que meus batedores me informam que o exército de Isengard está muito próximo daqui, acampado. E nem eu nem nenhum dos meus conselheiros consegue compreender o motivo pelo qual ele ainda não nos atacou.

- Eles têm soldados suficientes para isso. Aparentemente, nada os impede – completou o filho de Arathorn.

- Isso mesmo, meu senhor Aragorn, aparentemente – prosseguiu o rei – contudo eles não o fizeram. Por quê? Será que você poderia nos dizer, minha jovem?

Tempestade deu um passo para trás. Éowyn a teria traído mandado-a para uma armadilha? Como o rei poderia saber que ela tinha algo a ver com a demora do ataque a Helm? O brilho de satisfação nos olhos de Legolas e Gimli a fizeram ver a necessidade de se acalmar.

- O que houve, Tempestade? – indagou o herdeiro de Isildur.

- Nada, meu senhor. Eu apenas não compreendo por que os senhores acham que eu possa ter a resposta para essas perguntas.

- Eu explico, minha jovem – prosseguiu o senhor de Rohan – é sabido que você conviveu muito tempo na Terra Negra com os servos do senhor do escuro. Deve ter ouvido e visto muito sobre o modo como eles agem. Pensei que talvez pudesse nos ajudar a compreender a estratégia de Sauron e Saruman.

A matadora de wargs suspirou aliviada. Éowyn tinha razão. Legolas e Gimli nada disseram, pelo menos aparentemente. Contudo, com aquele jogo de olhares e palavras, quase conseguiram fazer com que ela se traísse. Seria melhor manter o sangue frio para não dar nenhum passo em falso. Diante do olhar questionador do rei, Tempestade respondeu:

- Entendo, meu senhor, contudo espero que o senhor compreenda que eu era apenas uma escrava. Eu não fazia parte do exército de Mordor.

- Claro, minha senhora – interveio Haldir, não se contendo diante do cinismo daquela mulher que mais uma vez tentava se fazer de vítima – temos total conhecimento dos serviços prestado pela senhora por trás dos portões negros. Contudo – Haldir prosseguiu sem se incomodar com os olhares surpresos com a incomum falta de cortesia do guardião da floresta – como disse o rei, a senhora deve ter visto e ouvido muitas coisas.

A surpresa no rosto de Tempestade era latente. 'Você é bela aos meus olhos', se lembrara das palavras de Haldir. 'O que pretendia com aquela conversa, elfo intrometido? Provar que eu também não resistiria ao seu olhar? Apenas isso? Que seja, para Mordor com você e seus olhos traiçoeiros!' E aos poucos a expressão de surpresa no rosto da mortal fora substituída pela frieza habitual.

- Sim, meu senhor Haldir – prosseguiu Tempestade – é claro que vi e ouvi muitas coisas. Estou apenas tentando evitar que minhas palavras recebam mais crédito do que deveriam.

- Então apenas responda minha pergunta, minha jovem – disse o rei.

- O senhor do escuro gosta de tormentos mesquinhos, meu senhor. Diverte-se colocando seus inimigos, e às vezes até seus servos, uns contra os outros. Vi muitas vezes grupos de orcs se enfrentando e se matando por motivos fúteis e nada era feito para impedir a perda de tantos soldados, pois os orcs se multiplicam muito facilmente, por isso o divertimento compensava as baixas.

- Prossiga – disse Théoden interessado.

- Só posso imaginar que nesse exato momento, Sauron está apostando no medo que deve estar tomando conta dos corações de seus soldados, meu senhor, a fome e a sede assolando o povo e causando todo tipo de sofrimento e desavenças. Então, em vez de arriscar a perda de preciosos Uruk-hais, o senhor do escuro prefere deixar que o exército de Rohan seja enfraquecido pela fome, pela ansiedade e pela discórdia que sempre surge quando os ânimos estão muito exaltados.

Os olhos do senhor de Rohan e do herdeiro de Isildur se cruzaram enquanto ambos expressavam em seus rostos a satisfação de uma expectativa correspondida.

- Enfim, o senhor estava com a razão, meu caro Aragorn – Théoden se dirigia a seu aliado – ela não nos decepcionou.

- Muito bem, Tempestade – disse Aragorn – me parece que você solucionou o enigma.

- Pois bem – disse Théoden com um discreto sorriso – se Saruman pensa que vamos nos devorar como animais, está muito enganado. Gamling!

- Sim, meu senhor – respondeu o capitão do exército de Rohan

- Reúna os homens, reforce a moral deles. Transmita essas mesmas instruções aos responsáveis por aqueles que estão escondidos nas cavernas! Nossa batalha contra as forças do escuro já havia começado e não havíamos percebido!

Gamling fez uma reverência a seu senhor e se retirou a fim de cumprir suas ordens.

- Obrigado, minha jovem – o rei se dirigiu à matadora de wargs – Rohan lhe será eternamente grata.

- Se me permite, meu senhor – Tempestade se dirigia ao rei – devo me retirar.

- Pode ir minha jovem, e mais uma vez, muito obrigada.

A mulher começou a caminhar em direção à porta. O braço voltou a latejar, contudo a dor em seu coração era ainda maior. 'Para Mordor com ele', pensava. 'Nunca me deixei levar por sentimentalismos inúteis. Por que agora seria diferente?' e a ex-escrava de Mordor cruzou a saída da sala real resolvida a não olhar para trás.


Enquanto caminhava pelo corredor, a matadora de wargs percebeu uma forte presença ao seu lado.

- Vejo que conseguiu mais uma vitória, minha senhora. Creio que ganhou o favor dos grandes de Rohan essa manhã - a voz penetrante de Haldir lhe chegou aos ouvidos sem a ternura do momento que desfrutaram a sós, porém não havia frieza nas palavras do elfo como ela percebera momentos antes na sala real.

- Isso definitivamente não me interessa, meu Senhor Haldir – disse Tempestade voltando-se para o imortal a fim de tentar perceber em seus olhos o que ele realmente pretendia – apenas respondi à pergunta que me foi feita e, como deixei claro ao rei, não gostaria que minhas palavras tivessem tanto peso. Não sou nenhuma especialista em guerras como os senhores. Já lhe disse isso antes.

- Eu me lembro. A senhora disse que não entendia de lutas. Que entendia apenas de sobrevivência. Que fazia o que era preciso para continuar viva. Não estou certo?

- Está – respondeu a mortal tentando transmitir uma segurança inexistente.

Enquanto caminhavam, a ex-escrava de Mordor refletia. Estava um tanto confusa diante das palavras do elfo. Aparentemente, ele continuava gentil e se mostrava atento à ela, contudo algo havia mudado. Ou seria apenas impressão sua? Estaria se deixando afetar pelo jogo impetrado por Legolas e Gimli? Haldir sabia ou não sabia do ocorrido? E se sabia, até onde? Se fosse apenas a respeito do incidente na muralha, seria sua palavra contra a deles, todavia, se Legolas realmente a seguira até a floresta e se vira algo e contou ao Capitão dos elfos? Eram muitas as possibilidades e poucas as certezas que matadora de wargs possuía. Decidiu agir com extrema cautela.

Haldir permaneceu calado por alguns instantes analisando a mulher que caminhava a seu lado. O perfil duro, a mão segurando a espada à sua cintura. Parecia sempre pronta a atacar.

- Suponho, minha senhora, que subestima sua capacidade. A visão que a senhora teve dos acontecimentos foi clara e precisa.

- O que pretende com esse discurso, capitão? – Tempestade ficou desconfiada diante das lisonjeiras palavras do elfo. Não era de seu feitio distribuir elogios.

Haldir percebeu a hesitação da mulher. Não dera o devido crédito a sua astúcia. Sentia que ela se distanciava dele. Não poderia permitir isso

- Nada, minha senhora. Foi apenas um comentário, é que...

- O que, meu senhor? – A ex-escrava de Mordor achou estranha a frase incompleta. Também não era costume do elfo não concluir seus pensamentos.

- Sinto tê-la tratado daquela forma durante a audiência com o rei – o guardião detestava mentiras, contudo não via outra saída – sei que meu comentário foi extremamente desagradável, peço que me perdoe.

- Que comentário, capitão? – Tempestade compreendeu, todavia queria ter certeza a que o elfo se referia.

- Meu comentário sobre seus...suas obrigações em Mordor... peço desculpas.

- Não precisa se desculpar com uma escrava, meu senhor, por haver dito apenas a verdade.

'Odeio a forma como se faz de vítima, mulher' pensou o guardião.

- Contudo, tenho consciência de que meu comentário foi ofensivo. No ardor em descobrir as intenções do inimigo, acabei por deixar de lado o devido respeito que se deve guardar para com todos, principalmente para com nossos aliados. Preciso que me diga que não guarda ressentimentos para comigo.

Tempestade estava confusa. O elfo parecia sincero e até mesmo necessitado de seu perdão. Caso contrário, por que estaria insistindo tanto? Talvez não soubesse de nada a afinal.

- Já disse que não é pra tanto, meu senhor – respondeu a guerreira.

- É sim – Haldir parou de caminhar estendendo sua mão diante de Tempestade fazendo com que ela também parasse e se voltasse para ele – ainda está magoada comigo? – disse o elfo com voz doce e olhar penetrante quase lhe roubando a respiração.

- Eu...- a matadora de wargs sentia-se envolvida pela presença masculina. O que via nos olhos dele não podia ser mentira.

-Você? – disse Haldir se aproximando e mergulhando nos olhos castanhos a sua frente.

A mulher não conseguia responder. Confusa que estava entre o que sentia e o que pensava. A razão lhe dizia que havia algo estranho. Que não seria prudente deixar-se envolver. Contudo, pela primeira vez em muitos anos sentia-se...querida por alguém.

Percebendo que a mortal baixara um pouco a guarda, o servo de Galadriel lançou mão de uma manobra arriscada. Com o indicador direito tocou o queixo de Tempestade fazendo-a estremecer. E num sussurro pronunciou mais algumas palavras:

- Não está brava comigo, está?

Tempestade sentia suas pernas falharem. 'Como alguém pode ser tão... perfeito...Não! – algo gritou dentro dela – não posso me deixar levar. Preciso dizer alguma coisa ou esse elfo vai me fazer desmaiar'

- Não, meu senhor – finalmente conseguiu dizer afastando-se um pouco e fitando o chão.

- Que bom – disse o imortal esboçando um sorriso - sendo assim, peço sua licença, minha senhora. Há muito o que fazer e a batalha é iminente – e fazendo uma leve reverência, se retirou.

Tempestade observa o elfo se afastando. Seu andar elegante, seu porte, os cabelos caindo pelos ombros como uma cascata dourada. Algo rastejou em seu coração. Não fazia diferença, afinal, se ele sabia ou não. A batalha se aproximava, assim como o fim de sua missão. E depois, fosse como fosse, restaria para ela apenas a morte ou uma existência miserável na qual traria a lembrança de algo que na verdade nunca acontecera. E nunca poderia acontecer.


A uma certa distância dali, o imortal respirava fundo, tentando se recompor. Além de não haver conseguido nenhuma informação adicional, quase perdera o que com tanto trabalho havia conquistado, pois durante a audiência, não conseguira fingir o suficiente e até mesmo perdera o controle, extravasando sua indignação, sendo obrigado, assim, a se desculpar.

A proximidade a que teve que se submeter o deixou abalado. Não fosse a firme confiança que tinha nas palavras do amigo, teria beijado aquela mulher e a teria envolvido em seus braços para nunca mais deixar que se fosse. Teria dito que poderia salvá-la da morte certa a que se julgava condena e que poderiam juntos apagar todas as manchas de solidão dele e de sofrimento dela. 'Valar! Será que estou sob algum feitiço?', refletia o guardião. 'Se Legolas viu o que viu, não há como essa mortal ser o que afirma ser. Contudo, não consigo ver nela o que suas ações demonstram'.

- Algum problema, Haldir? – o príncipe do reino da floresta revelou sua presença.

- Se eu dissesse que não, estaria mentindo e mesmo assim não conseguiria enganá-lo...

- Eu sei. Eu vi – afirmou o filho de Thranduil.

- Viu? O quê? – perguntou o guardião.

- Sinto muito se me intrometo em seus assuntos, meu amigo. Entretanto, quando o vi sair atrás daquela mulher, não pude me omitir e segui vocês. É possível ver de longe o fogo que os consome quando estão juntos.

- Perdoe-me se me repito, meu irmão, não estou duvidando de você, todavia preciso perguntar... Tem certeza absoluta do que viu na floresta? – Haldir ansiava por uma réstia de dúvida nas palavras ou no olhar do amigo, contudo...

- Sim, Haldir. Meu coração dói em ter que lhe dizer isso mais uma vez, meu irmão, mas não há como eu estar enganado. E depois do que vi agora há pouco, chego a lamentar estar certo – Legolas era sincero.

- Como assim?

- Tempestade sente algo muito forte por você e você por ela. Ainda que seja uma serva do senhor do escuro, ainda é capaz de sentir...

- Sentir o que, Legolas? – O guardião da floresta tentava se agarrar em qualquer possível chance que houvesse...

- Não me arrisco a dizer, Haldir. Só vi que é algo muito forte.

- Talvez haja, então uma chance para ela? – Um brilho surgiu nos olhos imortais do servo de Galadriel.

- Não, Haldir. Não acho que devamos alimentar uma esperança assim. Não sabemos o que ela pretende, afinal. Precisamos nos concentrar em descobrir o que essa mulher veio fazer aqui. Esse deve ser nosso objetivo. Não podemos nos arriscar a mudar de rumo. Ainda que exista algum bem naquela mulher o mal ainda prevalece. Não se esqueça de suas crueldades.

As palavras de Legolas eram dolorosamente sábias. E o guardião se curvou a elas. Por mais que aparentemente ainda existisse algo de humano em Tempestade, estava claro que ela viera a Rohan para causar a ruína de sua própria gente. Não seria razoável ter esperanças de salvá-la, afinal. Haldir se puniu mentalmente por quase haver se deixado enredar novamente na teia daquela serva do escuro e tomou a resolução de voltar suas forças e seus pensamentos ao mistério que precisavam desvendar:

- Legolas – prosseguiu o servo de Galadriel – você conseguiu chegar a alguma conclusão a respeito do enigma da promessa que essa mortal veio cumprir aqui?

- Não, guardião. Nesta fortaleza não existe nenhuma arma ou poder que possa ameaçá-lo. Ao contrário, estamos em franca desvantagem.

- Neste caso, é melhor usarmos o pouco que temos da melhor forma possível – disse o capitão colocando a mão no ombro do amigo – e não é tão pouco assim, não é mesmo? – Haldir sorriu para Legolas, que percebera a referência às suas habilidades de arqueiro.

- De fato – o filho de Thranduil retribuiu o gesto – não é pouco.