11 – DESMASCARADA
Restavam apenas algumas horas para a chegada dos exércitos de Isengard ao abismo de Helm. Isso trazia a todos a ansiedade própria daqueles que lutam em desvantagem extrema. Entretanto, com a presença do filho de Arathorn os soldados sentiam-se fortalecidos. Para Tempestade, era um sinal claro de que Sauron não se enganara. Aquele guardião do Norte era verdadeiramente o herdeiro de Isildur e herdeiro do trono de Gondor. Com ele vivo, as chances de triunfo das forças do escuro diminuíam.
Após se recuperar da conversa com o imortal, que, por alguns instantes, a distraíra da realidade, a matadora de wargs pôs-se em busca do pretenso futuro rei dos homens. Não poderia mais perdê-lo de vista. Os batedores de Rohan informaram que os Uruk-hais chegariam ao anoitecer. Em sua busca nos intermináveis corredores e recintos da fortaleza, Tempestade finalmente o encontrou analisando um trecho da muralha. Aproximou-se lentamente, contudo os sentidos do guardião do norte eram muito bem treinados e seu rosto se voltou para aquela que o observava:
- Algum problema, Tempestade?
- Não, meu senhor.
- O que deseja?
- Eu o vi se dirigindo até aqui sozinho e achei por bem lhe dizer que não considero seguro que o senhor se exponha tanto. O exército inimigo está se aproximando e por certo já enviou batedores a fim de testarem as fraquezas destes muros. Uma flecha poderia atingi-lo.
- Agradeço sua preocupação, minha cara. Entretanto, não há como não me expor. Além disso, no momento há muitas vidas em risco para que eu me preocupe apenas com a minha. Como você mesma disse, pode haver fraquezas nestas muralhas e é por elas que estou buscando a fim de não sermos surpreendidos. Já estamos em muita desvantagem.
- Como queira meu senhor – assentiu a mulher – peço apenas sua permissão para ficar em sua companhia.
- É livre para ir, vir ou ficar onde quiser, minha cara – respondeu Aragorn retornando ao exame da muralha.
'Livre para ir e vir...', repetiu mentalmente a matadora de wargs.
Após encerrarem a conversa, Haldir e Legolas partiram em busca dos exércitos élficos. Sabendo que as forças de Isengard não mais tardariam, os imortais deveriam procurar os lugares mais propícios de onde poderiam lançar uma chuva de flechas sobre os inimigos. Entretanto, eles é que foram encontrados pelo filho de Glóin:
- Onde você estava, Legolas? – o anão parecia furioso – o combinado foi que ficaríamos de olho naquela aranha traiçoeira!
- Eu sei, Gimli, me desculpe. Precisei resolver algo urgente com Haldir.
O anão curvou a boca em um esgar:
- Vamos então. Não consigo encontrá-la em parte alguma. Com certeza deve estar tramando alguma diabrura!
- Sinto muito, meu irmão. Como vê, não poderei ajudá-lo - O filho de Thranduil olhou para o guardião de Lórien – creio que vigiar aquela mortal é de fundamental importância.
- Não se preocupe, Legolas. Estou certo de que o senhor Aragorn não se importará em me auxiliar. O conhecimento dele em relação ao nosso exército e a liderança que exerce podem fazer com que a batalha penda a nosso favor.
- Isso é verdade – confirmou o filho de Glóin, um tanto contrariado em reconhecer que o elfo estava certo mais uma vez – sem ele estaríamos perdidos!
- Então com sua licença, vou em busca do herdeiro de Isildur – disse Haldir levando a mão ao peito, fazendo uma leve reverência e se retirando.
- Desejo-lhe sorte em sua busca, capitão – disse o anão – aquele temerário está sumido há várias horas. Não consegui encontrá-lo em parte alguma. Aliás, desde nossa audiência com Théoden, os primeiros que consegui encontrar foram os senhores.
O servo de Galadriel parou olhando rapidamente para os dois companheiros que começara a deixar para trás. Seus olhos encontraram os de Legolas que, ao que parecia, tivera o mesmo pensamento do guardião.
- O que você disse anão? – indagou o imortal de Lórien
- Que vocês são os primeiro que consegui encontrar...
- Não! – Interrompeu Haldir se reaproximando de Legolas e Gimli – antes disso!
- Que não consegui encontrar Aragorn?
- Isso! E que sem ele estamos perdidos! – completou o guardião de Lórien.
- O que está querendo dizer, capitão? – o filho de Glóin estava confuso.
- E que também não conseguiu encontrar Tempestade em parte alguma! – As palavras de Haldir quase não conseguiam acompanhar seu raciocínio.
- A liderança do futuro rei de Gondor pode desequilibrar a batalha, não foram essas suas palavras Haldir? Talvez Sauron pense o mesmo – disse o filho de Thranduil segurando o braço do amigo imortal - Como pudemos ser tão cegos? Tempestade se indispôs com todos nós em algum momento, exceto... Aragorn.
- Estava sempre pronta a atender suas solicitações, aquela serva do escuro dissimulada! – admitiu Haldir – apenas para ganhar a confiança dele e... se aproximar...
- Estão querendo dizer que aquela aranha traiçoeira...
Nenhum dos imortais esperou Gimli concluir sua fala e o anão também não se deu a esse trabalho. Partiram em busca dos dois. Pois tinham a certeza de que onde o herdeiro de Isildur estivesse, Tempestade estaria.
A ex-excrava de Mordor observava atentamente o filho de Arathorn, assim como tudo mais ao redor. As muralhas não poderiam ser escaladas. Contudo, no ponto onde estavam, a construção de Rohan se unia à pedra maciça e o que poderia vir de lá seria inesperado se a mulher não conhecesse o pensamento dos servos do senhor do escuro.
'Falta pouco para a chegada dos Uruk-hais', refletia a jovem guerreira, 'Será que aqueles orcs imbecis ainda irão tentar algo?' Seus pensamentos foram interrompidos ao perceber uma estranha movimentação por trás das rochas. 'Eu sabia! Criaturas desprezíveis... Estão tentando me suplantar mais uma vez, mas não vão conseguir!' dizia consigo mesma enquanto retirava cuidadosamente o punhal preso à sua cintura. Com habilidade e delicadeza surpreendentes a mulher manejava a arma. Enquanto girava o braço para trás a fim de fornecer ao punhal o impulso necessário, estreitava os olhos tentando perceber a hora exata em que a arma deveria ser lançada. Quando seus instintos lhe disseram que o momento havia chegado, a matadora de wargs lançou o punhal, contudo uma flecha se antecipou aos seus movimentos vindo se alojar na mão da guerreira e fazendo com que o objeto lançado pela mulher desviasse seu rumo e atingisse um ponto qualquer aos pés de Aragorn chamando a atenção do herdeiro de Isildur.
Tempestade caiu de joelhos segurando o pulso da mão atingida. E qual não foi sua surpresa ao perceber que a flecha que a princípio acreditara pertencer aos orcs, era na verdade dos elfos. Olhos mortais então se voltaram em direção à porta onde Legolas, ainda com arco em punho a olhava acusadoramente. Ao lado dele, Haldir também sustentava seu arco apontando para a ex-escrava de Mordor.
- Não se mexa, se, pelo menos por enquanto, quiser continuar viva, imunda! – A voz do servo de Galadriel soava cruel e assassina aos ouvidos da mulher, revelando um lado do guardião até então desconhecido por ela. Esse devia ser o Haldir tão temido pelos orcs, afinal.
Gimli, ao contrário dos elfos, não ficara observando a cena de longe, e sim introduzira-se nela caminhando em direção à mulher e agarrando-a pelos cabelos:
- Por fim a desmascaramos, prostituta – disse o filho de Glóin arrancando a flecha alojada na mão da matadora de wargs.
Antes que a mulher pudesse reagir, teve seus braços imobilizados para trás pelo anão que, a despeito da baixa estatura, possuía uma força considerável. Erguendo os olhos, Tempestade encontrou o rosto do herdeiro de Isildur. Aragorn, incrédulo, olhou para o chão e apanhou o punhal a seus pés. Nenhuma palavra era necessária. Nenhuma palavra seria suficiente. Contudo, o guardião do norte aproximou-se de sua algoz:
- O que pretendia com isso, mulher? – A voz de pedra e gelo fez Tempestade hesitar em responder. Gimli apertou seus braços:
- Responda, criatura traiçoeira!
A mulher não se permitiu gemer. Não daria mostras de fraqueza. Sabia dos riscos aos quais se submetera. Por conta disso, se preparara para esse momento. Iniciou seu discurso mesmo sem esperanças de que dessem crédito a suas palavras.
- Acredite se quiser meu senhor, mas acabei de salvar sua vida – disse desafiadoramente.
Indignação tomou conta de todos os presentes.
- Como se atreve a continuar mentindo com tamanha desfaçatez! – Gimli quase não se continha de tanta revolta!
- Diga a verdade, Tempestade, e lhe concederemos uma morte rápida! – Disse Legolas se aproximando já com uma nova flecha apontada para e estrangeira.
- Eu tentei alertá-lo, meu senhor Aragorn – disse a mulher sem levar em consideração as palavras do elfo – de que era perigoso ficar aqui. Por isso pedi permissão para permanecer junto ao senhor.
- Continue – disse o herdeiro do trono de Gondor.
- Havia orcs por trás daquelas rochas. Provavelmente pretendiam fazer-lhe algum mal! Mirei em um deles e o teria acertado se a flecha de seu amigo não houvesse me atingido primeiro – respondeu olhando para o filho de Thranduil.
- Como pode ser tão cínica, assassina! – Inquiriu o anão.
- Haldir, veja se há alguma coisa lá, por favor – solicitou Aragorn.
- Com todo respeito, meu senhor – a mulher se dirigia ao herdeiro de Isildur – não pensa realmente que os servos do senhor do escuro continuam lá aguardando serem descobertos, pensa?
- Não, minha cara, penso que a serva do escuro que havia para ser descoberta, já o foi – respondeu o guardião do norte deixando Tempestade certa de que não seria fácil convencê-lo.
O capitão dos exércitos imortais, atendendo a solicitação do futuro rei dos homens, caminhou em direção ao ponto indicado:
- Não há nada aqui, Aragorn.
- E nem poderia, não é mesmo, minha cara? – Indagou o herdeiro de Isildur nitidamente magoado.
Tempestade nada respondeu. O que poderia dizer?
Haldir recriminava a si próprio por ter sido capaz de acreditar que naquela mortal poderia haver algum bem. Pior ainda, por acreditar que poderia haver algo entre eles e que teria arriscado sua existência imortal por aquela criatura vil. Tal pensamento fez o guardião de Lórien se sentir nauseado.
- Não vai mesmo confessar, mulher? – Continuou Aragorn.
- Fui enviada aqui para matá-lo, meu senhor – disse por fim a matadora de wargs.
- Isso eu já havia percebido...
- Contudo, não pretendia fazê-lo – mais uma vez a descrença perpassou o rosto dos presentes.
- Seu cinismo não tem limites, minha senhora? – indagou o herdeiro de Isildur olhando para o punhal.
- Se não está disposto a acreditar em minhas respostas, meu senhor, por que continua a me fazer perguntas?
Ao dizer isso sentiu seu corpo ser curvado para frente. Sabia que se dependesse do anão, já teria sido estrangulada.
- Como se atreve a falar assim ao futuro rei de Gondor, cria de Mordor maldita? – Foram as palavras de Gimli.
- Calma, meu amigo – Aragorn se dirigira ao filho de Glóin antes de prosseguir com a estrangeira – vamos lhe dar mais uma chance, Tempestade. Em nome de sua coragem e força e em nome do resto de dignidade que sinto ainda haver em sua alma: O que pretendia?
A mulher fechou os olhos. 'Adiantaria continuar? Por que aqueles elfos e aquele anão insuportável não esperaram apenas mais um minuto antes de aparecerem? Tivesse sido mais cautelosa desde o princípio e continuado sem chamar tanta atenção sobre si, não estaria passando por mais esse constrangimento. Maldita hora que me deixei levar por aqueles olhos imortais traiçoeiros!'
Por fim, decidira não usar sua primeira justificativa, posto que a única coisa que poderia usar como prova, a arma que lhe fora dada por Sauron para ser usada em Aragorn, não seria, por si só, suficiente sem que suas palavras tivessem um mínimo de crédito diante de seus interlocutores, pelo contrário, poderia complicá-la ainda mais, pois crédito era algo de que a mulher não dispunha no momento. Daria, portanto, uma justificativa mais plausível, baseada nos últimos acontecimentos, e que não deixaria de ter certos traços de verdade.
- Fui mandada aqui para matá-lo, meu senhor. Entretanto, diante da bondade que encontrei neste país e em seus habitantes, mudei minha resolução inicial. Supunha eu, depois de tantos anos vivendo à sombra do senhor do escuro, que não existisse mais nada no mundo dos homens pelo que valesse a pena lutar. Quando encontrei aqui a coragem do sangue de Númenor...
- Chega! – interrompeu Legolas – não profane a dignidade desse nome com suas palavras mentirosas, mulher!
Tempestade olhou para Aragorn e viu no rosto do herdeiro de Isildur a mesma incredulidade de antes. Legolas prosseguiu:
- E quanto aquele homem que você matou? E quanto aos orcs que encontrou na floresta? – Olhares se voltaram para o filho de Thranduil perplexos com o fato novo. Dos presentes, apenas Haldir sabia deste detalhe.
A mulher engoliu seco. O elfo sabia demais. Seria difícil contornar a situação. Optou por responder o que lhe fosse possível.
- Aquele homem foi mandado pelos orcs para cumprir a tarefa que eu estava me demorando em realizar, mestre elfo, dado que a paciência dos servos do senhor Sauron estava se esgotando. Na floresta, tudo que fiz foi tentar conseguir mais tempo para que não impetrassem novo ardil contra o senhor Aragorn por outros meios, como o fizeram há pouco.
- Foi com essa história ridícula que você enredou a sobrinha do rei, mulher desprezível! – Legolas não se esforçava em ocultar sua revolta.
- Senhor Sauron? Parece-me que ainda nutre por seu 'antigo' mestre um respeito incontido, minha jovem.
- É apenas força do hábito, meu senhor Aragorn.
- Incomoda-me, minha senhora, que use para comigo o mesmo tratamento que para o senhor do escuro, principalmente agora que sei onde está sua lealdade.
A mulher baixou a cabeça e fitou o chão. Havia cada vez menos esperança para ela.
- Diga-me, Tempestade – a voz do herdeiro de Isildur era de uma calma calculada – o que Sauron lhe prometeu em troca de minha morte?
Estaria o futuro rei dos homens lhe dando mais uma chance? A mente da mulher era um turbilhão de possibilidades.
- Minha vida, meu senhor – respondeu a mulher – minha vida pela sua.
- Verdade? Explique-se!
- Apenas Sauron é possuidor do antídoto para o veneno dos wargs.
Olhares foram trocados entre os imortais. Excetuando a parte onde a mortal despudoradamente tentava forjar sua inocência, o discurso da mulher respondera a todas as suas perguntas.
- Contudo – prosseguiu a guerreira – tudo tem um preço. A cura me traria apenas uma existência miserável na qual libertar-se do domínio do senhor do escuro seria praticamente impossível. O que, na realidade, não seria tão diferente assim da vida que eu tinha até então.
- E você quer nos convencer de que foi tomada por um rompante de bondade e decidiu sacrificar sua vida por um homem que não conhecia até alguns dias atrás? – perguntou o anão com tom sarcástico e puxando ainda mais a mulher pelos cabelos.
- Na verdade – Tempestade não se dobrava – esse não foi o único motivo que me fez mudar de idéia...
- Pois estou farto de seus motivos, mulher – disse Aragorn atirando ao chão o desprezível punhal – como você mesma disse quando matou aquele homem, que agora percebo ter sido apenas mais uma vítima de suas maldades, os fatos falam por si. Suas palavras e suas ações lhe condenaram.
- Se não acreditam que salvei sua vida agora, não pode negar que salvei ontem matando aquele assassino.
- Isso não prova muita coisa – interveio Haldir – você poderia apenas estar evitando que outro assassino lhe impedisse de conquistar sua recompensa.
- Se é que aquele homem era realmente um assassino. Já que você lhe usurpou o direito de defesa, nunca o saberemos. Contudo, este não lhe será negado. Por agora não temos mais tempo para suas maquinações, mulher – o futuro rei dos homens selava sua sentença – a fim de que você não ameace a mais ninguém, vamos trancá-la até o final da batalha e depois decidiremos o que fazer com você.
A mulher riu baixo, mas não tão baixo que os guerreiros não pudessem escutar.
- Do que está rindo, prostituta? – Haldir não se conteve diante do cinismo daquela criatura vil.
- O que pensam poder fazer comigo? Acham que poderiam dar punição pior do que aquelas que sofri em Mordor? Pensam que tenho medo da morte? Sentirei seu beijo em meus lábios em poucas horas, seja pelo veneno que corre em minhas veias, seja pela espada dos Uruk-hais.
- Então que seja – concluiu Aragorn – Legolas, Gimli, levem-na daqui.
Elfo e anão apressaram-se em atender à solicitação do amigo. Tempestade levantou-se com dificuldade. Gimli não fazia o menor esforço em facilitar as coisas para ela. Um último olhar feminino fora dirigido a Aragorn. Não chegava a ser uma súplica, contudo também não continha soberba. Uma réstia de mágoa pela hipotética ingratidão que o herdeiro de Isildur estaria demonstrando caso a história da mulher fosse verdade fez o guardião do norte sentir uma pontada em seu peito.
- Apresse-se, rameira, que sua cela a aguarda! – Disse o anão empurrando sua prisioneira. Tempestade quase perdera o equilíbrio, não fora haver apoiado o ombro nos umbrais da porta, o que lhe permitiu fitar mais uma vez os que ficavam, todavia, seu olhar dirigira-se não mais ao futuro rei dos homens e sim ao servo da senhora da Luz. Gimli fez menção de levá-la, contudo a mão erguida de Haldir pedia que aguardasse um instante.
- Sabe, minha senhora – dizia o guardião da floresta enquanto se aproximava – assim como o senhor Aragorn, também acreditei ainda haver algum bem dentro de você. – Parou a centímetros da mulher - Todavia, tudo o que vejo agora é um farrapo humano que quase não consigo reconhecer como uma mulher. Parece-se mais com os orcs do que com os de sua própria gente.
- Se mesmo os mais belos, justos e sábios de todos os seres, capitão, os elfos, ao serem atormentados pelos poderes negros, tornaram-se orcs, como eu poderia escapar a esse destino após tantos anos de tormentos?
As palavras da mortal teriam deixado Haldir profundamente ofendido, não fosse a extrema miséria que o guardião enxergou no tom com o qual foram pronunciadas. A mulher possuía, era certo, uma grande parcela de culpa, contudo, diante da tortura e da morte, muitos nobres corações de deixam dobrar. Mesmo, Legolas, sentiu uma fisgada de pena pela sina da jovem. Contudo, a mágoa no coração do guardião foi maior que sua piedade. Além do que, ela teria um julgamento justo, de acordo com a sentença do futuro rei Elessar, caso vencessem a batalha que se aproximava. Até lá, não havia motivo para demonstrar mais compaixão.
- Sempre há uma escolha, minha cara, e você fez a sua: sobreviver. Não foi o que me disse? Sempre faz o que é necessário para continuar viva.
- Nunca escondi de ninguém o que era. Matava para viver e me foi dito uma vez que ninguém me condenaria por isso, contudo, vejo agora, que mesmo as palavras de um imortal são volúveis e facilmente levadas pelo vento. Um elfo não pode nem nunca poderá compreender o verdadeiro valor da vida, dado que o fardo da morte lhe é facultado.
Haldir virou-se sem deixar transparecer o efeito das palavras da mortal em seu coração fazendo um sinal com a mão para que o anão prosseguisse.
- Por via das dúvidas, Aragorn, acho por bem não deixá-lo mais sozinho – disse o príncipe da floresta – não sabemos o que mais os servos do senhor do escuro podem estar planejando!
- Não penso que seja para tanto, Legolas.
- Eu concordo com ele, Aragorn – interveio Haldir – ficarei com você até que eles retornem.
Após a saída dos três, o herdeiro de Isildur se voltou ao capitão dos exércitos imortais.
- É, meu caro Haldir, me parece que a tempestade se voltou contra nós.
- Por sorte conseguimos dispersá-la – completou o imortal com os olhos fixos na porta pela qual passara a mulher que o perturbara tanto em tão pouco tempo.
- Contudo, ainda restam nuvens – prosseguiu o guardião do norte.
- Como assim, Aragorn?
- Eu realmente queria acreditar na inocência dela, Haldir. Há algo naquela mulher que... me confunde.
- Também eu, meu senhor, pensei sentir um certo bem naquela criatura, contudo fatos são fatos. Ela é o que é e não podemos mudar isso por mais que sejamos solidários com sua situação. Mordor a transformou naquilo que ela é hoje. Arruinou sua vida da mesma forma que arruinou a vida de tantos. Diante da discordância entre suas palavras e seus atos, penso que jamais poderemos ter plena certeza da verdade.
- É isso que me tira o sono: julgar sem poder ver o quadro todo.
- Todavia, creio que nesse caso não há como estarmos enganados, meu caro. Tudo está contra ela.
- Contudo você também gostaria de acreditar nela – disse Argorn com um esboço de sorriso no rosto.
- Como assim?
- Sinto se me intrometo onde não deveria, entretanto, não pude deixar de perceber, você sabe...
Haldir respirou fundo e olhou para o céu umedecendo os lábios.
- É verdade, isso eu não posso negar. Todavia são apenas sentimentos inúteis e traiçoeiros.- Há algum tempo que o herdeiro de Isildur já gozava da confiança...
- Longe da ira de Mordor, talvez essa mulher pudesse ter sido uma boa pessoa.
- Talvez...
E foi com essa palavra e mente que homem e elfo se retiraram da muralha.
