Aqui estamos com mais um capítulo. Espero conseguir manter esta frequência mais ou menos semanal, mas não está fácil...

Mais uma vez obrigada pelos maravilhosos reviews. E a quem ainda não mandou, deixo meu pedido: manda, vai!

Um abraço a todos e boa leitura.


A porta se abriu e Tempestade foi jogada ao chão pelas mãos grosseiras do filho de Glóin. A raiva que o anão sentia por ela refletia sua devoção para com o herdeiro de Isildur. A mulher já percebera isso há tempos.

- Terá algumas horas para pensar e refletir sobre sua existência miserável, cria de Sauron. Aproveite para impetrar uma mentira mais plausível do que a que contou há pouco, já que Aragorn lhe concederá mais uma chance – debochou o anão.

A mulher não se erguera após a queda. Jazia no chão com o rosto tocando a pedra fria e o supercílio sangrando graças à violência que sofrera.

- Agora chega, Gimli – disse o filho de Thranduil colocando a mão no ombro do anão – nem a um animal se trata dessa maneira.

- Um animal, meu caro Legolas – o anão retorquiu irritado – tem serventia e não distingue o certo do errado, enquanto essa... ah! Já não me vem em mente uma palavra que possa definir plenamente sua iniqüidade!

- Eu sei, meu amigo – disse o príncipe do reino da floresta buscando acalmar o amigo – contudo, somos melhores do que isso, Gimli. Não nos cabe pagar o mal com o mal, além do que devemos respeitar a sentença de Aragorn.

- Ah! Que seja. Não pretendo mesmo tornar a ver essa figura lamentável. Quando os Uruk-hais a encontrarem, vão terminar o trabalho que os orcs começaram.

As palavras do filho de Glóin atingiram em cheio o coração da mulher, cuja mente, até então, vagava longe. Tempestade ergueu um pouco a cabeça em direção aos seus carcereiros sem conseguir esconder o horror em seus olhos. A miséria daquele farrapo humano tocou fundo o coração impetuoso, porém sensível, do elfo, assim como suas palavras ditas a Haldir há pouco sobre a desdita dos segundos filhos.

Não era da natureza do príncipe do reino da floresta permanecer inerte diante do sofrimento. Sem dizer nada, aproximou-se da mulher e contemplou-a longamente tentando compreender como Haldir pudera sentir-se atraído por ela. Maldosa, assassina, prostituta, dissimulada, arrogante, orgulhosa, cruel... eram estas as característica que lhe vinham em mente, contudo havia algo naqueles olhos selvagens.

- Estamos perdendo tempo, Legolas – o anão interropeu seus pensamentos – devemos nos juntar aos outros agora.

- Você amarrou essas cordas muito forte, Gimli – foi a resposta dada pelo elfo antes de abaixar-se até a mortal a fim de lhe desatar as mãos.

- O que está fazendo, seu temerário? Quer levar um bote desta cobra traiçoeira?

- Não vou soltá-la. Vou apenas afrouxar um pouco o nó. Além disso, o que ela pode fazer? Está desarmada – concluiu o filho de Thranduil enquanto refazia as amarras.

A mulher não se sentiu tentada a escapar. O elfo estava certo. Desarmada, não poderia com o machado e o arco que a vigiavam e mesmo se conseguisse, como sairia da fortaleza? E se saísse? Voltaria para os orcs? Nunca. Sem a cabeça do filho de Arathorn, seria morta antes que pudesse pensar em fugir. Não lhe restavam muitas alternativas, contudo, a demonstração de piedade do imortal chamara a atenção de seu instinto de sobrevivência. E aquilo que havia nela que a impelia a continuar viva a qualquer custo gritou alto em seu interior. Contudo, sua mente e seu coração não concordavam. A primeira lhe dizia que o melhor seria aceitar sua sina e receber o beijo da morte de uma vez. Todavia, seu coração lhe dizia que precisava continuar viva, mas para quê? Fora esse sentimento que a fizera suportar anos de estupros sucessivos, noites insones, fome e sede intermináveis e humilhações de toda espécie. E Tempestade optou novamente em continuar fazendo o que sempre fizera: agarrar-se a qualquer chance que houvesse de sobrevivência. Com isso em mente, agarrou-se ao ato misericordioso do elfo.

- Deveria seguir o conselho de seu amigo, mestre elfo. Não há porque perder tempo comigo.

Legolas permaneceu em silêncio. O rosto impassível, olhando para ela de cima. Alto. Forte. Belo. Mas não tanto quanto ele...

- Não conseguirá me enredar em sua teia, mulher. Como disse, o que fiz por você, faria até mesmo por um animal. Terá seu direito de defesa e creio que é mais do que poderia esperar – final e mortalmente respondera o elfo.

Tempestade compreendeu que, se havia alguma chance, esta era muito pequena. Decidira, então, lançar mão de uma manobra que, se não conquistasse a simpatia do elfo, pelo menos poria fim ao seu sofrimento.

- Contudo, atrevo-me a lhe fazer um último pedido – prosseguiu - Algo que, certamente, o senhor também não negaria a um animal moribundo - disse altiva, apesar das palavras humildes.

- O que quer? – inquiriu secamente o filho de Thranduil.

- Que cumpra a ameaça que me fez há três dias, quando correu em socorro de seu amigo anão – a insinuação de que necessitara da ajuda do elfo, fez Gimli corar de raiva.

- Como? – O elfo queria certificar-se de que entendera o pedido da mortal.

- Mate-me com sua flecha, mestre elfo. Conceda-me este último gesto de misericórdia.

A solicitação da mulher pegou o imortal de surpresa.

- Mesmo que quisesse, não poderia atendê-la, minha senhora. Por nada desrespeitaria a decisão de Aragorn.

A altivez no rosto da mortal foi substituído por um tristeza que o elfo percebeu como sendo genuína. E o imortal lamentou não poder livrá-la daquela agonia.

- Contudo – prosseguiu Legolas – pedirei à senhora de Rohan que venha ajudá-la, se ela o desejar. É tudo o que posso fazer.

O olhar vazio da mulher foi a única resposta que o filho de Thranduil recebeu. Por dentro, contudo, Tempestade esperava que a sobrinha do rei, caso continuasse a confiar nela, o que sabia ser pouco provável, lhe trouxesse alguma ajuda. Gimli, que aguardava impaciente junto à porta, indagou:

- Quanto tempo mais vai querer perder com essa mulher, elfo?

O príncipe do reino da floresta deixou o recinto na companhia do filho de Glóin.


- Onde você pretende ir, homem temerário e sem juízo? – Argüiu o anão enquanto Aragorn selava o cavalo preparando-se para ir à cachoeira onde, de acordo com as palavras do estranho homem que Tempestade matara, pessoas feridas necessitavam de ajuda...

- Não posso me permitir ficar aqui de braços cruzados. Se estiverem vivos, irei encontrá-los e colocá-los na segurança destes muros.

- Perdeu a sanidade, Aragorn? – interveio Legolas – E se aquele homem fosse realmente um assassino que veio realizar o que Tempestade não realizara? Vai arriscar-se a toa?

- Já que não temos certeza disso, não posso correr o risco de condenar pessoas inocentes por causa da minha falha de julgamento. Já me equivoquei demais no que concerne aquela mulher – concluiu fixando o olhar em um ponto qualquer do horizonte.

- Ele estava armado! – insistiu Gimli.

- Não ouviram quando o infeliz começou a dizer que não tinha escolha? E se seus familiares estivessem sendo mantido como reféns?

- Então iremos com você – decretou o filho de Glóin.

- Isso não tem o menor cabimento! Quem ajudaria o rei a defender a fortaleza?

- Concordo com você, Aragorn – disse Haldir aproximando-se do inseparável trio – não tem o menor cabimento que o principal comandante desta aliança deixe a segurança destes muros, principalmente agora que sabe que Sauron teme seu retorno tanto quanto anseia reencontrar o um anel. Ou vamos com você ou ninguém atravessará esses portões.

O herdeiro de Isildur suspirou, cansado de tentar impor resistência, todavia algo morno em seu peito pela demonstração de lealdade de seus amigos.

- Vamos então. Quanto antes formos, mais chances teremos de retornar.


O rangido da porta trouxe de volta à consciência a matadora de wargs. Já não sabia dizer que parte do seu corpo não era tomada de espasmos. Jamais pensara que poderia sofrer tanto. Ansiava pela morte. Contudo, uma réstia de luz começou a iluminar o recinto frio e escuro. Um reflexo fez com se pusesse de joelhos. Não foi fácil discernir quem atravessava a porta.

- Senhora...? – disse a mulher tentando abrir os olhos desacostumados à luz. Éowyn trazia em uma mão uma taça e na outra um objeto envolto em um pano.

- Como está, minha cara? – perguntou a sobrinha do rei sem demonstrar a confusão que havia em seu interior.

- Esperando que a morte se apiede de mim e me leve de uma vez – disse jovem guerreira, contudo não havia lamento e sim resolução em sua voz.

- Talvez a morte ainda tarde em ceifá-la, Tempestade.

- Como, minha senhora? E para quê?

- Para terminar o que começou.

- Não há mais nada a ser feito. O sol já deve estar alto e ao anoitecer os exércitos de Isengard estarão aqui. Não há mais nada que os orcs possam fazer contra o futuro rei dos homens. Seus amigos não o deixarão mais sozinho.

- Contudo – prosseguiu a senhora de Rohan – não tenho certeza de que o senhor Aragorn esteja realmente fora de perigo.

- O que quer dizer, senhora? – perguntou Tempestade intrigada com as palavras de Éowyn.

- Legolas contou-me o que aconteceu na muralha – a voz da sobrinha do rei soava grave.

- ...

- Disse-me que você tentou matar o herdeiro de Isildur.

- Contou-lhe todos os detalhes, minha senhora? – a estrangeira mal conseguia disfarçar o nó em sua garganta ao perceber no tom de voz da senhora de Rohan um frieza incomum.

- Contou-me o suficiente.

- Então suponho que já não acredite em mim – disse a guerreira. De fato, já não esperava que mesmo a sobrinha do rei ainda fosse capaz de confiar nela.

- Não foi isso que eu disse, Tempestade. Disse que não estou certa de que Aragorn esteja totalmente a salvo.

- Estou confusa, senhora. Que outro perigo poderia haver dentro destes muros que não esta assassina a sua frente? – perguntou ironicamente a matadora de wargs.

- O perigo não está dentro destes muros, minha cara. E a potencial vítima também não.

- O que?

- Aragorn foi em busca da suposta família que aquele homem que você matou deixou aguardando ajuda na mencionada cachoeira.

- Isso quer dizer...

- Quer dizer que sua missão, considerando que tudo o que me disse é verdade, ainda não está concluída, minha cara – desta vez, Tempestade percebeu que a dúvida reinava no coração da Branca Senhora de Rohan.

- Acredita em mim, então?

- Como eu estava dizendo, considerando que você não tenha mentido, sua ida até a floresta servirá para livrar herdeiro de Isildur de alguma emboscada, já que, como disse meu tio, você conhece os pensamentos dos servidores do senhor do escuro. Se, ao contrário, você for realmente uma assassina, Aragorn estará escoltado por Legolas, Gimli e Haldir. Sei que é forte, contudo, não tão forte quanto todos eles juntos...

- Concede-me o benefício da dúvida, então? Vai me libertar?

- Exato.

- E o que lhe dá segurança de que ao me desamarrar não a matarei? – Tempestade queria ver até onde a confiança da sobrinha do rei fora abalada pelos recentes acontecimentos. Se iria continuar, deveria saber até onde poderia ir.

- Não está diante de uma simples dama da corte, minha cara. Também sei usar uma espada e sei me defender, embora ninguém acredite nisso.

- De qualquer forma, já não me resta quase nenhuma vida agora. Mesmo que quisesse, não poderia ameaçá-la, assim como não sei com que forças conseguiria chegar a floresta. Estou muito fraca...

- Isso a ajudará – disse Éowyn aproximando o cálice que trazia consigo da boca da mulher.

- O que é isso?

- Uma beberagem feita com as ervas que costumava colocar em seu braço. É forte. Conseguirá conter o efeito do veneno por algum tempo.

Tempestade olhava para a taça tentando se decidir. Deveria ir? Como dissera a sobrinha do rei, o futuro rei dos homens estava bem guardado. Haveria ainda chance de Aragorn ser mortor? A resposta veio da senhora de Rohan.

- Beba, Tempestade e vá encontrar seu destino. Você não atravessou o fogo de Mordor para morrer dentro destas paredes. Se tem que deixar este mundo, que seja lutando, com sempre fez.

A estrangeira entregou-se aos argumentos de Éowyn e bebeu o que lhe era ofertado. Quando terminou, a sobrinha do rei colocou diante da jovem o embrulho que trazia consigo.

- Irá precisar disso – disse a senhora de Rohan antes de começar a desamarrar as mãos da guerreira.

- Saberei usá-la quando chegar o momento...- disse a matadora de wargs, pensativa.

- Então vamos. Não temos tempo a perder.

- Como assim vamos, minha senhora? – argüiu Tempestade enquanto massageava os pulsos e sentia o efeito revigorante da bebida em seu corpo.

- Irei com você até a cachoeira.

- Isso é uma temeridade, senhora e completamente desnecessário.

- Não irei discutir isso, Tempestade. Conheço as saídas do castelo e as trilhas da floresta melhor do que você. Tenho o direito de lutar por quem amo!

- Ainda que saiba que o coração dele pertence a outra?

- O amor deles é impossível! Ela está voltando para as terras imortais. Que outro fim um amor assim poderia ter?

Tempestade baixou os olhos. A figura de Haldir lhe veio em mente. Éowyn estava certa. Que outro fim poderia ter? Diante da reação da estrangeira, a sobrinha do rei percebera que suas palavras tiveram um alcance maior do que o que ela pretendera.

- Sinto muito, minha cara.

- Não há nada a lamentar, senhora. Como disse, não temos muito tempo. Então vamos.

Servindo-se de seus conhecimentos e influências, Éowyn conduziu a mulher para fora dos muros da fortaleza e conseguiu montaria para ambas. Rumaram em direção à floresta.