13 – SOB A PROTEÇÃO DA ÁRVORE BRANCA I

A medida que os guerreiros aproximavam-se da floresta, reduziam o passo a fim de diminuírem as chances de sua presença ser percebida caso houvesse orcs pelas redondezas. O que não era improvável, dada a narrativa do filho de Thranduil.

- Onde fica esta bendita cachoeira, afinal de contas – indagou o impaciente anão.

- Um pouco mais adiante, Gimli. Após aquela colina a vegetação fica mais espessa. Ao adentrarmos a mata, logo deveremos avistá-la – disse o herdeiro de Isildur.

- Contudo – interveio Haldir – não podemos descartar a possibilidade de que não estejam mais lá. Mesmo que a história do homem seja verdadeira, esses pretensos fugitivos podem já haver sido encontrados pelos orcs ou podem ter encontrado algum refúgio.

- Por isso, devemos olhar ao redor. Se estavam realmente feridos, não podem ter ido muito longe.

- Não devemos nos demorar, Aragorn – a voz de Legolas estava carregada de preocupação – sinto que um grande mal se aproxima e não me refiro apenas ao exército de Isengard.

Uma sombra invadiu o coração dos membros da comitiva. Era reconhecido por todos, até mesmo pelo anão, que a intuição do príncipe dos elfos não deveria ser desprezada.

- Não se preocupe, meu amigo – disse o herdeiro de Isildur – seremos cautelosos, não pretendo arriscar nossas vidas além do razoável.

- Isso não se parece em nada com você, Aragorn – comentou o filho de Glóin ao que todos, apesar da atmosfera pesada, não conseguiram evitar um riso.

O ligeiro momento de descontração foi logo interrompido por um ruído imediatamente reconhecido como um bando de orcs. A balbúrdia causada por essas criaturas era inconfundível.

- Parece vir daquela direção – apontou Haldir.

- A cachoeira fica para o outro lado – constatou o herdeiro de Isildur.

- É melhor irmos. Permanecer é muito arriscado – comentou o anão – contudo,como sempre, sei que minha opinião não será levada em consideração.

- Iremos até a cachoeira e voltaremos por onde viemos. Essas criaturas detestam a luz do sol. Uma vez fora dessa floresta densa estaremos a salvo – disse o filho de Arathorn.


As duas mulheres chegaram ao limiar da floresta. Cada uma cavalgava uma montaria e trazia outro cavalo consigo.

- É melhor pararmos aqui, senhora. É o local onde deixei o corpo daquele assassino.

- Não vamos entrar na floresta?

- Eu vou, pois penso que seria melhor que a sobrinha do rei aguardasse aqui.

- Mesmo você acha que não tenho capacidade de participar de uma batalha, Tempestade?

- Não se trata disso, senhora – para o que pretendia fazer, seria melhor que a senhora de Rohan ficasse distante – ainda que eles consigam retornar a salvo, é preciso garantir que haja montarias para levá-los de volta á fortaleza. Se os orcs os tiverem encontrado, seus cavalos devem ter sido as primeiras vítimas de suas flechas. Há quatro cavalos aqui. Isso deve bastar – as últimas palavras da mulher foram mais sussurradas do que ditas.

- Está enganada. Somos seis, ao todo. Ainda ficam faltando dois cavalos.

- A senhora se esquece de que aquele anão não sabe cavalgar? Para ele e o elfo basta um cavalo. Quanto a mim...

- Quanto a você...

- Não pretendo voltar, minha senhora.

- O que está dizendo?

Tempestade respirou tentando colocar as idéias em ordem. A senhora de Rohan era boa, contudo não era ingênua. Precisaria convencê-la a ficar, ainda que não revelasse suas reais intenções.

- Não pretendo retornar com vocês, minha senhora, foi isso que quis dizer – corrigiu-se a fim de tranqüilizar a sobrinha do rei – conheço essa floresta. Sei seus ardis. Conseguirei despistar o orcs e retornarei por outro caminho. Será uma pessoa a menos por quem esperar, ou haverá o risco de chegar a fortaleza juntamente com exércitos de Isengard.

- Faz sentido, embora não me agrade.

- Não se preocupe, senhora. Esquece-se de que já estou condenada? Se tiver que morrer, morrerei.

- Eu sei, minha cara. Sempre soube que essa hora chegaria, contudo, apesar da sombra de desconfiança que surgiu entre nós, não posso deixar de dizer que admiro sua força, sua determinação e sua coragem. Vá em paz e espero sinceramente poder revê-la.

- Adeus, senhora – foi tudo que a mulher conseguiu dizer e mesmo assim, sem olhar nos olhos de Éowyn.


O barulho da cachoeira se intensificava a medida que os guerreiros se aproximavam do pretenso esconderijo. Contudo, quando lá chegaram, nada viram além de plantas, pedras e água.

- Não há ninguém aqui, Aragorn – disse Legolas – devemos voltar.

- Não devíamos ter vindo – completou Haldir ao perceber por sua audição élfica que os orcs estavam cada vez mais perto.

- Detesto admitir, meu amigo, mas os elfos estão certos – disse o anão.

Os olhos do guardião do norte percorriam o espaço entre cada árvore, cada pedra. Aragorn não suportava a possibilidade de abandonar alguém que necessitasse de sua ajuda. Sua ânsia de encontrar algum sobrevivente era tanta que o herdeiro de Isildur vislumbrou uma movimentação por trás de algumas rochas mais adiante de onde estavam.

- Vejam! Há alguém ali.

- Deve ser apenas um animal – disse o filho de Thranduil.

- Aragorn! Volte aqui! – dizia inutilmente o anão enquanto o guardião do norte se afastava – por que nunca me dão ouvidos?!

Enquanto a montaria do herdeiro de Isildur vencia a íngreme subida, os seus companheiros aguardavam ansiosos o desfecho daquela atitude temerária. Chegando ao limiar da subida, o barulho da aproximação dos orcs assustou o cavalo que levava o guardião do norte fazendo-o perder o equilíbrio e cair do outro lado das rochas sumindo das vistas dos elfos e do anão, que não tardaram em desmontar de seus cavalos a fim de ver como estaria Aragorn. E o que viram os encheu de terror. Seu amigo jazia desmaiado a poucos metros de um bando de orcs. Não eram muitos, contudo, contra dois elfos, um anão e um homem desmaiado, aquele pequeno contingente era uma força considerável.

- Precisamos fazer alguma coisa! – gritou o anão já pronto para atirar-se entre os orcs e o futuro rei de Gondor.

- Abaixe-se ou eles nos ouvirão – disse Legolas puxando o amigo pelo braço – e aí sim, não haverá chance alguma!

- Mesmo amarrada, trancafiada e praticamente moribunda, aquela cria de Mordor ainda nos atrapalha! Não fosse ela, não estaríamos aqui!

- A mortal disse a verdade, mestre anão – interveio Haldir, apesar da mágoa que sentia contra Tempestade – ao que vemos, tratava-se de ardil. Talvez aquele homem pretendesse atrair Aragorn para cá desde o início.

- E por fim, conseguiu – disse o filho de Glóin inconformado.

- O que acha que devemos fazer, Haldir? – perguntou o filho de Thranduil esperançoso de que o guardião da floresta tivesse uma resposta, pois o próprio príncipe dos elfos não conseguia vislumbrar uma saída.

- Estamos em franca desvantagem. – disse o servo de Galadriel.

- Bem observado, capitão – debochou o anão ao que foi fulminado por dois pares de olhos élficos.

- Talvez – prosseguiu o guardião de Lórien buscando conter o ímpeto de atravessar o anão com sua espada – seja melhor aguardarmos que o façam prisioneiro e tentemos resgatá-lo às escondidas.

- E se o matarem? – indagou Legolas preocupado.

- Não creio. Irão reservar este prazer ao seu negro mestre. Agora que o risco de que Aragorn escape é muito pequeno.

- Isso é muito arriscado – discordou Gimli – vamos atacá-los! Podemos com eles.

- Não seja pretensioso, mestre anão – respondeu Haldir – vamos esperar! Além disso, pior do que está não pode ficar.

- Não? – perguntou o anão apontado em direção ao filho de Arathorn – e que o senhor me diz disso?

Quando os imortais dirigiram o olhar ao herdeiro de Isildur, seus olhos élficos mal podiam acreditar no que viam. Tempestade se colocava entre o bando e sua presa. Havia visto a queda do guardião do norte e sabia exatamente onde seus amigos estavam. Deveria agir com cuidado. Nenhum dos dois lados lhe era muito favorável.

- Ora, ora, ora – disse o comandante da falange inimiga – vejam quem resolveu aparecer!

- Sentiu minha falta, meu capitão?

- Sentimos falta da missão que você falhou em cumprir, rameira!

- Falhei? Aparentemente – disse a mulher levando a ponta de sua espada à garganta de Aragorn - ainda posso cumpri-la.

Os elfos sentiram a garganta secar e o anão tinha o estômago embrulhado.

- Perdoe-me, mestre anão – sussurrou, Haldir – por não levar em conta suas palavras, as coisas sempre podem piorar...

- Não se preocupe com isso, capitão – respondeu Gimli – apenas a vida de Aragorn importa, agora.

Qualquer satisfação que o anão pudesse sentir pelo pedido de desculpas do elfo foi eclipsada pela possibilidade de perder um amigo que lhe era tão caro. O servo de Galadriel percebeu isso e uma semente de admiração pelo povo das montanhas foi plantada em seu coração. Sentimento do qual Legolas já partilhava. Parecia enfim que o herdeiro de Isildur possuía o dom de unir os homens, de unir as raças. Ele não poderia morrer ali!

- Então termine de uma vez com isso, prostituta.

- Não tenha tanta pressa, capitão – respondeu a matadora de wargs – é minha vida que está em jogo, aqui. Sou eu quem não tem tempo a perder e não o senhor.

- O que pretende?

- O antídoto! Onde está?

- Urrr! É claro. Sua vida pela dele. O grande olho é piedoso – disse o comandante dos orcs ao som das debochadas risadas de seus subalternos – aqui está – concluiu atirando um pequeno frasco que Tempestade habilmente segurou em uma das mãos enquanto a outra não soltava a espada – beba, mate-o e leve a cabeça dele ao nosso mestre. A não ser que queira participar da batalha do abismo.

- Sim, capitão – disse a mulher – me agradaria muito participar. Contudo – prosseguiu a matadora de wargs – creio que não será possível.

- Do que está falando, meretriz?

- Não irei participar da batalha.

- O olho se agradará se você apenas levar a cabeça do herdeiro de Isildur, todavia, porque não quer ir a Helm? Sua sede de sangue diminuiu?

- Não terei forças, meu senhor, o veneno já me consumiu por completo.

- Então tome o antídoto, rameira!

- Não pretendo tomá-lo agora, capitão – e deixando o frasco cair no chão, prosseguiu – nem nunca.

- Sua tola! O que fez com a dádiva de seu senhor?

- Se me foi dado como dádiva, penso que tenho o direito de fazer com ele o quiser – respondeu Tempestade olhando a terra absorver o precioso líquido.

- Louca! Perdeu a sanidade?

- Nunca estive tão lúcida, meu senhor.

- Então mate esse infeliz e vamos!

- Não pretendo matá-lo, comandante.

- Está traindo o seu senhor, prostituta?

- Nunca em minha vida, trairia o meu senhor – disse a matadora de wargs voltando olhar para o herdeiro do trono de Gondor – e irei servi-lo com minha vida ou minha morte – prosseguiu enquanto atirava a espada no chão e das costas retirava outra que, ao ser desembainhada, ofuscou a vista dos seres da escuridão – se o quiserem morto, terão que passar por mim e matá-lo.

A espada brandida por Tempestade possuía o cabo no formato da Árvore do Rei. Pérola e prata de uma beleza única que muitos poderiam atribuir erroneamente aos elfos, contudo mãos humanas dos numenorianos foram as responsáveis por essa jóia de batalha que em nada devia à própria Nársil.

- Isso não pode ser! – sussurrou o príncipe da floresta.

- O que significa tudo isso? – perguntou o anão.

- Essa é a espada dos guardiões da Árvore Branca – respondeu Haldir.

- A guarda pessoal do rei de Gondor – completou Legolas.

- Há séculos não eram vistas. Os regentes deram um fim aqueles guerreiros e suas armas por não quererem manter qualquer lembrança dos reis de Gondor – prosseguiu o servo de Galadriel.

- Eram os soldados mais temidos do mundo dos homens. A elite do exército de Gondor – completou o filho de Thranduil.

- E o que isso está fazendo na mão daquela mulher? – perguntou o inconformado filho de Glóin.

O diálogo se dava sem que elfos e anão retirassem o olhar da inusitada cena.

- Não sei – respondeu o príncipe do elfos – contudo se ela está defendendo Aragorn contra os orcs, nosso lugar é ao lado dela! Vamos! - concluiu o filho de Thranduil levantando-se no que foi seguido por Haldir e Gimli.

Os servos do senhor do escuro avançavam apenas para encontrar a morte na arma dos antigos soldados, já que agora estavam unidas a força da guerreira e a poderosa navalha dos numenorianos. A qual se juntaram os arcos dos elfos e o machado dos senhores das montanhas.

No caos da batalha, Tempestade sentiu suas costas contra as costas de outro e voltando-se pronta a decepar mais uma cabeça, parou quando viu o machado à sua frente.

- Até que enfim! – dirigiu um simpático deboche ao filho de Glóin – pensei que ficaria apenas olhando – concluiu enquanto sua espada se alojava no tórax de outra criatura de Mordor.

- E deixar você levar o crédito pelo maior número de orcs decaptados? Nunca! – respondeu Gimli enquanto seu machado estraçalhava o crânio de outro ser das trevas.

- Deixo esta disputa infantil para você e seu amigo elfo, mestre anão – outro orc encontrava seu fim na navalha dos antigos guardiões – nenhum dos dois é páreo para esta espada e quem a brande.

- Veremos!

Um a um os servos de Sauron foram dizimados.

Legolas aproximou-se de Aragorn.

- Permanece inconsciente – afirmou o filho de Thranduil – devemos levá-los daqui. Onde estão os cavalos?

- Suas montarias – disse a mulher – há muito fugiram.

- Vou carregá-lo então – prosseguiu o príncipe élfico – não podemos esperar que acorde. Pode haver mais orcs por perto.

- E há – completou a matadora de wargs - Um outro contingente já se encaminha para cá.

- Vamos por ali!

- Não – disse Tempestade – há um caminho mais rápido e seguro.

A mulher percebeu a hesitação dos guerreiros. E foi Haldir quem a externou.

- Apesar do que vimos aqui, Tempestade, compreenda que é difícil confiar em você, depois de tudo o que aconteceu.

- E por falar nisso, como você escapou? Estava morrendo! – completou Legolas.

- Foi o senhor quem me mandou a ajuda, mestre elfo, não se recorda?

- Éowyn...

- Exatamente. Ela os aguarda no limiar da floresta. Sigam aquela trilha. Há montarias para vocês.

- E quanto a você? – indagou Haldir.

- Até chegarem a senhora de Rohan os orcs poderão alcançá-los, principalmente porque carregam um homem ferido. Vou despistá-los.

- Já devem saber de sua traição.Vão matá-la - disse o anão.

- Não houve traição alguma, mestre anão – disse a matadora de wargs estreitando o olhar e confundido a todos – contudo, não há tempo para explicações. Ou confiam em mim ou morrem.

- Não precisa arriscar assim sua vida, Tempestade – insistiu o servo de Galadriel.

- Minha vida, capitão, está no fim. É a vida do rei Elessar que não deve ser arriscada – disse mirando o rosto de Aragorn.

- Quem é você, afinal, mulher? – Perguntou Haldir, quase num sussurro.

O diálogo foi interrompido pela balbúrdia das tropas de Sauron.

- Vão! – gritou a matadora de wargs. E dando uma última olhada em direção ao filho de Arathorn ainda desmaiado – adeus meu rei.

Uma corrida desesperada em direção à saída da floresta teve início, enquanto Tempestade permaneceu aguardando o que lhe fora reservado.