15 – QUASE TODA A VERDADE
- Deixem-me morrer – suplicava a mulher deitada na cama da senhora da Terra dos Cavaleiros.
- Não consigo me conformar com isso, Tempestade – retrucou Éowyn.
- Não percebe, minha senhora, que apenas prolonga meu sofrimento?
Os olhos azuis da Branca Senhora de Rohan ficaram marejados de lágrimas. A justiça dentro dela não aceitava que a jovem a sua frente tivesse esse fim.
- Perdoe-me, minha senhora – a voz do filho de Thranduil tirou a sobrinha do rei de seus pensamentos – tenho uma mensagem para Tempestade.
- Ela está muito fraca, meu senhor Legolas. Está sofrendo muito. Chama pela morte a cada instante.
- Contudo, o rei deseja vê-la – prosseguiu o príncipe da floresta.
- Vá em meu lugar, senhora – a matadora de wargs mais sussurrava do que falava – e diga a seu tio que lhe sou grata por tudo, mas que não tenho forças para ir até ele.
Éowyn já se levantava quando o filho de Thranduil tomou a palavra novamente:
- Não minha senhora – disse sorrindo para a estrangeira – é o Seu Rei quem solicita sua presença.
Algo morno fez morada no peito de Tempestade. A respiração, que já estava difícil, foi interrompida por um momento enquanto a mulher tomava consciência do significado das palavras do elfo.
- Bom – prosseguiu a mulher – se é assim, não posso deixá-lo esperando - a matadora de wargs fazia um esforço considerável para se levantar.
- Não tem forças para isso minha cara – disse a sobrinha do rei.
- Caso não possa ir – completou Legolas – Aragorn disse que poderia vir até aqui. Só não o fizera antes a fim de não incomodá-la.
- Ainda me restam forças para atender a um último chamado de meu senhor, mestre elfo – disse resoluta.
- Deixe-me ajudá-la, então – Éowyn sugeriu – sempre me rendo à sua teimosia...
- E quem não se rende? – a voz do galadhrim denunciou sua presença. Haldir se achegara lentamente e quedara observando enlevado à demonstração de coragem da filha dos guardiões – para onde vão?
- Vamos ao encontro do herdeiro de Isildur – respondeu o filho de Thranduil.
- Não poderiam esperar um pouco, Legolas? Não há muito tempo – indagou Haldir referindo-se aquilo que era de conhecimento apenas dos dois imortais.
- É arriscado esperar, meu amigo. Assim como não há certeza de que o que você pretende terá sucesso. Muita coisa precisa ser esclarecida.
As mulheres permaneceram alheias ao assunto tratado pelos elfos, empenhadas que estavam em atender ao chamado de Aragorn.
O herdeiro de Isildur aguardava na sala de Théoden a chegada da mulher estrangeira. A cada dia crescia no coração do filho de Arathorn a certeza de que jamais conseguiria escapar de sua missão. Tempestade trazia consigo uma parte da história de Gondor, seu passado. Quem seria ela, afinal. Estava na hora de descobrir e fazer o que fosse possível a fim de retribuir-lhe a altura.
- Com sua licença, meus senhores – disse, Legolas – aqui estão.
A matadora de wargs entrou amparada pela sobrinha do rei de Rohan.
- Solicitou minha presença, meu senhor – disse Tempestade enquanto dispensava a ajuda de Éowyn e se colocava de pé por contra própria – estou aqui.
-E lhe sou grato por isso – disse o herdeiro de Isildur com um sorriso nos lábios diante da determinação da guerreira a sua frente – pois me dá mais uma oportunidade de agradecê-la por tudo que fez por mim.
- Apenas cumpri com meu dever, meu senhor.
- Não gostaria de abusar de sua boa vontade, Tempestade, contudo imploro que compreenda a minha necessidade de saber o que realmente aconteceu. De uma vez por todas, quem é você?
A mulher fechou os olhos. Buscou ar. Umedeceu os lábios.
- É uma longa história, meu senhor.
- Se for de sua vontade contá-la estamos disposto a ouvi-la – disse o filho de Arathorn.
- Bom, quase toda a verdade já veio a tona na realidade. A fim de poupar o seu tempo, que é valioso, e o meu, que não é muito, tentarei ser breve – disse enquanto mirava os rostos dos presentes.
Aragorn assentiu.
- O que já lhes havia dito sobre tudo pelo que passei em Mordor é verdade. Morava com minha família nos arredores da Terra Negra e lá fomos capturados. Meus pais e meu irmão tentaram resistir e apesar de a arte da luta ser muito bem praticada em nossa família – todos sorriram diante da simpática arrogância – não houve como repelir o ataque de uma horda inteira de orcs. Eu era pouco mais que uma criança, nada pude fazer.
- E por que viviam lá, minha cara? – indagou cuidadosamente o herdeiro de Isildur.
- Fomos expulsos de Gondor, meu senhor – respondeu a mulher altivamente.
- Por quê? – perguntou Aragorn sem vislumbrar um motivo convincente.
- O Senhor Denethor não via com bons olhos os herdeiros de uma linhagem dedicada a manter viva a memória dos reis de outrora, apesar de, como regente, ter dentre suas funções aguardar o retorno daquele de devolveria a nosso povo a dignidade da qual fora privado. Por isso, apesar de possuir o sangue dos guardiões, abdicou dessa honra a fim de tentar capturar para si um poder que não lhe pertencia.
Compreensão amanheceu no coração dos presentes.
- Meu pai era, pelo que sei, o último descendente dos antigos Guardiões da Árvore Branca que não se dobraram à tirania do regente. A presença dele só fora tolerada pelo simples fato de meu pai ser filho da irmã mais velha do senhor Denethor.
- Você é prima de Boromir? – perguntou o anão dando mais uma mostra de que a sutileza não era uma qualidade inerente ao povo das montanhas.
- Como o conhece, mestre anão? – Tempestade estava realmente surpresa, contudo foi Aragorn quem respondeu.
- Boromir fazia parte da comitiva que foi formada em Valfenda a fim de proteger o portador do Um Anel.
- E onde ele está, então?
O silêncio e os rostos voltados para o chão foram a única resposta que a filha do Guardião da Árvore branca obtivera. Lembranças do companheiro morto impossibilitaram que qualquer dos presentes dissesse palavra alguma. Foi Haldir quem veio em socorro dos membros da sociedade do anel.
- Após partirem de Lórien – disse o guardião – foram perseguidos por Uruk-hais. Dois hobitts foram levados apesar de Boromir havê-los defendido até a morte.
- É bem o estilo dele... ou era – concluiu num sussurro.
- Enfim – prosseguiu a matadora de wargs – como em breve lhe farei companhia, não posso me deter. Meu pai tinha uma idéia fixa de que o retorno do rei estava próximo. Buscara pelo herdeiro do trono de Gondor desde sua juventude e descobrira em um tal filho de Arathorn a chance de isso acontecer – disse enquanto fitava o guardião do norte – Durante suas buscas, meu pai percorreu todos os lugares acessíveis aos homens e em um deles ao sul da Terra-Média, encontrou um povo guerreiro, forte, contudo propenso a alianças com o Senhor do escuro. Todavia, foi a uma filha daquele povo que meu pai entregou seu coração.
Movimentos afirmativos com a cabeça foram a reação dos ouvintes que aos poucos viram a cortina se abrir e o quadro todo aparecer.
- Entretanto, tal união não foi bem vista pelo povo de minha mãe, assim como, não foi aceita pelo povo de Gondor. Desse amor nasceram dois filhos, como os senhores já devem presumir. Por um certo tempo, a presença dessa família foi tolerada na Cidade Branca – Tempestade fez uma pausa refletindo se valeria a pena aprofundar-se nos detalhes sobre a intolerância de que sua família fora vítima. Já que implicaria expor a intimidade de certas pessoas, achou por bem relatar apenas superficialmente essa parte de sua história, revelando quase toda a verdade – então fomos expulsos.
- Mas por que Mordor? – Aragorn não se conformava.
- Onde mais um guardião renegado e uma suposta 'aliada' das sombras conseguiriam abrigo meu senhor? – pela primeira vez a voz da mulher revelava a mágoa que habitava naquele coração – em Rohan? Aqui não conseguimos sequer ficar na menor das aldeias que por nada não se dispuseram a acolher um homem vindo de Gondor – disse fitando Théoden, que apesar de não haver baixado a cabeça, mostrava em seu olhar que se envergonhava de tal falta de união entre os homens.
- Poderíamos ter ficado nas florestas habitadas pelos elfos? – o olhar agora se voltava para os imortais – teriam nos aceitado? Com certeza não.
Haldir recordou a dúvida que o assolou quando da chegada da sociedade do anel a Lórien. Quase não permitira sequer a passagem da mesma. Tempestade estava certa. Provavelmente os elfos não correriam o risco de acolher em seu meio possíveis espiões.
- E que tal os anões? – fitou o filho de Glóin – ah! Os anões! Tiveram tanto medo de que surrupiássemos suas riquezas que nos expulsaram mesmo estando minha mãe e meu irmão gravemente doentes.
- Para onde mais meu senhor? – mirou o rosto do herdeiro de Isildur – para onde mais poderíamos ir? Apenas nos arredores de Mordor encontramos um pouco de 'paz'. Pelo menos por um certo tempo...- a mulher fitou o chão por alguns instantes.
- Então você foi levada – completou o guardião do norte desejando que sua voz tivesse o tom mais compreensível possível.
- Sim, meu senhor.
- E foi ferida – prosseguiu Aragorn.
- Sim, contudo não fui jogada com os cadáveres. Para ser franca, até hoje não entendo como os senhores tiveram a boa vontade de aceitar uma história tão fantasiosa – sorriu ao lembrar da reação da Senhora de Rohan quando lhe contara a mesma história.
- Nisso nós concordamos – interrompeu o anão triunfante e orgulhoso que suas desconfianças realmente tinham fundamento desde o início. Pelo menos, parte delas.
- O que aconteceu, então? – indagou o filho de Arathorn.
- Recebi uma proposta.
- Proposta?
- Desde que cheguei a Mordor, fiz-me de desmemoriada. Fui inquirida a respeito da espada que os orcs encontraram com meu pai e afirmei não lembrar de nada, nem sequer de meu nome. Julguei que minhas chances de sobrevivência não seriam tão ruins se assim o fizesse. Minha ascendência foi, por isso, deixada de lado pelo senhor do escuro até o dia em que me foi feita a seguinte proposta: matar o herdeiro do trono de Gondor em troca do antídoto que me salvaria a vida.
- E você aceitou – interveio Aragorn. A essa altura, nem mesmo o anão se atrevia a dizer nada.
- Se não o tivesse feito, outro o faria. Entretanto, creio que Sauron julgou que seria no mínimo divertido o pensamento de que o rei de Gondor fosse morto por alguém com o sangue dos antigos guardiões responsáveis por sua defesa. Por fim, me trouxe a espada de meu pai que eu julgara perdida. Diante da visão da última lembrança de minha família não sei com que forças me contive a fim de não revelar que minha memória, ao contrário do que pensava o senhor do escuro, estava intacta. Por isso, aceitei a missão que me era dada. Compreendi naquele momento que fora para isso que meu coração me pedira tão insistentemente que permanecesse viva a qualquer custo, caso contrário teria me deixado ir na primeira noite que passei em Mordor...
Lembranças da noite aterradora invadiram a mente da mulher. Cada detalhe permanecera bem vivo dentro dela, apesar de todos os anos que já se haviam passado.
O coração dos ouvintes ficou pesado. Certamente aquela mulher fora vítima de muitos sofrimentos.
- Jamais pretendi fazer-lhe mal, meu rei – os olhos de Tempestade suplicavam pela confiança do herdeiro do trono de Gondor – vim até aqui para honrar a memória de meu pai, conhecer o rei pelo qual ele tanto buscou e servi-lo da melhor forma que pudesse, enquanto me restasse um pouco de vida.
Ao dizer isso, a mulher sentiu as pernas fraquejarem. A discreta presença da senhora de Rohan impediu que a matadora de wargs fosse ao chão.
- Creio que já chega, meus senhores – Éowyn se dirigiu aos guerreiros – ela está esgotada.
- Você sabia de tudo isso, minha querida? – pela primeira vez a voz de Théoden se fazia ouvir.
- Sabia, meu senhor.
- Não compreendo por que ocultou esses fatos. Teria sido muito mais fácil dizer a verdade desde o início.
- Quando ela chegou a Edoras, meu senhor, sua mente já estava tomada pelo inimigo. E quando finalmente Gandalf o livrou de Saruman, o que o senhor teria dito? O que teria feito se soubesse que uma descente do povo que nos ignorara em nossas necessidades estiva sob nosso próprio teto. Sei que a meu pedido a teria acolhido, contudo, acreditaria em sua história? O inimigo nos cegou a todos com seu ódio.
O Rei ponderou por alguns instantes. O raciocínio da sobrinha era mais do que plausível.
- De fato, devo admitir que você esta certa, Éowyn, agiu sabiamente – admitiu Théoden envergonhado.
- Entretanto, poderia ter nos contado a verdade após o incidente sobre a muralha. Eu lhe dei tantas chances – afirmou Aragorn.
- Faço minhas as palavras da sobrinha do rei Théoden, meu senhor. Teriam acreditado em mim? Nada naquela ocasião me era favorável. Uma filha do povo aliado das sombras vinda de Mordor a fim de salvar a vida do futuro rei de Gondor? Surpreende-me que me tenham deixado viva. Por isso optei por ocultar o fato de ser herdeira dos antigos guardiões da Árvore Branca e assumi o papel de assassina arrependida.
Os guerreiros renderam-se aos argumentos das mulheres.
- Como sabia que me encontraria aqui? – indagou o herdeiro de Isildur.
- Eu não sabia, meu senhor, mas Sauron, sim.
- E como a sobrinha do rei se aliou a você, Tempestade?
- Por causa do veneno, quando cheguei a Edoras, estava realmente muito fraca e fui encontrada por Éowyn praticamente desmaiada.
- Eu a levei para o palácio dourado e cuidei dela. Reconheci imediatamente que a ferida que a exauria fora causada por um warg.
- A princípio – disse a estrangeira após uma troca de olhares com a senhora de Rohan – contei a ela a mesma história que contei aos senhores naquele fim de tarde, entretanto...
- O que? – indagou o guardião do norte.
- Eu disse a ela – interveio Éowyn – que a história que me contara seria a que contaríamos aos outros. E que aguardava pela verdade. Foi o que afirmei enquanto lhe mostrava a espada que encontrei junto a seu corpo. Quando ela finalmente se dispôs me dizer a verdade, soube em meu coração que deveria acreditar nela.
Tempestade sentiu mais uma vez suas pernas falharem.
- Peço permissão para me retirar, meu senhor – solicitou a matadora de wargs.
- Só mais uma coisa – disse Aragorn – Gimli, traga-a.
O anão apressou-se em trazer o objeto solicitado pelo filho de Arathorn.
- Creio que isso lhe pertence, minha cara – disse estendendo a espada com as duas mãos a Tempestade – lamento muito não tê-la visto brandi-la. Disseram-me que não deixa nada a dever aos antigos Guardiões.
- Pensei que tivesse ficado na floresta – disse a mulher tocando a lâmina numenoriana com a ponta dos dedos.
- Gimli a encontrou e não permitiu que tal jóia se perdesse.
Aragorn parecia querer por fim a uma animosidade sem sentido.
O olhar da mulher cruzou com o olhar do filho de Glóin. Os dois decidindo quem seria o primeiro a ceder, contudo nenhuma palavra fora dita.
- Sinto apenas não poder brandi-la mais em sua defesa, meu senhor. Contudo gostaria que a espada de meu pai o servisse mais uma vez, mesmo que não fosse por intermédio de minhas mãos.
Diante dos olhares questionadores dos presentes, Tempestade pegou a espada das mãos de herdeiro de Isildur com o que lhe restava de suas forças e perguntou a Gimli:
- Sabe manejar uma arma como essa, anão?
- Não tão bem quanto meu machado, contudo garanto que não dou vexame – respondeu o filho do povo das montanhas com o brio que lhe era característico.
- Gimli, filho de Glóin – prossegui a mulher – me faria o favor, então de brandi-la em defesa do senhor Aragorn? Pois, sem querer desmerecer a lealdade de nenhum dos presentes, se há alguém aqui cuja dedicação a ele possa se igualar a dos Guardiões da Árvore Branca esse alguém é o senhor.
Ainda que Sauron em pessoa anunciasse que desistiria de sua campanha para conquistar a Terra-Média, os rostos dos ouvintes não ficariam tão estarrecidos como estavam no momento em que a matadora de wargs pronunciara essas palavras. Após alguns segundos, o anão respondeu.
- Ninguém a brandiria melhor do que a senhora, todavia, tentarei me mostrar digno de tal tarefa – disse Gimli enquanto pegava a espada das mãos da mulher.
Tempestade assentiu e começou a se retirar.
- Só mais uma coisa – disse o filho Arathorn – qual é o seu verdadeiro nome, guardiã?
Todos os presentes voltaram o olhar para a matadora de wargs. A mulher fitou Haldir e sem vacilar, declarou:
- Meu nome é Tempestade.
