18 – ENTRE DOIS SENHORES

Haldir repousava o queixo sobre a cabeça de Tempestade enquanto esta desfrutava da segurança de seus braços. Por alguns instantes ambos fingiram não haver ao redor deles mais nada além daquela paz que os envolvia. Até que os ouvidos do elfo perceberam a aproximação de um mal há muito esperado.

- Eles estão vindo – murmurou.

A mulher abriu os olhos. Aspirou mais uma vez a essência do capitão dos exércitos imortais e olhou para cima encontrando o rosto daquele que simplesmente soube, tratar-se dali para frente de seu companheiro.

- Por favor, diga-me que estou dormindo e que não preciso acordar... – sussurrou.

- Sinto muito, minha querida – disse sem soltá-la.

A filha da Árvore Branca deixou escapar um suspiro e liberou o corpo de elfo antes de se dirigir à muralha, contudo nada viu.

- Onde eles estão? – indagou – você falou como se já estivessem muito próximos.

- E estão – respondeu Haldir colocando-se ao lado de Tempestade – já despontam no horizonte – concluiu apontando.

- Não vejo nada!

- Tem o sangue dos elfos agora, minha cara, não seus sentidos.

- Não precisa se gabar disso, meu senhor – disse cruzando os braços e virando o rosto para o guardião de Lórien.

- Não estou me gabando – devolveu no mesmo tom – estou constatando – concluiu cruzando também os braços sem desviar o olhar da mulher e sorrindo diante da altivez de Tempestade. Nada a fazia baixar a cabeça. E o sorriso do elfo fez com que a filha dos antigos guardiões cedesse um pouco.

- São muitos? – perguntou olhando para o horizonte.

- As flechas de meus soldados acabarão e ainda restarão milhares de Uruk-hais vivos...

- E então? – indagou fitando o elfo.

- Usaremos nossas espadas.

- Serão suficientes?

- Não.

A expressão do rosto do capitão do exército élfico dizia a Tempestade que, na realidade, nunca houve muita esperança. Ela sabia disso desde o início. Ele também. Todos sabiam.

- Nesse caso – disse dando as costas para a muralha – é melhor o senhor se juntar a seus soldados. Devem estar sentindo falta de seu capitão.

- Irá para as cavernas agora?

- Cavernas? Eu? Por quem me toma, capitão?

O olhar de Haldir deixou a mulher ciente de sua confusão.

- Já dispomos de tão pouco, meu senhor, que não posso nem quero me dar ao luxo de me esconder enquanto outros derramam seu sangue.

- Nem bem tornou à vida, mulher, e já planeja colocá-la em risco? Não foi para isso que lhe trouxe de volta.

O guardião de Lórien pretendia apenas que Tempestade compreendesse que sua vida lhe era muito cara, contudo, a ex-escrava de Mordor não estava disposta a trocar um senhor por outro.

- Se me deu a vida para que pudesse dispor dela ao seu bel-prazer, seria melhor que tivesse deixado que a morte me levasse – disse fitando o elfo com a fúria queimando em seus olhos ao recordar a dívida que contraíra para com o guardião.

O sangue mortal nas veias de Haldir quase fez com que perdesse a paciência diante da ingratidão. Fechou a mão em punho e buscou ar querendo se controlar. Onde estava a ternura de momentos atrás? A alternância de ânimos dos mortais o deixava esgotado.

A mulher percebeu o efeito que suas palavras tiveram sobre o elfo e resolveu recuar um pouco. Afinal, descobrira que o amava e que ele também a amava. E pela primeira vez em muito tempo encontrou dentro de si um sentimento mais forte do que o orgulho e a raiva que até pouco tempo a ajudaram a sobreviver, mas que agora, pareciam não ser a melhor opção.

Baixou a vista. Diminui a distância entre eles com um passo. Lentamente levou sua mão até a mão de Haldir, que estava apoiada na muralha, hesitando em tocá-la. Finalmente pousou a mão sobre a do elfo. Levantou o rosto. Fitou o guardião. Os olhos, ainda que altivos, buscando compreensão.

O servo de Galadriel pareceu compreender. 'Quando não dizemos, demonstramos', recordou as palavras de Tempestade. Esta lhe mostrava com seu olhar agora que o amava, que lhe era grata, mas que não poderia lutar contra sua natureza, contra o que era: uma guardiã como ele. Passara por cima de tudo pela vida do rei Elessar e o faria novamente.

- O simples pensamento de que algo possa feri-la – disse Haldir colocando a mão no rosto da mortal – turva minha mente de tal forma que perco o bom senso, minha querida.

- E pensa você que o medo que tenho de perdê-lo é menor que o seu? Acha que poderia ficar tranqüila lá embaixo sabendo-o cercado daqueles terríveis Uruk-hais? Ai de qualquer um que se atreva a feri-lo!

O guardião sorriu diante do sentimento de posse externado pela mulher. Como se ele, Haldir de Lórien, o guardião da Floresta Dourada, necessitasse de sua proteção. E achara que os pensamentos de Tempestades estivessem voltados para Aragorn!

- Deixe-me ficar... – pediu inesperadamente a filha dos antigos guardiões.

- Gostaria de sabê-la em um lugar seguro...

- Meu lugar é ao seu lado – completou – e ao lado do meu rei – disse determinada.

O servo da senhora da luz se rendeu. Fora isso que o cativara nela: coragem e teimosia na medida certa.

- Caso nossa hora tenha chegado – continuou a mulher – lamento apenas termos tido tão pouco tempo.

- Não creio que o Único nos daria tudo isso para depois nos ser tirado. Sinto em meu coração que as trevas não triunfarão esta noite.

- Como? Estará sua visão élfica vendo além da minha novamente? – perguntou deliciosamente provocativa.

- Não – respondeu Haldir sorrindo mais uma vez – é o sangue teimoso dos mortais que está em minhas veias que se recusa a aceitar essa derrota.

- Sendo assim, é melhor irmos. Todos devem estar procurando por você.

O guardião tomou a mulher pela mão e seguiu em direção à batalha. A primeira – e talvez última - que enfrentaria como um mortal.

...

Já era do conhecimento dos soldados de Lórien e Valfenda a nova condição de seu capitão e não viam com bons olhos a escolha que fizera. Contudo sabiam que, apesar de haver aberto mão da imortalidade, a atitude tomada pelo servo de Galadriel em nada diminuíra sua habilidade de conduzi-los a vitória, já sabedores que seu comandante havia conseguido se recuperar. Pelo contrário, a capacidade que o guardião demonstrou de vencer aquele mal tão rapidamente aumentou em muito o respeito que seus soldados nutriam por ele. E Haldir percebeu isso nos olhos dos seus irmãos quando caminhava ao encontro do filho de Arathorn. Nenhuma palavra fora necessária.

Todavia os olhares que os imortais dirigiram a Tempestade foram bem diferentes. Alguns dos que lá estavam presenciaram o incidente no arsenal e todos já sabiam que a mulher vinda de Mordor era, na verdade, a última da respeitada linhagem dos Guardiões da Árvore Branca. E os elfos estariam bem dispostos a honrá-la não fosse o fato de que por causa dela, seu amado capitão perdera o dom que era mais caro aos de sua raça. Não fosse a surpresa diante da inesperada beleza ostentada pela mulher haver suavizado os olhares, Tempestade teria sentido ainda mais fortemente a desaprovação dos imortais.

- Onde você estava, Haldir? – o herdeiro de Isildur avançava em direção ao elfo – seus homens perguntavam por você a todo instante. Já não sabia mais o que dizer!

- Calma, meu senhor Aragorn, estou aqui não estou?

- Graças ao Único que está – disse o futuro rei dos homens com as mãos nos ombros do guardião.

- Como organizou as fileiras? – quis saber o capitão.

- Uma parte aqui e outra mais abaixo. O que acha? – respondeu o homem se afastando e apontando para os elfos.

- Devo admitir que nem mesmo eu teria feito melhor – comentou o capitão sem conseguir conter a bem justificada arrogância.

O filho de Arathorn voltou o rosto novamente em direção ao capitão dos elfos e seus olhos encontraram a filha dos antigos guardiões:

- Tempestade? – perguntou permanecendo com a boca entreaberta e sem conseguir conter um pequeno sorriso que deixou a mulher mais do que constrangida.

Quando o herdeiro de Isildur já começava a atrair sobre si os olhos quase assassinos do servo de Galadriel, Gimli veio em socorro do amigo, após uma troca de olhares urgente com Legolas.

- Bem, bem, bem – disse o filho de Glóin estendendo à filha da Árvore Branca o objeto em suas mãos – parece-me que esta espada retornará para as mãos que lhe são devidas.

Após receber do filho de Glóin o objeto que lhe era tão caro, a mulher segurou a espada em suas mãos colocando-a diante do rosto.

- Todavia – prosseguiu o anão – espero que não cheguemos ao ponto de que tenha que brandi-la.

- O que quer dizer com isso, mestre Gimli? – perguntou Tempestade apontando a arma para o filho de Glóin.

- O que é isso? – o anão de um passo para trás diante da inesperada agressividade – Estou apenas dizendo que só irá usá-la se os Uruk-hais chegarem às cavernas!

- Pretende que eu vá para as cavernas?

- Foi determinação do rei Théoden – justificou o anão – que as mulheres e crianças fossem enviadas para as cavernas. A própria sobrinha do rei pediu pra ficar e lutar e não obteve permissão.

- Entendo – disse a mulher baixando a espada e fitando o filho de Arathorn – contudo não é o Senhor de Rohan que tem autoridade sobre mim. E estou certa de que o rei Elessar não compartilha da opinião do senhor dos cavalos.

- Pare de me chamar assim, Tempestade – solicitou o herdeiro de Isildur – eu ainda não sou rei.

- Meu senhor Aragorn – retorquiu a mulher – homens não se tornam reis. Reis nascem. Alguns apenas demoram mais que outros para receber sua coroa.

- Agradeço seu ponto de vista, minha cara – disse o filho de Arathorn tentando esconder a emoção que o comentário da filha dos antigos guardiões lhe causara – todavia, creio que já fez muito por todos nós e levando em consideração tudo pelo que passou, penso que seria melhor para você se fosse para as cavernas.

Haldir balançou discretamente a cabeça deixando o guardião do norte surpreso ao perceber que o elfo não concordara com suas palavras.

Tempestade baixou a cabeça. Como convenceria Elessar a deixar que ficasse?

- Parece-me por fim que irá para as cavernas, minha senhora – comentou o anão fazendo Tempestade levantar a cabeça e sentir o sangue élfico em suas veias queimar como só um sangue mortal poderia.

- Contudo – prosseguiu o filho de Arathorn retificando sua posição – já vi o que pode fazer com uma espada – disse olhando para o filho de Glóin – e diante da atual situação, a sua será muito bem vinda.

As palavras do herdeiro de Isildur fizeram o coração da filha dos antigos guardiões disparar.

- Prometo não decepcioná-lo, meu senhor – disse baixando levemente a cabeça – se me derem licença, meus senhores, vou me preparar.

- Como assim se preparar? – indagou o indiscreto anão.

- Não espera, mestre Gimli, que enfrente Uruk-hais usando isto! – respondeu referindo-se ao vestido.

- Será uma pena privar os Uruk-hais de vê-la vestida como uma dama! – o filho de Glóin não se conteve.

Tempestade estreitou os olhos fitando o anão:

- Se eu fosse o senhor, mestre Gimli – disse apontando mais uma vez a espada – não me preocuparia apenas como os Uruk-hais esta noite.

Haldir, Legolas e Aragorn não puderam conter o riso. Aqueles dois nunca se entenderiam...

A mulher saiu deixando que sua mão tocasse ocasionalmente a mão de Haldir ao passar por ele. O guardião de Lórien não se atreveu a olhar para trás. Não era do feitio de nenhum dos dois externar sua intimidade.

- Pensei que lhe agradaria deixá-la na segurança das cavernas, Haldir – comentou Aragorn deixando o elfo ciente de sua confusão.

- Eu ficaria satisfeito com isso, meu amigo – admitiu o capitão dos elfos – entretanto aprendi hoje que não é sábio 'provocar' uma Tempestade.

O herdeiro de Isildur sorriu ao imaginar que o próprio Haldir já devia haver tentando convencer a mulher a não lutar e, recordando seu temperamento, ficou feliz de ter decidido levar em consideração o discreto aviso do elfo.

- Entretanto – prosseguiu o servo de Galadriel – ela o teria atendido se tivesse mantido sua opinião. E o atenderá sempre.

- Tal lealdade aquece meu coração, valoroso Haldir, da mesma forma que o deixa temeroso. Como podem depositar em minhas mãos tantas responsabilidades?

- Aragorn – o filho de Thranduil interveio – como disse antes, até agora você sempre nos conduziu pelo caminho certo. Sabemos que ninguém é infalível e estaremos ao seu lado quando precisar.

- Além do mais – completou o anão – essa é uma tarefa que cabe a você. Se não puder realizá-la, ninguém poderá!

...

- O que está fazendo, Tempestade? – indagou Éowyn ao encontrar a amiga calçando as botas de soldado.

- Obrigada pelo vestido, minha senhora, creio que já serviu ao seu propósito – disse a mulher morena devolvendo a peça de roupa à sobrinha do rei.

- Do que está falando?

- Não poderia lutar usando um vestido tão refinado. Essas calças e essa camisa me serão mais úteis agora – respondeu tristemente, pois sabia do desejo e da capacidade da senhora de Rohan.

- Você irá lutar? Como meu tio pode ter permitido a você algo que foi negado a mim?

- Em primeiro lugar, minha senhora – disse buscando em si a ternura da qual a sobrinha do rei era merecedora – Théoden rei tem sua vida e sua segurança em grande conta. Já perdeu o filho. Enquanto houver esperança, não arriscará perder aquela que tem como filha. Além do mais – concluiu – Théoden não dispõe de minha vontade. Esta está a serviço do rei Elessar e este, apesar de uma certa hesitação, permitiu que participasse da batalha.

- Se é assim... – disse Éowyn lutando contra si mesma – só me resta a conformação...

- Não fique assim, minha senhora – disse a filha dos antigos guardiões segurando os ombros da amiga – sua hora chegará!

A segurança no olhar da mulher expulsou um pouco a tristeza do coração da senhora de Rohan.

- Como disse antes, minha cara, espero poder revê-la – concluiu enquanto abraçava Tempestade. Esta, desacostumada como estava a demonstrações de afeto, demorou a corresponder ao gesto inesperado da sobrinha do rei. Contudo o fez, lembrando com um que de tristeza do abraço que dera em Haldir.

- Há alguma esperança real de que isso possa acontecer, minha senhora? – indagou enquanto se afastava mirando a sobrinha do rei.

- Eu não sei – respondeu Éowyn olhando para chão – contudo, ontem a essa mesma hora não havia esperança alguma de que você pudesse ser curada, não é verdade? – concluiu com um sorriso.

- Isso eu não posso negar – respondeu pensativa – é melhor eu ir agora, senhora.

- Poderia me fazer um último favor?

- Qualquer coisa, minha senhora.

- Poderia, por favor me dizer o seu nome.

A mulher baixou os olhos como se decidindo:

- Fique em paz, Éowyn.

A Senhora de Rohan se rendeu:

- Vá em paz, Tempestade.

...

Quando a filha dos guardiões da Árvore Branca chegou à muralha a chuva já havia começado a cair. A visão do exército de Isengard era capaz de fazer o sangue do mais corajoso dos guerreiros gelar. As muralhas de Helm pareciam inexpugnáveis, contudo a mulher aprendera que segurança era um conceito muito relativo.

- Não tenham pena deles – gritava Elessar – pois eles não terão pena de vocês!

'Pena? Somente no vosso coração, meu rei, poderia surgir alguma possibilidade de pena para com estas criaturas.', refletia a mulher enquanto desembainhava a espada dos guardiões. Seus olhos buscaram por Haldir. Estava distante. Na parte mais exposta da muralha, com arco em punho. E sem o elmo! 'E me acusa de arriscar minha vida!' Seus olhos se encontram. O servo de Galadriel sorriu. 'Como pode sorrir num momento como esses?', indagou a mulher em seus pensamentos enquanto seu rosto refletia sua confusão. O guardião de Lórien percebeu e tratou de esclarecer a dúvida que vira no rosto de sua amada. Depôs o arco por um instante e com uma das mãos tocou o peito, fechou os olhos e baixou a cabeça. Fora o suficiente. A mulher assentiu e voltou o olhar para o horizonte. 'Você nunca sorri, minha querida?', perguntava a si mesmo o elfo, 'Talvez não saiba como. Se o Único permitir que sobrevivamos hoje, juro por minha honra que irei ensiná-la'.

Antes que novas reflexões acorressem aos dois, contudo, uma flecha lançada erroneamente por um dos soldados de Rohan incitou a ira dos Uruk-hais, que iniciaram sua marcha em direção às muralhas de Helm. As quais, a princípio, se mostraram suficientes para conter o avanço dos servos de Saruman.

As flechas dos elfos e dos homens abatiam numerosas criaturas enquanto as espadas finalizavam com aqueles que conseguiam escalar os muros da fortaleza. Haldir e Tempestade buscavam amiúde um ao outro, cada um tentando se certificar de que o objeto de seus cuidados ainda estava a salvo.

Ao perceber que o exército de Isengard não conseguia ultrapassar a muralha, o reio Théoden viu surgir em seu coração uma leve esperança de vitória. Contudo, um ardil de Saruman tratou logo de debelá-la. Os servos do Senhor do Escuro depositaram junto a parte mais fragilizada da muralha a arma que o lacaio de Sauron tão habilmente impetrara. Faltava apenas o contato com o fogo para tal arma fizesse desmoronar as esperanças do Senhor de Rohan juntamente com a muralha.

Foi o que aconteceu apesar dos esforços de Legolas em deter a criatura que se encarregara de aproximar a chama do terrível objeto... e a fortaleza foi sacudida por uma explosão inesperada que abriu em suas muralhas passagem ao exército das trevas.

Além de matar, a explosão e seus destroços feriram vários soldados de ambos os lados; alguns dos quais foram lançados para longe de onde estavam anteriormente. Um dentre eles foi Aragorn que, após se recuperar do choque inicial, se viu frente a frente com os primeiros Uruk-hais que invadiam a fortaleza. Tempestade pode presenciar uma demonstração de lealdade mais do que esperada por parte de Gimli, que se lançou em meio aos servos do escuro que iam em direção ao filho de Arathorn. Este, por sua vez, correspondendo à bem vinda prova de amizade, liderou um pequeno contingente de elfos contra o mar de Uruk-hais.

Os imortais eram poucos diante de tantos servos Isengard. Elessar escapara do raio de proteção da lâmina de Númenor e a mulher chegou a pensar em se juntar a seu rei, todavia, havia muitos Uruk-hais entre eles. Seus olhos buscaram novamente por Haldir e a filha dos guardiões agradeceu pelo elfo haver optado por não usar o elmo. Sua cabeleira dourada foi logo avistada pelos olhos femininos. Um alívio momentâneo tomou conta do coração da mulher. Ainda estavam vivos, afinal, seus dois senhores.

A medida que o tempo passava, entretanto, a ira de Isengard prevalecia sobre a bravura dos homens e dos elfos. As baixas eram muitas, e Théoden via com tristeza sua fortaleza cair diante do exército de Saruman. As lâminas élficas e mortais, apesar de não terem um segundo de trégua, se mostraram insuficientes, como era de se esperar. A lâmina numenoriada de Tempestade perdera temporariamente o brilho de pérola e prata por causa do sangue dos inimigos mortos. Enquanto isso, Haldir, que já havia perdido a conta de quantas criaturas matara, sentia seu corpo se render ao cansaço. O guardião se recuperara muito rápido do episódio que salvou a vida de Tempestade, contudo o tempo decorrido ainda não fora suficiente para uma total recuperação e o servo da Senhora da Luz via alguns de seus sentidos falharem. Um toque de retirada fora decretado pelo senhor de Rohan a fim de que seus homens e seus aliados pudessem se reagrupar. A parte baixa da fortaleza havia sido perdida. Muitos o seguiram imediatamente, temerosos que estavam diante da força dos exércitos do escuro. Contudo, alguns ficaram dando aos outros a chance de escapar. Dentre eles, Haldir.

Apesar do chamado de Aragorn, e ignorando os sinais de fraqueza dados pelo seu corpo, o servo de Galadriel permanecia no alto do que restara da muralha de Helm e se recusava a deixar qualquer de seus comandados para trás.

Tempestade também se recusava a recuar enquanto não visse Haldir fazer o mesmo. Gimli precisou ser levado pelo elfos, caso contrário não teria abandonado tão rapidamente o campo de batalha. A medida que homens e elfos se retiravam, o número de criaturas das trevas começou a superar em muito os poucos que ainda não haviam atendido às orientações do Senhor de Rohan.

Não demorou para que Haldir fosse cercado pelos Uruk-hais. Em desvantagem e com seus sentidos enfraquecidos, o elfo não pode evitar de ser atingido primeiramente no tórax e depois na nuca, para desespero de Elessar.

Sem se importar com a própria segurança, o herdeiro de Isildur correu em socorro do amigo. Ao se aproximar do corpo de Haldir, contudo, não percebeu no elfo reação alguma, impossibilitado de examiná-lo com maior cuidado pela necessidade de defender-se dos servos do escuro que procuravam brindá-lo com o mesmo destino que haviam ofertado ao guardião de Lórien.

Uma das criaturas, num ato de pura maldade, atirou o corpo de Haldir no rio que passava pela parte externa da fortaleza e que, devido à explosão, foi fortalecido por um curso d´água liberto depois de uma eternidade no subsolo e correu célere à procura de um rumo, arrastando em seu caminho o que havia.

Ao ver Haldir ser atingido, Tempestade seguiu o exemplo de seu senhor e, usando a lâmina de Númenor, abriu caminho até o local de onde o servo da senhora da luz fora ferido. Entretanto, antes de conseguir chegar ao seu destino, a mulher sentiu o desespero turvar-lhe a mente ao ver Haldir ser lançado muralha abaixo. Correu o mais rápido que pode, juntando-se ao seu senhor e ajudando-o a se livrar dos das criaturas das trevas que ainda se detinham na muralha, dado que a maioria delas já se dirigia à torre onde os soldados foram conclamados a se reunirem.

Após dar um fim ao último dos servos do escuro, Tempestade e o herdeiro de Isildur se olharam antes de mirarem o rio que corria violentamente aos pés da muralha. Aragorn tentou consolar a mulher, que, aos olhos do filho de Arathor, parecia dilacerada por dentro.

- Sinto muito, minha cara, mas ele já estava morto...

- Não posso acreditar nisso... – disse com o voz um pouco mais do que um sussurro – não pode ser! – completou elevando a voz e já quase se atirando em direção ao rio.

Antes disso, contudo, os olhos da filha dos guardiões encontraram novamente o olhar do futuro de rei Gondor. Nenhuma palavra fora necessária para que este compreendesse o quanto a mulher estava dividida entre o amor e o dever.

- Siga seu coração, minha cara – foi o pronunciamento de Aragorn.

- Meu coração está dividido, meu senhor. E quanto ao meu dever para com o meu rei?

- Nesse caso, seu rei ordena – disse Elessar assumindo o papel a qual a mulher insistentemente o obrigava – siga Haldir de Lórien, aonde ele for – concluiu transformando em palavras os desejos mais íntimos do coração de Tempestade. Esta, após assentir com a cabeça, entregou sua espada ao herdeiro de Isildur e mergulhou, enquanto Aragorn, mais uma vez, tomado por uma justa ira, atirava-se à batalha.