Olá amigos

Eis mais um capítulo de Laços de Sangue.

Espero sinceramente que estejam gostando, entretando, a julgar pelo número de reviews, esta minha esperança parece não ter muita razão de ser...

Agradecimentos aos leitores fieis que se dignam gastar um pouco de seu tempo com meus modestos, porém sinceros textos.

...

20 – LUZ E SOMBRAS

- Ela quase o matou, Gimli... – disse o elfo mirando o sol que se punha.

- Eu soube. Teria sido uma morte gratuita e desnecessária – comentou o anão antes de sorver mais um gole de água.

- Não tão gratuita assim... Ele a...

- Eu sei, Legolas. Contudo, pelo que ouvi, ela os humilhou o suficiente e até mais.

- Tempestade os ridicularizou diante do rei, dos soldados, elfos inclusive – afirmou o primogênito com algo na voz que o anão reconheceu como um certo 'orgulho'.

- E mesmo assim, ela não esqueceu. Guardou a mágoa, acalentou-a e na primeira oportunidade...

- Não sei se foi exatamente assim...Talvez não tenha sido premeditado. Viu o homem, recordou-se da dor e deu vazão aos seus sentimentos.

- Sentimentos de vingança que lhe parecem tão caros, afinal...

- Parece-me que é do ódio, acima de qualquer outra coisa, que aquela mulher retira sua força - comentou o elfo fitando o horizonte.

- Por isso ela pode ser capaz de se converter em um grande perigo quando provocada. É imprevisível como uma ...

- Tempestade...

- Isso.

- Haldir não sabe o que o aguarda...

...

Após um dia sob os cuidados da Branca senhora de Rohan, Haldir já se sentia muito melhor e, ao amanhecer, quis ir em busca daquela que ocupara seus pensamentos durante todo esse tempo. O que vira em Tempestade no dia anterior o deixara deveras perturbado. Havia bondade nela. Estava certo disso. E dignidade. E honra. Mas também havia mágoa demais. Ira demais. Sombra demais.

- Não acho sensato que deixe essa cama agora, meu senhor Haldir – disse a sobrinha do rei, seriamente preocupada com o estado de saúde do capitão dos elfos.

Haldir recebera para vestir, no lugar dos farrapos que se tornaram suas roupas, uma calça escura e uma camisa vinho. Com o cabelo solto partido ao meio emoldurando seu rosto, o guardião respondeu à preocupação da senhora de Rohan.

- Acredite em mim, minha senhora, quando digo que estou bem e que prometo não me exceder. Compreenda que não posso continuar aqui – disse o servo de Galadriel enquanto calçava as botas e se punha de pé.

- Eu sei... Tempestade...

- É...

...

A filha da Árvore Branca puxava água da cisterna a fim de levar para o local onde Éowyn cuidava dos feridos. A maioria do povo já retornava para suas aldeias para iniciar a reconstrução de Rohan. Os poucos que ficaram tinham muito a fazer. Tempestade estava mergulhada em seus pensamentos. O que faria agora? Para ela nunca houve um futuro em que pensar. Era sempre um dia de cada vez. Sobreviver. Depois, houve a vida de Elessar a proteger. E agora havia ele. Haldir.

- Tem uma dívida para comigo, minha senhora – disse o filho de Glóin recostado na parede enquanto a mulher derrubava o balde por causa do susto – não acredito que consegui pegá-la desprevenida!

- O que quer, anão? Não tenho tempo para troças – falou irritada enquanto tornava a encher o balde.

- Já disse. Tem uma dívida para comigo.

- Do que, em nome de Mordor, está falando? – a referência à Terra Negra fez com que Gimli abandonasse o sorriso em favor de uma expressão mais séria.

- Fez a mim a mesma promessa que fez aquele soldado, minha senhora. Disse-me que se a batalha do abismo não me matasse, a senhora me mataria...

- É verdade – confirmou sem olhar para o filho de Glóin – mas terei de decepcioná-lo, anão. Fui desencorajada a cumprir minhas promessas...

- Olhe para mim, minha jovem – disse Gimli dando um passo em direção a mulher que, inesperadamente, não se virou.

- Tempestade... – repetiu.

A mulher soltou o balde e sentou-se, irritada e cansada de fugir. Aquele anão era grosso, abusado, mas era bom. Ela sabia.

O filho de Glóin sentou ao lado da matadora de wargs. Permaneceram assim por um bom tempo, antes que um dos dois tivesse a coragem de iniciar um diálogo.

- Todos sempre se vangloriaram de que viram o bem que existia em você enquanto eu só vi o mal. E no começo esperei e até mesmo desejei que esse mal prevalecesse. Felizmente não prevaleceu – disse fitando a mulher – ainda.

A edain queria reagir, mas tinha que admitir que o anão era sincero e não estava dizendo nenhuma mentira.

- Você é uma mulher forte, Tempestade. Isso é bom. Porém, tal fortaleza parece ter raízes mais na ira do que em qualquer outra coisa. Sabe o que vi em seus olhos quando pôs aquela adaga em minha garganta?

A mulher não se atrevia a levantar a cabeça.

- Eu vi Mordor! Eu vi o ódio insano de Sauron. Vi o fogo da Terra Negra. Por isso algo em minha mente me dizia que não poderíamos confiar em você. É como se o próprio senhor do escuro estivesse em nosso meio. E não me foi necessária a lendária "sensibilidade" dos elfos para perceber a maldade que você carrega consigo, ainda que sem o consentimento de sua vontade. Ela está em suas palavras e em suas ações. Ofuscando o que você possa ter de bom. Não permita que isso aconteça!

Gimli deu à mulher tempo para digerir suas palavras. A jovem fitava um canto qualquer do chão. Uma expressão fechada, séria. As palavras ditas pelo filho de Glóin revolvendo seus pensamentos. Sua respiração se alterou ao perceber a verdade por trás delas. Fechou a mão em punho desejando bater em alguma coisa ... ou em alguém.

- Mordor! – disse erguendo-se do chão – eu sou assim, anão!

- Não, não é – declarou Gimli levantando-se em seguida – isso é o que você se tornou. É o que Sauron fez de você, mas não quer dizer que não possa ser desfeito...

Tempestade não respondeu. Não havia como contradizer o anão. Ele estava certo. Ela sabia. Contudo também sabia que não tinha forças para se livrar das sombras plantadas em seu coração pelo Senhor do Escuro.

Tempestade viu bondade nos olhos do ser a sua frente. Entretanto, seu orgulhoso coração não queria se dobrar. O anão percebeu que a mulher travava uma luta consigo mesma. E pacientemente esperou. Bastaria um sinal, qualquer um e ele lhe estenderia a mão. Quase num sussurro, a jovem perguntou:

- Desfeito? Como?

- Deixe que a luz se aproxime e as trevas a deixarão.

A jovem estreitou os olhos diante da resposta enigmática que o filho de Glóin tratou logo de desanuviar:

- Haldir.

Por um instante, Gimli percebeu um lampejo de luz nos olhos da edain. De fato, depois de tanto tempo, o elfo fora a única luz verdadeira que surgira na vida da jovem guerreira. Tempestade inclinou levemente a cabeça para o lado.

- Gimli, o sábio! – disse ironizando – isso eu nunca poderia imaginar!

- E o que você poderia imaginar, Tempestade?

- Gimli, o teimoso, Gimli o arrogante...

- E Gimli, o amigo?

Dessa vez o olhar de surpresa da mulher arrancou do anão a mais franca gargalhada. Antes de se retirar, o filho de Glóin conclui:

- Espero sinceramente que encontre seu caminho, minha jovem. E que o siga.

'Por essa eu não esperava...' refletiu a mulher. O anão parecia realmente lhe desejar algum bem. E apesar de poucas, suas palavras eram fortes. 'Talvez os anões não sejam assim tão ruins...'

...

O filho de Arathorn segurava a espada dos guardiões da Árvore Branca em suas mãos enquanto olhava a figura feminina que recolhia escombros. Ela o respeitava. Tinha pela pessoa de Elessar uma admiração única, quase uma veneração. Talvez fosse hora de usar isso para ajudá-la a sair das trevas nas quais estava imersa. Fora um pedido do anão que ele atenderia com prazer. Ainda que, segundo Haldir, não fosse sábio provocar uma tempestade, às vezes ela é necessária para que a terra se renove. Era disso que o coração daquela mulher precisava. De torrentes de água que levassem embora toda aquela escuridão.

Com isso em mente, o cavaleiro do Norte se aproximou da ex-escrava de Mordor.

- Não dá a si mesma um instante sequer de repouso, minha cara?

- Rei Elessar – disse Tempestade baixando levemente a cabeça – não é chegado o tempo do descanso, meu senhor. Sauron ainda não foi destruído.

- Penso que será mais fácil destruir o Senhor do Escuro do que destruir sua herança... – disse o filho de Arathorn com voz cansada e fitando o objeto em suas mãos.

- Do que está falando, meu senhor?

- De todo o mal que Mordor tem plantado nos corações e nas mentes dos habitantes da Terra Média.

Tempestade sentiu na voz de Aragorn a disposição do herdeiro de Isildur. E seu descontentamento transpareceu através de seu rosto. 'De uma hora para a outra, todos se acham no direito de me dar conselhos...' Contudo como era Elessar quem lhe falava, a mulher dominou seu ímpeto. Ficou imóvel, dando a entender ao futuro rei dos homens que estava a sua disposição.

- Mais uma vez venho colocar em suas mãos esta espada, Tempestade – disse enquanto estendia a lâmina numenoriana para que a guerreira a segurasse - contudo, na primeira vez em que o fiz, não havia em meu coração nenhuma dúvida de que estava fazendo a coisa certa.

Se Aragorn tivesse usado a espada para perfurar seu coração, a dor não seria maior do que aquela que as palavras do herdeiro de Isildur lhe causaram. Não era mais digna da espada de seu pai? Por quê? A indagação em sua mente encontrou eco em seus olhos e o futuro rei de Gondor não tardou em responder.

- Esta espada não foi feita para a vingança, minha cara.

Aragorn fixou o olhar no rosto da jovem.

- Nem você – concluiu antes de dar as costas a mulher e começar a se retirar.

Quando já não podia avistar o filho de Arathorn, Tempestade segurou firmemente o cabo da espada em suas mãos. Como desejaria que naquele momento vários daqueles Uruk-hais mortos voltassem à vida somente para que ela pudesse ceifar suas cabeças e extravasar todo seu ódio.

Todavia, como isso parecia improvável, a mulher golpeou o ar com toda sua força, como se estivesse de volta ao campo de batalha.

Parecia que apenas na luta seu coração encontrava alguma paz. Orcs flutuavam à sua frente, até que no meio deles surgiu a figura de Haldir. Parecia mais humano do que nunca com aquelas roupas, os cabelos soltos escondendo as orelhas. Contudo, a presença dele era poderosa demais. Jamais poderia ser confundido com um homem. Tempestade parou. A espada apontando para o guerreiro élfico. Aos poucos apenas a imagem dele permanecia a sua frente.

O guardião ouvira sem querer o curto diálogo entre Tempestade e Aragorn. E pelo que conhecia daquela mulher, seu coração deveria estar sangrando. Tinha ido procurá-la na intenção de aconselhá-la. Entretanto, nenhuma das palavras em que pensara seriam capazes de tocar mais fundo do que as poucas palavras do sábio rei Elessar.

Não que estas fossem suficientes para demover a mulher de sua disposição para a ira. A terra, depois de revolvida, precisa receber a semente para frutificar. Aragorn revolveu a terra do coração de Tempestade. Agora, era vez de Haldir semeá-la.

O servo de Galadriel, com os olhos fixos, nos olhos mortais, aproximou-se o máximo que pode, até que a ponta da espada tocasse seu abdômen. Depois, calmamente entendeu o braço e tocou o pulso da mulher fazendo com que abaixasse a arma enquanto o espaço antes ocupado pela espada fosse tomado pelo corpo do guardião.

Haldir a olhava com ternura, enquanto chegava cada vez mais perto. O elfo era alto, forçando a mulher a inclinar cada vez mais a cabeça a fim de não desviar de seu olhar. Quando a distância entre eles foi totalmente vencida, o guardião tocou o rosto da mortal com sua mão livre. Passou o polegar por cima dos lábios femininos, fazendo uma prece ao Único para que, com aquele beijo, Haldir pudesse passar para ela o amor que habitava seu coração, da mesma forma que antes lhe transmitira a vida por meio de seu sangue.

O corpo de Tempestade tremia. Suas pernas pareciam fraquejar. Era sempre assim quando o elfo se aproximava dela. Ele nunca parecia julgá-la. Apenas estava lá. Para ela. Sem cobrar nada. Nunca.

Lábios se tocaram. A mulher deixou cair a espada a fim de envolver o elfo com seus braços, enquanto Haldir fazia o mesmo. Tempestade já não desejava que Uruk-hai algum ressuscitasse. A presença de Haldir era tudo de que ela precisava agora para se sentir em paz. E a ex-escrava de Mordor deixou que, pelo menos por hora, a luz mandasse embora a escuridão.

...

A Fortaleza estava entregue aos cuidados de Éowyn. O rei, juntamente com seus aliados, dirigira-se à Isengard para ver o que fora feito de Saruman. Haldir foi despedir-se dos elfos que retornariam naquele dia levando os corpos de seus irmãos. Ele próprio ainda deveria permanecer alguns dias, tanto por causa do ferimento como por causa de Tempestade. Ainda não haviam conversado sobre o que fariam dali em diante.

Tempestade caminhava lentamente enquanto passava a ponta dos dedos em seus lábios ainda sentido o gosto doce de Haldir em sua boca. Seus pés a levaram para fora das muralhas. Quando deu por si, estava bem próxima ao terreno no qual os corpos dos Rohirrin estavam sendo enterrados.

Algumas mulheres e crianças se despediam de seus pais, irmãos e maridos. A matadora de wargs recordou-se de algo que seu pai costuma dizer: "Em uma guerra nunca há vencedores."

Sem perceber, aproximara-se de um túmulo sobre o qual um soldado terminava de colocar algumas pedras.

'Por Mordor! Não pode ser!' Pensou a mulher, antes de fazer a menção de ir embora. Antes disso, contudo, o rohirrim, percebendo a presença próxima, cruzou seus olhos com os de Tempestade.

Um turbilhão de sentimentos e possibilidades invadiram o coração da guerreira, enquanto Éthain voltava novamente sua atenção para seu trabalho. Todavia, apesar da mágoa ainda persistir, algo havia mudado. Porém para aquela mulher, o caminho para a luz ainda seria longamente trilhado. Já não se sentia capaz de matá-lo como antes desejara, mas...

- Sozinho novamente? Onde está aquele inútil que o seguia a toda parte como um cão?

- Segundo túmulo a sua frente – foi a resposta do soldado – morreu durante a noite. Não suportou os ferimentos.

Tempestade se sentiu má. Gimli estava certo. Carregava a maldade de Mordor em seu coração. Gostaria sinceramente de voltar atrás e impedir-se de dizer tamanha crueldade. O que poderia fazer agora? Seus pensamentos foram interrompidos pelas palavras do rohirrim.

- E chego a invejá-lo em parte – disse fitando o túmulo do amigo – temo que um destino pior nos aguarde.

- Do que está falando? – retorquiu a mulher, grata ao Único pela oportunidade – o rei Elessar nos conduziu à vitória e continuará a fazê-lo até que Sauron seja derrotado completamente.

- Não seja ingênua, mulher – disse Éthain com voz prepotente – o poder do Escuro é muito maior. Vencemos uma batalha, mas quando o Um Anel cair nas mãos do Senhor da Terra Negra, não haverá espadas de Rohan ou Gondor que possam detê-lo – concluiu indicando com a cabeça a espada dos Guardiões que a mulher trazia à sua cintura.

Tempestade nada respondeu. Diante da prepotência do homem de Rohan, achou por bem calar-se e tentar ser melhor do que ele não respondendo à altura. O silêncio da mulher encorajou o soldado a continuar.

- De fato, depois de refletir melhor, penso que me faria um favor se me matasse agora.

- Se tivesse me feito esta proposta ontem, soldado, eu teria atendido prontamente, ainda que para isso tivesse que ter passado por cima de Théoden rei. Contudo, vejo agora que o senhor de Rohan tinha razão. Não há por que derramar mais sangue. – concluiu fitando os túmulos a sua frente. Tempestade respirou fundo antes de prosseguir. Não conseguiu acreditar no que estava prestes a dizer.

- Na posso dizer que o perdôo pelo que fez. Todavia deixo que o Único decida sobre sua vida. De fato, ela é disposição dele e não minha. – concluiu antes de se retirar.

A uma certa distância dali, não tão perto que pudessem ter ouvido a conversa, mas não tão longe que não pudessem ter compreendido o que aconteceu, Haldir e Elessar sorriam.

...

A comitiva de Théoden e Aragorn retornara com boas notícias. Saruman não seria mais uma ameaça.

...

De volta ao Palácio Dourado o povo da Terra dos Cavaleiros se entregava às comemorações e homenagens aqueles que deram a vida por Rohan. Após tantos sofrimentos, eles mereciam esse conforto. Por alguns momentos, as lembranças de guerra e morte foram deixadas de lado dando lugar a alegria merecida.

Por meio de uma das Pedras usadas por Saruman para prever o futuro, descobriu-se que os olhos do inimigo agora se voltavam para Gondor. Seria diante das muralhas de Minas Tirith que o confronto final aconteceria. Gandalf falou ao rei de Rohan sobre a necessidade de se mobilizar mais uma vez o exército a fim de marcharem em direção à Cidade Branca. Como era de se esperar, houve hesitação por parte de Théoden: 'Por que deveríamos ir em socorro daqueles que se recusaram a nos ajudar?', foi a única resposta que o Mago Branco conseguiu.

Aragorn recebeu de Gandalf orientações de como deveria agir enquanto ele, outrora chamado de Peregrino Cinzento, partiria a fim de prevenir Gondor a respeito do perigo que se aproximava e do confronto iminente.

Contudo, outro confronto se travava naquele momento, entre a dama de Rohan e a filha de Gondor.

- Ele quer voltar para seu povo, Senhora!

- Claro que quer, minha cara. O que você esperava?

- Eu não sei. É que... acho que na verdade nunca pensei sobre isso.

- Os elfos já fizeram muito por nós, Tempestade. Agora eles devem retornar e defender seu reino, enquanto os homens devem se unir para lutar contra o mal que vem de Mordor.

- Não estou bem certa se seu tio estará disposto a ajudar aqueles que não vieram em socorro da Terra do Cavaleiros quanto este se fez necessário.

- O Senhor de Rohan é teimoso, minha cara, mas tem bom coração. E se for necessário, marchará rumo às muralhas da Cidade Branca para defendê-la!

- É o que eu gostaria de fazer, minha senhora... – comentou a ex-escrava de Mordor com a voz cansada.

- Gostaria, mas não pode, Tempestade. Lutou em Helm por nós duas enquanto eu me escondia contra a minha vontade nas cavernas do abismo. Agora é a minha vez de lutar por mim e por você ante as muralhas de Minas Tirith.

- Isso é uma temeridade, senhora.

- E será você a me alerta sobre temeridades?

- O que eu vou fazer entre os elfos? – indagou pondo fim a discussão que já sabia perdida - Imagina como eles me verão? Uma filha do povo que permitiu que o Um Anel sobrevivesse e ao mesmo tempo uma filha do povo que se aliou a Mordor!

- Os elfos são sábios e justos, minha cara, não se deixam levar por preconceitos e julgamentos infundados. Você não tem culpa de nenhum dos erros que seus antepassados possam ter cometido. Além do mais, pelo que me disseram, eles respeitavam bastante os Guardiões da Árvore Branca.

- Isso é verdade – disse Tempestade deixando-se vencer pelos argumentos da sobrinha do rei – aquelas lâminas numenorianas conquistaram o respeito de toda a Terra Média. Contudo, embora tenha o sangue dos primogênitos, não me vejo entre eles, senhora!

- Pois bem, Tempestade. Então vamos considerar por um momento que Haldir concordasse em não mais retornar ao seu povo. Onde vocês ficariam? Em Rohan?

- Não, senhora. Embora vocês tenham minha eterna gratidão, não pertenço à terra dos cavaleiros.

- Então iriam para Gondor?

- Não! Quer dizer, não seria a melhor opção – concluiu desviando o rosto.

A reação da jovem intrigou a sobrinha do rei. Éowyn percebera claramente que, embora amasse o rei Elessar, a mágoa ou até mesmo algo mais afastavam Tempestade da Cidade Branca.

- Não compreendo, minha cara. Há pouco você disse que gostaria de marchar rumo à Cidade Branca.

- Sim, eu a defenderia, mas por nada cruzaria aqueles portões.

- Então não lhe resta muita escolha, a menos que queira viver entre os anões!

A guerreira estreitou os olhos. Mais como uma veemente negativa à hipótese descabida do que como uma demonstração de desagrado para com a senhora de Rohan.

- Tem razão, senhora. Partirei com ele – concluiu a mulher dando-se por vencida.

...

Tempestade, de pé, segurava os arreios do cavalo que estava carregado de mantimentos, enquanto Haldir segurava os outros dois que lhes serviriam de montaria.

- Lamento privá-lo destes belos animais, majestade - declarou o guardião de Lórien ao soberano de Rohan.

- Quisera eu poder lhe dar muito mais do que isso, bravo Haldir. Não estivesse a Terra dos Cavaleiros ansiando por uma reconstrução, lhe concederia uma escolta, assim como mais provisões para sua viagem e presentes melhores para seus senhores. Contudo, espero que estes tenham alguma serventia para você e para eles depois que chegarem à Floresta Dourada.

- Sendo assim, sei que falo por meus senhores quando digo que a amizade selada entre nossos povos é o bem mais valioso que poderíamos desejar. Gostaria de poder ficar para a batalha que se realizará em Gondor, todavia sinto o chamado de meus mestres e creio que em Lothlórien minha presença se faz necessária.

- Tenha uma boa viagem, nobre capitão – concluiu o rei – quanto a você, minha cara – disse o senhor dos cavalos ao se dirigir à Tempestade – agradeço por tudo que fez por nós e desejo que após tantos infortúnios, encontre a felicidade que sei que merece.

A mulher apenas abaixou a cabeça em resposta. Quem prestasse um pouco de atenção nela, perceberia que a filha dos antigos guardiões não estava muito entusiasmada com a viagem.

- Espero que tudo corra bem com vocês, meu irmão – foram as palavras de Legolas ao abraçar Haldir em um gesto que para ambos já se tornara natural – espero revê-los em breve - concluiu se dirigindo também a Tempestade.

- Felicidades, bravo Haldir – disse Aragorn também em um abraço.

Então Tempestade, que até o momento não dissera nada, aproximou-se de Elessar, e sem levantar os olhos quase num sussurro falou ao futuro rei dos homens:

- Perdão se o decepcionei, meu senhor.

Elessar não disse nada. Um olhar e um ligeiro sorriso foram suficientes para que a mulher compreendesse que o filho de Arathorn ainda a tinha em grande conta.

- Onde está Éowyn. Imaginei que ela estaria aqui antes de todos nós – comentou o rei Théoden.

- Está um tanto indisposta e me pediu que lhes transmitisse seus votos de boa viagem – respondeu Éomer.

- Gimli também não virá – completou Legolas – embora ele não queira admitir, sei que detesta despedidas e não correria o risco de derramar lágrimas em nossa presença – concluiu ao que todos responderam com sorrisos.

- Sendo assim – disse o guardião de Lórien – não há por que nos demorarmos mais. Fiquem em paz.

Haldir montou um dos cavalos e Tempestade montou o outro. O elfo se encarregou de conduzir o terceiro animal que carregava suas provisões. Quando já haviam passado dos portões da cidade, algo fez com que a mulher olhasse mais uma vez para o palácio dourado vendo uma imagem que nunca mais lhe sairia da lembrança: a Branca Senhora de Rohan que os observava partirem. Tempestade parou. Não tinha como saber qual era a expressão do rosto da senhora da terra dos cavaleiros, todavia, algo em seu coração lhe dizia a face branca deveria estar revestida do mesmo pesar que agora habitava o coração da filha de Gondor.

- Pode vir visitá-la quando quiser, minha cara – disse Haldir tirando Tempestade de seus pensamentos.

- Espero que sobreviva...

- Do que está falando?

- Espero que sobreviva à batalha de Minas Tirith.

- Ela lhe disse alguma coisa? Disse que lutaria?

- Disse.

- Então talvez devamos voltar e alertar o rei sobre essa temeridade.

- Nem em mil anos, meu senhor! Ela tem o direito de travar suas próprias batalhas.

- Que seja – suspirou o elfo sabedor de que não adiantaria gastar tempo e energia em uma causa perdida.

E iniciaram a viagem em direção à Floresta de Dourada.