25 – Duas Cidades
Olhos castanhos fitavam a copa das árvores. A cidade era bela. Sua gente lhe sorria. Mas o talan estava vazio sem Haldir. Rumores chegavam a todo instante. Era preciso que as informações fossem checadas. O Galadhrim não sabia esperar. Foi a muito custo que deixou Tempestade mais uma vez, mas precisava certificar-se. Se o que ouviram fosse verdade, Aragorn poderia estar morto. Um confronto direto com Mordor era a última coisa que se esperava que os homens do oeste fizessem, contudo, quem os conduzia agora estava determinado a por um fim ao mal que insistia em rastejar pela Terra Média.
A mulher temia por seu marido, mas também temia por Gondor, por seu amado rei. E pelo que ainda poderia ter restado de seus parentes...
- Admira nossa cidade, Tempestade?
As palavras de Galadriel interromperam os pensamentos da adan.
- O que faz aqui, minha senhora? – indagou sem conseguir esconder sua surpresa.
- Questiona meu direito de ir e vir em meus domínios, minha cara?
- Não... quer dizer... perdoe-me...
- Acalme-se, criança. Compreendi sua intenção. Venha, quero que me responda uma pergunta – disse a Senhora convidando Tempestade a olhar mais uma vez para a cidade das árvores.
- Diga-me: ama Caras Galadhom?
Anna hesitou em responder, pois na boca da Senhora da Luz, a mais simples das palavras poderia possuir mil significados.
- Ela tem sido boa para mim, Senhora.
Galadriel esboçou um pequeno sorriso. A mulher não se enganara, embora parecesse simples, a pergunta da elfa era mais rica de significados do que se poderia supor.
- Não respondeu a minha pergunta, criança. Ama Caras Galadhom? – insistiu a rainha.
- Não posso dizer que não amo – disse tentando desviar os olhos da rainha.
- Parece-me que não receberei uma resposta direta, afinal... – concluiu a senhora de Lórien.
Tempestade, embora não compreendesse bem o que a elfa buscava, sentia que havia bondade nela e em seu propósito. Se iria viver ali, sob sua proteção, teria que aprender a confiar nela.
-Perdoe-me se a ofendo, senhora – disse a mortal – Caras Galadhom me é muito querida e estou disposta a fazer dela meu lar.
- Contudo, não consegue dizer que a ama. Não será porque em seu coração o amor por Minas Tirith ainda impera?
A pergunta repentina surpreendeu a mulher. Esperava que sua resposta satisfizesse a Senhora da Luz e pusesse fim ao assunto. Em vez disso, apenas a deixou mais confusa.
- Não posso amar as duas, minha Senhora?
- Não, não pode. Precisa escolher.
A afirmação categórica da Senhora da Luz ajudou Tempestade a compreender que ela lhe queria dizer mais do que aquilo que as palavras poderiam expressar. Não porque Galadriel não fosse conhecedora das palavras certas, mas porque a senhora de Lórien desejava que a mulher compreendesse por si mesma o motivo de suas próprias inquietações a respeito desse assunto.
- Não já escolhi, Senhora? Não estou aqui?
- Mas seu coração ainda suspira pela cidade branca. Será que essa escolha foi justa?
- Como assim?
- Quando foi a última vez que Minas Tirith lhe sorriu? Será que você lhe teria resistido se a oportunidade de fitá-la mais uma vez lhe fosse concedida?
Tempestade, agora, estava quase certa do que a Senhora da Luz lhe insinuava, mas em seu íntimo repetia a si mesma que aquilo não poderia ser verdade.
- Tanto é verdade, minha cara – disse a elfa deixando a mulher paralisada – que ainda não conseguiu responder a nenhuma de minhas perguntas.
- A que verdade se refere, senhora? – indagou a muito custo.
- Sei que é inteligente, criança. Custa-me crer que ainda não me tenha compreendido.
- Perdoe-me, senhora, mas não me sinto bem com parábolas e rodeios, nem com insinuações – concluiu desviando olhar e baixando a voz, pois sabia que estava abusando da boa vontade da rainha.
- Olhe para mim, Tempestade – disse resoluta, mas gentil, não deixando à mulher outra escolha que não a de olhar para aqueles olhos aos quais não era possível ocultar coisa alguma. No entanto, quando a mulher ergueu a cabeça, não era um par de olhos azuis que a esperavam, mas um par de esmeraldas desafiador. A prova cabal de que algo dentro de Tempestade ainda precisava ser esclarecido. Algo com o qual não poderia viver. Uma dúvida que de tão íntima e profunda, a mulher ainda não se dera conta de que possuía até Galadriel descortiná-la por completo.
- Não! – gritou em uma tentativa de fuga que sabia inútil.
- Acalme-se – disse a rainha segurando gentilmente o rosto da edain – não há motivo para negar o que sente, Tempestade - azuis cheios de compreensão fitavam castanhos.
- Tenho vergonha, não é justo... – disse quase num sussurro.
- Justo?
- Não é justo com ele.
- ...
- Haldir.
- Entendo. Mas será que é justo com você que sua alma permaneça nesse silêncio? Será justo enterrar um sentimento que ainda pulsa dentro de si?
- Com o tempo ele morrerá...
- E de quanto tempo mais acha que precisará, minha cara? Quanto tempo mais está disposta a esperar? Nem as muralhas de Mordor puderam por fim a tal sentimento. Nem a ameaça de morte iminente. Nem o amor de Haldir.
- Se não conseguir matá-lo, pelo menos bem acorrentado permanecerá. Não conseguirá escapar jamais.
- Pelo menos não até que ele seja descoberto.
- Que quer dizer com isso, senhora?
A elfa soltou o rosto da mulher, afastou-se um pouco e deu as costas permanecendo em silêncio enquanto buscava pelas palavras exatas. Tempestade ainda era uma menina em muitos aspectos.
- Quando duas pessoas decidem viver juntas, criança, quando decidem compartilhar uma vida, principalmente nos moldes que você e Haldir o fizeram, com o tempo, um é capaz de saber até pela respiração que há algo incomodando o outro. O amor e a confiança que os une é muito forte e pouco a pouco tanto suas defesas como as dele irão cair. Você irá se revelar a ele e ele a você, e muito provavelmente, sem que os dois se dêem conta, um estará mergulhado no outro.
A rainha se virou por um momento. A expressão da mulher lhe revelou que estava conseguindo se fazer entender. Tempestade mal respirava. A senhora de Lórien encarou a mortal.
- Haldir mergulhará em sua alma, em seus sentimentos, em seus traumas. Não haverá como esconder. E na primeira oportunidade esse sentimento acorrentado se insurgirá contra ele, quando você não puder mais controlá-lo. Como um Balrog que surge das profundezas. É isso que você deseja?
A mulher abriu a boca, mas os lábios tremiam demais para que conseguisse dar qualquer resposta, contudo a rainha compreendeu.
- Precisa voltar a Minhas Tirith. Por você e por Haldir.
- Como poderei contar a ele sobre isso?
- Eu não disse que precisaria contar a ele, minha cara. Disse que precisa encarar seus sentimentos. Tenha calma. Não se deixe levar pela impetuosidade que é tão própria de seu espírito. Deixe que os fatos se sucedam primeiro e então aja. Entende isso?
- Não tenho certeza...
- Permita que suas ações sejam guiadas pelo amor que sente por Haldir.
Tempestade assentiu.
- Se for assim, ele não irá descobri, então?
- Não, minha cara, ele descobrirá – olhos confusos fitaram a rainha de repente – eu não disse que ele não descobriria. Disse que você não precisaria contar a ele.
A mulher suspirou profundamente. Não conseguia nem imaginar o quanto isso seria difícil.
- Sei que será duro para você, criança. Será para ambos. Mas você verá que quando forem revelados de uma vez por todas os seus segredos, Haldir a amará ainda mais e você descobrirá que o ama muito mais do que supõe.
A mortal não pode evitar de corrigir a rainha.
- Segredos, minha senhora? Não se trata de apenas um?
A elfa sorriu ternamente.
- Não Tempestade. Sabemos que não é apenas um.
A mulher vasculhou a mente em busca do que mais poderia ser. Por fim deu-se conta do que a rainha poderia estar falando. Malditos orcs! Seria isso?
- Ele também descobrirá que...
- Não. Você é quem contará a ele. Afinal, ao contrário do outro fato, minha cara, esse, você não conseguiria esconder por muito tempo.
Tempestade fitou a cidade das árvores mais uma vez. Como gostaria de não precisar deixá-la.
