27 – REENCONTRO

As muralhas de Minas Tirith surgiram no horizonte. Imponentes. Grandiosas. Contudo, ao se aproximarem, mulher e elfo perceberam as seqüelas deixadas pela batalha recente.

O coração de Tempestade batia cada vez mais forte a medida que se aproximava da Cidade Branca. Um turbilhão de sentimentos a invadirem sua alma.

O rei Elessar finalmente estaria ali. Aquilo com o qual seu pai tão ardentemente sonhara havia se tornado realidade. Reencontrariam Aragorn em breve, contudo era a possibilidade de outro reencontro que toldava os pensamentos de Anna.

Passaram facilmente pelos portões da cidade. Em tempos de paz a desconfiança diante de estrangeiros não prevalecia. Tempestade fitava os rostos buscando por algum conhecido. Todavia, ao contrário dela, os habitantes não tiveram dificuldades em reconhecer na mulher de pele bronzeada que cavalgava ao lado do elfo, a filha de Sador.

As histórias sobre os dois eram contadas e recontadas juntamente com tantas outras a respeito dos grandes atos de heroísmo da guerra do anel. Sendo assim, ao chegarem à entrada do palácio, um dos capitães já se punha a caminho para recebê-los e conduzi-los a presença de Elessar.

Deixaram suas montarias e seguiram seu guia. Tempestade não dizia uma só palavra. Haldir, percebendo a ansiedade que tomava conta de sua esposa, segurou sua mão firmemente a fim de lhe transmitir a confiança necessária. O elfo ignorava que longe de amainar seus receios, sua atitude deixara Anna ainda mais apreensiva.

- Tempestade! Será possível? – disse a Senhora de Rohan transbordante de felicidade – quando ouvi os boatos, quase não acreditei – concluiu antes de abraçar a amiga.

- Folgo em vê-la, Senhora. – respondeu Anna tentando disfarçar o nervosismo.

- Como está o senhor, capitão Haldir?

- Estou bem, minha senhora, obrigada – respondeu o elfo levando a mão ao peito.

- O que os traz à Cidade Branca? – indagou Éowyn ao recordar que na última conversa que tivera com Tempestade, esta declarara que jamais adentraria as muralhas de Minas Tirith.

- Viemos rever velhos amigos – respondeu Haldir com um sorriso nos lábios.

- Então vamos, o rei Elessar e meu marido estão em uma audiência.

Atendendo ao convite de Éowyn, o casal começou a caminhar em direção à sala do trono. Compreendendo a necessidade que as duas amigas tinham de conversar um pouco e sabendo que isto faria muito bem à sua esposa, Haldir caminhava um pouco à frente, trocando algumas poucas palavras com o seu guia.

- Seu marido? – perguntou Tempestade – então se casou, minha senhora?

- Sim, minha cara. Após ser ferida na batalha...

- Sim! Matou um Nazgul! O mais poderoso deles, foi o que eu soube, para proteger seu tio.

- Infelizmente não pude salvá-lo...

Percebendo que a tristeza se acercava do coração da sobrinha de Théoden, Tempestade retomou o assunto anterior.

- E afinal quem é seu marido, senhora?

- Como dizia, fui gravemente ferida na batalha, sendo obrigada a passar uma longa estadia nas casas de cura. E foi lá que encontrei um bravo guerreiro que não fizera menos em defesa de sua amada cidade. Foi ele quem conseguiu curar a maior das minhas feridas. Deve se lembrar dele. O príncipe de Itilien, Faramir. O irmão de Boromir é agora o segundo senhor de Gondor, logo abaixo do rei. Contudo, não deixa nada a dever em termos de honra e caráter.

Anna parou. A respiração ficou difícil. Estava tão pálida que deixou a senhora de Rohan preocupada.

- O que houve, Tempestade? – indagou colocando a mão no ombro da amiga.

- Não foi nada – disse num sussurro – foi só a surpresa.

- De fato, temos muitas novidades para contar uma a outra, todavia creio que teremos tempo para isso, se não planejam ir embora em breve.

- O tempo que ficaremos não está definido ainda, senhora...

- Algum problema? – Haldir retornou alguns passos ao perceber que as mulheres pararam de caminhar.

- Não há problema algum, meu senhor – respondeu a mulher de pele clara – Tempestade foi tomada pela emoção ao descobrir que agora somos parentes. Casei-me com seu primo.

- Essa é sem dúvida uma boa notícia, minha querida – declarou o elfo.

- Então vamos? – propôs Éowyn.

Enquanto caminhavam e as portas da sala do trono iam se tornando cada vez mais próximas, Tempestade imaginava se Faramir havia dito alguma coisa. Tudo indicava que não.

...

Na sala do trono, Elessar e Faramir tomavam resoluções sobre os mais diversos assuntos. O príncipe de Itilien ia e vinha a Minas Tirith com bastante freqüência. Amiúde trazia consigo, Éowyn, a quem desposara depois que esta conseguira abrir novamente as portas de seu coração de uma forma tão discreta que nem mesmo ele, Faramir, conseguiria explicar, mas pelo que lhe era grato.

Redescobrira o amor nos braços da Branca Senhora de Rohan e em sua alma já não havia lugar para tristezas, embora tenha sido justamente Éowyn a lhe contar sobre uma outra mulher que há muito tempo atrás, fora a dona de seu então jovem coração. Contudo, Faramir não conseguia compreender porque Anna nada revelara sobre ele.

Aragorn estava sentado no trono e o príncipe de Itilien em frente a ele examinava um último pergaminho, quando um dos capitães adentrou a sala aproximando-se de Elessar:

- Majestade, o capitão Haldir de Lórien e sua esposa estão aqui e desejam falar-lhe – disse o soldado sem ser ouvido por Faramir, dado que este se encontrava por demais concentrado em encontrar a resposta a uma pergunta que o rei lhe havia feito.

- Diga-lhes que entrem.

- Posso perguntar de que se trata, meu bom senhor? – indagou o príncipe de Itilien.

- Faremos uma pausa nestes assuntos extenuantes agora, meu amigo. Estou prestes a rever duas pessoas que me são muito caras.

Não houve tempo para que Faramir fizesse qualquer comentário sobre as palavras do rei. As portas da sala se abriram e o esperado casal entrou, com o elfo um pouco mais a frente.

- É um dia de júbilo, nobre Haldir, o dia em que velhos amigos se reencontram! – disse antes de abraçar o elfo sem a menor cerimônia deixando o guardião de Lórien constrangido.

'Haldir!' repetiu, Faramir, mentalmente. 'Será possível!'

- Fico feliz em ver que Gondor está em tão boas mãos, majestade.

- O que é isso, meu caro. Peço-lhe que me chame de Aragorn ou Elessar. E vejo que resolveu brindar a Cidade Branca com o retorno de uma de suas mais ilustres filhas! – disse voltando os olhos para Tempestade que nada respondeu diante do simpático comentário do rei.

- Ela está muito emocionada, majes.. Aragorn.

- Entendo. Venha, Haldir, e conheça aquele a quem realmente são devidos os maiores méritos pela reconstrução de nosso reino. Sem ele, eu estaria perdido – declarou apontando para a figura do filho de Denethor que, contudo, ainda não se virara na direção dos recém chegados.

- Faramir, quero que conheça Haldir de Lórien.

Aos poucos, o príncipe de Itilien virou-se em direção aos amigos do rei. As mãos tremiam. O coração acelerado. Tempestade não estava menos ansiosa.

O irmão mais novo de Boromir viu o seu nome ser pronunciado mudamente pelos lábios de sua prima:

- Faramir...

- Anna...- disse indo abraçar a jovem.

Entretanto, o filho de Denethor foi detido pela poderosa presença do ser ao lado da prima.

- Mil perdões, meu senhor – disse dando um passo atrás e fazendo uma reverência que em toda sua vida só prestara a seu pai e ao rei Elessar.

- O que é isso, meu esposo? – interveio Éowyn – tenho certeza de que Haldir, assim como eu, não se sentirá ofendido se você abraçar sua parenta depois de tanto tempo.

Haldir não poderia fazer suas as palavras da esposa do primo de Tempestade, entretanto seria descabido privar os dois de um reencontro merecido. Afinal, no que dizia respeito a familiares de sangue, eles agora só tinham um ao outro.

Anna olhou rapidamente para o elfo. Este deu a entender seu consentimento reclinando levemente a cabeça, embora algo nas fisionomias dos dois primos o estivesse intrigando.

Pelo relato de Éowyn, Faramir sabia que Anna nada dissera a respeito de seu amor. A questão era: por quê? Contudo ambos sabiam que a situação ficaria por demais constrangedora se protelassem por mais tempo o abraço naturalmente esperado entre dois parentes que não se viam há muito tempo.

Com o coração aos pulos, Faramir deu um passo em direção a Anna. Esta, a muito custo, correspondeu. Fosse em outros tempos, não teria tido esta coragem, contudo, Haldir curou todas as seqüelas que Mordor lhe havia deixado. Além do mais, o primo sempre fora um porto seguro. Se havia alguém que seu coração sabia que jamais a machucaria, além de Haldir, é claro, este alguém era Faramir. Apenas mais um passo deste fora necessário para vencer a distância entre eles e o príncipe de Itilien envolveu Tempestade em um abraço cheio de significados. Aos poucos os braços da mulher circundaram as costas do primo.

Anna nunca chorava. Haldir já a repreendera várias vezes por isso. As lágrimas às vezes eram necessárias para lavar a alma. Contudo, apesar do turbilhão de sentimentos e sensações que acometeram a filha de Sador, ainda não seria dessa vez que aqueles olhos as derramariam. Todavia, Faramir não conseguiu resistir ao retorno de lembranças que ele julgava superadas. O abraço ficou cada vez mais intenso deixando em um certo desconforto os expectadores daquela cena.

Mergulhados em sentimentos, os primos esqueceram-se do resto. Quando percebeu que um tempo razoável havia passado, Faramir abriu os olhos marejados de lágrimas para encontrar o olhar do elfo, que percebeu nos olhos do príncipe de Itilien que havia algo mais do que saudades entre eles.

O filho de Denethor interrompeu o abraço. Anna não lhe opôs resistência. Um comentário de Aragorn rompeu o silêncio constrangedor.

- Então finalmente descobrimos seu verdadeiro nome, minha cara Anna...

Tempestade olhou surpresa para Faramir. Este compreendeu de imediato o questionamento da prima.

- Não me vi no direito de revelar seu nome, minha prima, já que você mesma não o fizera a ninguém – comentou o príncipe de Itilien buscando desesperadamente disfarçar suas emoções.

- Excetuando seu marido, é claro – comentou Haldir colocando a mão no ombro da esposa.

- É um lindo nome, Anna – comentou Éowyn percebendo que algo começava a toldar a atmosfera amistosa que inicialmente se havia estabelecido.

Faramir percebeu que não estava nos planos da prima revelar nada sobre eles, pelo menos por enquanto. Não era da natureza do jovem regente mentir ou omitir. Além disso vira no olhar do marido de Anna que este já percebera mais do que se poderia imaginar. Contudo não julgou prudente contrariar a vontade da prima, pelo menos por enquanto.

- Creio que é hora de nos retirarmos, minha senhora – a voz de Haldir refletia sua inquietação.

- Providenciarei que sejam bem instalados, meu caro Haldir – declarou Aragorn – e os aguardo para o jantar. Creio que folgará em saber que poderá rever Legolas e Gimli. Eles devem chegar logo mais.

- Certamente Rei Elessar, certamente – comentou com os pensamentos distantes das palavras do Soberano de Gondor.

- Venham comigo – propôs Éowyn – eu cuidarei de tudo.

O casal se retirou na companhia da Senhora de Rohan e vigiados por verdes indecifráveis. Faramir mergulhara dentro de si mesmo. Como poderia a presença da prima ainda afetá-lo tanto depois de todos esses anos? A mão de Elessar em seu ombro o trouxe de volta à realidade.

- Passado e presente que se misturam não é, meu bom amigo? – Insinuou Aragorn.

- E dizem que sou eu quem leio os corações... – respondeu o Príncipe de Ithilien com um sorriso triste.