Nota:
Parece que o FF voltou ao normal, então espero conseguir postar essa de forma definitiva agora :)
Prompt: Carry/Support (Whumptober 2020, Alt. 15)
Capítulo centrado na Machi. Referência a Hisomachi.
Pesadas gotas de chuva caíam incessantemente no mundo pintado de cinza e vermelho que era o convés do navio. O corpo dela tremia involuntariamente, mas ela não conseguia distinguir o que era dor, o que era frio, e o que era consequência da hemorragia que ainda enchia seu peito e sua boca. No final, tudo aquilo não era nada. Nada perante a cena que se desdobrava à sua frente, enquanto Nobunaga a apoiava pelos ombros para que conseguisse ficar de pé.
A espada dele, tão próxima dela, estava suja de sangue, e no meio de todo o entorpecimento crescente que tomava conta do corpo de Machi, havia apenas um lamento: não terem sido os fios dela os responsáveis pela decapitação de Hisoka.
Chrollo, na proa, exibia a cabeça segurando-a pelos cabelos molhados. Água escorria profusamente devido à chuva, lavando sua maquiagem e dissolvendo o sangue que saía do corte limpo ao pescoço. Limpo demais, para alguém como ele. Merecia ser brutalizado pela forma macabra com que eliminou Shalnark, Kortopi, Shizuku, Bonolenov e Phinks, e pelo que fizera com os demais na luta que se deu ali minutos atrás.
Inclusive com ela, que segurava o enorme corte que ia da barriga até o peito. Sabia que havia atingido órgãos internos, e sentia ossos quebrados no braço e costela esquerda. O que Machi não sentia, perdidas nas gotas geladas, eram as lágrimas quentes que escorriam por seu rosto.
Os olhos dele a assombrariam para sempre. Seu olhar quando a atacou era o mesmo de quando estavam juntos à cama, ou em qualquer outro lugar onde houvesse cedido àquela tentação. Era o mesmo de quando a havia costurado após terminar a missão que ela falhou. O mesmo de quando acordavam juntos; de quando, sobre uma xícara de café, ele a contratou para cuidar de seu corpo.
E ele sorriu, o mesmo sorriso de quando ela lhe disse que o caçaria até os confins da Terra caso matasse Danchou. Um sorriso que não era o seu típico malicioso, mas no qual ela também não enxergava nenhum arrependimento.
Sabia que se ele havia errado o seu coração, era porque estava encurralado pelos outros seis, e nada mais.
"Nós nunca guardamos nada conosco", Chrollo, que também sangrava, declarou para que todos ouvissem. "Essa será a única exceção. A cabeça de Hisoka será uma relíquia da Genei Ryodan para que todos se lembrem. Não rejeitamos ninguém, então não tire nada de nós."
Machi sentiu o líquido quente encher sua garganta, e teria ido ao chão sem sequer perceber, se Nobunaga não tivesse a segurado. Ele a ergueu nos braços, ao que ela tentou protestar, mas o olhar dele era duro, e as palavras difíceis.
"Chega, Machi!", ele disse, antes de levá-la para dentro do navio contra sua vontade.
Ela conseguiu avistar de forma difusa, sobre o ombro de Nobunaga, quando atiraram os outros membros de Hisoka no oceano, mas a última coisa que viu antes de perder a consciência foi o olhar de Illumi sobre si. Queria sorrir para ele, mas não conseguiu.
Haviam sido tão idiotas, ele e ela.
Tão incrivelmente idiotas.
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Ele havia contado a ela sobre a fábula do Sapo e do Escorpião. O Escorpião, querendo atingir a outra margem do rio, havia convencido o Sapo a levá-lo até lá sobre suas costas, com a promessa de que não o ferroaria no trajeto, afinal, se o fizesse, os dois morreriam. No meio do caminho, porém, o Escorpião não resistiu ferroar o Sapo, e quando questionado sobre o motivo de ter feito aquilo, antes de morrer, ele respondeu:
"O que posso fazer? É a minha natureza."
Havia algo infinitamente determinado, apaixonado e vazio nos olhos dele.
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Acordou com as narinas queimando por algum químico extremamente forte. Afastou a mão de Nobunaga de forma bruta e tossiu, sangue fresco ainda saindo de sua boca. Demorou para entender o que estava acontecendo, mas percebeu que estava dentro de uma banheira vazia, em um banheiro opulento demais para aquele navio. Talvez Nobunaga tivesse invadido o quarto de algum príncipe morto ou VVIP.
Não havia mais ordem naquele navio em frangalhos, afinal.
Nobunaga simplesmente segurou um espelho na frente do corpo dela. Ele havia a despido da cintura para cima e limpado o corte de alguma forma, pois ela podia ver parte de seu interior através dele, ainda que o sangue ameaçasse cobrir tudo de novo.
"Você precisa se costurar. Agora!" Ele a apressou, com urgência no olhar.
Machi não retrucou. Sabia que ele tinha razão, ainda assim suas mãos tremeram, a esquerda especialmente, pela dor do braço quebrado. Era difícil controlá-las, mas ela deveria fazer aquilo.
Olhou fixamente o espelho, compreendendo completamente todas as lacerações internas que precisavam de reparo. Não era fácil fazer aquilo em si mesma, mas não havia escolha. Concentrou a aura exclusivamente nas mãos, e gemeu de dor com aquilo.
Era inevitável.
Sua aura brilhou, e ela costurou órgãos, veias e a camada mais profunda da derme. Estacou nas outras camadas, porém, e Nobunaga olhou para ela indagativo.
Os olhos dela moveram-se para as cicatrizes que ela carregava no ombro. Eram um memento de algo positivo feito por Hisoka a ela, uma lembrança de algo que não existia mais. Algo que estava morto há muito tempo, mas por algum motivo que ela odiava, ainda doía.
Aquele olhar, aquele olhar maldito e vazio.
"Nobu... " a voz dela soou falhada, como se não falasse há dias. "Você tem algo para fechar para mim? Linha, grampeador, qualquer coisa?"
"Ora..." ele recuou, levando consigo o espelho, e olhando-a como se ela fosse um alienígena. "Por que isso?"
Ela sorriu tristemente, seus lábios ainda vermelhos de sangue.
Suas linhas de nen a fechariam perfeitamente, não deixariam rastro algum daquele corte, e em pouco tempo, ela não conseguiria mais encontrá-lo.
"Eu quero a cicatriz", ela disse, tão resoluta que ele suspirou e se levantou para procurar por algum kit de primeiros socorros.
Ela queria se lembrar para sempre de onde estavam suas feridas.
