Nota:
Prompt: Water (Whumptober 2020, Alt. 12)
Capítulo centrado no Illumi. Referência a Hisoillu.
Esperou Kalluto limpar as próprias feridas antes de fechar-se no banheiro. Ser um Zoldyck os dava algumas vantagens, como ter o próprio quarto na área nobre do navio, e conseguir mantê-lo ainda, mesmo com o caos que reinava lá fora.
Percebeu o olhar de Kalluto sobre si antes de fechar a porta. Questionava-o em silêncio, e Illumi incomodava-se com isso. Incomodava-se com o fato de que mesmo seu irmão mais novo havia percebido o quanto aquela luta não havia sido fácil para ele.
Odiava-se por isso.
Abriu as torneiras da banheira, tirou completamente a própria roupa e olhou-se no espelho. Hisoka havia mirado em seu coração, mas Illumi conseguiu desviar do golpe com mais agilidade do que Machi, quando foi a vez dela. Ainda assim, lá estava o corte em sua pele dividindo a tatuagem da aranha ao meio, preciso como quando ele cortava suas roupas só para provocá-lo. De sua fronte, um filete de sangue descia até seu olho esquerdo, e de seus olhos, somente a água da chuva que já secava, deixando um rastro gélido.
Parte de Illumi queria conseguir chorar, mas a outra parte de si não conseguiu fazer com que ele emitisse aquela ordem ao espelho.
Quando percebeu que a banheira estava enfim cheia, imergiu nela de uma só vez. Desejou que ela fosse mais funda para que a água pudesse suspender seu corpo, e então carregá-lo fundo até o oceano onde ele estava, pois era assim que tudo deveria ter terminado.
Deveriam ter morrido juntos, de mãos dadas. Mas Hisoka tinha mãos impossíveis de serem seguradas.
Illumi abriu os olhos sob a água, o mundo turvo perante seus olhos, como havia sido por toda a sua vida. Não que houvesse algo de errado antes de conhecê-lo, sempre soube e teve tudo aquilo que precisava em sua família. Mas com ele, descobriu que não tinha aquilo que queria. Aquilo que talvez, por mais que não quisesse admitir, Killua encontrava em Gon, o que o fazia querer, agora mais do que nunca, matá-lo.
Talvez o sentimento de luto compartilhado fizesse seu irmão se aproximar, e ele não precisaria sentir aquela imensa dor sozinho.
Os ombros dele se retesaram involuntariamente quando ele sentiu seu abdômen doer, e o restante do ar armazenado em seus pulmões foi expelido com o gesto, o que o obrigou a sentar-se na banheira repentinamente, escondendo o rosto nos joelhos recolhidos. Era como se algo puxasse seu diafragma por dentro, doesse em seu estômago, roubasse seu ar. Tinha algo preso em sua garganta, e algo quente escorrendo em seu rosto.
Havia uma vontade muito mais forte do que ele de gemer e gritar de dor.
Era daquela forma que as pessoas se sentiam quando choravam? Era detestável. Mas também inevitável, conforme seu peito marcado e cortado convulsionava dentro daquele casulo que havia criado em si mesmo, unhas enterrando-se na pele ao abraçar-se cada vez mais forte contra as próprias coxas.
Quando Illumi encontrou alguém que o fez se abrir, aquele alguém não poderia lhe pertencer. Quando se apaixonou, soube o desespero que seria conter alguém que, como a água, não se deixaria conter por nada nem ninguém.
Era um mau agouro, um defeito em suas estrelas, no céu, no dia em que nasceu. Estava destinado a amar, e assistir seu amado se perder nas próprias obsessões apocalípticas e sem sentido, como um vício, que o levariam à própria derrota como havia assistido minutos atrás.
Amaldiçoou o dia em que o amante, jocosamente, o pediu em casamento, e então com seriedade mostrou a ele o contrato para assinar. Não importasse como, onde, ou quem o matasse, tudo o que era dele, seria de Illumi, mas que de preferência morresse pelas mãos do assassino para não dar aquele prazer a Chrollo mais uma vez.
Por um momento Illumi sentiu-se superior a Chrollo aos olhos dele, finalmente. Mas aquilo durou pouco, pois percebeu que tudo ainda girava em torno dele.
Amaldiçoou o fato de não ter conseguido cumprir sua vontade mesmo assim, e não ter sido ele a matá-lo. Poderia ter se suicidado logo em seguida se tivesse acontecido daquela maneira, mas tudo que lhe restava agora era vazio e apenas vazio.
Era difícil retornar à escuridão depois de ter conhecido todas aquelas sensações radiantes.
Mas era o correto para alguém como ele.
Ele sentiu o peito começar a se acalmar, as lágrimas pararem de escorrer, até que gradualmente, tudo o que restou foi o incômodo na garganta e uma sensação estranha nos olhos. Respirou fundo, e cobriu-se de água novamente.
A próxima vez que saísse dela, não poderia estar mais com ele no coração. Renasceria como sempre havia sido, sem luzes radiantes, sem desejos pessoais, sem paixões.
Seria apenas o que era adequado para um Zoldyck, e seria o suficiente novamente.
