31 – O ÚLTIMO SEGREDO

Tempestade corria pelos corredores do palácio em busca de uma saída embora não soubesse dizer para onde exatamente gostaria de ir. Por que vieram a Minas Tirith? Somente para se perderem um do outro?

Encontrou-se em um corredor que dava em uma porta trancada. Não poderia prosseguir. Não queria voltar. Esmurrou a madeira com as duas mãos. Um urro saindo pela garganta. A fúria incontida. A raiva envenenando o sangue élfico. O coração descompassado. Transtornado. Irado. Atraindo para si outro coração.

Batidas que se aceleravam à medida que percebia o ódio crescendo em seu par. Passos decididos a por um fim àquele mal entendido. Caminhava guiado mais pelo instinto que pela razão.

Apoiou as costas na madeira fria. Escorregou aos poucos. Encontrou o chão. Buscou acalmar a respiração. 'Elfo maldito!' disse revoltada consigo mesma. 'Fizeste-me prisioneira de teus olhos claros.'

Parou. Algo dentro de si impedira-o de prosseguir. Olhou para os lados. Um corredor mal iluminado capturou sua atenção. As rápidas passadas foram substituídas por passos cautelosos como se estivesse de volta à Lórien a espreitar um intruso. Aproximou-se. Não percebeu reação alguma. Até que... um olhar.

Ali estavam eles. Os malditos olhos azuis. O coração sentiu um estranho alívio. Acreditara realmente que ele jamais viria a ela novamente. Viera.

Estendeu a mão masculina. Não percebeu reação alguma. Silêncio.

Castanhos em azuis. Buscando alguma explicação. O porquê de tudo aquilo teimando em se esquivar. Toldando seus raciocínios. Valeria mesmo a pena procurar pelo porquê? Talvez devesse se render. Desistir. Entregar-se. O orgulho não lhe traria nada de bom.

A mão continuava estendida, motivada pelo que via em castanhos: uma busca; considerando algo; ponderando.

Desviou de azuis. Eles a confundiam. Impediam-na de pensar claramente. Ou talvez fosse o contrário. Talvez pensasse claramente apenas quando estivesse imersa em safiras. Fechou os seus.

Voltou a olhar o galadhrim. A postura masculina. A elegância élfica. A imortalidade que emanava de sua alma, apesar do sangue mortal. 'E quem disse que imortalidade é privilégio dos eldar?' Castanhos fixos em mãos estendidas. Sentiu em si o desejo pelo toque. Dedos muitos próximos da face. 'Como chegaram tão perto?' Fechou novamente os olhos. Sentiu o perfume da Floresta Dourada. O suave calor que emanava das pontas dos dedos acariciando sua face. Contato. Desejado. Rendição. Carícia. Dedos élficos em lábios edain. Torpor. 'Sou sua prisioneira', apenas pensou. Não ousava falar.

Joelhos que se dobram. Amor que se rebaixa. Aprendeu em séculos de existência que o verdadeiro amor não teme rebaixar-se, por saber-se capaz de erguer-se novamente trazendo consigo a pessoa amada.

- Perdoe-me – rompeu o silêncio – por minha insegurança. Por minha palavras torpes. Estava perdido. Confuso. Sei que a ofendi demais. Estou disposto a fazer qualquer coisa para que me perdoe.

Não conseguia acreditar. Como poderia continuar imersa em seu tolo orgulho enquanto Haldir a buscava daquela forma? Sem que a mulher percebesse como, as mãos do elfo envolveram seu rosto. Faces muito próximas. Lábios que se aproximavam.

- Estou perdoado? – indagou em um sussurro.

O hálito morno que aquece a face. Palavras aquecendo o coração.

- Diga-me que sim.

'Uma ordem?' – o espírito em uma pálida tentativa de rebeldia.

Bocas que se tocam.

Espírito que se submete.

- Criaturinha teimosa.

Lábios élficos acariciam face edain enquanto se aproximam do ouvido.

- Não vai me responder?

Corpo que estremece.

Boca formigando. Ansiando por mais um contato.

Mãos sobre mãos.

Azuis que se voltam para castanhos, aguardando.

Expectativa.

Lábios femininos buscam por seu complemento.

- Responda – comandou.

'Mais uma ordem?'

Castanhos que mergulham em azuis. O desejo de se submeter parecendo-lhe estranhamente atraente.

- Como não poderia estar? – a voz rouca.

O sorriso surgindo na face clara. Vitória e alívio. Para ambos.

Bocas que se reaproximam. Desarmadas. O toque úmido. A entrega final.

Já não recordavam o porquê da discussão.

...

Sentia a maciez dos lençóis. O aconchego da cama convidando o corpo a permanecer naquele torpor inebriante. Estendeu o braço para o lado buscando pelo companheiro. Não o encontrara. Abriu os olhos. Haldir estava sentado à beira da cama. Observando-a com um sorriso enigmático. O olhar indecifrável.

- Como passou a noite? – perguntou o elfo.

A mulher se espreguiçou.

O sorriso na face clara aumentando.

- Não precisa responder – disse irresistivelmente arrogante.

Tempestade fitou o marido. Era como um sonho. De repente nada mais tinha importância. A raiva que sentira fora dissipada pelos carinhos de seu par. Não valia pena. Irar-se só a fazia infeliz. Deixar-se envolver pela luz de Haldir era muito melhor. Sorriu discretamente, mas não o suficiente para que os treinados olhos do galadhrim não percebessem.

- Em que está pensando? – indagou o servo de Lórien.

- Não é capaz de adivinhar, meu senhor?

- Isso é prerrogativa da senhora da Luz e não minha, Tempestade. Não possuo o dom ler os pensamentos dos outros.

- Nem mesmo os meus? – provocou enquanto punha-se de joelhos na cama.

- Principalmente os seus – respondeu deixando-se conduzir pelo prazeroso jogo impetrado pela edain.

- Então como consegue descobrir cada uma de minhas necessidades e desejos? Como consegue romper com meus caprichos e me dar exatamente aquilo de que preciso? – inquiriu enquanto se aproximava do elfo.

Haldir segurou a mulher pelos braços forçando-a a deitar-se novamente e cobrindo-a com seu corpo.

- É a senhora quem me conta – respondeu matreiro.

A edain questionou com o olhar.

- Seu coração fala ao meu a todo instante. Eu já aprendi a escutá-lo – continuou com os lábios muito próximos do da esposa – deve aprender a fazer o mesmo.

Tempestade entristeceu-se um pouco com a conclusão da resposta. Olhou discretamente para o lado desviando a boca do beijo iminente:

- Não tenho conseguido corresponder aos seus desejos, não é? Não o agrado tanto quanto o senhor a mim.

- É só uma questão de tempo. Seja paciente consigo mesma.

A mulher não percebera, mas adquirira um gosto todo especial por ser conduzida pelo guardião.

- Aprender a ouvir seu coração. Ser paciente comigo mesma. Mais alguma ordem, meu senhor?

Haldir sorriu. Ver a guerreira impetuosa que conhecera sob seu domínio vinha ao encontro de algo selvagem que havia dentro dele. Algo que o sangue edain favorecera enormemente. Principalmente por saber que Tempestade só agia assim com ele e com mais ninguém e apenas quando estavam a sós.

- Sim.

- E qual é?

- Não permita que eu saia dessa cama tão cedo.

Tempestade apenas sorriu antes de mergulharem um no outro.

...

A mulher fitava a janela. Haldir se ausentara por alguns momentos. Não seria de bom tom ignorar um chamado do Rei Elessar.

Estava feliz. Sentia-se mais unida ao marido do que nunca. Seu coração ansiava por retornar a Lórien. Ao lar que aprendera a amar. Entretanto, a voz de Galadriel não calara nem por um minuto desde a saída do marido. 'Sabemos que não é apenas um segredo, Tempestade'

Precisaria falar. Não seria justo esconder de Haldir algo tão sério. Não poderiam retornar à Floresta Dourada antes que esse último impasse fosse esclarecido. Talvez o mais difícil, por ser uma ferida a qual não havia remédio élfico ou edain que pudesse curar.

O galadhrim entrou, aproximando-se à esposa e envolvendo-a com o mais carinhoso dos abraços.

- Por que torna tudo tão difícil? – indagou a mulher sem perceber que o fizera em voz alta.

- Do que está falando? – retorquiu o elfo intrigado.

- Perdoe-me – suspirou – preciso lhe falar. Lamento apenas que me falte a sutileza dos elfos para tal.

- O que há de errado – perguntou enquanto virava a esposa para si – não me esconda nada.

- Esse é o problema. Sei que ao não lhe esconder o que trago no peito, trarei para sua existência um fardo que não merece. De todos os meus segredos, este deveria ter sido o primeiro a lhe revelar.

- Tempestade – disse enquanto lhe segurava o rosto – está me deixando muito preocupado.

- Antes de mais nada, quero que saiba que apesar de eu o haver desposado sob as bênçãos dos elfos, se após ouvir o que eu vou dizer, você não desejar mais permanecer unido a mim, eu irei compreender e não questionarei nenhum ato ou palavra que venha a proferir. Não será necessária nenhuma justificativa ou aviso de partida.

- Está realmente me assustando agora, minha cara. Coisa rara quando se trata de Haldir de Lórien.

- Haldir – suspirou – lembra-se de tudo o que lhe contei sobre Mordor?

Algo o paralizou. Mordor? O que poderia haver ainda sobre a Terra Negra que fosse capaz de atormentar Tempestade daquela forma?

- Lembro.

- Ao chegar lá eu fui...

- Já disse que lembro – interrompeu o elfo demonstrando não estar nem um pouco a vontade com aquela conversa.

- Lembra-se então de que fui ajudada por uma bondosa mulher, sem cujos cuidados teria morrido.

O galadhrim apenas assentiu.

- Quase paguei com a vida pelos abusos aos quais fui submetida.

O olhar de Haldir revelava sua total incompreensão. Por que tais recordações agora?

- Bom – disse a mulher – não paguei com a vida...- interrompeu liberando-se dos braços do marido.

- Quando fui entregue aos braços de Yoleth, estava muito fraca... com uma forte hemorragia... a violência foi muito grande... – Tempestade buscava protelar por alguns instantes o que na realidade não poderia ser adiado.

- Eu era muito nova...- sentiu a voz embargada - Muito nova...

Haldir tentou se aproximar, mas foi detido pelo olhar da edain.

- Muito frágil... não estava preparada... nem minha mente... nem meu corpo...eram muitos...juntos... – A mulher fazia apenas sussurrar agora e não fosse por sua audição élfica, o galadhrim não seria capaz de discernir as palavras pronunciadas por ela.

O guardião sentia em si o sofrimento revivido por sua esposa. Ela nunca entrara em tantos detalhes assim sobre o que passara. Haldir pensava que não poderia piorar. Estava enganado.

- E não foram apenas eles... seus... o que usaram...

- Chega! – O elfo não suportou mais. – Não vejo porque prosseguir com esse assunto sem propósito.

- Haldir... – a voz da edain chegou aos ouvidos do elfo como que um pedido de ajuda de uma criança.

O galadhrim compreendeu.

- Perdoe-me, minha querida – disse tentando se aproximar antes de ser novamente impedido pelo olhar da mulher.

- Eles me feriram tanto, tanto, tanto – dizia enquanto abraçava o próprio corpo – doía muito. Eles me... me...

- O que eles fizeram, Tempestade?

Na pergunta do marido, a mulher pode sentir que ele seria capaz de sair dali naquele momento e estraçalhar todos os orcs que ainda vagassem pela Terra Média apenas para vingá-la.

- Eles me... destruíram. Não apenas destruíram meus sentimentos, tudo o que eu era. Como pessoa. Como mulher. Como... Eles tiraram de mim a possibilidade de um dia...ser capaz de... gerar... uma... vida...

Haldir sentiu o gelo percorrer-lhe da cabeça aos pés. Milhares de quadros perpassando sua mente. Desde o momento que vira Tempestade pela primeira vez até seus últimos instantes antes de deixá-la para atender ao chamado do rei. A força. O mistério. A honra. Tudo o que ela possuía e que o atraía como mulher. Todo o desejo que se fortalecera nos últimos dias. Toda força daquela união que lhe fizera vislumbrar um futuro pleno de realizações. Poderia ter tudo o que quisesse ao lado dela. Tudo menos... filhos.

Agora o guardião compreendia as palavras da edain. Ela lhe dera permissão. Poderia ir-se sem dizer uma só palavra. Sem explicações. Sem julgamentos. Apenas ir.

Tempestade aguardava, tentando ler no rosto de Haldir alguma pista de qual seria sua reação. O esforço foi em vão. Seu coração também não lhe dizia muita coisa. Sentia apenas o pesar que tomara conta do marido. A esperança de um dia poder ser feliz com ele ficando cada vez mais distante.

O galadhrim deu alguns passos em direção à esposa. Dessa vez, sem ser repelido.

- O que me sugere que faça, Tempestade?

A pergunta que saiu pela boca do elfo surpreendeu até mesmo a ele. Percebia que era seu coração e não sua mente quem falava. E deixou-se guiar por ele. Foi o que fizera nos últimos tempos. Continuaria a fazê-lo agora.

- Sugere que a deixe?

A mulher permanecia imóvel.

O eldar sentia-se flutuar, conduzido por uma estranha força que vinha não sabia exatamente de onde. Uma força que o impulsionava em direção a sua esposa.

- Uni-me a você por razões muito maiores do que as que eu próprio conheço. Não podemos presumir que foram apenas nossas vontades que prevaleceram. Deixamo-nos conduzir pelos desígnios do Único e apenas Ele poderia me afastar de você. E não creio ser esse o desejo Dele.

O queixo da mulher caiu. Castanhos marejados fitavam azuis intensos. Plenos.

- Deixá-la equivaleria a deixar a própria vida. Seria relegar minha existência a um vazio qualquer. Minha vida é ao seu lado, Tempestade. E quanto ao futuro – concluiu enquanto pegava uma das mãos da esposa – deixemos que o Único decida.

Enquanto falava, o elfo era tomado por um sentimento de plenitude totalmente incompreensível diante das circunstâncias. E que ele mesmo era incapaz de explicar, mas pelo qual era grato.

Tempestade apertou a mão que tomara a sua. Não houve necessidade de palavras. Haldir dissera tudo.

A mulher entregou-se aos braços do marido. Sua cabeça repousando sobre o ombro do elfo enquanto seu espírito experimentava uma paz inédita.

Haldir, sentindo o perfume dos cabelos da esposa, envolveu-a com toda ternura de que era capaz. Deixaria para outro momento a revelação de que aceitara o convite de Elessar para tornar-se seu Conselheiro.