A cena toda já começava a desenrolar na minha cabeça. Depois do instante de silencio aterrador, ia começar o pânico e o corre-corre. Considerando a incopetencia daquele povinho lerdo, Madame Pince demoraria para ser retirada de onde estava, mas quando acontecesse, as coisas não iam correr nem um pouquinho bem para o meu lado. Se ela sobrevivesse, duvido imensamente que se colocasse ao meu favor. E se não sobrevivesse, aí sim ninguém ficaria ao meu favor. De um jeito ou de outro, em algum momento, iam chegar em mim, a causadora do acidente, e eu estaria totalmente ferrada.

A não ser, claro, que eu me colocasse em outra posição. Metaforicamente falando, quero dizer. Não adiantaria de nada eu ir me esconder debaixo da mesa, embora ainda assim a idéia fosse tentadora.

Não. O que eu tinha que fazer era simples: sabe aquele silencio aterrador, que vinha antes do pânico e tal? Então. Era nesse pedacinho da historia que eu tinha que interceder, e tentar melhorar pelo menos um pouquinho a minha participação na situação caótica.

E ninguém pode dizer que eu sou lenta. Eu até que funciono bem em crises, sabe. Isso tudo que eu expliquei passou pela minha cabeça em questão de centésimos de segundos. E, como a conclusão muito clara na minha cabeça, eu exclamei – quase soando como um grito, naquele silêncio todo:

'- Ei, acordem!

Todos olharam para mim, totalmente desnorteados e confusos. De repente senti uma imensa vontade de comer marshemellow, mas joguei esse pensamento pra escanteio.

'- Temos que fazer alguma coisa. – falei o obvio. As feições lerdas não se modificaram. Segurei-me para não bufar.

Decidida, caminhei com cuidado entre os livros, mas rapidamente, e apontei para três garotos altos, falando, com uma dose calculada de calma, doçura e ordem:

'- Vocês, com cuidado, tentem tirar a estante de cima da Madame Pince.

Como cachorrinhos, os três imediatamente se puseram ao trabalho.

Será que os elfos conseguiriam me arranjar aqueles marshmellows rosinhas com azul, branco e amarelo? São tão gostosos. Lílian, contentre-se!

'- Com cuidado! – lembrei, assustada. Se ela não estivesse morta – muito difícil – um trabalho desajeitado poderia quebrar um braço ou perfurar um pulmão, sei lá.

'- E vocês. – chamei, olhando para um quarteto de garotas do terceiro ano, que tomaram um susto. – Venham aqui. Tirem esses livros daqui, para facilitar o trabalho dos garotos – e apontei em volta do local de onde o corpo devia estar.

'- Você, – falei pra um garoto do quinto ano. – por favor, chame a Madame Ponfrey, e diga que é urgente. E você, – apontei para uma garota do quarto. – chame qualquer professor que encontrar pela escola.

'- Lílian? – ouvi alguém chamar, baixinho. Me virei e vi uma garota pálida, que falou timidamente:

'- O que posso fazer... Pra ajudar?

Olhei em volta e vi que todos da biblioteca estavam me olhando, simplesmente esperando uma ordem minha, uma função, algo que pudessem fazer para ajudar também. Fiquei espantada. Quero dizer, eu estava sendo muito objetiva e segura de mim e tal, mas toda essa confiança era meio que para esconder a insegurança, o medo e o pânico que viria logo, com certeza, se eu não tivesse agido.

'- O resto pode, por favor, tentar recolher os livros e levantar as outras estantes?

Imediatamente houve um rebuliço, todos prontamente me obedecendo. Um garoto do sexto ano pareceu embaraçado quando perguntou, desmanchando a imagem de um castelo feito de marshmellow que se formara em algum lugar da minha mente:

'- Evans, será que não podemos usar magia? Seria mais rápido, e mais fácil...

'- Vocês podem usar magia, sim. – falei, para o "mutirão". – Mas vocês – e me virei para os que trabalhavam perto de onde Madame Pince estava – é melhor não usar magia, para não acabar causando um estrago ainda maior.

E me juntei à eles, recolhendo alguns livros para facilitar o levantamento da estante, o que não estava nem um pouco fácil.

Logo, porem, chegou a professora McGonagal, acompanhada pela garotinha que tinha ido buscar ajuda. Atrás dela, a corpulenta enfermeira tentava passar, aflita. Afastei-me, de repente me sentindo cansada. Em poucos minutos, Madame Pince foi removida, e pode acreditar que cada célula do meu corpo fez o possível para não olhar para o seu corpo morto. Então, inevitavelmente, a professora olhou para todos na biblioteca (que fora fechada) e mandou:

'- Devo dizer que estou extremamente satisfeita com todos vocês. De acordo com que fui informada agora mesmo, ninguém que estava aqui quando este lamentável acidente ocorreu se retirou, e vejo que mantiveram a calma, trabalharam em equipe e se ajudaram mutuamente.

Eu não me surpreenderia se alguém me dissesse que minha boca estava pingando. Eu estava atônita! Como ela podia se orgulhar da nossa calma e trabalho em equipe exemplar quando uma coisa tão horrível tinha acabado de acontecer?

'- Na verdade... – ouvi a voz da garota que perguntara o que poderia fazer para ajudar – Foi Lilian Evans que nos liderou. Ela foi a única que manteve a calma e distribuiu as tarefas.

Houve concordância entre os outros alunos, e mesmo ainda meio fora de ar pelo que a McGonagall dissera, eu corei.

'- Muito bem, senhorita Evans. – a professora falou, orgulhosa. – Ficarei satisfeita em lhe retribuir da forma que quiser.

Continuei calada, olhando para ela, confusa.

'- Como um premio, uma recompensa pelo feito. Alem, é claro, de cinqüenta pontos para a Grifinoria.

Ainda mais atônita, de repente me vi falando:

'- Como é? Desculpe, professora, acho que não entendi muito bem. A senhora está sugerindo que eu tenho à minha escolha uma recompensa?

'- Precisamente. – respondeu McGonagall, um pouco confusa pela minha reação. Ela devia estar imaginando pulinhos de alegria ou algo assim. O que ela definitivamente não iria receber de mim.

Por um segundo, eu tentei. Juro que tentei. Eu tentei me segurar, não falar nada, baixar a cabeça e simplesmente agradecer, mas recusar. Eu até tentei pedir um saco dos grandes de marshmellow. Só que não deu. De repente, eu não me importava mais tanto assim com isso – não com o marshmellow, claro, mas com a situação toda. Eu estava tendo uma merda de semana. Eu tinha brigado a tapas com uma garota. Eu tinha beijado um cara maravilhoso, que eu passara anos desprezando e por quem me descobri agora apaixonada, e pior, gostei. Eu duelei contra Voldemort e seus discípulos, bati um papinho com ele e até fiz piadinhas. Eu vi uma das pessoas mais doces, razoáveis e adoráveis que conheço em um estado terrível, cheio de dor e sofrimento. Eu ouvi escondida uma conversa sobre mim que conseguiu simplesmente quebrar meu coração de um jeito que eu nunca imaginei possível. Eu causei um acidente que resultou em uma morte. E agora a professora mais razoável da escola me oferecia uma droga de recompensa porque eu fizera o mínimo que podia.

É serio, qualquer um teria perdido as estribeiras lá pelo encontro com Voldemort! Eu não. Eu agüentei até aqui. Alguém pode me culpar por simplesmente ter me cansado dessa idiotice? Não? Ninguém? Foi o que eu pensei.

Então, um milésimo de segundo depois de eu ter segurado a minha língua, eu decidi que não queria segura-la mais.

'- Aconteceu um acidente terrível nessa biblioteca, que se não custou a vida de alguém, custou no mínimo muitos ossos quebrados, e a senhora está me oferecendo uma recompensa? A bibliotecária dessa escola, que já trabalha aqui há mais de dez anos, está em estado grave de saúde, e a senhora está perguntando o que eu quero de recompensa? A única coisa que eu fiz foi pedir pra alguém chamar a enfermeira e para ajudarem a recolher as coisas! Porque o Michael, o Steve e o Alan não recebem uma recompensa? Eles tiveram que levantar aquela estante de cima da Madame Pince com todo o cuidado da face da Terra para não machuca-la mais, e eu sei que foi difícil porque é pesadíssima! E o George, que levou menos de três minutos para arrastar a Madame Ponfrey aqui, vinda da Ala Hospitalar, do outro lado do castelo! Ela não merece uma recompensa? E a Audrey, a Stella, a Mary Ann, que tiveram todo o cuidado de retirar os adorados e preciosos livros da acidentada de perto, para que não atrapalhassem ninguém? Não merecem recompensa? E a Milenna, que veio perguntar como poderia ajudar, apesar de obviamente estar passando tão mal que poderia vomitar a qualquer instante? Ela vai receber uma recompensa? E todo o resto das pessoas aqui, que não reclamaram em nenhum momento, e fizeram tudo o que podiam para facilitar as coisas, ao invés de sair correndo pelo castelo para contar que testemunharam em primeira mão o Efeito Domino na Biblioteca? Nenhum deles merece uma recompensa também?

Assim que terminei, ouvi um "uuh" baixinho, vindo de todos os lados. Obviamente, ninguém estava acreditando na minha audácia, de ser tão grossa com a professora, questiona-la com tanta intensidade e falta de tato.

Mas eu ainda não tinha terminado.

'- Não se trata de quem foi que organizou os alunos, quem distribuiu as tarefas. Se trata de quem acatou de bom grado e fez sua parte e mais um pouquinho, com cuidado e carinho. Não adiantaria nada eu falar pra eles fazerem as coisas se eles simplesmente me ignorassem. Tudo o que eu fiz foi acordar o povo do transe. O que eles fizeram foi por eles mesmos, e eu não tenho absolutamente nada a ver com isso, a não ser um empurrinho inicial indireto. Então, não me pergunte o que eu quero de recompensa, porque pra começar, um pouquinho de justiça seria bom!

McGonagall ainda não demonstrava qualquer tipo de reação. Eu podia ver que praticamente todos ali, ao invés dos olhos esbugalados do inicio do meu discurso, estavam sorrindo bastante. E quando algumas palmas para mim começaram a surgir, cortei, meio desesperada, antes que se intensificassem:

'- Oh, não, não, não me aplaudam. Aplaudam vocês mesmos!

E bati palmas, e todos me acompanharam, com direito até mesmo a alguns urras e vivas e afins.

Finalmente, a professora deu sinal de vida. Mandou que todos se calassem, falou para eu ir para a sala do diretor com ela e ordenou que o resto voltasse a organizar a biblioteca.

Eu meio que me arrependi de não ter simplesmente pedido um pacote de marshmellow. Porque, mais uma vez, eu não ia sair tão cedo daquela biblioteca...

N/Bel:

Mesmo estando confinada, enclausurada e com sono, eu, Isabel, acordo nada mais, nada menos que dez e meia com o intuito de postar essa fic no prazo e não sujar o nome da minha querida e difamadora -vide capítulo anterior-amiga Flavinha, mas eu dormi de novo. Sorry, ressaca.

A Flavinha mandou dizer que ela leu todas as reviews-amou todas-, mas não tinha como responder. Ela na vida boa enquanto eu não saio nem para a padaria. Isso que é injustiça!

Quase que eu me esqueci! Feliz ano novo para vocês, muita paz, saúde, felicidade, dinheiro, amor e malucas.
Meu Desejo de fim de ano é que a senhorita Flavinha poste com mais freqüência que os capítulos sejam mais avantajados.

Obrigada pela paciência com essa pessoa estranha,

Isabel

P.S.:O nome desse capítulo é provisório