Mantra: Sílabas ou frases especiais as quais, por seu uso milenar aliado a energias positivas, tenham uma particular capacidade de sintonizar as atmosferas espirituais (egrégora) correspondentes. Podem ser usados para defesa, saídas do corpo, evocações, etc.
Idiotamente, por um momento pensei que, se funciona para aqueles monges tibetanos todos nas suas greves de fome e buscas do Nirvana, haveria de funcionar para mim. Tudo muito lindo e meigo na teoria. E espetacularmente fadado ao fracasso na prática.
O primeiro mantra que escolhi foi bem simples, básico e resumido.
Merda. Merda. Merda. Merda. Merda. Merda. Merda.
Certo, não era exatamente uma palavra que poderia ser usada para defesa ou evocações. Mas que resumia perfeitamente bem todos os meus pensamentos naquele momento, resumia.
E é obvio que não funcionou.
'- Lílian.
Isso, senhoras e senhores, foi Tiago Potter, alguns passos atrás, me chamando.
E a reação da que vos escreve, senhoras e senhores, foi apressar o passo, logicamente.
O segundo mantra da lista foi um pouco mais próximo do verdadeiro conceito de mantra.
Por favor, faça o Potter desaparecer. Por favor, faça o Potter desaparecer. Por favor, faça o Potter desaparecer. Por favor, faça o Potter desaparecer. Por favor, faça o Potter desaparecer. Por favor, faça o Potter desaparecer.
'- Lílian!
Eu não disse que se aproximou da função do mantra, disse? Pois bem, não aproximou. Eu tinha certeza de que a peste ainda estava lá, inteirinha e em perfeito estado, para meu sofrimento.
O próximo mantra também não prestou absolutamente para nada.
Não olha para ele. Não olha para ele. Não olha para ele. Não olha para ele. Não olha para ele. Não olha para ele. Não olha para ele.
'- Evans!
Eu me virei.
Viu como não funcionam? Então, se você estiver confiando em mantras para não matar alguém, para parar de bater no seu irmão, para ir bem em uma prova, desista e vá até o posto de atendimento ao consumidor mais próximo de você delatar esses monges que espalham propagandas enganosas.
'- Que é? – perguntei, entre cansada, irritada, furiosa e apaixonada, combinação nunca mais atingida por nenhum ser considerado vivo.
'- Calma aí. Eu só queria saber o que foi que aconteceu. – ele falou, com as mãos erguidas.
Abri a boca. Estava prestes a falar algo como "Aconteceu o que você viu, Potter, e anda logo." Mas o mesmo sentimento que eu tinha experimentado na biblioteca se apossou de mim. A mesma coisa que me fez falar tudo aquilo pra McGonagall (e que, consequentemente tinha me enviado para a sala do diretor) estava de volta. Era uma vontade de simplesmente falar. Vontade de não me reprimir mais. E, como da outra vez (apesar dos resultados desastrosos para o meu histórico escolar), eu não lutei contra essa vontade. O que saiu da minha boca foi:
'- O que aconteceu? Você quer saber o que aconteceu? Eu te digo o que aconteceu. Tudo começou numa bela porcaria de linda manhã, quando eu percebi, para o meu total desespero e pânico, que eu tinha me apaixonado. E sabe por quem? Pelo cara mais imbecil, galinha e insensível da escola, o cara que corria atrás de mim, o desafio do século, há três anos. E sabe o pior? Eu comecei a vê-lo com outros olhos. Ele era engraçado, inteligente, e gato demais para uma mortal como eu resistir. E, pra completar, ele começou a se mostrar outra pessoa. Bondoso, fofo, leal. Meu conceito sobre ele, afinal, estava desatualizadíssimo. E eu estava cada vez mais apaixonada. Até que, um belo dia, a gente começou a se dar bem. E antes que eu me desse conta, eu tinha parado de resistir e tinha saído com ele. E, cara, foi perfeito! Mas depois eu finalmente me dei conta da merda toda. Vamos encarar os fatos, uma vez galinha, sempre galinha. Por que logo eu, a maluca da Evans, conseguiria encoleirar um cara desses? Foi nessa parte que meu coração se despedaçou e eu pirei totalmente. E se você não se importa, Potter, temos que ir até o escritório do diretor.
Sem fôlego, com lágrimas nos olhos, me virei imediatamente. Faltavam quatro passos para a sala do diretor. Tiago estava sem fala, e se Merlin estivesse ao meu lado, chegaríamos no escritório do diretor antes que ele a recuperasse.
Mas à essa altura acho que já ficou bem claro que Merlin simplesmente não vai com a minha cara e adora rir às minhas custas.
Traduzindo, Potter me pegou pelo braço e eu me virei violentamente, apesar de ele não ter usado força quase nenhuma. Mas nesse drama todo que eu fiz – criada a base de novela mexicana, sabe como é – meu cabelo voou.
Acontece que eu não sou muito boa em geometria espacial e nós não estávamos a quatro passos das gárgulas que guardavam o escritório de Dumbledore. Estávamos a um passo delas. E com o piti que eu dei, meu cabelo prendeu dolorosamente nessas gárgulas cheias de pontas para cima.
É claro que, depois de sete anos de convivência com a patty mor da escola no cargo de melhor amiga, eu tinha que ter aprendido alguma coisa, então eu soltei um gritinho. Mas é claro que convivendo com os Marotos e sendo apaixonada por um deles, eu também tinha que ter aprendido outra coisa, então depois de gritar eu soltei um palavrão.
Podemos dizer que eu sou bem eclética.
Recapitulando: Potter segurou meu braço, eu pulei dezesseis centímetros para o alto e cerca de vinte e dois para o lado, meu cabelo ficou enroscado nas gárgulas idiotas que guardam o escritório do diretor da escola, eu gritei e depois falei um palavrão.
E depois dizem que eu sempre quebro a solenidades dos momentos. Que bobagem.
Enquanto eu tentava, corajosamente, acrobaticamente, soltar minhas lindas madeixas ruivas, vi de relance que Tiago Potter parecia divertido. Como pode? Eu estou em meio de uma crise e o cara acha engraçado? É brincadeira, viu!
'- Do que está rindo? – perguntei, carrancuda. Potter continuou tentando segurar o riso, mas fracassou em segundos. Sua risada ecoou no corredor por um momento, quase irreal em meio a tanto drama. Por um momento, fiquei encantada por aquele som tão alegre, espontâneo. Depois, me dei conta de que a situação era, sim, um pouco engraçada. Por talvez dois segundos, consegui me segurar, mas depois caí na gargalhada com ele.
Aos poucos, paramos de rir. Meu cabelo finalmente tinha se soltado. Potter se aproximou e encostou a mão no meu rosto, no que senti minhas bochechas corarem. Aquele toque era incrivelmente sexy e singelo, ao mesmo tempo. Tiago sussurrou, como se estivesse conversando sozinho:
'- Eu adoro a sua risada. Adoro quando eu te faço rir.
Por um momento, o chão fugiu sob meus pés. Cara, aquilo era tão lindo! Como eu posso resistir a um cara tão gato e tão sexy, falando daquele jeitinho baixinho e rouco, tão perto de mim, palavras tão adoráveis?
Eu duvido que as torturas usadas na Segunda Guerra Mundial fossem assim tão horríveis. Isso que eu tenho que sofrer é humanamente cruel demais.
Mas algumas coisas simplesmente acontecem sem motivo nenhum, sem explicação, sem documentação assinada pelos supervisores com comprovante da hipoteca em três vias.
Naquele momento, em que eu estava me dando por perdida, fui jogada em direção à parede com muita força, por trás.
Bem, na verdade isso tinha uma explicação, sim. É que as gárgulas do escritório do diretor tinham se afastado para dar passagem à comitiva presidencial.
E eu não estou brincando, era mesmo uma comitiva presidencial.
Liderando a fila, o supremo bruxo mais supimpa do planeta, atual diretor da Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts, com um modelito tradicional de vestes longas negras e o chapéu alto cônico. Seguido de perto por ninguém menos que o atual e bastante encrencado Ministro da Magia, elegantemente vestido de azul-banana, a cor da estação. E por ultimo e provavelmente menos importante e alias também mais mal-vestido, um cara jovem com uma prancheta não mão. Calças caqui, infelizmente uma péssima combinação com a camisa rosa-bebê e sapatos de verniz pretos, o novo branco, não se esqueçam. Obrigado por terem acompanhado o Desfile Comitiva Presidencial conosco, esperamos que tenham gostado. Cobertura de Lílian Evans. Filmagens por Tiago Potter. Até a próxima semana fashion, no mesmo bat-canal, no mesmo bat-horário, mas em outra data, de acordo com as leis de física temporal.
Quero ver dizerem agora que eu não tenho futuro. Oras.
Ei. Peraí... Ele...
Caramba! O que que o ministro da magia está fazendo aqui! E por que eu ainda estou esmagada atrás da gárgula!
N/A: Eu achei esse capitulo particularmente engraçado, alem de grandinho ;D O que é bom, porque todo o tom que caracteriza essa fic estava se perdendo, e eu não queria isso. Então, se vocês concordarem (ou não) deixem reviews.
Bom, eu consegui dar uma escapada (alias, sabem qual é a origem dessa palavra? Eu tenho um professor horriiiivel – morro de medo dele, de verdade – que explicou um dia. É que quando alguém era perseguido e conseguia fugir, só o que o perseguidor conseguia ver – pela lógica – era a capa. Legal e idiota ao mesmo tempo, na minha opinião.) e terminei correndo esse capitulo pra postar hoje. Mas tenho duas boas noticias: Primeiro, há grandes indícios na minha vida pessoal de que a fic retomará, como eu disse, seu ar mais alegre, maluco e divertido; segundo, eu tinha sido separada, na ano passado, da minha amiga que inspirou a patty mor da escola, mas esse ano estamos na mesma sala de novo e retomamos o convívio. E mais Juliet significa mais Sirius. ;D
Obrigada pelas reviews, mas minha mãe está chegando e se eu for pega no PC ela me mata, então não posso responder adequadamente.
Beijos!
