No último capítulo...

'- Como podem ver, - retomou Dumbledore. – estamos em uma situação perigosa, mas por enquanto estão seguros. Imagino que estejam cansados. Gostaria, no entanto, que viessem ao meu escritório amanhã para relatarem, em primeira mão, o encontro que tiveram com Voldemort.

Levantei-me com cuidado, com medo de fazer a cadeira virar pó, ou explodir ou coisa assim, e nos despedimos do diretor. Ele nos acompanhou até a saída, e eu lancei meu pior olhar para aquelas gárgulas imbecis.

Então, percebi repentinamente, eu e Tiago estávamos sozinhos no corredor.


Maluca, eu ? !

by Flavinha Greeneye

Capítulo 33: Chega de agito

Eu. Tiago. Corredor. Pânico.

Não me entendam mal, ontem mesmo minha fantasia era ficar sozinha com o Tiago em um corredor deserto, ou na torre de astronomia, ou numa nave espacial, ou na biblioteca. Mas as coisas mudaram totalmente desde que ele se declarou para mim, na sala do diretor. O que mudou, você se pergunta. Eu devia estar absolutamente extasiada agora, não?

Mas esse era o problema. Eu estava extasiada. Mas também estava com medo. E nervosa. E feliz. E muito, mas muito confusa mesmo.

Portanto, estar sozinha com Tiago depois de tudo isso, sem saber ainda como eu me sentia, me deixava simplesmente em pânico. Eu precisava de tempo, pra colocar meus pensamentos e minhas emoções no lugar, para entender tudo o que estava acontecendo, para assimilar as loucuras dos últimos dias. Tudo tinha mudado muito rápido, e eu precisava de tempo.

Abri a boca para colocar meu novo plano em prática, que consistia em falar muita, mas muita besteira, ininterruptamente, até que chegássemos ao Salão Comunal, onde eu poderia alegar cansaço e ir para o dormitório, fugindo assim de qualquer discussão séria que Tiago poderia querer ter no momento. Mas antes que eu pudesse dar início à minha tagarelice (que começaria com "E aí, você acha mesmo que a fênix do Dumbledore é a mesma, tipo, desde sempre? Porque eu tinha um peixinho dourado desde os meus três anos, e achava que ele era imortal, mas na verdade meus pais o trocavam por um novo quase todo ano", e ia ficando mais idiota a cada palavra), Tiago falou:

- Então, você viu o jogo dos Tornados no último Campeonato?

Fiquei com a boca aberta, confusa, por alguns instantes antes de responder, hesitante:

- Eu... não.

- Foi incrível. – Tiago prosseguiu, e a partir daí, a velocidade com que as palavras deixavam sua boca foi aumentando a ponto de se tornar quase incompreensível; não que importasse, porque eu não estava mesmo prestando atenção no assunto. Eu estava muito ocupada me dando conta do que ele estava fazendo.

Era o mesmo que eu pretendia fazer. Ele estava tagarelando banalidades para evitar que falássemos sobre qualquer coisa realmente importante. Por um segundo, me senti aliviada por estarmos no mesmo barco: ele obviamente não queria ser forçado a tomar nenhuma atitude ou decisão agora. Mas no instante seguinte, senti um mal-estar profundo, quase físico: e se ele não estiver fazendo isso pelas mesmas razões que eu? Ele não podia estar confuso: ele que havia se declarado, e me beijado, e ele que me chamava para sair desde sempre. E se... ele tivesse mudado de idéia? E se ele tivesse desistido de mim?

Mas quando enfim cheguei a essa conclusão, já tínhamos chegado ao Salão Comunal, e antes que você pudesse dizer "Hanna Montana", Tiago já tinha se despedido e estava subindo para o dormitório.

Cansada, quase mecanicamente atravessei o Salão quase vazio até as escadas que levavam ao meu própiro dormitório e subi. Assim que cheguei, peguei a página de você, diário, em que eu narrava o ataque a Hogsmeade, fiz uma cópia (tirando as partes em que eu comentava sobre a gostosura da bunda do Potter) e mandei para Dumbledore. Seria mais útil do que eu contando pessoalmente. Ele poderia fazer as perguntas que quisesse depois.

E então, pus meu pijama, me escondi sob as cobertas, e dormi um sono sem sonhos por catorze horas seguidas.


Acordei suavemente com o canto dos pássaros e o leve som do vento batendo nas folhas do outono nas árvores lá fora. E, claro, com uma garota loira pulando desesperadamente em cima da minha cama, falando todos os palavrões que Juliet se dá ao luxo de falar, que são, basicamente bosta, cocô, budega e carambolas. Palavrões são deselegantes demais para uma dama, diz ela. Eu, que falo quase tanto palavrão quanto um marinheiro, costumo mandá-la tomar no cú quando ela diz isso. É uma relação bem saudável, essa que mantemos.

- Tá bom, ta bom! – gritei, tentando me levantar. – Já acordei, pronto.

Juliet parou de pular e sentou-se à minha frente, com os olhos cinzentos piscando com inocência e curiosidade. Encarei sua roupa nem um pouco amarrotada e absolutamente linda, com a maior cara de nova, seus cabelos lisos, com a franja presa no alto, totalmente intactos, apesar de que ela estava pulando que nem louca agora mesmo, e sua maquiagem natural e impecável, e fiz uma comparação mental comigo mesma: cabelos totalmente embaraçados e sujos, olhos meio inchados, maquiagem de ontem borrada, cara de sono. Ás vezes eu ainda me impressionava com o tanto que éramos diferentes.

- Perdeu o almoço, amiga. – Juliet falou, com cuidado. Eu já era perigosa ao acordar, imagina sem a perspectiva de comida? – Porque não toma um banho caprichado, se arruma e nós vamos à cozinha?

Eu estava com tanta fome que talvez toparia ir do jeito que estava mesmo, mas vi que Jules tinha razão. Fazia um bom tempo que eu não tinha tempo de sequer tomar um banho tranqüilo, quanto mais realmente me arrumar com uma roupa limpa e cheirosa, perfume, cabelos lavados e penteados, maquiagem. Talvez seria boa a idéia de me sentir uma garota outra vez. Diabos, seria bom me sentir humana outra vez!

- Volto já. – falei, me levantando. Juliet fez o mesmo, sorrindo aliviada e dizendo:

- Sem pressa.


Tomei um banho relaxante e demorado, ensaboando cada centímetro do meu corpo e me concentrando nisso, sem pensar em mais nada. Lavei meus cabelos até chegar ao couro cabeludo e desembaracei com cuidado, tirando todos os nós. Hidratei o corpo, pus o conjunto certo de calcinha e soutien, escolhi uma roupa limpa, calcei as sandálias, passei a maquiagem leve, arrumei o cabelo e finalizei com um perfume. Uma hora depois, Juliet e eu estávamos descendo as escadas para o Salão Comunal vazio e indo para a cozinha. Já tinha matado as aulas da manhã, decidi que merecia uma folga das da tarde também.

- Então, - puxei assunto, enquanto íamos devagar para a cozinha. – onde estava ontem? Não te vi chegando.

- Bom, - Juliet fez suspense, sorrindo, obviamente feliz e doida para falar sobre aquilo. - eu estava no Salão Comunal te esperando quando Black entrou, parecendo chateado. Como você ainda não tinha chegado e eu já estava ficando preocupada, eu me levantei e fui até ele, perguntando se ele sabia onde estava o Tiago, se ele sabia se vocês estavam juntos, se ele sabia onde você estava e outras mil coisas.

Conhecendo Juliet como eu conheço, não duvido nada. Ela pode ser bem maternal quando quer.

- Black disse que não sabia onde vocês estavam, mas que estavam juntos e que eu não tinha com o que me preocupar, porque Tiago jamais deixaria alguma coisa ruim acontecer com você.

Meu coração deu um pequeno aperto, mas eu ignorei.

- Black falou mais algumas coisas para me tranqüilizar e quando eu comecei a relaxar, ele se despediu e começou a ir embora. Eu já estava subindo para o dormitório quando ele voltou e falou, e Lily, você tinha que ver, ele estava meio sem-graça, meio tímido, uma gracinha, e perguntou se por acaso eu não gostaria de acompanhá-lo até a cozinha. Eu hesitei, mas decidi que seria melhor do que ficar de pijamas lendo a última edição do catálogo da Barney's, então topei.

- Peraí, - interrompi, começando a gostar da historia. – você foi com Sirius Black para a cozinha às dez da noite?

- Um pouco antes das dez. – Juliet corrigiu. – Ainda podíamos sair com permissão.

- E aí? – perguntei, curiosa e animada. – Como foi?

- Foi maravilhoso, Lils! – Juliet exclamou. – Não faltou assunto em nenhum momento, e a conversa simplesmente fluía, e ele me fez rir tanto.

- Conheço a sensação. – sorri para Juliet, que tinha os olhos brilhando.

- Conversamos um tempão, enquanto comíamos, e chegamos a dividir um sorvete. Mas tudo que é doce acaba, e o sorvete acabou, assim como o momento. Não podíamos ficar na cozinha a noite inteira. E já eram quase duas horas da manhã.

- Uau. – exclamei. – Então vocês voltaram?

Juliet olhou para mim tentando esconder um sorriso radiante e confessou:

- Não! Nós começamos a voltar para o Salão Principal, e a conversa começou a morrer. Aí passamos por uma janela, e a lua estava linda, e os jardins e o Lago pareciam tão serenos... Que nós fomos pra lá.

- O que?! – quase gritei. – Pros jardins em plena madrugada? Com Sirius Black?

- Foi! – ela confirmou, sem tentar esconder o sorriso mais. – Passamos rapidamente no dormitório para que eu pegasse um casaco e fomos para os jardins. E a conversa voltou a fluir naturalmente assim que saímos do castelo. Mas dessa vez, foi mais pessoal, sabe? Quero dizer, eu contei pra ele como era minha família, e Sirius contou como era a família dele, e como é a relação dele com os Potters. E uau, Lils, seu namorado é um anjo.

- Ele não é meu namorado. – grunhi, mas nem liguei muito, porque estava espantada demais por Sirius ter se aberto com a minha amiga a respeito dos Black. Ao que eu sabia, ele não falava muito deles. Na verdade, Remo já comentou que ele evita o assunto até com Tiago. E mesmo assim, ele falou com Juliet. Eu tinha a forte impressão de que isso fora muito bom. Tem certos assuntos que um cara não pode falar com seu melhor amigo, mas faz bem em conversar com uma garota, e vice e versa. – E você? Falou sobre a sua família? Sabe, sobre...tudo?

Juliet pareceu um pouco constrangida, pela primeira vez, e respondeu:

- Falei. Incrível, não? Esse charme dos Marotos não é brincadeira, não.

Concordei, rindo.

A família de Juliet sempre foi um tema complicado pra ela. Seu pai e sua mãe praticamente não moram juntos, mas ainda são casados. Seu pai trabalha tanto que não passa mais do que um mês na própria casa por ano. E, apesar de ser discreto, Juliet e a mãe sabem que ele mantem uma amante em cada ponto. A mãe de Juliet, por outro lado, finge que não vê os deslizes do marido milionário, e ocupa todo o seu tempo sendo a perfeita dondoca da alta sociedade, freqüentando SPAs, dando festas de caridade, aparecendo ao lado do marido nos eventos corretos como um casal perfeito e basicamente negligenciando a filha no aspecto amoroso e tentando compensá-la materialmente, depositando uma mesada absurdamente alta no seu cartão e dando uma casa para Juliet antes mesmo de ela completar 21 anos.

- De qualquer modo, - Juliet prosseguiu, balançando a cabeça para afastar a sombra dos seus problemas familiares dos pensamentos. – conversamos sobre nossos passados, nossos futuros, sonhos, aspirações, tudo, enquanto passeávamos pelas estufas.

- Dentro das estufas? – perguntei, surpresa.

- Foi. Usei o truque que você me ensinou, com o grampo de cabelo, para abrir as trancas das portas, porque com varinha poderíamos ser descobertos. E devo acrescentar que Sirius ficou bem impressionado com as minhas habilidades. – riu Juliet.

- E depois? – perguntei, curiosa e satisfeita.

- Bom, saímos das estufas e fomos para a beira do Lago.

- Debaixo da árvore? – perguntei, já que era o point de quem queria namorar perto da Lago.

- Não. – Juliet tentou esconder o sorriso de novo. – Demos a volta no Lago e nos sentamos praticamente do outro lado, naquela parte que tem um monte de pedras enormes empilhadas.

Concordei com a cabeça, indicando que sabia onde era.

- Escalamos as pedras e nos sentamos nas mais altas, e ficamos lá, conversando sobre tudo e nada e observando o Lago e o castelo adormecido de outro ponto de vista. Merlin, Lily, foi maravilhoso.

Sorri para minha melhor amiga extasiada e falei:

- E então?

- Ficamos lá até umas cinco horas da manhã, só... conversando. Passamos para conversas mais amenas, e brincamos de vinte perguntas...

- O jogo de adivinhação? – interrompi, espantada. – Tipo, "É verde?", "Sim", "É alto?", "Sim", "É uma árvore?", "Acertou, minha vez"?

- Não, mongol! – Juliet se escandalizou. – Porque brincaríamos disso? Ele me fazia vinte perguntas pessoais e eu fazia a ele vinte perguntas pessoais.

- Exemplos, exemplos! – exclamei, animada.

- Bom, - ela ficou pensativa. – ele perguntou pra mim "Amor ou amizade? Qual o mais valioso?". Eu respondi amizade, é claro, e devolvi a pergunta, e ele também respondeu amizade. Ele perguntou Coca normal ou Coca Light, e eu perguntei se não podia ser Coca zero. Eu perguntei Coca normal ou Coca light e ele perguntou se não podia ser Fire Whisky.

Caí na gargalhada. Eles podiam ser tão parecidos e tão diferentes, ao mesmo tempo!

- Oh, Lily, e eu não fiquei com sono nenhuma vez, e nem ele, e conversamos até o sol raiar, e assistimos juntos ao nascer do sol. E depois voltamos para o castelo, em silêncio, e nos despedimos no Salão Comunal, e eu subi e...

- Peraí! – gritei. – Se despediram? Como? Com um abraço? Beijo na boca? Aperto da mão? Pacto de sangue?

Juliet revirou os olhos e disse:

- É, Evans, fizemos um pacto de sangue. "Juro que estou me despedindo de você para ir dormir". Foi só um beijo no rosto. Bom, era pra ser.

- O que? – gritei outra vez. – Aquele cachorro cafajeste! Ele te beijou na boca? Eu sabia! Sabia que ele não prestava! Vou ter uma conversa séria com aquele...

- Lily! – ela gritou de volta. – Eu o beijei!

Parei de gritar para encarar perplexamente minha amiga promíscua.

- Ele se adiantou para beijar meu rosto, mas eu meio que virei de último minuto e beijei o canto da boca dele. Sem querer querendo.

Nos encaramos por um segundo e caímos na gargalhada juntas.

- Juliet, - declarei, enquanto voltávamos a andar, já que tínhamos ficado paradas boa parte da conversa – você não presta, amiga.

- Eu sei. – ela disse, sorrindo marotamente.


N/A: Queridos leitores, faz mais de seis meses que não temos uma atualização dessa fic, e eu sinto muitíssimo. Eu estava fazendo cursinho pré-vestibular (não, não passei) e se alguém já fez cursinho, sabe a loucura que é. Minha cabeça estava bem longe das fics, mas não pensei em abandoná-las em nenhum momento. O capítulo de Pena e Pergaminho que está no forno faz quase dois anos está para vim também, só falta uma última revisão. A Princesinha, se alguém aí acompanha, está sendo reescrita e virá mil vezes melhor, com uma história quase totalmente diferente. E a própria Maluca, eu? ! está caminhando para o seu fim. Não sei quando isso será, mas creio que será no capítulo 40.

Muitíssimo obrigada por todo o apoio até aqui, e não me abandonem, por favor. Os próximos capítulos serão mais engraçados, mas esse, como dizem, foi um tipo de capítulo de transição. E também para matar a curiosidade e a vontade de Sirius/Juliet, finalmente. Teremos o ponto de vista dele em breve, também.

Muchas gracias: Lulu Star, July Prongs, Carol Ann Potter, Analu-san, Fini Felton, Fla Marley, ina clara (TRÊS vezes! Muito obrigada, muito mesmo!), Bruna B. T. Black, Bela Moreira (oba, leitora nova!), Nah Potter, Pastelona, Pikena (sempre muito querida!), InfalibleGirl, Tais Penha, MoniMione (Juliet de volta, mais Sirius. Gostou?), Juzinha87 (Leitora nova!), DarkyAnge, Laude Evans Potter, Náh (Outras atualizações a caminho), Lena (você é tão querida! Veio duas vezes no mesmo capítulo!), DarkSideTM, Mady Potter Black, LilikinsLil, Larii (duas vezes também! Muito obrigada mesmo!), carol-malfoy, Ju Pillaw, Pedro (uau! Um homem! Continue acompanhando!) Mah, lyh, Taty Mello.

Até semana que vem (oh yeah, isso aí, cap novo em uma semana).

Muitos beijos, e mostrem-me que ainda me amam :D