Hailey esperou Voight terminar sua conversa com Jay para se aproximar dele. Ela sentou ao seu lado, o encarando, ainda tentando se recuperar do susto.
— E o Daniel?
— Morreu no hospital – ela o encarou, vendo-o assentir com a cabeça – Antonio está providenciando proteção para Juan e o Carlos. Os assassinatos no México já começaram, de acordo com a Narcóticos.
— Então... Um final feliz?
Hailey deu um leve sorriso, e abaixou a cabeça, mil coisas ainda passavam por sua mente, e uma delas era que esteve a ponto de perdê-lo. Nunca imaginou que poderia sentir aquilo de novo após o ocorrido Garret alguns anos trás. A diferença era que dessa vez havia sido bem mais intenso e bem mais assustador.
— Hailey... – ele a chamou, fazendo-a encará-lo – Eu não consegui me controlar.
Ela balançou a cabeça, sabia que ele estava sofrendo pela morte repentina de seu pai e não iria descarregar suas emoções nele, não ainda.
— Você precisa ir ao hospital, a Foster deixou bem claro que precisa ser examinado – ela o encarou, colocando a mão em sua perna – Prefere ir de ambulância ou posso te levar?
— Hailey... Eu estou bem! Não pre...
— Ambulância ou carro, Halstead? – ela o cortou, se levantando e parando de frente a ele – Estou te dando esse poder de escolha!
Jay bufou, sabia que não estava em condições de contrariá-la então apenas assentiu a cabeça, se levantando.
— Carro!
— Ok!
Hailey sorriu e o acompanhou até a camionete, que estava estacionada fora do área fechada pelo distrito. A mão levemente apoiada no meio das costas dele, contrariando o acordo que tinham de não ficarem próximos intimamente na frente dos colegas de trabalho, pois tudo o que ela mais queria era sentir que ele estava ali, perto dela e vivo.
A detetive dirigiu para o hospital em total silêncio, que não passou despercebido por Jay, já que era algo um pouco desconfortável. Mas no momento ele também não tinha nada para dizer a ela, apenas estava aguardando quando Hailey iria explodir sobre os acontecimentos das últimas horas.
No hospital, a tensão entre os dois não passou despercebida por Will, que era o único que sabia que eles estavam juntos. Upton ficou escorada na parede o mais longe possível, enquanto Jay era examinado pelo irmão. Graças a Deus os exames não apresentaram nenhuma gravidade e o detetive foi liberado apenas com uma receita de analgésicos.
Durante o percurso para o apartamento dele, Hailey estacionou em uma farmácia e comprou tudo que fora receitado, sem nem ao menos questionar Jay. Era o mínimo que ele poderia fazer depois de tomar aqueles tiros por pura irresponsabilidade e teimosia.
— Você vai ficar? – Jay perguntou quando ela estacionou na garagem de seu prédio, mas não desligou o veículo.
— Você quer que eu fique? – Hailey o encarou.
— Hailey... – o homem suspirou – Sim, claro! Eu sempre quero a sua presença aqui!
— Tudo bem! – balançou a cabeça, cansada demais para discutir.
Ela pegou os pertences dos dois no banco de trás e se encaminhou devagar com ele para o apartamento.
— Toma um banho – ela o olhou, deixando as coisas no sofá e se encaminhou pra cozinha – Vou arrumar algo para comermos.
— Ok, te espero no quarto.
— Já te encontro.
Hailey não o encarou, abrindo a geladeira e separando algumas coisas para fazer dois sanduíches. Jay suspirou ao vê-la tão distante e foi para o banheiro. Deixou a roupa suja no cesto e entrou debaixo do chuveiro. A água quente que caía sobre seu corpo tinha o poder de acalmá-lo e era tudo que ele precisava, as últimas 48 horas haviam sido desgastante e estava exausto.
Quando entrou no quarto, vestindo apenas uma calça larga de moletom, Hailey já estava escorada na cabeceira da cama, comendo seu sanduíche e de banho tomado também.
— Eu demorei tanto assim? – ele murmurou, indo sentar ao lado dela.
— Um pouco, não quis te esperar e tomei banho no quarto de hóspedes. mas você está precisando de um banho pra relaxar – ela deu de ombros e entregou o prato com o sanduíche dele.
— Estava sim, me fez bem – Jay a olhou e Hailey assentiu com a cabeça, permanecendo em silêncio enquanto comia. O detetive fez o mesmo, encarando a televisão que estava transmitindo as notícias de Chicago, e ele agradeceu mentalmente por não estar em rede nacional.
Ambos terminaram de comer, escovaram os dentes e voltaram para a cama, Jay desligou a televisão e a encarou, cansado daquele silêncio todo.
— Hailey, eu sei que você está brava, então, por favor, apenas descarregue tudo o que você está aguardando. – ele a encarou, torcendo os lábios ao sentir a dor na região em que a bala havia saído.
— Jay... – Hailey bufou, passando as mãos pelo rosto – Não estou brava – Jay arqueou a sobrancelha – Ok. Eu estou brava, na verdade, estou furiosa com você. Mas não sei se descarregar tudo isso vai fazer com que eu me sinta melhor, talvez só vai ser um desgaste desnecessário na nossa relação – suspirou, dando de ombros – Você sabe que errou em desobedecer as ordens do Voight, me tratou mal durante todo o caso porque estava obcecado em pegar o Daniel e... Eu entendi, relevei todas as suas patadas mesmo sabendo que eu poderia ter revidado e discordando dos seus métodos, e isso inclui perseguir bandidos sem reforços! – ela abaixou o tom de voz, encarando as próprias mãos enquanto falava – Você está sofrendo pela morte do seu pai, e eu sinto muito não poder te ajudar da forma que você precisa, mas te garanto que isso que aconteceu hoje não pode nunca mais acontecer. Você poderia estar morto agora, você entende isso? – pela primeira vez ela demonstrou o desespero em sua voz, sentindo seus olhos se encherem de lágrimas e o coração apertar – Jay, eu achei que você estava morto – ela o encara, permitindo-se chorar na frente dele – Quando eu te encontrei caído naquele chão e sangrando eu senti meu coração falhar... E eu não posso sentir isso de novo, Jay... Eu não posso perder outro parceiro... E-eu não posso.
— Ei, baby... – Jay suspirou, passando o braço ao redor dela e a puxando para si, sem se importar com seus machucados – Eu estou bem aqui, e não vou a lugar algum, Hailey – murmurou, sentindo as lágrimas dela molharem seu peito – Estou bem e estou vivo, e com você.
— M-mas p-poderia n-não e-estar – ela soluçou em seus braços, odiando perder o controle de seus sentimentos mas sem saber como controla-los – E-eu n-não p-posso p-perder v-você, J-jay.
— Você não vai me perder, eu prometo – ele engoliu em seco, sentindo-se culpado pela dor causada nela. Somente agora com Hailey em seus braços é que Jay havia percebido a loucura que havia cometido e o quão imprudente havia sido – E me desculpa por isso, eu também não quero te perder, você é a melhor coisa que me aconteceu, Hailey – murmurou, fechando os olhos e apertando contra si. As palavras mágicas estavam na ponta de sua língua, mas ele não sabia se estava pronto pra proferi-las.
— V-você... V-você também é o melhor que me aconteceu, detetive! – ela sorriu em meio as lágrimas e o encarou, limpando o rosto – E se você sair sem reforços novamente talvez as coisas não fiquem tão boas pra você!
— Prometo não fazer isso, baby!
Ele sorriu e Hailey adorou ver aquele sorriso novamente. Ela assentiu com a cabeça e depositou um beijo leve mas demorado e cheio de sentimento em seus lábios. As palavras mágicas apertando sua garganta, mas ela as engoliu, não tendo certeza se aquele era o momento ideal.
— Você precisa descansar, vai ter um dia longo amanhã – ela murmurou ao se afastar dele.
— Minha mente não consegue parar, eu fico remoendo tanta coisa com o meu pai... – ele suspirou, se ajeitando na cama e cruzando um dos braços atrás da cabeça.
— Apenas feche os olhos e tenta relaxar. – Hailey o olhou, se aproximando com cuidado e o abraçando de modo que não pegasse no curativo.
Ficaram em silêncio por alguns minutos e a detetive podia jurar que ouvia as engrenagens girando na cabeça de Halstead. Ele dedilhava o ombro dela, perdido em pensamentos.
— Eu me sinto mal porque não consigo perdoá-lo – ele murmurou, tão baixo que Hailey quase não o entendeu.
— Por não ter apoiado quando você quis se alistar e quando se tornou policial? – ela o olhou.
— Também, mas mais ainda por não ter confiado quando minha mãe contou pra ele algumas coisas que aconteceram... – deu de ombros.
— Coisas? Que tipo de coisas? – arqueou a sobrancelha, não entendendo bem onde ele queria chegar.
— Eu tive problemas com a babá que cuidava de nós quando o Will e eu éramos mais novos – Jay sustentou o olhar, sentindo-se confiante em se abrir com ela sobre seu passado – Ela abusou de mim várias vezes, eu era pequeno demais para entender, mas de alguma forma eu sabia que aquilo que ela fazia era errado. Minha mãe chegou em casa um dia mais cedo do trabalho e pegou ela me tocando – a voz dele se mantinha firme, e Hailey engoliu em seco, sentindo o nó se formar em sua garganta – Meu pai debochou da situação, minha mãe nunca o perdoou. Eu venho tentando desde que comecei a terapia e agora que ele morreu... Eu não sei, talvez chegue lá algum dia.
— Jay... – a loira o encarou – Eu sinto muito.
— Está tudo bem, Hailey – o sorriso que saía de seus lábios era sincero – Tenho trabalhado muito na terapia, e na verdade é meio reconfortante contar para uma pessoa que não seja ela.
— Fico muito feliz por você ter me escolhido, é importante saber que você confia em mim o suficiente pra isso – Hailey suspirou – E fico mais feliz ainda por ver que a terapia tem funcionado e assim não tenho que procurar um parceiro novo – ela sorriu levemente, aconchegando-se em seu peito com cuidado.
— Confio minha vida à você. Sei que foi difícil chegarmos onde estamos agora, e estamos juntos há pouco tempo, mas estou sendo sincero, Hailey. E eu quero muito fazer com que a nossa relação seja duradoura – ele falou sério, olhando em seus olhos azuis, a fazendo arrepiar – E se depender de mim nunca vai precisar de um parceiro novo, Detetive Upton! – sorriu ao ver que mesmo estando machucado ela ainda queria estar perto dele e não media esforços para isso.
— Também confio minha vida à você, e não digo isso somente por ser sua parceira no trabalho, digo isso porque quero ser a sua parceira de vida também... – suspirou, fechando os olhos.
— Eu sei disso. E saiba que é recíproco – Jay deu uma pausa, apertando o braço ao redor dela e a trazendo para mais perto de si, nem se importando com a dor em seu corpo – Me desculpe por ter sido um completo imbecil hoje, estava tão focado em tentar fazer justiça que acabei descontando meu ódio daquele imbecil em você e agora me sinto tão idiota por isso!
— Eu vou te machucar... – ela tentou se afastar quando o ouviu gemer baixinho, mas ele a manteve por perto – E está tudo bem, Jay, já passou, e eu fiquei mais irritada por você não ter seguido as ordens do que ter sido um completo imbecil comigo – ela deu ênfase, o provocando.
— Me desculpe por isso também – suspirou, beijando sua testa – Você vai comigo ao funeral?
— Você não acha que vamos estar nos expondo? Havíamos combinado de ir devagar...
— Eu quero você comigo, Hailey, é importante pra mim que você esteja lá. E para ser sincero estou cansado de ficar me escondendo.
— Jay... – ela se afastou o suficiente para olhar em seus olhos – Eu estarei lá, mas vamos manter nosso acordo por enquanto, por favor? Não estou pronta para dividir isso com mais ninguém. Gosto de manter a minha vida pessoal reservada e sei que você também.
— Podemos manter nosso acordo dentro do distrito, que tal? – ele a encarou, passando a língua nos lábios, com um meio sorriso – Fora dele eu quero muito que todos saibam que estou namorando a detetive mais gata do 21º.
— Jay... – ela negou com a cabeça, rindo baixinho – Você é maluco, sabe disso?
— Eu sei, mas maluco por você! – ele abriu um sorriso, fazendo-a se derreter.
— Maluco! – ela repetiu, dando um selinho nele – Tudo bem, detetive, mas eu não recebi um pedido de namoro, não sei se pode me considerar sua namorada – o provocou, arqueando a sobrancelha.
— Hum, você quer um pedido? Tenho que ir até a casa dos seus pais também? – Jay arqueou a sobrancelha, tentando não rir.
— Não, isso não! – ela negou rapidamente, rindo – Mas eu quero muito um pedido seu.
— Ok, detetive – pigarreou, pegando a mão dela e dando um beijo – Hailey Upton, você quer namorar comigo? – o semblante no rosto dele era tão sério que ela não conseguiu contar a gargalhada.
— Ah meu Deus, você é péssimo – balançou a cabeça – Mas sim, eu quero muito, Jay Halstead! – ela sorriu, se aproximando para lhe dar um beijo de verdade desta vez.
Jay suspirou ao sentir a língua dela em sua boca, e agradeceu mentalmente por ter Hailey em seus braços. Deitado ali com ela, ele sentia como se todos os seus problemas não existissem, e era uma sensação maravilhosa poder sentir tudo aquilo depois de todo o transtorno que havia passado com seu pais nas últimas horas.
— Você precisa descansar agora – ela murmurou, se afastando o suficiente para desligar as luzes do quarto.
— Boa noite, Hailey! – suspirou, fechando os olhos e rezando para ter uma noite de sono decente.
— Boa noite, Jay!
Hailey se deitou novamente mas ao lado dele dessa vez, ele precisava descansar e sabia que estava com o corpo dolorido. A distância seria necessário, ao menos por essa noite. Jay colocou a mão por cima da dela que estava em seu peito, tocando seus dedos enquanto tentava pegar no sono. A noite de lua cheia iluminava o quarto, e ele se punha a admirar a loira, pensando no quão sortudo ele era e no quão loucamente apaixonado ele estava.
— Eu te amo, Hailey.
As palavras saíram com tanta facilidade dessa vez que até ele se assustou. Hailey continuou com os olhos fechados e Jay soube que ela estava acordada por conta dos batimentos cardíacos acelerados.
— Eu também te amo, Jay.
Ela murmurou ainda de olhos fechados, temendo estragar o momento se abrisse os olhos. Jay apertou a mão dela em resposta, e Hailey suspirou, tendo certeza que não estava sonhando.
Uma vez na vida você encontra alguém, quem irá fazer seu mundo virar, te colocar para cima quando você está se sentindo para baixo. É, nada pode mudar o que você significa para mim. Oh, há muitas coisas que eu poderia dizer, mas só me abrace agora, porque o nosso amor irá iluminar o caminho.
(Heaven – Bryan Adams)
