Capitulo 5
Flor de Cerejeira
-Não gosto nada disso. – resmungou Se Hum, ainda olhando a porta por onde Park Min Young deixara o consultório – É perigoso ela ir sozinha... – disse para Se Jeong.
Ye Jin soltou um risinho debochado enquanto balançava a cabeça em negativa.
-É mais perigoso para ele do que para ela... – voltou a dar a volta na mesa e sentar-se de fronte ao notebook do doutor.
-Por que diz isso? – perguntou Kim Se Joeng, achando estranho o comentário.
-Ele sabe do que é capaz... ela não. – acenou impaciente – Muito bem, agora somos só nós três. A pergunta é, qual de vocês quer realmente ajudar?
Park Min Young recebeu uma mensagem de texto assim que conseguira um taxi, já que as chaves do carro que os três usavam estava com Oh Se Hun.
-Para o parque Seonyudo, por favor. – disse ao motorista, enquanto já digitava, irritada, uma resposta a mensagem.
"O parque é enorme. Como vamos nos encontrar?"
"Não se preocupe com isso... Eu sempre te encontro."
Se a frase foi um galanteio, ela não percebeu, dada a raiva que lhe comia as entranhas.
Era uma bela manhã de primavera, a época em que o parque era mais bonito de se visitar. As arvores floridas, carregadas de cores, eram um convite para a alegria.
Se não fossem os acontecimentos do final do ano anterior, ela provavelmente desfrutaria da beleza das flores com alguma intensidade. Mas, ter que desvendar uma série de assassinatos ligados aquelas belezas botânicas e, ainda por cima, descobrir o assassino tão próximo deles, não lhe fazia vê-las com bons olhos.
Andou alguns minutos sem norte, até decidir que seria melhor sentar em algum lugar e esperá-lo aparecer. Optou por um corredor cheio de cerejeiras que estavam carregadas de flores e, habitualmente, lindas.
Segurou o sobressalto quando sentiu a mão dele a arrumar algo em seu cabelo. Sim, mesmo sem vê-lo de frente, por alguma razão, ela sabia que se tratava dele.
Lee Seung Gi deu a volta no banco após colocar um pequeno ramo de flores por detrás de sua orelha, sentou-se e a encarou, como que admirando seu feito.
-Por que demorou tanto? – ela perguntou, impaciente.
Ele deu de ombros em resposta.
-Você quem demorou para sentar em algum lugar. Estava te acompanhando desde que entrou no parque.
Ela fechou os olhos vagarosamente, como que tentando não explodir. Por isso não foi capaz de ver o pequeno sorriso de satisfação que ele deu. Quando ela o encarou novamente, ele já trazia a expressão levemente seria.
-Então, por que queria me ver? Saudades?
Ela ignorou a insinuação infundada.
-O detetive Ahn Jae Wook sumiu.
-É, fiquei sabendo.
-E o que mais você sabe?
Seung Gi esticou o braço sobre o encosto da cadeira que ambos dividiam, e inclinou um pouco o corpo em sua direção.
-Eu sei de muita coisa.
-E qual o preço para me contar dessa vez?
Ele abriu seu tradicional sorriso arteiro. E, entendendo que a resposta muda queria dizer "o mesmo", ela avançou até os lábios dele, sem nenhuma restrição dessa vez.
Lee Seung Gi se surpreendeu com a reação dela, não pela atitude em si, mas pela intensidade. Park Min Young não encostou apenas seus lábios nos dele, como outrora, mas o envolveu em um profundo e demorado beijo, do tipo com que ele sonhava a algum tempo.
O fato de estarem em um lugar público deveria tê-los freado, mas não foi o que aconteceu. Quanto mais o beijo demorava, mais aquilo parecia fazer sentido.
Vencido pelo calor do momento ele levou a mão do encosto ao rosto dela, a puxando para mais perto. Logo sentiu as mãos dela em seus cabelos e em sua nuca.
Os lábios se desprenderam por um momento, em que ele usou para respirar, mas ela continuou a beijar-lhe a bochecha, indo em direção ao ouvido.
-Min Young... – ele tentou reaver o controle da situação – Nós não devíamos estar fazendo isso aqui. – sussurrou, sem forças para afasta-la, porem.
Foi então que sentiu a mão dela segurar fortemente seu colarinho e puxar. Entendeu o que ela fazia ao mesmo tempo em que a ouviu exclamar.
-Eu sabia!
"Droga!" Esbravejou mentalmente enquanto a afastava.
-Eu não acredito que você... – ele começou a reclamar, mas ela estava eufórica demais para se importar isso.
-Eu sabia, sabia que tinha um motivo pessoal para estar tão interessado nisso tudo. Você também tem o chip!
Ele havia escondido aquela tatuagem tão bem até então. Sempre usando blusas de gola alta ou colarinho que encobriam sua nuca. Não havia passado pela cabeça dos outros detetives, em nenhum momento se quer, que ele também pudesse ter feito parte do tal projeto D.
Bufou contrariado.
-O que você já sabe, Seung Gi? Me diz de uma vez, nós podemos ajudar.
-Vocês mais atrapalham que ajudam. – ele disse se levantando, exasperado.
Queria ir embora dali, deixa-la falando sozinha.
Devia ter dado ouvidos a Ye Jin e não ter se reaproximado. Agora seria muito mais difícil afasta-la. Tão difícil quanto necessário.
Deu três passos para longe, o que a fez levantar-se do banco também.
-Lee Seung Gi! – chamou.
A pronuncia do seu nome o fez parar o movimento.
Ele respirou profundamente antes de encara-la mais uma vez.
Min Young não sabia muito bem com o que ele estava aborrecido. Se com o fato dela ter descoberto o chip, ou de ter usado um beijo para lhe enredar. Mas era claro na expressão, sempre tão brincalhona, que ele estava muito irritado com a situação.
Num movimento rápido Seung Gi segurou-lhe o pulso direito e começou a puxa-la com ele. A vontade de Min Young era pará-lo e soltar-se, dizer que podia caminhar sozinha. Mas teve receio dele desistir de carrega-la, seja lá para onde estivesse indo.
Aceitou ser guiada até o que provavelmente era o carro dele. Lee Seung Gi abriu a porta do carona, a colocou lá dentro, deu a volta e ocupou o lugar do motorista, em poucos instantes estavam na via em movimento.
Tudo isso sem trocarem uma palavra.
Ele ainda estava visivelmente irritado.
-Por acaso você vai me matar? – ela perguntou, em um tom calmo de quem não acreditava nessa possibilidade.
Ele a encarou zangado.
-Você é intrometida demais, sabia? Tem noção de como fica mais difícil te proteger agora? – ralhou – Para que foi confirmar isso?
Ela deu de ombros.
-A única resposta que eu tinha para seu interesse no caso não parecia muito logica.
-Meu interesse em você não lhe parece muito logico? – ele perguntou e ela concordou.
-Além disso, não faz o menor sentido você ficar soltando informações a conta gotas. – se ajeitou no banco voltando o corpo na direção dele – Alias, continua não fazendo.
Ele demorou um pouco para responder dessa vez. Como se estivesse calculando as palavras a seguir.
-Vocês... precisam saber de algumas coisas, para se protegerem melhor. – articulou vagarosamente – Mas, ao mesmo tempo, não são confiáveis para saberem de tudo.
-Ah, disse o assassino. – ela chiou. Ele não se importou com o "xingamento", porém – Por que não somos confiáveis?
-Vocês nem sabem quem são direito, Min Young.
Ela piscou algumas vezes enquanto assimilava a frase, a ligando com o que sabia sobre os chips. Ele se referia a perda de memória, certamente.
-Você teve isso? – perguntou. Ele a olhou de lado. – A perda de memória, você também teve isso?
Ele fez que sim.
-Ainda há coisas que não me lembro. – resmungou.
-Dos assassinatos? – ela havia criado, em segundos, a fantasia de que a memória que ele havia perdido era a de ser um assassino impiedoso. Mas um balançar de cabeça em negativa destruiu suas esperanças.
-O assassino das flores veio depois do chip... – ele comentou – Bom, eu acho. – como ela não falou nada, resolveu continuar – Pelo pouco que descobri sobre minha vida pregressa, eu era um homem bem pacato...
-Está dizendo que o chip mudou sua personalidade? – ela perguntou, se lembrando do outro efeito colateral que o dr. Kim Tae Pyung havia alertado.
Ela balançou a cabeça de um lado para o outro, indicando incerteza.
-Não chamaria exatamente de outra personalidade... Eu sou capaz de entender tudo que fiz e acho que o mundo está melhor sem aquelas pessoas, incluindo o K... – ele levantou o dedo cortando a intenção dela de interferir – ...mas não acho certo tirar a vida de ninguém, mesmo nessas circunstâncias. Só que, naquele momento isso não importava. Eu descreveria mais como uma perda momentânea de moral.
-Momentânea? – ela franziu o cenho.
Lee Seung Gi permaneceu calado.
-Não faria aquilo novamente?
-Isso não importa, não é? – ele disse, em tom amargo – Eu fiz.
-Claro que importa... faria de novo?
-Eu não sei. – respirou fundo, incomodado – Eu achei que isso tinha acabado quando completei o serviço. Mas essa "personalidade" reapareceu quando fomos atrás do Kim Min Jae... – engoliu seco, lembrando ter sido o responsável pela morte do policial também – Talvez tenha sido porque ele me cutucou para que isso acontecesse, mas eu não sei o que realmente a fez emergir. Eu não tenho domínio sobre isso. – completou.
Eles permaneceram em silencio por alguns minutos, enquanto ela, pela expressão pensativa, calculava alguma coisa.
-Você não tinha intenção de nos trair quando nos procurou?
Ele achou graça da importância que ela dava para aquilo.
-Eu queria achar o imitador. Vocês estavam no caso desde o começo, pareciam uma boa opção de me esconder e investigar ao mesmo tempo... – olhou-a de relance – Além disso, me deu a chance de me aproximar de você...
Ela se ajeitou no banco, arredia.
-Você fala como se já me conhecesse... – balbuciou e ele riu do seu incomodo.
O humor dele pareceu voltar conforme ela ficava sem graça.
-A gente tem química... – ele comentou, a deixando mais vermelha ainda – Até Jong Min percebeu isso.
Ela deu um sorriso ao lembrar, mais uma vez, do momento.
-Oppa Jae Suk disse isso ontem.
-Que nós temos química? – ele fez um barulho indicando falsa surpresa – Até que ele também é inteligente. Ye Jin vai gostar de saber disso. – comentou vagamente.
-Falando em Pyo Ye Jin... Quem é ela?
Ele se calou novamente durante alguns segundos.
-Sobre o motivo de não dar todas as informações a vocês. – soltou, parecendo mudar propositalmente o assunto para algo que lhe interessaria mais – Vocês não são de total confiança, porque ainda não apresentaram os sintomas...
-Sintomas? A outra personalidade?
Ele concordou, com a cabeça, mas preferiu outro termo.
-A personalidade sem moral. – voltou os olhos para ela por um momento, antes de prestar atenção novamente ao transito – Meu palpite é que tanto o sumiço do Kwang Soo, quanto o do Jae Wook tenham esse mesmo motivo.
-Acha que as personalidades sem moral emergiram?
Ele fez que sim.
-Por isso, tome cuidado.
Ia reclamar do aviso, mas estava andando de carro e conversando tranquilamente com o assassino confesso de pelo menos cinco pessoas. Pelo visto, tomar cuidado não era mesmo algo que fazia muito bem.
O telefone vibrou no seu bolso e ela atendeu.
-Oppa Jong Min, oi... – ela o olhou de rabo de olho, mas Seung Gi não parecia incomodado com o contato – Sim, estou bem sim. – uma nova pergunta a fez olhar ao redor e reconhecer os arredores da própria casa – Estou chegando em casa. – disse – Vir aqui? Não, não precisa. – apressou-se em dizer - Eu estou bem. – repetiu enquanto percebia seu acompanhante girar os olhos, já que entendera que o outro estava, como sempre, insistindo em algo que não tinha a menor chance de acontecer. – Vejo vocês depois do almoço. – disse, desligando o aparelho em seguida e encarando o outro.
-Te cantando de novo? – Seung Gi perguntou - Ele não tem senso de ridículo, não é? – ela riu enquanto ele começava a estacionar o carro na frente do condomínio – Se eu não fosse um fugitivo no momento eu assumiria nosso namoro e queria ver se ele continuaria a dar em cima de você... – comentou.
-Nosso namoro?
-É. – ele voltou-se para ela enquanto soltava o próprio cinto de segurança – Se bem que, ameaça-lo com algum recadinho dizendo que você é minha pode ser bem divertido também. – disse pensativo.
Ela soltou o próprio cinto enquanto dizia.
-Um: eu não sou sua. Dois: nós não estamos namorando.
-Claro que estamos, você me beijou em público, isso é praticamente um pedido de casamento aqui na Coreia. – ele disse divertido, mas ela não levou a sério.
Abriu a porta e fez o movimento para sair.
-Hey!
Ele chamou a de volta. Quando Min Young voltou a olha-lo, Seung Gi apontou para a própria boca. Ela apertou os olhos na direção dele e recebeu um novo e insistente sinal para que lhe desse um beijo de despedida.
Desistindo da briga muda, ela de lhe deu o selinho que ele pedia. Ele sorriu assim que terminaram a ação e ajeitou o pequeno ramo de flor de cerejeira que ainda estava no cabelo dela.
-Toma cuidado. – repetiu.
Ela assentiu com a cabeça e saiu.
Uma despedida normal em meio a tantas coisas anormais na sua vida.
Continua...
