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As horas se prolongavam naquela noite quente à medida que Vampira rolava na cama estranha, sem conseguir pegar no sono. Farta de tentar, ela se levantou e abriu a janela, para que a brisa fresca pudesse entrar.

Na mansão, em noites insones, Vampira costumava sair pela porta da sacada e alçar voo. Por vezes se sentava no telhado, em outras buscava algum outro lugar alto; na maioria das vezes, ia alto e olhava para baixo, vendo como a distância deixava tudo pequeno. Era terapêutico e quase nunca falhava em fazê-la se sentir melhor. Portanto, quase sem perceber, flutuou para fora da janela, mas logo deu por si e mudou de ideia.

Mesmo passando da meia-noite e a rua aparentando estar deserta, não seria inteligente se expor daquela forma. Uma garota flutuando no meio da noite poderia chamar atenção desnecessária. Sentou-se na cama, olhou a tela do celular novamente e não encontrou nenhuma mensagem nova. As que ela havia enviado sequer foram visualizadas. Tentou afastar os pensamentos negativos, mas não conseguia se livrar da sensação agourenta de que havia algo errado.

Resignada sobre não conseguir dormir, Vampira deixou o quarto e desceu as escadas, flutuando para não fazer barulho, e acendeu apenas a luz da cozinha. Sentou-se à bancada, o celular deitado ao seu lado. Abriu as portas dos armários até que encontrou um copo na terceira tentativa. Encheu-o de água e esperou. Em vão.

"Está tudo bem, chère?

Vampira se sobressaltou, tentou disfarçar, mas seu coração batia incontrolavelmente no peito. Gambit se movimentava como um gato, tão silencioso. Ela fez que sim com a cabeça de forma não muito convincente. Ele parou perto à porta, vestindo camiseta e samba-canção, e passou os dedos da mão predominante pelo cabelo bagunçado, para jogar a franja para trás. Encarou-a no rosto intensamente, duvidando de sua resposta automática.

"Eu te acordei?" ela perguntou, para preencher o silêncio.

"Meu sono é leve" ele respondeu baixinho. Uma parte da infância na rua e uma vida inteira de treinamentos depois disso haviam garantido que esse fato fosse verdade.

Quando ele se moveu e passou perto dela, Vampira se arrependeu de não ter vestido a calça jeans; estava de camiseta e calcinha. Não passou pela sua cabeça que o encontraria no meio da noite, portanto não se deu ao trabalho. Foi ingênua, pois, na mansão, nunca se descuidava dessa forma. Torceu para que ele tomasse cuidado para não tocá-la, sob qualquer circunstância. Qualquer um que a tocasse sairia machucado. Esse pensamento sempre a entristecia, mesmo que Vampira não deixasse transparecer.

Gambit também apanhou um copo e o encheu de água. Recostou as costas na pia, de frente para ela, mas do outro lado da bancada. Ele soltou um suspiro derrotado. Pela aparência dos seus olhos, também não tinha conseguido dormir. Curvou as costas para trás e sentiu um estalo, como se tivesse deitado de mal jeito. Estivera inquieto, como se tentasse pegar no sono em uma casa mal-assombrada. Quando viu a luz da cozinha acesa, resolveu se juntar a ela, embora a decisão não tivesse sido tão simples. Admitir que se sentia solitário e buscava a companhia platônica de uma estranha não era algo no que queria pensar.

Vampira permaneceu em silêncio, os olhos baixos alternando entre o copo preso nas mãos e o celular cuja tela continuava apagada. Gambit viu a preocupação estampada no seu cenho franzido e a observou atentamente. Como se sentisse o olhar, ela ergueu os olhos para ele e forçou um sorriso sem dentes, não querendo ponderar sobre o que estava na cabeça dele. Até porque havia percebido rapidamente que não conseguiria decifrá-lo nem se tentasse.

"Qual o problema?" ele perguntou ao apoiar as mãos sobre a bancada. Contudo os olhos dela só suavizaram quando ele ofereceu um sorriso.

Ainda assim, ela titubeou antes de responder. "Estou tentando entrar em contato com os X-Men há horas, mas ninguém atende."

"Talvez eles estejam fora em missão."

"Todos eles?" disse incrédula.

Embora, na opinião dele, a preocupação dela fosse exagerada, não era injustificada. Os X-Men deviam ser a primeira noção de família que ela experimentava e apenas cogitar perdê-la causava um medo petrificante. Ele conseguia se identificar com esse sentimento.

"Oui. Talvez, por coincidência, todos ficaram presos em missões diferentes."

Ela ergueu os olhos para o rosto dele e sua expressão de incredulidade se misturou com divertimento. "É, pode ser" disse, apenas para agradá-lo e seu tom deixou isso claro. De qualquer forma, estava agradecida por ele tentar animá-la. "Você tem razão" disse, por fim, derrotada. "Estou me preocupando à toa. Mesmo assim acho que não vou conseguir dormir."

"Vamos sair, então" sua voz se animou ao convidá-la. "Não é tão tarde assim, ainda tem lugares bons abertos."

"Não é perigoso, com os Assassinos?"

"Non. Eu sei aonde ir pra ficar seguro."

Cinco minutos mais tarde eles deixavam a casa pela porta dos fundos. A noite estava fresca e agradável. Caminharam lado a lado em silêncio, mas desta vez podia-se notar que ele estava calmo, as mãos no bolso, sem se preocupar em estar sendo perseguido.

"Se eu soubesse, teria arranjado luvas pra você também" ele comentou ao observá-la esfregar as mãos nas luvas úmidas.

"Você não tinha como saber" ela disse docemente, oferecendo um sorriso.

Chegaram a um bar, se sentaram em uma mesa ao fundo e pediram drinques. Vampira apenas bebericou enquanto ouvia a música no fundo. Ela gostava da cidade, do seu cheiro, das suas cores, de como a fazia se sentir em casa. Os dois trocaram algumas palavras, mas pareciam entender que nenhum deles queria entrar em assuntos pessoais. O mais íntimo que chegaram foi sobre as cidades onde cresceram, o que levou Vampira a revelar o quanto adorava Nova Orleans e que uma de suas lembranças mais vívidas e afetuosas eram de uma viagem à cidade durante o Mardi Gras. Na sua cabeça de criança, acreditou que era sempre Mardi Gras. Sonhou voltar várias vezes antes se tornar mais velha e mais cínica. Sabia que nunca mais poderia recriar aquelas memórias. Ainda assim, havia algo ali que a fazia se sentir em casa.

Sentia-se se tornar melancólica com aqueles pensamentos quando foi interrompida por visitantes que se aproximavam da sua mesa.

"Remy, homme!" um homem grandalhão disse ao parar em frente à mesa deles com outros dois caras a reboque.

Vampira piscou confusa até perceber que o homem se referia a Gambit.

"Que tal uma partida?" o homem disse, cruzando os braços desafiadoramente, mas com um sorriso de divertimento. "Se a mademoiselle não se importar, é claro" emendou ao se dirigir a ela.

Vampira ergueu as mãos em gesto que indicava que não interferiria e olhou para Gambit. Havia um sorrisinho de agrado nos lábios dele, embora sua postura relaxada não mostrasse inclinação a aceitar o convite. Estranhamente, ele se virou para ela à guisa de quem não gostava da ideia de deixá-la sozinha.

"Sabe jogar pôquer, chère?" fez a pergunta soar como um desafio.

Ela notou que ele jogaria caso ela topasse. Levantou-se em um movimento rápido e ofereceu a mão enluvada para que ele apertasse. "Só se você estiver preparado para perder, Cajun."


Era perto das quatro da manhã quando eles caminhavam de volta para a casa. Vampira estava corada e rindo à toa. Sentia-se viva e animada, com os pensamentos longe de preocupações. Havia até mesmo se esquecido do seu propósito ali. Caminhava inconsistentemente, como uma criança que pulava por sobre os riscos na calçada. Vestia o casaco de Gambit pendurado nos ombros; ia até os seus calcanhares. Gambit, por sua vez, havia perdido alguns dos trejeitos, como se até então estivesse interpretando um personagem, e apenas agora fosse ele mesmo.

"Ninguém esperava por essa" ele comentou, sorrindo com satisfação. Vampira havia vencido majestosamente. Ganhara até mesmo dele, que era o melhor jogador na mesa. Não imaginou que ela blefasse tão bem, muito menos depois das tentativas fracassadas de tentar recrutá-lo. "Eles falaram sério quando disseram que teria revanche. Aliás, acho que agora eles me odeiam por ter colocado você no jogo" seu tom mostrava um ar de brincadeira e ela parecia satisfeita.

"Não está com frio?" ela perguntou ao vê-lo encolher os ombros com as mãos nos bolsos dianteiros da calça jeans. Ele fez que não com a cabeça. Ela deixou estar, pois estavam a poucas quadras da casa. Mal haviam dado dois passos para fora do bar quando ele deitou o casaco sobre os ombros dela.

"Posso levar a gente voando pra lá bem rápido" ela sugeriu.

"Gosto de caminhar, chérie."

"Melhor mesmo manter os pés no chão depois de ter perdido tão feio pra mim."

Ele simulou expressão de indignação enquanto ela gargalhava, insolente e convencida. Inesperadamente ele a puxou pela cintura, passando os braços por baixo do casaco. "Pois eu vou querer uma revanche apenas entre nós dois" murmurou perto dos lábios dela.

Ela pôs as mãos entre o peito e os ombros dele, com os braços dobrados sendo a única barreira que os separava. Parou de gargalhar e sentiu os olhos murcharem. Achou o calor do corpo dele inebriante, sentiu a garganta secar e tentou umedecer os lábios em vão. O pomo-de-adão dele se moveu quando ele também engoliu em seco. Aproximou os lábios mais ainda dos dela até se lembrar do que aconteceria se os tocasse. Foi como uma facada quando a soltou.

"Desafio aceito" ela disse, mostrando bom humor, embora sentisse as pernas bambas e estivesse fria sem o calor dele. Não devia ter tomado três cervejas, pensou, se repreendendo. Ela enfiou as mãos nos bolsos do casaco dele. Caminharam mais duas quadras antes de ela dizer: "Será que também posso te chamar de Remy?"

Pelo perfil dele, ela notou que ele sorria singelamente. "Como preferir" acrescentou após uma pausa. "É Remy LeBeau. E o seu?"

"Sou apenas Vampira" ela disse, se encolhendo de leve. Ele notou a amargura nas palavras dela e não insistiu. Devia haver um motivo contundente para ela querer deixar seu nome verdadeiro para trás.

Caminharam mais duas quadras em silêncio antes de chegarem a casa. Entraram pela porta da frente e pararam na sala de estar, em silêncio. Vampira esperou que ele subisse primeiro, mas ele hesitou. Havia desconfiado de que ele tentara dormir no sofá, palpite que se confirmaria na manhã seguinte quando ela passaria pelo quarto principal e veria a cama arrumada.

Vampira se despiu do casaco e o deitou com cuidado excessivo sobre o sofá. "Obrigada" disse, olhando para os próprios pés, não querendo se retirar.

"Pelo quê?" ele perguntou, desconfiando de que ela não se referia ao casaco.

Ela deu de ombros. "Eu me diverti" e tomou coragem para erguer os olhos até os dele, olhos escuros e intensos. Finalmente se lembrou de que estava em missão. "Até amanhã" e saiu rapidamente, se forçando a não alçar voo.


Na manhã seguinte, apesar das poucas horas de sono, Vampira sentiu que havia dormido o bastante. Vestiu-se e saiu voando pela janela, certificando-se de que não seria vista. Uma vez na calçada, caminhou até onde tinha visto um café no caminho de volta do bar.

Comprou café e croissant e retornou rapidamente. Dentro da casa, continuou flutuando, para que seus passos não acordassem Gambit, que dormia no sofá. Levando o copo de café que trouxera para ele, ela flutuou até a sala. Ia simplesmente deixar o copo para ele, mas voltou atrás. Pairou sobre a mesa de centro e se sentou nela, segurando o copo de café entre as palmas enluvadas. Estudou o rosto dele com curiosidade, notando o quanto suas feições estavam suaves. Segurou a vontade de se aproximar e retirar uma mecha de cabelo que havia caído sobre a pálpebra cerrada dele.

Gambit despertou com um movimento de estremecimento e seus olhos abertos deram de encontro com o rosto dela. Vampira erubesceu, torcendo para que ele não achasse que ela o estava assistindo dormir, e ofereceu o copo de café para ele.

Ele se sentou e apanhou o copo quente com um meneio de cabeça de agradecimento. "Acabei caindo no sono aqui mesmo" se justificou, embora não precisasse fazer isso; embora Vampira soubesse que era mentira.

Após o café, Gambit subiu para tomar um banho e se trocar. Voltou vestindo camisa polo, shorts e óculos de sol; sem sinal do seu casaco. Aquele visual finalmente condizia com o clima, Vampira pensou ao vê-lo, o que era curioso, pois eles estavam de partida. Pouco tempo depois estavam a caminho do aeroporto.

Gambit manteve os óculos escuros até mesmo após terem embarcado, o que Vampira imaginou que se devia aos seus olhos singulares. Apesar da natureza de seus poderes, ela conseguia se misturar na multidão, apenas usar luvas o tempo todo poderia causar alguma estranheza; Gambit, por outro lado, precisava tomar certas precauções à luz do dia. De qualquer forma, usar óculos escuros de vez em quando não se comparava ao que alguns de seus colegas X-Men passavam. Alguns deles nunca mais poderiam se passar por humanos comuns.

Contudo, usar óculos escuros em lugar fechado não pareceu impedir que Gambit chamasse atenção. Vampira notou algumas cabeças se voltando na direção dele. O fato de ele fingir não notar ser alvo de olhares interessados devia torná-lo ainda mais atraente. Ele era realmente bonito, ela pensou, e então revirou os olhos para si mesma.

Acomodados na primeira classe, Vampira tentou relaxar, mas continuou preocupada, pois ainda não havia conseguido contato. Gambit só retirou os óculos quando uma comissária de bordo bonita parou para servi-los. Ele lhe lançou um sorriso desnecessariamente charmoso ao pedir uma bebida. A moça pareceu não notar os olhos dele e Vampira se lembrou do truque que ele fazia com os olhos e entendeu.

A aeromoça voltou com as bebidas rapidamente, evidentemente interessada. Contudo, olhou sem jeito para Vampira, que assistia à situação.

"Tudo bem, ela é minha irmã" Gambit assegurou, com mais um sorriso matador.

A moça pareceu aliviada. Vampira revirou os olhos mais uma vez.

"Você é insuportável" Vampira disse, sugando o refrigerando pelo canudo. Estava com dor de cabeça da bebida alcoólica da noite passada.

Ele se inclinou na direção dela. "Está com ciúmes?"

"De alguém que conheci há algumas horas? Vê se te manca."

"Alguns minutos são suficientes para eu fazer qualquer mulher se apaixonar" a presunção na voz dele era exasperante.

"Não funcionou comigo" ela rebateu, gargalhando. "Talvez eu seja imune" emendou, convenientemente omitindo a noite passada, na calçada. Antes de sua missão, Tempestade lhe dissera, de forma jocosa, para ela não cair no charme de Gambit. Vampira achara graça, mas agora entendia o aviso.

Ele abriu um sorriso de dentes brancos ainda mais largo e cruzou os braços atrás da cabeça. "Eu não tentei ainda."

"Então tente."

"Tem certeza?" soou como alerta.

"Vai fazer aquela coisa esquisita com os olhos?"

"Nunca uso 'aquela coisa esquisita' pra conquistar. Não preciso."

Do nada, cartas surgiram nas mãos dele, com as quais ele começou a brincar.

Vampira tomou as cartas das mãos dele, retirou as luvas e começou a embaralhá-las.

"Depois do nosso último jogo, tenho até medo do que você é capaz com essas cartas, chère."

Segurando o maço com duas mãos, como um leque, ela apontou as cartas na direção dele. "Pega uma carta. Se eu acertar, tenho direito a três perguntas."

Ele pareceu intrigado. "E se você errar, eu tenho o mesmo direito?"

"Sim."

Gambit topou e perdeu. Vampira acertou a carta que ele escolhera e sorriu satisfeita. Na verdade, ele conhecia o truque, era bastante simples, mas a conversa parecera mais interessante; ficara curioso com o que ela escolheria lhe perguntar.

Vampira mal pensou na primeira pergunta. "Como você conheceu a Ororo e os X-Men?"

"Durante um assalto. Ororo me levou com ela."

Ela esperou por mais, mas seria o máximo de detalhes que ele forneceria. Poderia pedir mais detalhes a Tempestade uma outra hora. Pergunta dois. "Qual o lugar mais difícil que você já invadiu?"

"A Casa Branca."

Ela arregalou os olhos e os lábios ganharam um formato de 'O'. "Tá de zoeira."

"Non. É verdade."

A terceira e última pergunta levou mais tempo. Havia algo que Vampira queria saber, mas o seu bom-senso lhe advertia do contrário. No fim, resolveu arriscar. Se ele não quisesse responder, ela não insistiria. "Na casa, eu vi um porta-retratos, por acaso. Era a foto de você e uma moça. Quem era?"

Ele virou a cabeça para a frente e seu rosto fechou. Ela notou pelos movimentos abaixo das bochechas dele que a mandíbula estava cerrada com força, e se arrependeu na hora. Era uma pergunta íntima demais, que ia contra às regras tácitas do jogo. Sentiu o rosto enrubescer. Temeu ter botado tudo a perder.

Alguns instantes mais tarde, Gambit se recompôs. Voltou a lhe olhar no rosto. Sua expressão havia suavizado, parecendo quase triste, o que combinava com o seu tom de voz. Fez Vampira deduzir que o problema não era ela ter perguntado, mas sim a dor que a resposta trazia. "Minha ex-mulher."

Vampira se viu surpresa, mas disfarçou com uma piada. "Tá dizendo que alguém aceitou se casar com você?"

O sorriso dela o desarmou, e ele retribui. "É complicado."

"Como?" perguntou por impulso, suavemente; contudo, conseguiu se segurar para não tocar a mão dele, repousada ao alcance da sua.

"Você não tem mais direito a perguntas, chère."

O avião logo pousaria.

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