Disclaimer: Nada é meu. Harry Potter (a família Weasley e assim por diante) pertence à JKR e àqueles que publicaram os livros dela. Damien pertence à Kurinoone e a história por trás de Harry meio que pertence a ela também. Eu estou fazendo isso por diversão (e para dormir em paz) e não estou ganhando dinheiro algum com essa história. Há partes da história que foram escritas por JKR e partes que foram escritas por Kurinoone.

Chapter Ten – Revelation

(Revelação)

Após a reunião da Ordem, na qual decidiram falar com Ginny – Molly não ficara satisfeita, mas após Arthur falar com a esposa em particular por uma hora, ela finalmente concordou – eles chegaram ao de que se reuniriam n'A Toca no dia seguinte.

Molly ficou com a tarefa de preparar Ginny, para que a garota não ficasse tão surpresa. Não lhe foi explicado o porquê, apenas que eles queriam falar com ela.

Enquanto tudo isso estava acontecendo, a jovem estava n'A Toca, tentando superar o ataque ao Beco Diagonal. Ela não tinha entrado em pânico novamente, mas sua cabeça ainda estava cheia de imagens que não conseguia banir de sua mente. Tentou não pensar muito sobre aquilo, mas era muito difícil. Sempre que fechava os olhos, via um flash de luz verde, ou a livraria explodindo, ou os Comensais da Morte ou ele. Aquilo não ia parar.

O que não facilitava era o fato de que estava sendo forçada a ficar em seu quarto, não que alguém a estivesse forçando a isso. Era só que ela não queria sair, porque Hermione estava por lá... e também tinha seus irmãos.

Era difícil não encontrar com eles, visto que todos queriam passar um tempo com ela, queriam ficar com ela, queriam conversar com ela, queriam perguntar a ela o que acontecera... o.k., aquilo tinha parado depois que gritou bem na cara de Bill. Nem mesmo os gêmeos ousaram perguntar-lhe alguma coisa novamente.

A garota também estava se sentindo um pouco nervosa. Em apenas alguns minutos alguns membros da Ordem viriam para lhe fazer algumas perguntas. Ela supunha que fosse sobre o ataque ao Beco Diagonal. Talvez eles quisessem saber porque ele fora até ela... planejou dizer que não sabia.

Afora isso, não sabia o que mais eles poderiam querer dela. Não era como se eles pudessem saber o que ela tinha feito. Havia aquela sensação em seu estômago e aquela voz em sua cabeça lhe dizendo que podia ser possível, mas ela tentou não escutar. Não era o caso. Não podia ser o caso.

Com uma última olhada no relógio na mesa de cabeceira, ela respirou fundo e alisou suas roupas. Tinha esperado o momento exato chegar. Não queria chegar cedo, mesmo que tudo que tivesse de fazer fosse ir ao andar de baixo. Chegar cedo significaria que toda sua família ainda estava lá, que havia tempo para conversar...

Ela abriu a porta, dando uma olhada do lado de fora antes de pisar no corredor. Não tinha ninguém ali, mas ela ouviu vozes no andar debaixo.

Silenciosamente, dirigiu-se ao andar debaixo. As vozes ficaram mais altas. Ela reconheceu sua mãe e Ron. Eles estavam discutindo. Assim que chegou ao fim da escada, olhou em volta.

Sua mãe e Ron estavam a apenas alguns passos à sua direita, discutindo as razões de eles ficarem ou saírem. Hermione e Damien estavam sentados à mesa junto com todos os irmãos dela, seu pai, Tonks e Olho-Tonto Moody.

Ginny tentou respirar calmamente, mas aquilo não a ajudou. Ela tossiu para que eles percebessem que ela estava ali.

Sua mãe parou e se virou em sua direção.

"Ginny, que bom que está aqui. Sente-se." A garota assentiu e sua mãe voltou a atenção para Ron. "E você vai para cima! Não quero escutar nada vindo de você."

"Mas, mãe...!"

"Nada, Ronald! Para cima. Agora!"

"Eu não entendo…"

Os gêmeos riram ironicamente.

"Ah, Ronnie… deixe-nos explicar para você."

"Ir para cima significa que você vai até aquelas escadas ali e então você pisa no primeiro degrau, e então no segundo..."

"Calem a boca, vocês dois!" As orelhas de Ron estavam vermelhas. "Por que permitiram Ginny ficar? Por que foi mesmo que ela teve que vim? Sobre o que vocês vão falar com ela? Por que nós não podemos ficar também...?"

"Não é da sua conta, Ron. Você vai para cima nesse mesmo instante ou vai ter que ajudar mais ainda amanhã."

Ron murmurou alguma coisa que a irmã não entendeu antes de se virar e correr escada acima. Hermione e Damien o seguiram. No andar de cima, uma porta bateu. Em outra circunstância, Ginny teria rido, mas ela não sentia mais vontade de rir.

Sua mãe se virou, olhando para seus outros filhos. Ela parecia estar pensando em alguma coisa.

"Para cima."

"O quê?" perguntaram em uníssono.

"Todos vocês… para cima."

Houve uma confusão por alguns minutos, quando todos argumentaram ao mesmo tempo. Ginny entendeu alguns trechos do que diziam: "Mas, mãe...!", "Nós somos membros da Ordem, mãe!", "Você não pode simplesmente nos expulsar," "Nós temos idade suficiente."

Sua mãe nem mesmo piscou, mas manteve sua postura, encarando um após o outro. Por fim, Bill fez seus irmãos se calarem e foi ele quem falou por todos eles.

"Mãe, por que você acha que nós temos que sair? Todos nós somos membros da Ordem, e sabemos que tem algo a ver com isso. Nós temos direito de estar aqui, de escutar sobre o que vocês estão falando. Não temos mais doze anos!"

"Ah, eu sei tudo isso, William." Bill estremeceu um pouco ao escutá-la chamá-lo por seu nome completo. "Mas é sobre Ginny que vamos falar, e temos algumas perguntas para fazer a ela. Acredito que será mais fácil para ela falar sobre o que aconteceu se seus irmãos não estiverem lá escutando. É apenas um pouco de privacidade para ela, para Ginny."

A matriarca olhou para cada um deles novamente, até que Percy se levantou e saiu da sala, subindo as escadas. Charlie e Bill o seguiram, e após ela lançar um último olhar, Fred e George foram também.

Sua mãe se virou para ela, dando-lhe um sorriso reconfortante.

"Você quer comer alguma coisa, querida? Algo para beber?"

Ela nem deu tempo para Ginny responder, em vez disso, apenas se dirigiu ao forno e tirou algo de lá. Encheu um prato e uma taça com alguma bebida.

Alguns minutos depois, a garota tinha um prato repleto de comida em sua frente e sua mãe sentada do outro lado da mesa observando, junto com seu pai e Tonks, como ela tentava comer alguma coisa. Moody estava examinando o cômodo com seus dois olhos.

"Albus estará aqui a qualquer momento agora, e então começaremos."

Ginny quase engasgou com um pedaço de carne. Seu diretor estava vindo? Aquilo era tão importante assim? Uma nova onda de pânico tomou conta dela. Eles não podiam saber, disse a si mesma, repetindo várias vezes em sua cabeça.

A ruiva comeu mais devagar que o normal, e viu que sua mãe percebeu, mas não disse nada.

Quando o fogo finalmente ganhou vida e o Professor Dumbledore saiu por ele, Ginny quase se sentiu aliviada em vê-lo. Tomou um último gole do suco de abóbora antes de empurrar o prato de lado. Sua mãe entendeu o recado e o levou de volta ao balcão.

"Boa noite a todos."

"Boa noite, Albus."

Ginny manteve-se em silêncio.

O diretor se dirigiu até a extremidade da mesa, onde conjurou sua própria poltrona.

"Me desculpe, Molly, mas meus ossos já não são os mesmos."

"Não precisa se desculpar. Deseja algo para beber? Algum de vocês quer alguma coisa?"

"Uma xícara de chá seria adorável."

"Claro, claro."

Sua mãe se apressou até a cozinha, tirou as xícaras do armário e colocou a água para esquentar.

Ginny a observou, fazendo o impossível para fugir do olhar os outros.

"Muito bem… como sua mãe provavelmente lhe falou, senhorita Weasley, estamos aqui para lhe fazer algumas perguntas sobre o ataque ao Beco Diagonal há alguns dias atrás. Você poderia fazer a gentileza de nos contar sobre isso sob seu ponto de vista?"

A garota se forçou a assentir, focando-se mais ainda em sua mãe, que agora amontoava alguns biscoitos.

"Eu… nós caminhamos ao longo da rua principal e… e Tonks estava com a sensação que algo não estava certo. Ela... ela puxou meu braço e disse a Bill e Charlie para se apressarem. Eles o fizeram... e... Estávamos indo em direção à Floreios e Borrões e... havia essa menininha com sua mãe... e elas estavam andando para longe da loja e de repente a loja explodiu."

A ruiva parou, tentando clarear sua mente, tentando reprimir as imagens, tentando esquecer aquele dia. Não funcionou.

Ela viu pelo canto do olho o Professor Dumbledore acenar com a cabeça.

"Os aurores descobriram mais tarde que a explosão foi causada por um artefato das trevas colocado vários dias antes. Estava escondido em um tipo de imitação de livro e por isso não foi detectado, mas, por favor, continue."

"O caos se espalhou para todo lado. Eu vi minha mãe e os outros desaparecerem com uma das Chaves do Portal e eu tentei achar minha varinha... eu a encontrei, mas perdi meu pai de vista... eu... eu pensei ter visto..." Ela se lembrou de vê-lo em pé no telhado com a capa e o cabelo balançando ao sabor do vento. "Alguém da escola, eu corri até ele. Não demorou muito para eu perceber que tinha me enganado, mas eu tinha perdido os outros na multidão. Comensais da Morte chegavam de todo lado e as pessoas estavam fugindo... e os aurores vieram e lutaram com eles. Eu... Eu procurei proteção nas paredes de uma loja, mas havia mais Comensais da Morte chegando... e eu... eu vi esse beco deserto e corri até ele... mas também tinham Comensais vindo de lá... eu... eu corri de volta e me envolvi no caos novamente... eu... eu caí e eu... ele estava lá e... e... vocês sabem o resto."

Todos ficaram em silêncio e até sua mãe parara o que estava fazendo. Ginny pensou ter visto ela enxugar algumas lágrimas antes de continuar empilhando os biscoitos. A água estava fervendo, e sua mãe a colocou num pote.

"Obrigado, senhorita Weasley. Arthur, pode nos contar o que aconteceu depois que ela… foi embora?"

Seu pai assentiu.

"Eu… eu comecei a duelar com ele." Ginny se lembrou de como sua mãe gritara quando descobriu e como ela chorara quando ele voltou para casa com alguns machucados, mas vivo. "Eu estava com tanta raiva. Perguntei o que ele queria com minha menina, mas ele apenas disse que não era da minha conta. Eu disse que a deixasse em paz."

Moody bufou, mas ele não disse nada. O coração a ruiva estava disparado e ela rezou para que ele não tivesse dito nada. Eles tinham dito que era um segredo. Ele não podia contar. Sentiu-se infantil só em pensar dessa forma.

"Eu… ele…" Seu pai respirou fundo. "Ele deu a entender que ele tinha... que ele tinha algum tipo de relacionamento com você... um... um relacionamento romântico."

Ginny prendeu a respiração. Ela sabia que tinha que dizer alguma coisa.

"Ele... ele o quê?" Sua voz saiu tão alta que até seus próprios ouvidos doeram. Ela estremeceu. Que convincente.

Seu pai não repetiu o que dissera. Ele olhou para as mãos, que estavam cruzadas em seu colo. Sua mãe, que tinha colocado o chá e as xícaras sobre a mesa enquanto seu pai estava falando, reorganizou as xícaras, olhando intensamente para elas. Ginny sabia que ela estava prestando atenção, mesmo que estivesse tentando desviar-se do assunto.

"Ele… ele mentiu! Eu nunca… nós nunca... nunca houve um relacionamento entre nós. Nunca!"

Sua mãe suspirou e parou o que estava fazendo.

"Muito bom! Agora que sabemos que não havia nada podemos dispensá-la! Alguém quer comer alguma coisa?"

Ginny estava prestes a sorrir, acreditando que tinha achado uma forma de se livrar daquilo, mas seu diretor abriu a boca novamente.

"Você tem certeza, Senhorita Weasley?"

"É claro que tenho certeza!" O Professor Dumbledore apenas olhou para ela. Ela olhou de volta, tentando achar palavras para negar tudo. "Ele passou algum tempo conosco, mas nunca foi algo assim!"

"Não precisa se preocupar com nenhum tipo de consequência se você teve um relacionamento com ele, Senhorita Weasley. Não há nada de errado com isso. Ele parecia ser bastante popular com as garotas, eu escutei várias delas falando sobre o quão bonito ele era."

"Não…! Não foi assim!"

"Poderia ter acontecido com qualquer uma. Não precisa sentir-se envergonhada, Senhorita Weasley."

"Eu realmente não sei do que ele estava falando."

O diretor apenas olhou para ela, seus olhos não estavam cintilando. Ela engoliu em seco e fechou os olhos. Não tinha como sair daquela situação. Podia negar o quanto quisesse. Eles não acreditariam nela. A ruiva olhou para suas mãos, não encarando os olhos de ninguém.

"Mãe... Pai... por favor, me perdoem."

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Não. Não podia ser. Não sua menina… não... não ela. Aquilo não podia ser verdade. Apenas não podia ser. Por que ele não podia ter escolhido outra garota? Não, não desejava aquilo à garota alguma... mas tinha que ser sua doce Ginny?

"Ele... ele te forçou a fazer alguma coisa que você não quisesse?"

Sua filha levantou o rosto, encontrando os seus olhos. Havia dor, muita dor neles.

"Não, ela não me forçou."

Era dor demais para ser verdade.

"Não precisa mentir para mim."

"Não estou mentido."

"Não é culpa sua se ele te forçou a fazer alguma coisa."

"Ele não me forçou."

"Não precisa ficar com vergonha. Foi ele quem fez isso com você... você... você pode nos contar, Ginny."

"Ele não me forçou a nada."

"Ginny…"

"PAI, ELE NÃO ME FORÇOU. EU FIZ POR QUE EU QUIS, O.K.?"

"Você… você fez de bom grado?"

"Sim, eu fiz tudo voluntariamente."

"Você… você fez? Mas… mas por quê?"

"Eu… eu confiei nele."

"Mas, porque você não… por que você não escolheu outro garoto... de todo modo, você é jovem demais para fazer isso, de qualquer forma."

"Eu não sou jovem demais para o que fizemos."

Houve protestos ao redor da mesa – especialmente de seu pai e sua mãe, é claro. Ela estreitou os olhos na direção dele.

"Mas… você só tem quinze anos, Ginny… quinze."

"Aonde quer chegar, papai? Todas as garotas da minha idade estão fazendo isso."

"O quê? Vocês não são jovens demais para isso? Nós éramos muito mais velhos que vocês!"

Ginny olhou confusa para ele.

"Com certeza vocês não eram tão puritanos assim."

"Seu pai está chocado porque você estava transando com ele, Weasley."

Ginny olhou para os dois em choque, antes de corar furiosamente diante do comentário de Moody.

"O QUÊ? Ah...! Eu não... quero dizer… nós não... ah, meu Deus... vocês pensaram que nós..."

"Vocês não...?"

"Não!"

"Ah, graças a Merlin!"

Arthur relaxou um pouco depois daquilo. Seu maior receio não era verdade. Eles não tinham avançado e ele não a tinha forçado a nada. Ele olhou para sua filha, sentada ali, olhando para suas próprias mãos, depois que parou de defender-se a si mesma e... a ele. Ela estava com o mesmo semblante que ostentara nos últimos dias, até mesmo nos dias antes do ataque, ele percebeu. Ela parecia... arrasada. Arthur percebeu, então, que não importava quão longe eles tinham ido. Ela tinha confiado nele. Estremecendo, ele se lembrou da Maldição da Morte lançada. Ela tinha confiado nele.

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Doía demais ver sua garotinha sentada ali, curvada. Ela parecia estar sentindo tanta dor, que Molly queria apenas sentar-se com ela, abraçá-la, fazer com que aquela dor fosse embora, igual ela fizera quando Ginny era mais jovem, quando tudo que precisava fazer era enxugar suas lágrimas e apontar sua varinha para a perna ou o braço machucados, cicatrizando-os.

Ginny parecia… parecia uma garota com o coração em pedaços. Molly estremeceu. Não queria pensar naquilo, não queria acreditar naquilo. Não pensara que aquilo pudesse ser verdade. Achava que fosse apenas uma mentira contada a Arthur para deixá-lo furioso, para fazê-lo perder o controle. Mas era verdade.

Sua garotinha, sua única menina tinha… tinha passado momentos com ele, tinha beijado ele, tinha confiado nele... e ele a usara, a machucara, a deixara daquela maneira. Ele era culpado por ela estar daquele jeito. Por ela se recusar a descer, por ela não sentir vontade de jogar quadribol como fazia desde que tinha entrado para a equipe, desde que ela mostrara aos seus irmãos o que significava ser capaz de jogar quadribol. Ah, ela ficara tão orgulhosa... e agora parecia que não havia mais nada daquela menina feliz.

Molly sentiu a raiva crescer dentro de si. Sentiu vontade de gritar com alguém... com ele. Mas ele não estava ali, e ela estava contente por isso, mesmo que a vontade que sentia por dentro não pudesse se concretizar desta forma.

Foi naquele momento que algo morreu dentro dela, e com um estalo, descobriu que fora a sua esperança.

Albus dissera que o garoto era o único que seria capaz de salvá-los. O garoto que tiveram que capturar, para fazê-lo ver o lado bom, para fazê-lo lutar. O garoto no qual todas as suas esperanças tinham sido postas.

Nos últimos dias e semanas, quando todos aqueles membros da Ordem tinham parado de escutar Albus, protestando sobre ser agradável e gentil com ele para fazê-lo ver que eles estavam do lado certo, que valia a pena lutar ao lado deles, que eles estavam certos e que Você-Sabe-Quem estava errado... Molly ficara ao lado do diretor, acreditando que ele era apenas um garoto e que precisava de uma mãe para cuidar dele. Ela nunca o encontrara, tinha-o visto apenas de relance, mas tinha certeza que Albus estava certo, que ainda havia esperança.

Não havia mais. Que tipo de herói, que tipo de redentor, partia os corações das meninas? Da sua menina? De Ginny? Qual o propósito dele? Era alguma ideia de diversão doentia?

Olhou para sua filha novamente. O que ela pudesse fazer, jurou para si mesma, faria para mantê-lo longe dela, para protegê-la dele, para assegurar que ela jamais fosse machucada por ele novamente.

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Moody não falou nada, pois sabia que Albus esperava que ele se mantivesse em silêncio, mas não gostou disso de qualquer forma. Ele não queria estar ali, mas Albus lhe pedira para vir, argumentara que ele tinha uma percepção mais aguçada que a maioria e que eles, de fato, precisavam daquilo tanto quanto possível. Mas não havia nada para ver. Eles estavam agindo como se ela fosse a primeira garota a confiar no cara errado. Havia um número infinito delas... garotas e mulheres com corações partidos. Aquilo era realmente importante?

Não, não era. Talvez, de algum modo, fosse interessante ver todas aquelas garotas e mulheres tentado explicar as razões pelas quais confiaram neles ou seus pais tentando explicar porque elas não deveriam ter confiado. Mas, na real, a garota Weasley tinha que superar e acabar com aquilo.

Seria muito mais importante se eles perguntassem sobre o que ela conversou com ele, o que ela sabia sobre ele. Moody tinha certeza que alguma coisa ela devia saber.

O garoto devia ter contado algumas coisas a ela, talvez nada realmente significativo, visto que era bastante esperto, mas ele não podia ser tão bom.

Talvez algo que não parecesse importante para ele ou para ela, mas que fosse importante para Moody, para a Ordem, para o Ministério, para prendê-lo, para fazê-lo pagar.

Alice e Frank. Seu sangue fervia sempre que pensava neles, e aquele merdinha… pensando que podia se livrar daquilo, mas ele estava completamente errado porque ele, Alastor Moody, faria algo a respeito daquilo, nem que fosse a última coisa que fizesse.

Agora que eles souberam que tinha acontecido algo entre a garota Weasley e o chamado Príncipe, tinham que fazer alguma coisa.

Eles a estavam abraçando, tentando saber o que eles tinham feito. Ele não podia se importar menos com o que eles fizeram.

Alastor queria conseguir informação. O melhor a fazer seria olhar as memórias dela para ver se havia alguma coisa da qual eles podiam tirar alguma vantagem.

Moody não gostava de dizer isso, mas eles estariam perdidos se não conseguissem alguma informação. O aviso de recompensa já havia sido publicado, mas não havia nada. Nenhuma pista, nenhum plano, nada. Os melhores aurores estavam trabalhando nisso, a Ordem estava trabalhando nisso e não havia nada.

Talvez essa garota fosse a chave para tudo e ele se amaldiçoaria se não usasse aquilo. Precisavam afastar o garoto daquele monstro, porque aquele monstro o protegia, e a última coisa que precisavam era de outro mostro querendo seguir seus passos, aprendendo mais a cada minuto, se aprimorando, ficando física e magicamente mais forte. Ele temia o dia em que o Príncipe ficasse de maior.

De maneira alguma eles iriam deixar que aquilo acontecesse… nunca. Ele tinha que ser eliminado antes disso. Eles não conseguiam ver. Ele era perigoso... e não o salvador deles.

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Hermione tinha parado de escutar a conversa lá embaixo assim que teve ideia do que eles iam conversar, tentando ficar o mais perto da porta possível.

Apenas ela seria capaz de impedir Ron e Damien de invadirem a reunião depois de tudo. Ela tinha tentado impedi-los de escutar a conversa por completo, mas aquilo teria sido impossível. Quando souberam que seria possível usar as Orelhas Extensíveis, Ron e Damien quiseram usá-las.

A garota sabia que a ruiva não gostaria que eles também soubessem. Ela não gostaria que ninguém mais soubesse para dizer a verdade. Essa foi a única razão para Hermione ficar calada. Se tivesse sido de outra maneira, teria contado a alguém. Mas ela sabia que isso iria machucar Ginny mais ainda... e sua amiga já estava sofrendo demais.

A garota tentara falar com ela – mais de uma vez – mas a ruiva não queria conversar, então ela parou de tentar. Ginny queria ficar sozinha o quanto fosse possível... Hermione parou de ficar no quarto dela sempre que podia evitar. Ela apenas dormia e trocava de roupa lá.

Fazia seus deveres de casa na cozinha, lia na sala de estar, não se importava com o barulho. Era melhor, não seria capaz de ler se tivesse que sentar com a amiga no quarto dela, fazendo-a sentir-se mais desconfortável.

Ginny também tinha pesadelos. A garota acreditava que ela estava dormindo noite e dia… ou que estava tentando dormir o máximo possível, mesmo que significasse ter pesadelos. Hermione estava preocupada com sua amiga. Estava quase feliz por alguém ter finalmente descoberto. Uma olhada para Ron e Damien mostrou-lhe o que queria saber, visto que o ruivo puxou sua Orelha Extensível, parecendo chocado. Damien até esqueceu-se de puxar a sua, mas parecia tão chocado quanto o amigo.

Ron se levantou, cruzando a distância da cama para a porta num piscar de olhos. Hermione se ergueu também, bloqueando a saída.

Ele tentou empurrá-la para o lado, mas ela não saiu do canto.

"Hermione...!"

"Ron, sente-se na cama e se acalme!"

"Me acalmar? Estou completamente calmo! E agora me deixe passar." Em vez de sair do meio, ela ficou ainda mais perto da porta. "Hermione, você não sabe o que está acontecendo. ME DEIXE PASSAR AGORA!"

Havia pessoas correndo escada abaixo. A jovem tentou escutar e não estava prestando atenção em Ron, o que ele usou para empurrá-la de lado. Ela tropeçou, mas se aprumou. Antes que pudesse fazer alguma coisa para detê-lo, o ruivo saiu do quarto, com Damien em seu encalço.

Hermione fechou os olhos por um segundo, lembrando-se do dia em que Ginny voltou para a Torre, com lágrimas escorrendo por seu rosto. Ela tinha que ajudar sua amiga. Foi atrás deles logo em seguida.

A garota os alcançou antes que entrassem na cozinha. Os demais Weasley estavam lá, mas todos os irmãos de Ginny estavam em pé, gritando por cima um do outro.

A ruiva estava sentada à mesa, com os olhos arregalados. Havia medo em sua face enquanto olhava de um para o outro.

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"Como pôde fazer isso conosco?"

"Você traiu nossa família!"

"Devíamos ver as memórias dela, encontrar lugares para atacá-lo."

"Ron, você não tomou conta dela!"

"Se eu ainda estivesse em Hogwarts, nada disso teria acontecido!"

"Por que você não contou a alguém?"

"É tudo culpa sua!"

"Por que você fez isso?"

"Não podemos mais confiar em você agora!"

"Não é culpa dela! É dele!"

"Como… como pôde ser tão ingênua?"

"Você é apenas uma menina!"

"Nunca vamos te perdoar por isso!"

"Eu nunca vou perdoá-lo!"

"Por que confiou nele?"

"Você deu alguma informação a ele?"

"Você traiu a Ordem também?"

"Calem a boca! Todos vocês, calem a boca!"

"Você ainda o está encontrando?"

"Você vai deixar a família agora?"

"Agora eu sei por que está se escondendo o tempo todo em seu quarto! Eu também estaria se fosse você!"

"Que vergonha!"

"Não quero mais que ela faça parte dessa família!"

"Você vai começar a chamar Hermione de sangue-ruim também?"

"Vai começar a andar com Malfoy agora?"

"Está feliz por todas aquelas pessoas que morreram?"

"Você o desagradou e então ele tentou se livrar de você?"

"Acredito que só terá a si mesma por anos para ajudar nos serviços domésticos!"

"Fred!"

"Eu sou George!"

"Você é um dos gêmeos, e isso basta!"

"E agora…?"

"Serviços domésticos… sério?"

"O quê…? Aposto com você que essa é verdade."

"Não haverá aposta em dinheiro nessa casa!"

"Vamos lá para fora, então!"

"Esquece, Fred!"

"Eu sou Geo…"

"Boa tentativa, irmão, mas não vamos esquecê-la...!"

"Ginny! Como você pôde fazer isso?"

"Por que não disse nada!"

"Diga-nos que somos traidores de sangue, que não merece essa família!"

"Chame o papai de aberração por gostar das coisas dos trouxas."

"Diga-nos que é melhor que a gente!"

"Que ele é melhor que a gente!"

"Ele é melhor do que nós? Diga!"

"EU QUERO QUE VOCÊ DIGA ISSO!"

"Você está com medo?"

"Você merece tudo que aconteceu!"

"CALE A BOCA!"

"É culpa sua, Ron!"

"CULPA MINHA?"

"Sim! Era sua tarefa tomar conta dela!"

"E como exatamente eu devia ter feito isso…?"

"Eu disse a você e aos gêmeos como fazer!"

"Você devia ter percebido o interesse dele!"

"E o interesse dela!"

"Você devia ter percebido que havia alguma coisa!"

"Há quanto tempo isso está acontecendo, de qualquer forma?"

"Eu não quero limpar o meu quarto!"

"FRED! GEORGE! Isso não é brincadeira!"

"Não quero dormir na mesma casa que ela!"

"Você já matou alguém?"

"Acho que ela tem que ir embora!"

"Não confio nela perto de mim!"

Essas frases estavam colidindo dentro dela, queimando em sua pele e em sua memória. Mais tarde, ela seria capaz de repetir cada uma delas. Não importava quem disse o quê. Era sua família. A opinião de sua família. Nada mais importava. Eles estavam certos. Lágrimas estavam se formando em seus olhos, escorrendo por sua face como acontecera tantas vezes na última semana.

Pensou ter chorado todas elas, mas era como se novas se formassem todas as vezes. Houve um instante no qual ela quis gritar de volta, mas não o fez. Ela merecia aquilo. Eles estavam certos. Como poderia dizer alguma coisa se eles estavam certos sobre tudo que disseram? Nem ela mesma confiava mais em si! Ela tinha matado! Ela era a razão para toda aquela merda!

Com as pernas tremendo, ela se levantou e correu para fora da cozinha, para longe dos olhares, das palavras ditas e das não ditas também. O olhar cheio de pena de Hermione e o "eu te disse" que ela jamais falou ecoaram em sua cabeça. O ódio de seus irmãos. O silêncio de sua mãe. O olhar arrasado de seu pai. O cabelo negro de Tonks. Era demais.

Ela tropeçou e caiu, mas levantou-se de novo, dando dois ou três passos de uma vez. Assim que entrou em seu quarto trancou a porta.

Ela tinha que ir embora.

Isso era tão fácil. Seria tão fácil. Apenas algumas coisas numa sacola. Um pulôver sobre sua camisa. Um cachecol em seu pescoço. Abrir a janela. E sem realmente pensar e ao mesmo tempo com tantos pensamentos em sua cabeça, ela fez o que há um segundo era apenas mais um pensamento.

Ela agarrou sua vassoura, montou nela e saiu pela janela. Era de noite, as estrelas brilhavam acima, o ar estava gelado e ela sentiu frio, mas enquanto estivesse frio daquele jeito, não poderia pensar. Afrouxou seu cachecol, abraçou o vento em seu cabelo e voou.

Ela voou o mais rápido que conseguiu, passou os escudos, e continuou subindo. Não parou, não olhou para trás. Apenas saiu pela noite. Para longe de tudo aquilo.

xxx

Albus Dumbledore foi o único que percebeu que a Senhorita Weasley correra para seu quarto. Seus irmãos estavam gritando insultos e críticas, uns por cima dos outros. A mãe deles estava sentada lá, sem forças suficientes para calá-los. Ela tinha tentado, é claro, mas não conseguiu parar aquilo. O pai dela nem ao menos tentara.

Albus pensou em parar aquilo, mas não o fez. Eles eram adultos e sabiam o que estavam fazendo. Tinham direito de dizer o que queriam. Todo mundo tinha esse direito, mesmo se alguém não gostasse do que o outro tinha para dizer. Mas aquilo fora longe demais, e depois que Ginny saiu do cômodo, ele decidiu interferir.

Ele elevou sua voz e deixou um pouco de sua mágica correr livre enquanto pedia-os para, por favor, ficarem quietos. Eles ficaram. Ao lado das muitas desvantagens, havia algumas vantagens em ser um dos maiores bruxos vivos.

Eles pareciam procurar pela Senhorita Weasley.

"Ela subiu." Eles se viraram em sua direção, sem dizer nada, mas esperando que ele dissesse alguma coisa. "Vocês deveriam tentar entendê-la."

Charlie abriu a boca, mas com um aceno de sua mão, ele a fechou novamente.

"Ela é uma jovem garota de quinze anos. Está apenas começando a olhar para o outro sexo. Ela conhece todos os garotos de sua idade, e os considera 'sem graça.' Além disso, todos os garotos sabem que ela tem seis irmãos mais velhos, que vão machucá-los se eles chegarem perto dela. Ela decide que vai esperar alguém chegar até ela, talvez tenha certeza de que não encontrou a pessoa certa... e então acontece esse terrível ataque em Hogsmeade, em um dos lugares no qual ela se sente absolutamente protegida. Ela fica abalada, quase morre, mas tem esse garoto misterioso que a salva, arriscando a própria vida. É claro que ela fica abalada, fascinada, e até mesmo desenvolve uma paixonite por ele. Procura por ele durante meses e finalmente o encontra. Ele é diferente, ele a salvou, ele não tem medo, ele é bonito, e, mesmo que não fosse tão amigável comigo, tenho certeza que ele pode ser muito cativante se quiser. Voldemort também era... também é. Ninguém o seguiria se não fosse. Ela foi influenciada, foi levada... mas se proíbe de pensar nele... e então ele a salva de novo, e de novo, e ela acredita que ele não pode ser tão cruel, tão mau, se ele arriscou sua vida para salvar a dela. Ela pensa que pode mudá-lo. Confiou nele. Alguns de vocês passaram algum tempo com ele. Ela viu como ele poderia ser, e talvez ela tenha visto algo que ele queria que ela visse... mas ela confiou nele. Seu coração achou que era certo confiar nele, gostar dele. Ela se sente tão traída, e tão machucada quanto vocês. E agora imagine que alguém tivesse vindo para lhes dizer que vocês não são leais à família, que são traidores, porque eles precisam muito de sua ajuda! O que vocês teriam feito? "

As faces ao redor dele estavam pálidas, e em alguns pontos alguém tentara falar alguma coisa, mas após algum tempo, eles apenas sentaram e escutaram.

"Nymphadora, talvez você devesse ir buscar a Senhorita Weasley para que sua família pudesse lhe dizer o quanto estão arrependidos."

A jovem auror assentiu, levantou-se e subiu as escadas. Eles escutaram-na subir os degraus e tropeçar. Albus sorriu em sua barba, mas apenas Moody notou. Os demais estavam muito envoltos em seus pensamentos, tentando pensar em algo para dizer a sua irmã mais nova quando ela voltasse.

Houve alguns minutos de silêncio antes de apenas uma pessoa descer de volta. Albus franziu o cenho.

"Tonks? O que houve?" Foi Molly quem falou.

"Ela não quer falar conosco, Nymphadora?"

"Não… Ela… Ginny está desaparecida."