Disclaimer: Nada é meu. Harry Potter (a família Weasley e assim por diante) pertence à JKR e àqueles que publicaram os livros dela. Damien pertence à Kurinoone e a história por trás de Harry meio que pertence a ela também. Eu estou fazendo isso por diversão (e para dormir em paz) e não estou ganhando dinheiro algum com essa história. Há partes da história que foram escritas por JKR e partes que foram escritas por Kurinoone.

Chapter Fourteen – A Light In The Dark

(Uma Luz no Escuro)

Tonks esperou pacientemente. Mesmo que a maioria não soubesse e não achasse possível, paciência era algo que todo auror precisava. Ela chegara há três horas e foi uma das últimas a chegar. Era apenas para se certificar de que não havia nenhum Comensal da Morte por perto... ou se tivesse, que eles não percebessem o que estavam fazendo até que fosse tarde demais. Escondida por trás de um rosto e um corpo diferentes, ela correu de leve por algumas ruas, observando o ambiente e, ao mesmo tempo, desenhando a linha dos escudos anti-aparatação. O velho Michael, que desenhara milhares de escudos anti-aparatação em sua carreira, tinha feito o trabalho de verdade e desenhando os escudos.

Não havia como alguém aparatar ou desaparatar perto de Ginny agora. Após a corrida, a auror se dirigiu a uma loja que tinha alguns provadores. Ela saiu do provador com o novo corpo e um novo rosto.

Durante uma hora mais ou menos caminhou pela praia. Em seguida fez uma rápida visita a um restaurante, especialmente ao banheiro. Saiu de lá com outra aparência novamente. Encontrou Remus – ele tinha tomado Poção Polissuco e estava com aparência de um trouxa – e eles foram novamente para o local do encontro, discretamente verificando o lugar.

Ninguém que não devesse estar ali esteve por perto. Antes de tomar a posição final, ela verificou se todos estavam onde deveriam estar, e eles estavam. Mudou a aparência uma última vez e caminhou em direção a uma pequena casa vazia, na qual esperou. Ela já estava lá. Dumbledore chegara ao ponto de falsificar um tubo destruído e um pouco de gás vazando para evacuar todas as pessoas que moravam naquele quarteirão. Ele queria se certificar.

Finalmente seu colar ficou quente e ela entrou em ação. Ginny chegara. Tonks abriu a porta da frente e trancou-a cuidadosamente com uma chave trouxa. Virou-se e desceu as escadas, encontrando-se com a ruiva, que estava olhando em volta, confusa.

"Com licença, posso te ajudar, Senhorita?"

Um suspirou escapou dos lábios de Ginny e ela sorriu.

"Isso seria adorável. Estou procurando por uma rua chamada: 'The Sanddle.'"

Tonks sorriu.

"É um pouco complicado chegar lá, mas estou indo nessa direção de qualquer forma. Eu vou te mostrar o caminho."

"Obrigada! Se realmente não for um problema…"

"Siga-me, querida."

Tonks foi à frente, mesmo indo devagar. Ela tinha que agir conforme a idade que aparentava.

Elas fizeram o caminho pela rua, Ginny logo após ela.

"Perdão, você tem um relógio? Pode me dizer que horas são, senhora?"

Tonks assentiu, olhando no relógio.

"São quase três horas."

A garota corou. Elas tinham praticado essa parte incessantemente até que Kingsley lhe dera o conselho de pensar na coisa mais constrangedora que viesse em sua mente. Não havia problema quando se tinha a habilidade de fazer a face ficar vermelha sem realmente corar. Ser uma metamorfomaga tinha suas vantagens.

"Sem querer ser rude, mas… pode me dizer quantos minutos faltam para as três? Eu tenho um encontro às três e..." A garota corou novamente.

Tonks sorriu compreensiva.

"Um garoto, eu presumo?" Ela olhou novamente para o relógio, apenas fingindo, pois é claro que sabia exatamente quanto tempo elas ainda tinham. "Faltam dez minutos, e não está longe. É por aqui." Elas dobraram uma esquina. "Fique atenta com aquelas árvores ali, a maioria dos vizinhos levam os cachorros para lá, se você me entende."

Ginny assentiu, ela entendera. De antemão eles tinham falado sobre Tonks avisá-la onde exatamente o último membro da Ordem estava. Ela não podia ir além ou eles não conseguiriam alcançá-la.

"Obrigada, novamente."

"Por nada, Senhorita. Eu tenho que ir nessa direção..."

Tonks diminuiu o passo, acenando para Ginny antes de virar noutra esquina. Ela caminhou até a casa seguinte e apertou a campainha. Remus abriu. Ele também estava disfarçado. Juntos, eles mudaram a aparência mais uma vez e saíram da casa como um jovem casal.

Eles caminharam para outra árvore, não longe de onde Ginny estava, e se beijaram algumas vezes. Não estavam tão envolvidos naquilo, mas continuaram verificando o local sutilmente. Tonks agarrou a varinha, que estava dentro de sua jaqueta. Eles se separaram e a auror segurou a varinha com mais força, mas sem sacá-la. Olhou novamente no relógio e viu que eram três horas em ponto. Seus olhos correram de uma casa à outra, de uma esquina à outra.

Seu coração acelerou quando notou algum movimento. Um segundo ou mais se passou antes que ela pudesse ver alguém dar um passo em sua linha de visão. Seus olhos correram pelas roupas trouxas que ele usava. Ela tinha esperado que ele usasse vestes. O garoto vestia um jeans trouxa azul escuro e um casaco escuro, que estava aberto, de modo que ela podia facilmente ver um pulôver cinza e um lenço verde escuro. Mesmo vestido em roupas trouxas, tudo nele parecia sonserino. As mãos estavam enterradas nos bolsos do jeans, e ele deu algumas olhadas ao redor antes de avistar Ginny.

Ela estava do outro lado da rua, o cabelo ao vento. Seus olhos pareceram se encontrar, Tonks não podia realmente ver à distância, mas a ruiva começou a se mover e ele apressou o passo. Parecia que eles iriam se encontrar próximo a Alastor. Ao menos se algo saísse errado, Olho-Tonto desconfiado não poderia culpar ninguém. Eles finalmente se encontraram, e apenas por seu treinamento de auror ela viu as mãos dele se moverem. Para pessoas normais ele não teria sido mais que um borrão. As mãos dele estavam no cabelo da garota e os lábios nos dela. Não muito longe, pôde ver Arthur agarrando a varinha com mais força. Aqueles provavelmente foram os piores segundos para ele. Tonks contou, mantendo os olhos onde sabia que Olho-Tonto estava. Cinco, quatro. Ginny colocou os braços ao redor dele e o puxou para perto, como Tonks e ela tinham praticado anteriormente. Perfeito. Um. Ação.

xxx

Harry passou a mão sobre o pedaço de pergaminho novamente, alisando-o ainda mais. Ele tinha lido o bilhete com tanta frequência desde que o recebera que sabia as palavras de cor, mas sempre que pensava sobre ele, o pegava de qualquer forma. Talvez estivesse sendo sentimental. Talvez apenas quisesse ver a letra dela novamente. Mas era mais provável que quisesse ter certeza que se lembrava de cada palavra, que não se esquecesse de nenhuma.

Se você não tivesse escrito o que escreveu, eu não teria sugerido isso, mas você escreveu e agora eu vou sugerir. Eu sei que provavelmente não é o certo ou a coisa mais inteligente a fazer, mas eu não apenas quero te ver, eu preciso te ver. Eu não consigo parar de pensar em nós dois, em você. Eu preciso de você.

Na terça-feira eu posso sair de fininho por duas, talvez três horas. Eu vou dizer a eles que estarei visitando um amigo... não é muito tempo, mas acho que é o bastante para o primeiro encontro. Em Paigton, três da tarde, a rua se chama "The Sanddle." Tem uma espécie de parque. Você não pode me ignorar.

Ele respirou fundo, dobrou a carta, colocou-a no bolso e foi até o ponto de aparatação.

Apareceu exatamente onde queria, bem no liminar dos escudos anti-aparatação. Seu pai enviara um Comensal da Morte para verificar se havia algum escudo, pois não queria arriscar. Harry protestara um pouco, mas concordou no final. Ele tinha encontrado um escudo. Foi nesse momento que souberam que era um plano de Dumbledore. O garoto se proibira de pensar sobre isso. Ele apenas ia e faria o que esperavam que ele fizesse. Apenas mais uma missão, nada para se preocupar. Segurou o botão no bolso de seu jeans com mais força antes de olhar em volta e achar a rua pela qual tinha que ir para encontrar seu destino. Apressou o passo, olhando com cuidado ao redor. Esperava desesperadamente que ela estivesse lá.

Harry virou a esquina, notando o parque assim que o fez. Ele fez uma pausa, escondendo-se de todos, especialmente do olho mágico de alguém... se ele estivesse ali. Rapidamente, verificou em volta, certificando-se de observar todos os pontos possíveis para se esconder. Não que realmente importasse, mas ele queria ter certeza. Finalmente deixou-se aparecer. Segundos depois, sentiu vários pares de olhos sobre si.

Por pretexto, deu mais uma olhada em volta antes de se focar apenas nela. Ela estava em pé em meio à campina, algumas árvores ao seu redor. Continuou se virando até notá-lo. Seu cabelo ruivo estava esvoaçando ao sabor do vento. Ela o segurou, tentando afastá-lo do rosto. Ele viu os cantos de sua boca formar um leve sorriso quando o avistou. Sem perceber o que estava fazendo, ele apressou o passo novamente, cruzando a distância entre eles. Ela se moveu também, correndo na direção dele. Quando a garota estava perto o bastante, ele pressionou os lábios nos dela e tocou-lhe o cabelo, seus dedos correndo por ele, enquanto ainda segurava o botão. Ela não pareceu perceber. O perfume familiar inundou seus sentidos. Ele tentou ignorar, mas não conseguiu e respirou fundo novamente. Sentiu seus pequenos braços o envolver e segurá-lo com firmeza. Por um segundo ele fechou os olhos, tentando esquecer de tudo. Lentamente, ele tirou uma das mãos de seus cabelos e acariciou um dos seus braços. Ela diminuiu o aperto um pouco, tornando possível ele sair daquela posição. Sua mão procurou a dela e a segurou.

Os olhos dele contemplaram os dela. Ela abriu a boca levemente e sussurrou:

"Sinto muito."

Girando-a num rápido movimento, ele a pressionou contra o peito e deu de cara com vários membros da Ordem. Ele não soltou sua mão, mesmo quando ela tentou se livrar da dele. Um segundo depois, ele sentiu um número de varinhas pressionadas contra seu pescoço.

"Solte-a."

Harry aumentou o aperto ainda mais, inclinando-se um pouco, de modo que sua cabeça ficou bem ao lado da orelha dela.

"O que eu te disse sobre pedir desculpas...?" sussurrou ele em seu ouvido, e sentiu-a se contorcer contra ele.

"Solte-a," repetiu o pai dela ao lado dele.

Harry sentiu as varinhas serem pressionadas com mais força contra seu pescoço. Ele se impediu de sibilar quando sentiu uma delas ficar afiada e perfurar sua pele.

"Nem tente escapar," rosnou Moody. "Há escudos anti-aparatação protegendo todo o lugar."

O garoto levantou a cabeça e sorriu. Ele viu alguns dos inimigos hesitarem. Patético. Verificou o botão em sua mão e a outra mão segurando a dela uma última vez.

"Deem-nos licença; nós temos outro lugar para ir; Ninho da serpente."

Harry sentiu o puxão familiar da Chave do Portal no umbigo e rostos chocados desbotando em meio ao turbilhão de cores enquanto o mundo desaparecia ao redor deles. A viagem durou apenas alguns segundos. O garoto sentiu os pés baterem no chão. Normalmente ele conseguia ficar em pé – depois de um pouco de treino, é claro – mas por ainda estar segurando a mão dela, não conseguiu não perder equilíbrio. Eles caíram juntos no chão duro.

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O familiar puxão da Chave do Portal cessou e Ginny caiu. Fechando os olhos, ela esperou cair no chão duro, mas não aconteceu. Em vez disso, aterrissou em algo mais macio, mas não teve tempo de ver o que era, pois no momento que chegaram, ela foi brutalmente obrigada a ficar de pé e alguém agarrou seus braços, forçando-os dolorosamente para trás e os amarrando. Um feixe de luz vindo de algum lugar à sua direita a atingiu e a garota sentiu sua varinha voar do esconderijo. Ela piscou algumas vezes, tentando limpar a visão. Conseguiu e viu onde estavam. Eles estavam numa sala com paredes altas e escuras. A luz do local era pouca, dando-lhe uma atmosfera assustadora. A ruiva não conseguiu ver mais porque estava ladeada por várias pessoas vestidas com capas pretas e máscaras. Seu coração apertou. Comensais da Morte.

Seus olhos correram em direção a Harry, que estava há poucos metros dela, limpando alguma sujeira de seu jeans. Com um estalo percebeu que provavelmente aterrissara encima dele. Ele passou a mão pelo casaco, que se transformou numa capa escura. Seus olhos se encontraram por um segundo, mas ele desviou o olhar. Em vez disso, ele se fixou em algo que estava ao lado ou atrás dela. O garoto inclinou a cabeça ligeiramente.

"Pai."

Ginny estremeceu, não ousando se virar. O Comensal atrás dela soltou-a e todos à sua volta caíram de joelhos, curvando-se profundamente. Eles ficaram lá, sem sequer olhar para cima, apenas encarando o chão. Ela escutou passos macios, que ecoaram levemente. Eles ficaram mais altos, e pelo canto do olho ela viu suas vestes negras. A garota abaixou os olhos mais ainda, olhando intensamente para o chão, tentando o máximo possível não pensar em onde provavelmente estava, para que localização tudo estava apontando. Não podia ser verdade. Era apenas um pesadelo e a qualquer segundo ela acordaria.

"Levante-se." A garota estremeceu.

Em sua cabeça, escutou a mesma voz ordenando sua morte. Os Comensais da Morte levantaram-se silenciosamente, quase como se fossem uma só pessoa.

"Acredito que devam mostrar o quarto à nossa convidada."

"É claro, Milorde," disseram os homens em uníssono.

Alguém a agarrou bruscamente por trás, fazendo-a tropeçar, mas ela conseguiu recuperar o equilíbrio no último segundo. Ficando de pé mais uma vez, não pôde evitar de olhar para Harry de novo. Ela suprimiu outro calafrio. O rosto dele estava completamente inexpressivo, os olhos frios e duros, sem emoção alguma. Eles não amoleceram nem mostraram qualquer outro sinal de que estava sentindo alguma coisa naquela ocasião. Não tinha importância para ele. Ela engoliu em seco e não reagiu quando um Comensal da Morte a arrastou para longe dele. Ele manteve a mesma expressão, mesmo que seus olhos estivessem focados na garota até que finalmente passaram por uma porta grande, que se fechou atrás dela. Enquanto eles a arrastavam por um corredor, ela encarou a porta como se estivesse paralisada. Como estava sendo arrastada de costas, não demorou muito para tropeçar novamente. Eles a soltaram imediatamente e ela colidiu com o chão. Sem ter como se proteger com as mãos, que estavam amarradas, a jovem caiu de cara no chão. A dor foi imensa.

"Levante-se," mandou alguém.

Ela tentou, mas estava difícil, não estava acostumada a se levantar sem usar os braços e as mãos. Alguém agarrou seu cabelo e o puxou. Ginny não conteve o grito de dor. Alguém a arrastou e colocou-a sentada, tornando possível que se levantasse novamente. Uma varinha foi pressionada em suas costas enquanto se levantava.

"Mexa-se ou eu vou fazer você se mexer," disse outra voz.

Ginny tremeu, mas fez o que lhe disseram. Não queria nem imaginar o que eles fariam para forçá-la a andar. Passaram por longos corredores, que pareciam ser iguais. Apenas depois de virarem três ou quatro esquinas a garota perdeu o rumo. Ela não fazia ideia de onde estavam indo, de onde estava... ou de como conseguiria sair dali.

Depois que desceram algumas escadas, vários Comensais da Morte ficaram para trás, e agora apenas dois ainda caminhavam com ela. Ela tentou olhar em volta, mas a cada tentativa uma varinha era pressionada em suas costas, ficando mais afiada a cada vez, furando suas roupas e alcançando sua pele. De início ela arquejara, mas os Comensais da Morte riram cruelmente com o som, então agora ela mordia o lábio e tentava não deixar escapar som algum. Aquilo parecia fazer com que eles se esforçassem de modo que a varinha dele ou o que fosse estava ficando ainda mais pontiaguda, perfurando com mais frequência suas costas, mesmo com ela andando tão rápido quanto suas pernas aguentavam.

Eles desceram outro lance de escadas e parecia que o ar mudara enquanto desciam os degraus. Ginny não conseguiu não parar de andar quando ficou ciente de onde estavam. Havia fileiras de celas em ambos os lados do corredor, grades separavam ela e os Comensais da Morte dos prisioneiros. Outra pontada em suas costas a fez continuar. Não conseguiu se impedir de olhar para dentro de cada cela. Parecia que seus olhos não estavam mais dispostos a obedecê-la. Parecia que apenas tinha que olhar para elas. Nem todas estavam ocupadas, algumas estavam vazias, mas muitas não estavam, e a garota sentiu-se mais aterrorizada a cada pessoa que via. Algumas estavam sentadas logo atrás das grades, as mãos agarradas às barras, encarando-os com olhos vazios. Algumas estavam gritando e algumas chorando. Algumas imploravam para serem soltas. "Eu farei qualquer coisa!", "Por favor, me deixe sair! Eu não fiz nada!" Outras ficavam nas celas, gritando e xingando-os. Algumas pareciam não ser mais capazes de sentar. Estavam deitadas num canto da cela, algumas vezes fazendo barulhos estranho que a ruiva nunca ouvira antes, mas parecia que estavam sentindo a pior das dores que uma pessoa podia sentir. Algumas até pareciam estar mortas. Ginny sentiu vontade de vomitar, mas mesmo aquilo não parecia importar, já que a maioria das celas parecia que não eram limpas há décadas. A garota parou de respirar pelo nariz e preferiu se concentrar em respirar pela boca. Tudo cheirava terrível, mas ela tentou ignorar. O que tornou tudo ainda mais horrível foi o fato de que parecia que pessoas totalmente diferentes estavam ali: homens, mulheres, velhos, jovens, trouxas, bruxos. Até esperou ver crianças, mas não viu. Teve a impressão de que o mais jovem deles era poucos anos mais velho que ela.

Finalmente o Comensal à sua frente parou. Ginny espiou para dentro da cela ao lado deles. Estava vazia. Ela estremeceu. O homem à sua frente enrolou a manga da capa, revelando um crânio de cuja boca saía uma serpente. Ele levantou o braço e o pressionou contra a grade. Uma luz verde cercou o local onde o braço dele tocara. Ele deu um passo para trás, baixando o braço. Uma espécie de porta se formou e abriu.

"Passe para dentro," gritou o homem atrás dela.

A ruiva entrou, mas um deles a empurrou mesmo assim, fazendo com que ela caísse novamente. Ela lutou para se virar e eles riram. Alguns fios de seu cabelo estavam sobre seu rosto, atrapalhando-a. Ela tentou afastá-los, mas não conseguiu. Como desejava poder usar as mãos novamente. Ela tentou soltá-las, mas é claro que não conseguiu. Os guardas riram novamente.

"Talvez tenhamos algum tempo para nos divertirmos com você mais tarde. Espere por nós, está bem?" Eles riram. Alguém no corredor gritou.

Instintivamente, ela deslizou até a parede, tomando a maior distância possível daqueles homens. Pensou ter visto um deles sorrir por trás da máscara, mas não podia ter certeza. Eles fecharam a porta, que se transformou novamente em grades, tornando ainda mais impossível escapar. Eles se viraram e desceram pelo corredor novamente, indo na direção que tinham vindo.

Ginny estava feliz por eles terem ido embora. Não que quisesse estar onde estava, mas não queria saber sobre o que eles pensavam ser diversão. Ela estremeceu, mas não podia fazer nada. Seus braços doíam e ela tentou mudar a posição deles, mas aquilo não era possível, pois suas mãos estavam fortemente amarradas.

Eles a capturaram. Não, ele a capturara. Todos aqueles planos dos quais os membros da Ordem falaram. Quão certos estavam de que ela não iria se machucar. E agora? Agora ela estava ali, naquele local escuro, provavelmente o quartel-general do lado das trevas. Tudo tinha sido fingimento. O que aconteceria agora? Tentariam resgatá-la? Era possível resgatar alguém dali? Tinha visto todos aqueles prisioneiros, não achava que havia pessoas que se importavam com eles. O Ministério teria tentado libertá-los, mas obviamente não tentaram. Com um estalo ela se deu conta de que essas pessoas provavelmente eram aquelas que desapareceram e não foram mais vistas. Ela seria vista novamente? Iria ver sua família novamente? Seus irmãos? Sua mãe? Seu pai? Eles deviam estar se sentindo tão culpados agora e com muito medo. Nem mesmo sabiam se ela ainda estava viva. Iriam ao menos tentar encontrá-la? Ginny sentiu lágrimas brotarem de seus olhos. Ela não sabia de nada e estava completamente indefesa sem poder usar os braços e as mãos. Não conseguiria acertá-los e arranhá-los, e a faca que Kingsley Shacklebolt lhe dera na noite anterior era completamente inútil também. Teria que suportar tudo que fizessem com ela, e isso era certamente o pior de tudo.

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Ginny não sabia quantas horas passara na cela quando escutou algo além dos prisioneiros. Passos ecoaram mais abaixo no corredor. Havia algumas possibilidades agora. Ela podia ficar onde estava, deitada no chão, fingindo estar dormindo. Mas isso faria com que fossem embora? Provavelmente não. Ou poderia sentar-se, de frente para as grades, olhando-os nos olhos, vendo o quanto estavam se divertindo. E já vira o quanto gostavam de sua dor... então, provavelmente iriam apenas se divertir mais se vissem seus olhos assombrados e cheios de dor. Os passos ficaram mais altos. Talvez nem estivessem ali por causa dela. Mas a quem estava enganando? É claro que estavam ali por conta dela, eles disseram que voltariam. O medo se contorceu em seu estômago. Tentou não pensar no que eles poderiam, no que eles fariam com ela. Os passos estavam tão altos agora, que a pessoa deveria estar muito perto da cela. A ruiva franziu o cenho e escutou com mais atenção. Não parecia ser duas ou mais pessoas, mas apenas uma. Mas ela não tinha certeza, afinal, eles costumavam agir como se fossem um só.

Os passos pararam e Ginny fechou os olhos, tentando controlar a respiração. Alguns minutos se passaram, nos quais nada aconteceu, ou ao menos ela não percebera nada. Finalmente os passos soaram novamente, apenas dois ou três. Foi então que ela se deu conta de que a pessoa estava dentro da cela e provavelmente tinha apenas aberto a porta. Pensamentos e ideias corriam em sua mente, um mais idiota que o outro. Maneiras de se defender, modos de machucar quem quer que fosse, de evitar que ele a machucasse. Escutou a pessoa respirar suavemente e abriu os olhos de leve, tentando ver onde a pessoa estava. Não conseguiu, o que indicava que estava atrás dela. Ouviu a respiração de forma mais clara e, com medo, parou de respirar, sem nem perceber o que estava fazendo. Algo tocou seus pulsos, e com um estalo ela percebeu que devia ser uma varinha. Um segundo depois a coisa que prendia suas mãos tinha sumido. Ela puxou os braços, pressionando as mãos perto do peito, e não pôde se impedir de lançar um rápido olhar por cima do ombro. Olhos castanhos encontraram um par de olhos verdes. Por um instante pensou ter visto um flash de raiva em seus olhos, mas assim que pensou ter visto, desapareceu e ele ficou inexpressivo novamente.

"Consegue se levantar?"

A voz dele era mais fria do que ela se lembrava. A jovem estremeceu, mas assentiu levemente. Lutando com seus pés, ela notou que ele também se levantara. Provavelmente tinha se ajoelhado ao lado dela. Apertou a jaqueta em torno do corpo, olhando para ele. O que ele faria agora? Por que estava ali? Ela sibilou quando a jaqueta tocou seus pulsos. Ginny olhou para eles, e viu que estavam muito machucados e vermelhos onde tinham sido amarrados. Ela gentilmente os tocou, mas aquilo só fez piorar. A garota sibilou novamente, mas parou quando viu uma varinha pelo canto do olho. Ela levantou o olhar novamente.

Harry estava em pé ao seu lado, balançou a varinha e a ruiva sentiu sua jaqueta crescer mais. Olhou para si e viu que a peça de roupa fora transfigurada numa capa também. Ele deu um passo à sua frente e empurrou as grades, que emitiram um brilho verde antes de abrir. Ela saiu da cela e, com uma mão, segurou a porta aberta, gesticulando para que ela saísse também. Ele saiu e olhou para ele, mas ele não olhou de volta. Em vez disso, o garoto fechou a porta e as grades reapareceram. Ela usou aquele tempo para mudar de perna ligeiramente, e, contra sua calça, sentiu que a faca ainda estava lá. Seu coração batia rápido, aquela provavelmente seria sua única chance.

"Siga-me."

Harry caminhou na direção oposta à que Ginny viera com os Comensais. Eles viraram uma esquina, a garota indo há apenas alguns passos dele. Ele não se virou para ela nenhuma vez, e ela não podia dizer se ele estava verificando se ela o seguia ou não. O corredor de celas acabou e eles se depararam com algumas portas fechadas, mas o jovem continuou até que chegaram ao final do corredor, onde havia mais uma escada. Eles subiram, mas a ruiva teve a impressão de que não subiram tanto quanto ela havia descido anteriormente. Mas talvez tenha sido pela forma que eles a tinham tratado, afinal, Harry estava andando mais devagar que os Comensais e não a estava mandando se apressar. Era como se ele estivesse correspondendo à velocidade dela automaticamente. Finalmente chegaram ao topo da escada. Ela estava ofegante atrás dele, mas o garoto continuou e ela o seguiu. Olhou em volta e percebeu que a atmosfera mudara novamente. Parecia que a dor, o sofrimento e o mau cheiro tinham ficado para trás. Ainda estava escuro e assustador, mas em outro nível. Havia janelas nos corredores agora e através delas Ginny viu que estava escuro lá fora. Ainda seria o dia no qual fora capturada ou já era o dia seguinte? Na cela teve a sensação que pelo menos um dia se passara... mas dava para dizer no escuro? Sem a luz do dia?

Eles continuaram a andar e Ginny não pôde evitar de se sentir ainda mais cansada. Ela não tinha dormido, ou pelo menos não se lembrava. Tinha cochilado um pouco, pensara sobre tudo, mas o medo a impedira de relaxar. Era mais provável que não tivesse dormido. Após mais um corredor vazio sem fim, eles cruzaram com o primeiro Comensal da Morte. A garota desacelerou o passo, mas a respiração ficou mais rápida e o coração bateu ainda mais. Assim que o Comensal os viu, parou e curvou-se. A ruiva engoliu em seco. Harry nem ao menos olhou para ele e continuou andando. Lentamente, ela o seguiu. Quando passaram por ele, ela olhou por seu ombro e viu que apenas quando estavam quase no final do corredor o Comensal levantou-se e continuou seu caminho.

Depois de outro corredor e algumas portas – ela parara de contar – o garoto parou. Ela quase esbarrou com ele, pois não vira que tinha parado. Estavam de frente a uma porta idêntica às outras que eles passaram. Em vez de pegar a maçaneta ou acenar com a mão, Harry ficou onde estava. Um ruído estranho veio de algum lugar, e levou um tempo para Ginny perceber que era ele quem estava fazendo aquilo, e que parecia um silvo. Ela o encarou, sem acreditar no que ele estava fazendo. Ele era um ofidioglota!

A porta se abriu e ele entrou, desaparecendo na escuridão. Ela ficou imóvel, e não o seguiu. Seus pensamentos estavam correndo. Provavelmente aquela porta só podia ser aberta com uma senha. Era agora ou nunca. Ela se ajoelhou lentamente, e com as mãos trêmulas puxou a faca do coldre. Apertou-a nas mãos, de uma forma que não a machucasse. Após alguns segundos, que pareceriam muito mais longos, ele voltou, com uma sobrancelha arqueada. Quando ela não se mexeu, ele agarrou seu braço e puxou-a para dentro. Ginny olhou para a porta, que ainda estava aberta, e para ele. Suas mãos estavam tremendo ainda mais, mas ela nem se deu conta. Conseguiria mesmo machucá-lo? A garota fechou os olhos por um segundo e tentou esquecer quem a estava arrastando para longe da porta. Seu coração estava batendo tão alto e rápido, que ela não conseguia escutar mais nada. Num rápido movimento, ela levantou a mão e empurrou a faca na direção dele, tentando não acertar nada tão letal. Apenas machucá-lo o suficiente para conseguir correr. Tudo aconteceu tão rápido, que ela só tomou consciência quando sentiu que estava sendo pressionada contra a parede, o que a fez ofegar. As pequenas perfurações em suas costas – ou o que fossem – estavam queimando como o inferno. O rosto dele estava bem em frente ao dela e uma de suas mãos pressionada na parede ao seu lado. Os braços da garota estavam inutilmente pendurados ao lado do corpo, e a faca não mais estava em sua mão. Harry recuou um pouco e olhou para baixo, ela seguiu seu olhar e viu que ele estava segurando a faca e girando-a na mão.

"Uma faca, Ginny?" sussurrou ele. "Sério?"

Harry levantou o olhar novamente e seus olhos se encontraram. Os olhos dele não estavam tão frios quanto antes, mas também não estavam tão suaves como ela já os vira. Ele não parecia zangado ou confuso, parecia até que estava achando graça. Mas não podia ser. Ela ficou em silêncio.

"Há alguma outra arma que eu deva tomar conhecimento?"

Ela olhou em direção ao chão, mas balançou a cabeça.

"Não minta para mim."

A ruiva não pode se impedir de bufar e um pouco da raiva e do espírito de luta voltaram. Ela levantou os olhos e os focou nos dele.

"Não sou eu quem está mentido."

Ele olhou para ela por um momento, antes de pressionar os lábios formando uma linha fina.

"Tudo bem," vociferou ele. "Siga-me." Ele deu às costas a ela e continuou pelo corredor.

Ginny olhou em direção à porta mais uma vez, mas estava fechada. Fechou os olhos por uns instantes e lentamente deu um passo à frente, para que suas costas não doessem mais. Respirou algumas vezes para se acalmar e o seguiu pelo corredor, que era diferente dos outros, visto que tinha várias velas que espelhavam luz ao longo dele, tornando-o menos assustador, e a garota lembrou-se um pouco de Hogwarts e de seus corredores.

Eles passaram por mais portas, mas finalmente ele parou de novo. O garoto caminhava mais à frente dela que antes, assim ele já abrira a porta – com outra senha – quando ela parou ao seu lado.

Eles entraram juntos, mas Ginny parou assim que viu tratar-se de um quarto. Em vez de outro corredor, eles estavam num quarto grande, com janelas altas que o iluminavam. Diversos sofás estavam num canto, com uma pequena mesa no meio. Estantes estavam alinhadas nas paredes, mas estavam vazias. Parecia que alguém tinha tirado os livros. No outro canto, havia uma mesa com vários rolos de pergaminho, penas e tinteiros sobre ela. Ao lado da mesa e em frente aos sofás havia uma cama, na qual cabiam duas ou talvez três pessoas. Bem ao lado da cama havia outra porta e ao lado da porta um guarda-roupa. As cores que predominavam no quarto eram o preto e o verde.

"Você vai ficar aqui por enquanto," disse ele do meio da sala, onde estava em pé.

Ginny olhou em sua direção e viu que ele a observava. Ela assentiu e deu outra olhada em volta, sentindo-se confusa. Por que a mudança repentina? Por que não estava mais na cela e estava naquele quarto? Ela mordeu o lábio para não perguntar.

"Através da porta você vai encontrar um banheiro. Acredito que queira tomar uma ducha ou um banho, e no guarda-roupa têm algumas vestes que devem caber em você. Se não couberem, me diga e eu vou ver o que podemos fazer. "

Sem dizer mais nada, ele atravessou o quarto novamente e passou pela porta da qual eles tinham vindo, que fechou e a mesma luz verde que aparecera na cela a iluminou, mas a porta continuou onde estava.

Ginny estava sozinha. Ela deu um passo adiante, seus olhos pousaram nas janelas, mas não seria capaz de ver nada agora de qualquer forma... e como ele dissera que ela ficaria ali, haveria tempo suficiente para olhar através delas quando ficasse mais claro. Olhou para si e viu que havia sujeira em suas mãos, na calça e na capa. Ele estava certo, um banho parecia bom. Talvez a água quente a ajudasse a descobrir o que fazer em seguida. A garota cruzou o quarto e entrou no banheiro. Em comparação com o outro cômodo esse era pequeno, mas um pouco maior que o banheiro que ela costumava usar n'A Toca. Tinha um chuveiro, uma banheira, um sanitário, uma pia e dois espelhos grandes. Um ficava bem ao lado do chuveiro e ia até o chão e o outro ficava acima da pia. Ela se aproximou do que ficava acima da pia e olhou para ele. Estava horrível, o cabelo e o rosto estavam sujos, provavelmente do chão da cela no qual se deitara.

Lentamente foi até a porta e a fechou. Em seguida despiu-se da capa, tentando ser o mais delicada possível. As costas doeram um pouco, mas era suportável. Os punhos estavam pior. Após a capa, puxou o suéter pela cabeça, sibilando quando tocou as feridas. A ruiva se virou e olhou no espelho. Pequenas feridas e contusões eram visíveis, em alguns lugares podia ver sangue ressecado. Ela fez uma careta. O que devia fazer com aquilo? Ela se virou, não suportava mais olhar. Pareciam ficar piores se olhasse muito. Em vez disso, focou-se no suéter, tirando-o do avesso. Estava cheio de pequenos buracos, através dos quais alguma coisa a perfurara. Ela estremeceu e olhou para o chuveiro. Era mesmo uma boa ideia tomar um banho? Desejou que Ron estivesse ali, ou sua mãe. Eles saberiam o que fazer.

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Harry fechou a porta atrás de si, e finalmente deixou as emoções à mostra. Ele estava com raiva. O que diabos eles acharam que estavam fazendo? Amarrando-a daquela forma? Não a soltando na cela? Machucando-a? O rapaz cerrou os punhos, tentando se acalmar de alguma forma. Amarrar os prisioneiros fazia parte do procedimento, mas apenas até chegar às celas, onde eles eram soltos, a menos que algo acontecesse para que fosse necessário amarrá-los. Ele não conseguia imaginar que ela tivesse feito algo que levasse a isso. Parecia que eles não a soltaram em momento algum. Outra onda de raiva tomou conta dele. Descobriria quem foram os bastardos que a machucaram.

"Já terminou?" disse uma voz bem ao seu lado.

Surpreso, ele se focou e xingou silenciosamente. Sequer ouvira Bella se aproximar.

"Você sabe quem ficou responsável por ela?"

A mulher franziu o cenho.

"Nott e Goyle… por quê?"

'Nott… por que sempre é Nott?' Harry pensou.

"Ela está horrível."

"Eles a machucaram?"

O garoto assentiu e notou que os punhos ainda estavam cerrados. Ele relaxou.

"Encontre algumas poções curativas para ela, Bella."

Ela assentiu, mas não parou de olhá-lo.

"Então, você ainda não se divertiu, hã?"

Harry a encarou.

"Estou apenas perguntando," disse ela, levantando as mãos.

"Como você sabe disso de qualquer forma?"

"O Lorde das Trevas me informou, é claro. Ele me contou tudo sobre a missão que completou. Muito bem, devo dizer. Mais um traidor morto..."

Harry nada disse, apenas olhou para frente. Ele nem ao menos escutou o que ela falou, estava tentando pensar em formas de pegar Nott e Goyle.

"Meu príncipe?"

Harry olhou para ela novamente.

"Encontre as poções para ela agora."

Bellatrix franziu a testa.

"O que você vai fazer?"

"Não é da sua conta."

"Você vai atrás de Nott e Goyle, não é?"

O garoto a encarou por um instante e assentiu.

"Eles não obedeceram às ordens."

Bella ficou calada e o observou sair apressado pelo corredor. Quando ele estava passando pela porta do seu quarto, ela chamou por ele:

"Não os mate, está bem?"

Harry lançou-lhe um olhar zangado. Ele não iria matá-los, não que não quisesse, mas depois do fiasco com o Comensal da Morte que ele matara durante o ataque ao Expresso de Hogwarts, não faria aquilo.

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Bellatrix esperou até ele sair de vista antes de franzir o cenho. Nott tinha saído da linha e merecia ser punido, mas a Comensal não gostara da aparência de Harry ao pensar naquilo. Era como se fosse algo pessoal. Não era... não mesmo.

A única coisa que ela podia fazer era analisar aquilo com mais profundidade, observá-lo e se algo inexplicável como aquilo acontecesse novamente, ela iria ao Lorde das Trevas. Mas agora? Não havia muito que pudesse dizer e sabia o quanto ele não gostava de ser incomodado com bobagens. Decidiu que não havia muito a fazer... ela viera procurar por Harry, já que estava entediada, e torceu para que pudessem treinar um pouco mais, mas parecia que tinha outra tarefa agora. Focando-se nisso, decidiu dar uma olhada na garota antes de procurar pelas poções. Não que fosse muito boa com curativos ou coisas desse tipo, mas ela sabia o básico, e eles não podiam a ter machucado tanto assim.

Pressionou a marca negra contra a porta, que emitiu um brilho verde antes de se abrir. Silenciosamente, entrou e olhou em volta. A garota Weasley não estava ali. Bella ficou intrigada, mas então seus olhos pousaram na porta do banheiro. Dando de ombros, ela foi em direção à porta e a abriu. Não era como se nunca tivesse visto garotas possivelmente nuas antes.

Ela ficou na porta, seus olhos fixos na jovem. Olhou para as costas dela através do espelho e em seguida para o suéter no chão. Bella aproveitou que ela não estava olhando para observar suas dimensões. Ela era menor, muito menor que Harry, mas não estava certa disso já que ele não estava ali para comparar. Talvez fosse uma cabeça menor que ele, talvez fosse um pouco mais alta. Ela parecia magra e frágil, fácil de quebrar, mas devia ser por conta de sua pele de porcelana. Seu longo cabelo ruivo estava sujo e espalhado sobre o peito, para que não tocasse nos machucados em suas costas, os quais a Comensal podia ver pelo espelho. Pareciam desagradáveis, mas nada muito sério. Um Episkey ou uma pomada cicatrizante provavelmente iria curá-los.

Os olhos dela encontraram um par de olhos castanhos. Um grito escapou da garota e ela agarrou o suéter firmemente contra o peito. Bella deu outra olhada no corpo dela de cima a baixo. Alguém possivelmente poderia achá-la atraente...

Ela zombou da garota, o que a fez recuar vários passos. Bella se coçou parar sacar a varinha e mostrar àquela garotinha do que era capaz, mas não o fez. Harry ficaria furioso.

"Posso ver o que ele vê em você." A Comensal sorriu, assustando a garota ainda mais. "Você não é feia, é sangue puro, o cabelo..." Ela parou. Ela não era bonita o suficiente para Harry.

"O que… o que você quer?"

Bella estreitou os olhos em sua direção.

"Você não está na posição de fazer perguntas, Weasley."

A ruiva se encolheu. Patético. Mas ela conseguira o que queria. Sem nenhuma palavra – sabia o quanto aquilo a deixaria maluca – ela se virou e saiu do quarto temporário da garota. Não era como se Weasley fosse ficar muito tempo ali. Harry perderia o interesse nela, e então ela teria o tratamento que todos os presos recebiam.

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Ginny encarou a porta pela qual Bellatrix Lestrange saíra. Seu coração, que de alguma forma tinha se acalmando quando ficou sozinha, tinha começado a bater o mais rápido possível quando percebeu a presença da mulher. Lestrange, Comensal do ciclo interno, conhecida por matar e torturar sem piedade, acabara de estar no mesmo quarto que ela e não a machucara. Não fazia ideia do que a mulher queria. Provavelmente não fora ali para olhar para ela... mas isso foi tudo que fez, não é? Não adquirira novos machucados, não é? Não... ela não era tão boa.

A ruiva caminhou em direção à porta mais uma vez, olhando se havia uma chave em algum canto. Não havia. Ela xingou. Nada impediria que mais pessoas entrassem, mas o que deveria fazer? Suspirou, decidindo que agora era melhor do que nunca... eles poderiam entrar mais cedo ou mais tarde. Mas agora provavelmente era o melhor momento, visto que dois já haviam entrado. Eles não voltariam tão rápido, não é? Ia ter que assumir o risco. Tirou a roupa o mais rápido possível, entrando no chuveiro. Fechou a cortina e ligou a água. Regulando a temperatura para que ficasse confortável, ela ficou ali, observando a água ficar suja. Seus músculos relaxaram na água quente. Segurou a cabeça ainda mais no fluxo de água, fechando os olhos, apenas ficando ali por um tempo. Após algum tempo, os abriu novamente e olhou para baixo. A água que corria por seu corpo estava limpa novamente. Ela não usou xampu, pois não queria arriscar que caísse nos ferimentos. Lentamente, desligou o chuveiro, saiu do boxe e pegou uma toalha. Secou-se com cuidado, nem sequer tentando secar as costas, que teriam de secar naturalmente.

Atravessou o banheiro novamente e deu uma olhada no espelho depois de livrá-lo do vapor. Seu rosto estava pálido, mas limpo, agora. A garota sorriu cansada para o reflexo, que acabou parecendo mais uma careta. Sem se importar, virou-se para as roupas e vestiu-as novamente. Desistiu de colocar o suéter e usou a peça de roupa para se cobrir antes de abrir uma fresta da porta. Sentiu o ar frio bater nela e estremeceu. Olhou cuidadosamente para o quarto e engoliu em seco quando viu a cabeça de Harry ao longo da fileira de um dos sofás.

Abriu mais a porta e entrou no quarto, atravessando-o o mais silenciosamente possível. Mantendo um olho no garoto, chegou até o guarda-roupa sem ser notada... ou foi o que pensou. Assim que abriu a porta – estava certa de que não tinha feito nenhum barulho que ele pudesse ter ouvido – ele falou.

"Espere um momento."

Pouco a pouco, a ruiva girou a cabeça e olhou para ele por cima do ombro, segurando o suéter com mais força contra si.

"Venha aqui."

Deveria ir? Ele a machucaria? Provavelmente não. Lentamente, caminhou na direção dele. Quando parou ao lado de um dos sofás, ele se levantou e gesticulou para que ela sentasse. Ela o fez.

Apontando para uma mesinha, ele disse:

"Tome a poção."

Ginny olhou para a garrafa e balançou a cabeça. Quão ingênua ele achava que ela era?

"Não é veneno."

"Como se eu fosse apenas confiar na sua palavra…"

"Não ganharíamos nada envenenando você."

"Eu não vou beber."

Ele ficou em silêncio por um momento, mas a ruiva não olhou para ele.

"Tudo bem... não beba. Vire-se, então."

Surpresa, ela afastou o olhar da garrafa e virou a cabeça na direção dele.

"O quê?"

"Vire-se."

"Por quê?"

"Eu quero ver suas costas." Desconfiada, ela olhou para ele, mas o garoto a encarou de volta. "Eu não vou machucar você," prometeu depois de um tempo, seus lábios pressionados numa linha fina.

Algo brilhou nos olhos dele, ela não conseguiu interpretar, mas parecia que aquilo a fizera escutar.

A garota fitou a janela e xingou-se enquanto olhava para si e para o quarto pelo reflexo no vidro. Tinha esquecido totalmente daquilo: é claro que ele a tinha visto chegar. Ginny fixou os olhos nele também, e o observou sacudir a mão. A varinha apareceu nela. Ele a apontou para suas costas, e a ruiva se encolheu, afastando-se dela. Ele não a machucaria... não é? Ela o viu franzir o cenho e em seguida uma expressão de compreensão apareceu em seu rosto.

"Espere um minuto. Volto num instante."

Antes que ela pudesse dizer qualquer coisa, ele saiu pela porta e fechou-a atrás de si.

O que significava aquilo agora? O que ele estava fazendo? Seria melhor se esconder? Ele iria machucá-la? Ginny engoliu em seco e seus olhos se fixaram na janela novamente. Deveria tentar ver alguma coisa? Olhar onde estavam? Ver se podia arriscar quebrá-la e pular? Antes mesmo que pudesse se levantar, a porta abriu novamente e ele entrou, segurando algo nas mãos. Ela não conseguia mais ver sua varinha.

Ele atravessara o quarto numa questão de segundos e ficou em pé atrás dela novamente.

"Isso provavelmente vai arder um pouco, mas vai melhorar logo depois."

Confusa, ela virou a cabeça para trás e olhou para ele, mas ele não retribuiu o olhar. Em vez disso, seus olhos estavam fixos em suas mãos. A garota olhou para a janela novamente, virando a cabeça para o lado. Ele estava abrindo algo como um tubo. Ginny franziu a testa. Ele não estava planejando…?

Parecia que sim, porque ele finalmente abriu o tubo e colocou um pouco de pomada nos dedos. Gentilmente, tocou as costas dela, que não conseguiu conter o suspiro de surpresa.

"Dói?" Ela quase conseguia ouvir algo como preocupação em sua voz.

A ruiva balançou a cabeça.

"Não! Não mexa a cabeça, seu cabelo vai cair nas feridas."

Harry parou de passar a pomada nas feridas, e ela sentiu a mão dele em seu cabelo. Carinhosamente, ele alcançou alguns fios e colocou-os por cima do ombro dela.

"Pode segurá-los?"

Ao invés de responder, ela prendeu o suéter entre o corpo e os braços, tentando não pensar no que não estava vestindo. Com uma das mãos que agora estava livre, ela segurou os cabelos.

Ele continuou o trabalho. Ginny sentiu arrepios ao sentir os dedos do garoto caminharem lentamente de uma ferida à outra. A sensação de formigamento no estômago, que não sentira há séculos, estava de volta. Naquele momento, esqueceu totalmente da regra de não pensar nele e não confiar no garoto. Algumas vezes ardia um pouco, mas manteve a boca fechada. Não iria demonstrar aquilo, e não diria nada, podia suportar. Noutra vez, algo como um gemido escapou de seus lábios. Ela corara furiosamente, mesmo que tivesse sido tão baixo e abafado que estava quase certa de que ele não tinha ouvido.

Ele levou menos tempo do que a ruiva desejava, mas terminou. Quando lhe causaram os machucados, podia apostar que eram em maior número, mas tudo não parece mais quando é doloroso?

Ele caminhou ao redor do sofá e sentou ao lado dela.

"Mostre-me suas mãos."

Ela estendeu a mão livre para ele primeiro e o observou colocar mais pomada cicatrizante em uma das mãos enquanto segurava a mão dela com a outra. O garoto começou a passar a pomada no pulso dela em movimentos circulares. Ela olhou fascinada para os dedos dele, sentindo-se tentada a escorregar a mão sobre a dele e apenas segurá-la. Seus pensamentos vagaram para o breve beijo que haviam compartilhado há... sabe-se lá há quanto tempo aquilo ocorrera. Fora apenas fingimento? Suas cartas foram verdadeiras? Ele estava sentindo algo por ela? Ele terminou aquela mão e ela soltou o cabelo, oferecendo-lhe a outra mão. Deveria dizer alguma coisa? Deveria perguntar a ele? Uma breve olhada para o rosto dele a fez decidir que não deveria fazer aquilo agora. Ele terminou a outra mão.

"Obrigada," sussurrou ela, com medo de arruinar o que quer que estivesse havendo entre eles, enquanto ele fechava o tubo.

"Em primeiro lugar, você nem deveria ter sido machucada." Com um estalar, ela voltou à realidade.

"Eu… eu vou procurar alguma coisa para vestir."

"Você deveria dormir um pouco, deve estar cansada."

A ruiva apertou o suéter contra si ao se levantar.

"Que... que horas são?"

Pelo canto do olhou a garota viu algo piscar. Não conseguiu se impedir de virar a cabeça, e viu quando figuras no ar formaram a data e a hora. Quarta-feira, 22 de janeiro de 1997, 03:15. Com outro aceno da varinha, elas sumiram.

Aquilo respondia sua pergunta. Estivera na cela por menos de doze horas, embora tenha parecido mais. Tentando clarear a mente e parar de pensar tanto naquilo e nos demais prisioneiros que ainda estavam lá, e não num quarto aconchegante e confortável, sem alguém para cuidar deles – porque foi aquilo que ele fez, não foi? Tirando-a de lá, cuidado de seus ferimentos.

A ruiva caminhou até o guarda-roupa e deu uma olhada nele. Havia várias vestes e capas para mulheres. Tudo em cores escuras, e, por um instante, perguntou-se quem as havia escolhido e comprado, mas decidiu que não queria saber de verdade. Algo parecendo uma camisola chamou sua atenção e ela deu de ombros antes de pegar a peça. Eram apenas roupas. Nada para se preocupar. Nada que pudesse machucá-la. Não importava quem as tinha comprado. Apenas roupas. Fechou o guarda-roupa e dirigiu-se à porta do banheiro.

"Você não deveria dormir de costas. Você pode estar boa, mas é melhor ter certeza." Ginny assentiu, sem se virar. Ele achava que ela era idiota?

"Eu…" Ele fez uma pausa e respirou fundo. "Eles não vão te machucar novamente."

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Depois das agitadas horas após a captura dela, Harry não dormira bem.

Pouco depois que Nott e Goyle levaram-na da sala e seu pai tinha lhe perguntado sobre os membros da Ordem, chegaram notícias acerca de um traidor no meio deles. Seu pai com relutância lhe dera uma missão. Ele não queria que Harry saísse, mas no final concordou. O jovem completara a missão e matara o homem. Tinha voltado para casa e seu pai ficara tão satisfeito que lhe deu permissão para se divertir com Ginny, e parecia que preparara aquilo, pois disse que tudo estaria pronto para ela. O garoto não desperdiçou um segundo e foi direto para a cela onde ela estava sendo mantida. A aparência dela estava terrível. Levá-la até o quarto quase o deixara louco. Depois encontrou Bella, mas Nott e Goyle não foram encontrados em lugar algum na mansão, então, ele retornou à garota e cuidou de seus ferimentos. Em seguida procurou por eles novamente, mas lhe disseram que haviam voltado para casa. Seu pai lhe disse que cuidaria deles por terem desobedecido suas ordens. Harry ficou lá, sentindo-se zangado com aquela decisão pela primeira vez. Ele mesmo queria machucá-los, se vingar pelo que fizeram. Queria lhes dizer que não deveriam fazer aquilo nunca mais caso se importassem com suas vidas.

Ciente de que não conseguiria dormir, fora treinar um pouco antes de finalmente ir para a cama. Um pesadelo assim que adormecera o acordou às oito horas. Foi correr e após tomar um banho decidira que dar uma olhada em Ginny não era a pior coisa a fazer. Tinha que ter certeza de que não tinha apenas sonhado com toda aquela bagunça.

Era onde ele estava agora, em pé, de frente à porta, dando mais uma olhada na hora. Era muito cedo? Eram dez horas, mas talvez ela gostasse de dormir muito. Talvez nem tivesse dormido e estivesse acordada, e ele se preocupando por nada. Ou talvez ela só tivesse conseguido adormecer depois de horas acordada e ainda estivesse dormindo, e ele só iria acordá-la.

No fim, decidiu que poderia ficar onde estava o dia inteiro ou apenas dar uma olhada. Lentamente, abriu a porta e entrou, fechando-a suavemente às suas costas. Colocou os livros que trouxera sobre a mesa, antes de olhar em volta. Primeiro olhou para a cama, onde logo a encontrou. Ela parecia tão pequena naquela cama enorme, que ele se aproximou mais para ter certeza de que era mesmo ela e não outra pessoa. A garota estava deitada no lado esquerdo, e Harry não pôde deixar de notar que ele gostava mais do lado direito. Mas não avançou com aquele pensamento. Ela estava coberta até o queixo, assim ele não conseguia ver como estava deitada, mas supôs que tivesse puxado os joelhos para o corpo e estivesse enrolada como um gato. O cabelo vermelho estava espalhado sobre o travesseiro e brilhava sob a luz do sol que entrava pela janela. Sentiu vontade de se aproximar mais dela, de correr os dedos por seus cabelos ou se inclinar para beijá-la.

Para libertar-se daqueles pensamentos, aproximou-se de uma das janelas e a abriu. O ar frio de janeiro fluiu pelo quarto. Seus olhos vagaram pela paisagem enquanto respirava fundo algumas vezes.

Alguém estava olhando para ele. Ela havia acordado. Apressadamente, o rapaz fechou a janela novamente e se virou para encará-la. Ela estava sentada agora, encostada na cabeceira da cama e seu cabelo estava bagunçado. Ele baixou o olhar e fitou o pescoço dela e a camisola decotada. O jovem abafou um gemido, tentando não olhar para ela.

Dando uma olhada ao redor do quarto para evitar olhar para ela, seus olhos encontraram os livros e lembrou-se de uma das razões pelas quais viera até ali.

"Eu não queria te acordar." 'Me desculpe,' ele quase quis acrescentar, mas nunca pedia desculpas. "Trouxe alguns livros para você... coisas que você deveria estar aprendendo na escola." O garoto apontou para eles.

Quando a ruiva não disse nada, ele se virou para ela novamente, tentando se concentrar o máximo possível em seu rosto. Ela assentiu lentamente.

"Eu… err… eu deveria ir."

Harry disse e deu um passo até a porta antes de se lembrar de que aquilo não era uma boa ideia. Talvez alguém o vira entrar e pareceria suspeito se ele saísse tão rápido.

"Ou... talvez não." Ele parou, sentindo-se completamente idiota. O desejo de não parecer um completo idiota, instigou-o a se explicar. "Eles poderiam chegar à conclusão errada."

"As pessoas não costumam chegar a conclusões erradas se alguém fica muito tempo num quarto?" perguntou ela, sua voz quase um sussurro.

"É diferente."

"O que é diferente nisso?" Sua voz ficou um pouco mais alta e Harry se perguntou se era porque ela acabara de se acordar ou porque estava com medo de fazer perguntas.

"Eles meio que devem chegar à conclusão errada..." Ele parou de falar, sem acreditar que estava mesmo fazendo aquilo.

"Mas você acabou de dizer que eles não deveriam...?"

"Eles acham que estamos fazendo sexo," disse ele sem rodeios e se amaldiçoou alguns segundos depois. Parabéns!

"Quê?"

Ele nunca ouvira a voz dela tão alta. Ela estava corando como louca. Harry não achou que ela quisesse que ele repetisse aquilo. Olhando para baixo para evitar o olhar dele, ela pareceu notar seu estado de nudez e puxou o cobertor até o queixo.

Os pensamentos dele estavam correndo, tentando encontrar algumas palavras que a fizessem sentir-se mais confortável. Não achou nenhuma.

"Eu não estou interessado em você desse jeito," disse ele, mentindo entre dentes, deixando sua educação assumir o comando. Bloqueie suas emoções e minta!

"Ah, hum…"

A ruiva não levantara o olhar ainda, mas era como se algo tivesse mudado nela. Harry não conseguiu entender, e aquilo o fez sentir-se receoso. Após repetir a frase em sua cabeça, ele quase gemeu. Mas não era melhor assim? Jogar com ela e com os outros ao mesmo tempo? Fingir que estava dormindo com ela? Aqueles sentimentos idiotas logo iriam embora de qualquer maneira. Não iria se arriscar com isso, agora que levara tanto tempo para conseguir o respeito de seu pai. Não a deixaria arruinar aquilo. E ela estava mais segura desta maneira. Parecia que ele fizera sua decisão.

"Está com fome? Eu posso mandar um elfo-doméstico trazer seu café da manhã," disse ele, fingindo não perceber os sentimentos dela.

Ginny não disse nada, mas ele chamou um elfo mesmo assim. Durante toda a refeição ela não olhou para ele, e ele tentou ignorá-la antes de sair do quarto.

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"Você vai se mexer ou está planejando ficar aí para sempre?"

Harry olhou para Draco e percebeu que ele estava se referindo ao jogo de xadrez bruxo.

"Ah, aqui, xeque mate," disse Harry com preguiça.

O loiro olhou surpreso para o tabuleiro. Ele nem mesmo viu a jogada do amigo.

"Como você ficou tão bom no xadrez assim de repente?" perguntou Draco desconfiado.

Harry deu de ombros e se encostou na cadeira confortável.

"Eu sempre fui bom, apenas nunca tive muito tempo para praticar, só isso," respondeu ele.

O loiro hesitou por um momento, dando outra olhada no tabuleiro.

"Eu ouvi sobre a Weasley."

"Ouviu?"

"Onde ela está?" Draco olhou em volta, quase que a esperando saltar de algum lugar.

Harry o observou por um momento, antes de responder:

"No final do corredor."

"Ela está na sua ala?" A boca do loiro estava um pouco aberta e ele olhou em choque para o outro.

Harry assentiu e preparou um novo jogo.

"Eu não posso acreditar que ela está aqui..."

"Quer vê-la?" Harry sorriu de lado para ele.

"Não, muito obrigado! Não preciso ver a traidora do sangue!"

"Eu não acho que ela queira vê-lo também."

"Quem se importa com o que ela quer?"

Harry arqueou uma sobrancelha.

"Err... certo. Vamos esquecer isso... então... quão boa ela é em te divertir?" Ele sorriu estupidamente antes de fazer o próximo movimento.

O moreno olhou atentamente para o outro garoto antes de responder.

"Não é da sua conta."

"Não parece ser muito boa… então, vai se livrar dela em breve?"

Harry pensou rápido. Ele poderia mandá-lo calar a boca, e ele provavelmente se calaria imediatamente, mas o amigo provavelmente conversaria com Lucius, em breve Bella saberia e então todos se perguntariam por que ela ficava num quarto e não numa cela para prisioneiros. Sabia o quão sortudo era de ela ter sido autorizada a ficar ali, não queria arriscar aquilo.

"Não tão cedo, não. Só porque eu não quero falar com você sobre isso, não quer dizer que não seja... satisfatório."

"Espero que ela não te distraia das coisas realmente importantes," disse Draco enquanto olhava para o amigo repousando confortavelmente na cadeira.

"Malfoy, eu treinei direto por seis horas hoje, portanto pare com as gracinhas."

Os garotos continuaram a jogar xadrez. Meia hora depois, uma batida na porta foi ouvida e Lucius entrou.

"Draco, você está pronto para ir?" perguntou ele baixinho.

"Ainda não, pai," respondeu o loiro, concentrando-se na próxima jogada.

Harry sentou-se ao ver o Comensal entrar no quarto. "Essa é uma boa chance!" pensou o garoto.

"Por que você não espera aqui, Lucius? Você pode achar divertido assistir ao seu filho perder espetacularmente para mim," disse ele, olhando para o amigo de modo zombeteiro.

Draco olhou para ele e o fuzilou com seus os cinza.

"Certo! Vamos ver," disse o loiro e ordenou uma jogada, destruindo uma das peças de Harry.

Lucius sentou-se e observou os garotos jogarem por um tempo. Como esperado, Harry ganhou o jogo, deixando Draco muito frustrado e irritado.

"Eu não entendo! Você não era bom no xadrez. Era a única coisa na qual eu era definitivamente melhor que você. Por que diabos você teve que ficar tão bom nisso também?" perguntou o loiro maliciosamente.

"Draco! Cuidado com o que fala! Parece que você esquece com quem está falando às vezes. Harry é o Príncipe das Trevas. Você deveria segurar sua língua, ou o Lorde das Trevas vai tomar atitudes para removê-la!" disse o homem com veneno para o filho.

O garoto engoliu em seco e desviou o olhar. Harry achou que essa era a oportunidade que ele estava esperando.

"Lucius, você deveria relaxar um pouco. Meu pai não vai voltar para a Mansão até amanhã, portanto ninguém vai dizer nada sobre Draco e pare de me chamar de Príncipe o tempo todo! Está ficando irritante."

O rapaz conseguiu o que queria. O Comensal olhou para ele, mas antes que tivesse a chance de falar alguma coisa, Draco falou.

"O que há de errado em ser chamado de Príncipe? É muito melhor que qualquer outro apelido estúpido."

"É, acho que sim. Mas ainda é irritante," Harry respondeu. Ele fez uma pausa por um momento. "É melhor que ser chamado de 'pés tortos,' 'pãozinho doce' ou 'Wormtail'..."

Pelo canto do olho, Harry viu a reação de Lucius quando ele disse "Wormtail." O loiro estava sorrindo sobre os apelidos que ele estava dizendo, como "pés tortos" e "pãozinho doce," mas assim que disse "Wormtail," o sorriso desapareceu e o homem pareceu ficar alerta por um momento.

Não mais que dozes horas depois, Harry soube da verdade.

N/T: Finalmente o reencontro e muitas emoções! :) Espero que tenham gostado, eu amo esse capítulo. Digam o que estão achando da história ^^