Disclaimer: Nada é meu. Harry Potter (a família Weasley e assim por diante) pertence à JKR e àqueles que publicaram os livros dela. Damien pertence à Kurinoone e a história por trás de Harry meio que pertence a ela também. Eu estou fazendo isso por diversão (e para dormir em paz) e não estou ganhando dinheiro algum com essa história. Há partes da história que foram escritas por JKR e partes que foram escritas por Kurinoone.
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Chapter Fifteen – A Dark In The Light
(Uma Escuridão na Luz)
Ele levantou a cabeça e sorriu. Arthur fez a varinha ficar ainda mais afiada. Ginny estava lutando contra o aperto do rapaz, mas não conseguia se soltar. Pelo canto do olho, viu os outros hesitarem. Não havia nada que o Príncipe das Trevas pudesse fazer! Por que não a soltava? Por que não via que não havia nada que pudesse fazer?
"Deem-nos licença; nós temos outro lugar para ir. Ninho da serpente."
Diante dos olhos deles, eles desapareceram. Arthur tentou agarrar a filha, puxá-la para longe dele, mas ela se foi e ele só alcançou o ar. Chave do Portal. Eles se foram. Ela se foi para onde quer que ele a tivesse levado. Sua garotinha foi embora. A fúria tomou conta dele, eles tinham dito que ela estava protegida. Disseram que nada lhe aconteceria. Disseram que nada poderia acontecer a ela. Disseram que não permitiriam. Disseram que ele não iria machucá-la, que haveria tantos aurores que ele se focaria neles. Tinham mentido. Ela se foi, ela foi embora. Iriam machucá-la. O medo se instalou em seu estômago quando pensou nas coisas terríveis que poderiam fazer com ela. O que ouvira os aurores e membros da Ordem falando, o que lera nos jornais. Terríveis, coisas terríveis. Coisas que nenhuma garota, e certamente nem sua filha, jamais deveria sentir. Apertou a varinha com mais força, os dedos ficaram brancos. Moody sacudiu a varinha em volta, gritando alguma coisa, mas não conseguia entender uma palavra. Ele a levara. Alguém o estava sacudindo, mas ele não se importava. Ele a levara. Palavras abafadas eram faladas ao redor. Ele a levara. Todas as pessoas ao se redor desapareceram, e alguém segurou seu braço. Sentiu o puxão familiar da Chave do Portal. Ele a levara.
Aterrissaram em algum lugar, mas Arthur não se importava. Alguém estava ao seu lado, algo foi dito, ele não entendeu. Tudo estava borrado, parecia que o mundo parara de fazer sentido, mas até aquilo não importava. Ela não estava protegida. Alguém segurou seu rosto, forçando algo em sua boca. Ele engoliu e tudo pareceu ficar mais nítido.
"Qual é o seu nome?"
Ele olhou para a enfermeira, piscando algumas vezes contra o brilho da luz.
"Arthur Weasley."
"Está se sentindo bem?" Ela acenou a varinha, o ruivo a observou e finalmente assentiu.
"Você estava em choque e eu lhe dei uma poção calmante. Não terá de ficar aqui, mas eu vou te dar outra para o caso de a sensação voltar. Você é casado, Sr. Weasley?"
"Sim."
"Muito bem. Vou contatar sua esposa para lhe levar para casa e..."
"Não é necessário. Eu vou levá-lo para casa." Tonks aparecera ao lado da enfermeira, com o cabelo longo e escuro. Arthur olhou para ela.
"Eu… Eu posso ir sozinho." Ele ajustou os óculos no nariz antes de se levantar. A auror agarrou seu braço quando o mundo virou um borrão e ficou escuro.
"Eu vou levá-lo para casa, Arthur," disse ela novamente e acenou com a cabeça para a enfermeira, que lhe entregou outro frasco.
Lado a lado eles saíram do quarto, andando pelos corredores brancos antes de alcançarem a lareira. Tonks o ajudou a entrar e lhe entregou um pouco de Pó de Flu. Ele jogou o pó nas chamas e falou seu destino. Alguns instantes depois, parou de girar e pôde ver a sala de estar. Antes que saísse, Molly estava ao seu lado, seus filhos em pé, todos parecendo sérios.
"Arthur…?" Ele levantou os olhos e encontrou os da esposa. Sentiu lágrimas brotarem. "Onde está Ginny?"
O homem balançou a cabeça e caminhou até a cozinha, onde se serviu de uma xícara de chá, agarrando-a como se fosse sua vida. Ela se foi. Fechou os olhos e respirou fundo, não podia pensar naquilo agora. Ainda podiam fazer alguma coisa, ainda podia vê-la novamente. Ela não estava... morta. Arthur estremeceu e respirou fundo novamente, suas mãos tremendo levemente. Derramou um pouco de chá quente nas mãos, mas apenas observou a dor e a pele avermelhada, não fazendo nada para impedir aquilo. Tomou um gole de chá, a língua queimando com o liquido quente. Escutou vozes abafadas vindo da porta, mas tentou ignorá-las. Não queria ver suas faces quando soubessem o que tinha acontecido. Já sabia que podia ter feito mais, que podia ter sido mais rápido, que deveria tê-la empurrado quando ficou ao lado deles. Mas não o fez. As primeiras lágrimas caíram, rolando pelo seu queixo antes de pingarem na xícara de chá. Rapidamente, tentou limpá-las, mas elas começaram a cair mais ainda. Não podia chorar agora, ela precisava dele, precisava deles. Com raiva, atirou a xícara na pia, onde se despedaçou, mas ele nem ao menos piscou.
Correu até a porta e abriu-a com força. Vacilou em seus passos quando viu o rosto de Molly assolado pelas lágrimas e o rosto dos filhos. Os olhos deles estavam arregalados em horror, enquanto escutavam Tonks, cujo cabelo parecia ficar ainda mais escuro a cada palavra que dizia, até que ficou preto como a noite mais escura. A auror o viu e parou de falar, lançando-lhe um sorriso cansado.
"Precisamos fazer uma reunião," disse o homem enquanto cruzava o cômodo e parava ao lado de Molly.
"Eu falei com Kingsley, Arthur. Albus está ocupado no momento."
"O que ele pode estar fazendo que é mais importante que salvar Ginny?"
"Molly! Não é como se ele não estivesse trabalhando nisso! Ele está assistindo mais algumas memórias com Lily e James, tentando achar alguma pista sobre lugares para os quais ele pode tê-la levado."
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"Sim, sim, é claro Kingsley. Mas não pode ser agora. Vou entrar em contato com Lily e James nesse instante, e juntos vamos olhar mais algumas memórias. Talvez possamos achar algumas pistas antes de convocar uma reunião."
O auror acenou com a cabeça, antes de eles se despedirem e sua cabeça desapareceu nas chamas. Albus não pôde evitar de sentar-se em sua cadeira primeiro. Ele a capturara e eles não o impediram. Eles não tinham sido capazes de impedi-lo. Suspirou e fechou os olhos por um momento, retirando os óculos e esfregando o nariz e os olhos. Quase se sentiu muito velho para aquilo.
Os membros da Ordem ficariam furiosos… Molly estaria desesperada. Quem não estaria? Sua filha… sua única filha… capturada. Suspirou novamente. Notas suaves e calmantes encheram o escritório e Albus esboçou um leve sorriso para Fawkes. A música ficou cada vez mais alta, até que, com uma última nota alta, terminou. Por um momento, o diretor mergulhou nos novos sentimentos de esperança e se levantou, acariciando brevemente a fênix.
"Obrigada, minha velha amiga."
Sem desperdiçar mais nenhum segundo, tirou a Penseira e a varinha, e começou a olhar para as memórias que ainda estavam lá. Eles já tinham assistido a todas elas, e finalmente era hora de destrancar mais algumas. Desejou desesperadamente que não levasse muito tempo para descobrir como estavam protegidas. Mas em primeiro lugar as coisas mais importantes. Tirou alguns fracos vazios de uma gaveta, e, com a varinha, começou a tirar as memórias da Penseira, colocando-as nos frascos de vidro. Fechou cada um com cuidado antes de agrupá-las com as demais memórias que coletara em sua vida. Quando terminou, gentilmente tocou em cada frasco, tornando-os inquebráveis e um letreiro, no qual o nome de Harry estava escrito, apareceu em cada um.
Fechou a gaveta novamente e abriu outra, rapidamente tirando os livros e pequenos objetos dela. Franziu o cenho quando retirou todos eles. Estava vazia. Com uma mão, procurou dentro da gaveta, até alcançar seu fundo: não estava lá. Pegou cada item que retirara antes e olhou se já tinha tirado o objeto. Não tinha. Um breve accio depois, deixou-o sem entender também. O anel de Harry tinha desaparecido. Rapidamente, cruzou a sala e pegou um pouco de Pó de Flu. Mas antes que pudesse jogá-lo no fogo, uma cabeça apareceu.
"James, eu já estava indo lhe chamar. Acredito que tenho uma péssima notícia..."
"Você já sabe sobre a carta?"
Albus olhou para ele. Que carta?
"Não, acho que não."
"Sirius está convocando uma reunião. Queremos começar o mais rápido possível. Acredito que seja muito importante."
"Eu estarei lá num instante," disse Albus enquanto indicava o Pó de Flu em suas mãos. James assentiu e sua cabeça desapareceu. O diretor jogou o pó no fogo, que ficou verde. Entrou na lareira e desapareceu, aparecendo no Grimmauld Place, número 12, onde saiu da lareira.
James estava de pé à sua direita, e gesticulou para a mesa. Dumbledore seguiu seu olhar, nela havia uma pequena coruja morta. Sangue ainda corria sobre a mesa e sobre a carta verde escura, claramente pendurada em suas garras.
"É a coruja que eles utilizaram para se comunicar nas últimas cartas," disse Arthur.
Albus olhou por um momento para o animal, mas não havia mágica ali. Cuidadosamente, limpou o sangue da carta e a pegou. Lentamente, o homem a desdobrou. Seus olhos correram pelas poucas palavras escritas "Se vocês quiserem vê-la novamente, vão ter que parar de lutar." Fechou os olhos por um momento e suspirou.
"O que está escrito?"
"'Se vocês quiserem vê-la novamente, vão ter que parar de lutar.'" O diretor fez uma pausa e olhou com atenção para a mensagem. Fazia anos, mas... "É a letra de Tom."
Alguns deles ficaram intrigados.
"Tom?"
Albus sorriu tristemente. Ele sempre conectara aquela escrita com seu talentoso aluno Tom.
"Voldemort."
Alguns deles se encolherem, mas a maioria estava acostumada a escutar o nome… no entanto, apenas alguns realmente o pronunciavam.
"Então, ela realmente está com ele…" sussurrou James.
"Parece que sim," concordou Arthur. Ambos olharam um para o outro, antes de abaixar o olhar.
O diretor aproveitou o silêncio para olhar em volta. Percebeu que ao lado de Arthur e James, ambas as suas esposas e filhos estavam presentes, mesmo aqueles que não tinham idade suficiente para estar na Ordem. Sirius e Remus estavam de pé na porta, mas o resto não estava no cômodo.
"Há mais alguém aqui?" perguntou Albus.
"Tonks está lá encima, ela está preparando tudo. Moody e Kingsley devem chegar em breve... Não estou certo quanto aos outros..."
O diretor assentiu.
"Eu não acho que seja necessária a presença deles. Espero que sejamos breve." Os presentes assentiram. "Então, acredito que devemos subir e esperar por eles."
"Professor Dumbledore?" perguntou um pálido Damien Potter.
"Sim, Sr. Potter?"
"Eu e Ron podemos participar também?" E ao ver o olhar da mãe: "Eu sei que não temos idade suficiente e tudo isso, mas..." Ele indicou a carta na mão do homem. "É só que... eu... nós... é..."
"Eu entendo." E Albus entendia. Se tinha uma coisa que ele entendia era sobre família. Família acima de tudo. Ele sorriu tristemente. "Vocês podem se juntar a nós hoje, mas se eu perceber que a conversa está descambando para assuntos e direções os quais vocês não estão autorizados a ouvir, vou pedir para que saiam da sala, e tenho certeza que vocês escutarão imediatamente."
Um pequeno sorriso se abriu na face do jovem Potter.
"É claro, Professor Dumbledore!"
"Obrigado, Senhor," disse o irmão Weasley mais jovem.
O diretor assentiu e lançou-lhes um pequeno sorriso antes de dirigir-se ao andar de cima. Entraram na sala de reunião e todos se sentaram. Um silêncio pesado se estabeleceu, e as duas famílias evitavam se olhar. Não demorou muito para Alastor e Kingsley entrarem também. Eles assentiram em cumprimento e se sentaram.
"Obrigado por vi..."
"Sim, Albus. Poupe-se. Nós temos um problema, um problema muito grande," rugiu Moody. Todos os olhos pousaram sobre o auror depois disso. "Ele não a levou para jogar um jogo estúpido conosco ou não nos atacar, mas foi até lá e a levou consigo. Como ele sabia o que estávamos fazendo?"
"Alastor, Severus..."
"Albus, mas o que deveríamos pensar? Não sabemos por que confia nele! Você apenas confia! Ele encontra Voldemort de dois em dois dias, e nosso pequeno Príncipe todos os dias. Talvez não esteja espiando para nós, mas para eles! Esse plano era ultrassecreto. Nunca conversávamos sobre isso em locais onde poderíamos ser ouvidos. Um de nós deve ter dito a ele. E eu sei que não foram os Weasley. Arriscar a própria filha? Nunca. Eu não disse a ele também. O único que vejo fazendo isso é Snape!"
"Alastor, Severus não traiu nossa confiança."
"Como você sabe disso? Alguém deve ter…"
"Olho-Tonto, vamos lá. Não era difícil imaginar que ela não estava fazendo isso por conta própria. Nós sabíamos do risco." O olho mágico do auror virou na direção de Nymphadora, que apenas o encarou de volta. "Você sabe que é a verdade, mas está apenas à procura de uma razão para desconfiar de Snape."
Moody estava prestes a dizer alguma coisa, mas Albus decidiu interrompê-lo.
"Eu acho que esse não é o momento e nem o lugar para essa discussão. Como Alastor disse, nós temos um problema que parece até ter aumentado." Com a mão ele gesticulou para a carta verde sobre a mesa.
Os olhos de Olho-Tonto se fixaram na carta, mas foi Ronald quem falou.
"O que eu não entendo é como ele simplesmente conseguiu levá-la." Em seu tom de voz, o diretor podia claramente escutar a acusação.
"Essa é uma excelente pergunta!" concordou Molly. Albus suspirou, ele não tinha planejado analisar aquilo.
"Pelo que Kingsley me contou, ele tinha uma Chave do Portal consigo e a ativou. De alguma forma ele deve ter segurado a Chave na mão enquanto tocava nela também. O mais provável é que ele estivesse com a Chave enquanto segurava a mão dela."
"Mas… mas por que ele foi capaz de apenas usar uma Chave do Portal?" perguntou Damien Potter.
"Uma importante lição foi comprovada novamente hoje." Todos olharam para Moody. "Nunca confie no inimigo! Nunca deixe nenhuma ponta solta! Eu sabia que era uma péssima ideia fazer isso sem escudos anti Chaves do Portal."
"Alastor, você está esquecendo de que nós conhecíamos o risco, que temíamos que houvesse um ataque de Comensais da Morte e queríamos que os membros da Ordem estivessem protegidos. Cada um de vocês tinha uma Chave do Portal, para que em caso de emergência pudessem sair o mais rápido possível. Sabe que não podemos perder mais um membro."
"Mas por que Ginny não ativou a dela então?"
"Sua filha não tinha uma, Molly."
A mulher olhou chocada para ele.
"Quê? Por quê?"
"Porque Albus não sabe quão avançado em magia Harry é," respondeu James.
"O que isso tem a ver?"
"Nós todos sabemos que ele é poderoso e que é capaz de fazer coisas que a maioria dos bruxos e bruxas não consegue. Se alguém é muito poderoso, há algumas vantagens além das mais óbvias. Uma delas é a habilidade de sentir a magia." Houve alguns suspiros ao redor da mesa. "Se Harry for capaz disso, então ele teria detectado a Chave do Portal imediatamente."
"Mas ele não teria sido capaz de detectar os escudos anti-aparatação também?" perguntou Nymphadora.
"Escudos são outra categoria. Não tem só a ver com poder. Um bruxo ou bruxa pode possuir um núcleo mágico extremamente amplo, mas não ser capaz de sentir os escudos. Não se sabe como se treinar ou se é possível treinar para sentir escudos. Alguns acreditam que ou se é capaz de senti-los ou não, outros creem que é possível detectá-los se a pessoa estiver ao redor deles a vida toda, mas há quem diga que a pessoa tem de estar perto deles o mínimo possível. Os estudiosos ainda estão discutindo isso, e estou certo de que vão fazer isso por um tempo até descobrirem a verdade. Mas o que eu sei é que é mais provável ser capaz de sentir magia usada para coisas 'normais,' como transfiguração, feitiços ou poções, do que para escudos. E eu sinto muito por isso, mas eu não queria arriscar."
"Além do mais, nós não sabíamos de uma situação na qual ele utilizara uma Chave do Portal anteriormente, então achávamos que ele faria como sempre: desaparataria," adicionou Nymphadora.
"O que foi estúpido! Não deveríamos ter arriscado! E mesmo que tivessem Comensais da Morte..."
"Acredito que deveríamos parar de discutir o que devíamos ter feito diferente e questionar o que podemos fazer agora," interrompeu Remus. Albus lançou-lhe um sorriso agradecido.
"O que sabemos sobre ela e sua situação?" perguntou o diretor, olhando para os que estavam ali.
"Nós sabemos que eles desapareceram com uma Chave do Portal, e que ela está com Harry," começou Remus.
"E nós sabemos que eles estão com Você-Sabe-Quem," continuou Arthur, apontando para a carta.
"É a segunda vez que vocês apontam para isso. Do que se trata?" perguntou Alastor.
"Eu vou ler em voz alta novamente, mas vamos coletar os fatos primeiro, por favor."
"Sabemos que ela está totalmente desamparada, pois é provável que tenham retirado sua varinha no momento que ela chegou," disse Arthur, seu rosto cheio de temor.
"Ela não está totalmente desamparada," disse Kingsley, falando pela primeira vez. "Eu lhe dei uma faca ontem... e mostrei-lhe como utilizá-la. Nada demais, mas pelo menos ela sabe de alguma coisa. Eu só queria me certificar."
"Você deu uma faca a ela?" repetiu Molly.
"Não está feliz por ela ter alguma coisa? Não creio que eles vão procurar outra coisa além da varinha dela!"
"Mas, mas…" Lily tentou achar as palavras certas. "Mas ela está com Harry e usar uma faca significa usar contra ele." A preocupação estava clara na face dela.
"O que é uma ideia estúpida de qualquer forma." Eles olharam para James. "Esqueceu o que ele fez comigo? Harry sabe lutar com adagas e espadas. Uma faquinha não será capaz de machucá-lo."
"Eu não planejei exatamente que ela a usasse, mas pensei que era melhor que tivesse um elemento surpresa ao seu lado."
"Ao menos um de vocês está pensando..." murmurou Alastor.
"Com licença, Olho-Tonto, mas acho que você está esquecendo quem estava mais perto deles, que poderia ter agido primeiro..." Os olhos do homem se estreitaram ao encarar Nymphadora.
"Por favor, não vamos discutir sobre isso. Ela está com uma faca, o que pode ajudar, e contra um Comensal da Morte provavelmente vai ajudar, e se ela tiver um pouco de sorte, terá alguns minutos para esca..."
A porta abriu abruptamente e Severus invadiu a sala. Ele deu uma rápida olhada em volta antes de se focar em Albus.
"Ela está no quartel-general."
Houve um momento de caos quando todo mundo tentou falar ao mesmo tempo, mas no geral ficaram em choque. Albus imaginara que aquilo era o mais provável.
"Quando você a viu? Ela está machucada?" O silêncio pairou mais uma vez, todos queriam escutar a conversa deles.
"Eu não a vi por muito tempo, talvez alguns minutos antes de ela ser levada para a cela. Mas ela estava viva e não houve nenhuma ordem para machucá-la ou matá-la."
A maioria dos presentes suspirou.
"Você acredita que há chance de resgatá-la?" perguntou Albus preocupado.
Severus sorriu sem graça.
"Da quartel? Impossível?"
"Mas… mas tem que haver um jeito!" argumentou Molly.
"E quanto à mensagem?" perguntou Arthur. "Você acha que há uma chance de..." Ele não terminou a frase, mas o diretor sabia o que ele queria dizer.
"Sobre o que é a carta?"
"Espere um momento, Alastor." Albus a abriu e leu as poucas palavras novamente. "'Se vocês quiserem vê-la novamente, vão ter que parar de lutar.'" Chegou por meio de uma coruja e foi escrita por Voldemort."
"Estão tentando nos chantagear?" riu Alastor. "Como se fôssemos parar de lutar por causa disso!"
"O que quer dizer com 'por causa disso,' Alastor Moody?" perguntou Molly, levantando-se."
O diretor não se surpreendeu, estava esperando algo daquele gênero acontecer, e tinha ficado mais surpreso por ela não ter gritado antes. Era provável que a mulher tivesse tentado manter-se calma pela filha.
"Significa que mesmo que a tenham sequestrado, nós nunca vamos parar de lutar!"
"É DA MINHA FILHA QUE ESTAMOS FALANDO!"
"É da guerra que estamos falando, Molly Weasley. Há pessoas morrendo todos os dias! É por isso que estamos lutando! Porque isso tem que parar! E sim, não é aprazível que sua filha esteja sendo feita prisioneira, mas há centenas de outras pessoas e crianças lá fora que morreram!"
"Mas Ginny não vai ser uma delas! Ela não vai!"
"Se ela está sendo realmente mantida na sede," Alastor olhou atentamente para Severus, "então, como Snape disse, é impossível tirá-la de lá."
"Mas temos que tentar!"
"Molly, não é como se quiséssemos que ela fique lá. É claro que queremos salvá-la, é claro que queremos que ela sobreviva... mas neste momento? Um ataque ao quartel-general seria nosso fim. Não temos membros suficientes no momento. Nós temos que encontrar pessoas dispostas a lutar primeiro."
"MAS ELA FOI CAPTURADA AGORA! AGORA, ALBUS! NÃO PODEMOS ESPERAR! Ela não tem tempo! Precisamos fazer alguma coisa agora! Ninguém sobrevive muito tempo lá! Ela… ela…" Lágrimas escorriam de seus olhos e corriam por sua face. "Ela vai morrer."
"Molly..."
"Não! Não! É sua culpa! Você deveria ter sido mais cuidadoso! Você disse que nada aconteceria com ela! É sua responsabilidade tirá-la de lá agora!"
"Por mais insensível que pareça, às vezes é preciso que haja sacrifícios."
"Não. Não, você não está realmente dizendo isso, está?"
"Molly…"
"NÃO! NÃO, AGORA VOCÊ VAI ME ESCUTAR! VOCÊ ESTÁ MESMO DISPOSTO A SACRIFICÁ-LA? ELA NÃO É NEM MAIOR DE IDADE! ELA NÃO QUERIA ISSO! E VOCÊ... ESTÁ DISPOSTO A DEIXÁ-LA MORRER LÁ? SOZINHA? POR CONTA PRÓPRIA? SEM A FAMÍLIA? ESPERANDO QUE NÓS A SALVEMOS? E NÓS NÃO IREMOS? NÃO IREMOS?"
"Molly, por favor, entenda a situação."
"Eu acho que você não entende a situação, Albus," interferiu Arthur.
"Mas eu entendo." Molly o encarou com os olhos arregalados. Mas o que ele podia fazer? Ele não podia arriscar. Uma pessoa contra milhares de outras. Ele não podia. Uma pessoa não valia mais que todas as outras. "Voldemort nunca a libertaria se parássemos de lutar, Molly. Isso não é uma opção, ele está mentindo!"
"Não importa se ele está mentindo ou não. Estamos falando da minha filha. E você não está disposto a fazer nada contra ela ser mantida prisioneira," disse Arthur, a voz totalmente calma e despida de qualquer emoção.
"Não há nada que eu possa fazer no momento. Não há nada que nós possamos fazer."
"Então, nós vamos!"
"Molly, não funciona assim."
"Ela é nossa filha, Albus, nossa filha!"
E com isso Molly Weasley se virou e saiu da sala. Arthur, Bill, Percy, Fred e George a seguiram. O diretor lançou a cada um deles um olhar triste, mas não os impediu.
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Molly desabou numa cadeira e observou os filhos encherem a cozinha e sentando-se ao redor da mesa. Ela nem mesmo sentia vontade de cozinhar ou tirar os copos para beberem alguma coisa, nem mesmo uma garrafa de firewhiskey... e estava com vontade de beber um gole. Era como se ela não tivesse energia suficiente para fazer nada, a não ser sentar-se. E parecia que sua família sentia o mesmo. Houve silêncio por longos momentos, onde todos ficaram apenas sentados ali, em seus próprios pensamentos, as consequências de suas decisões se aclarando. Eles tinham discordado de Albus Dumbledore em algo tão importante que sentiram necessidade de deixar a reunião.
A ruiva não tinha certeza se seria capaz de retornar caso ele não fizesse nada acerca da situação de Ginny. Não conseguia acreditar. Confiara nele com tudo que tinha... e agora, era como se ele tivesse se utilizado daquela confiança, apenas ignorando os anseios e necessidades dela... tudo pelo bem maior. Molly sentiu vontade de rir, um riso estranho e amargo, mas nunca tinha rido daquela forma antes. Nem mesmo quando Fabian e Gideon tinham morrido. Nem quando tinha descoberto sobre aquilo, nem quando soubera que a filha fora capturada. Ela não sorrira daquela forma e não pensou ser capaz daquilo.
"Nós temos que fazer alguma coisa," disse Arthur, falando o que todos estavam pensando.
"Você tem alguma ideia, pai?"
O homem suspirou e Molly colocou a mão sobre a dele, tentando dar-lhe forças. Ele balançou a cabeça.
"Não... não, eu não tenho ideia alguma."
Os garotos suspiraram também e novamente caíram no silêncio. Foi Ron que falou em seguida.
"Achamos o quartel e a tiramos de lá."
Bill sorriu sem graça.
"Boa ideia, mano."
Os olhos de Ron brilharam, mas ele não falou nada. Molly sabia que o filho mais novo tinha muito respeito pelo irmão mais velho.
"Nós podemos tentar achar a sede," disse um dos gêmeos.
"Snape disse que era impossível chegar lá," argumentou Bill.
"Snape…"
"Mesmo que não goste dele, Fred, ele é nosso espião, e se ele diz que é impossível, então é. Se tivesse como, nós já teríamos alguma informação."
"Eu sou George."
Bill lançou-lhe um olhar, mas não disse nada a ele.
"Algum de vocês tem uma ideia melhor?" perguntou Molly, esperando desesperadamente que eles encontrassem alguma coisa. Todos desviaram o olhar, sem querer entreolhar-se tão perdidos quanto estavam.
"Não há uma maneira de descobrir onde ela está?" perguntou Ron, com a voz séria. "Talvez haja um feitiço, uma poção, ou alguma coisa."
"Tem o feitiço de rastreamento, Ron, mas é preciso conjurá-lo na pessoa antes de ela desaparecer… há também o feitiço de direcionamento, mas não acho que vá funcionar. O mais provável é que ela esteja cercada por fortes feitiços de proteção e escudos, um simples feitiço de direcionamento não vai passar por eles," respondeu Bill.
"Mas você pode tentar, não é?"
O irmão mais velho finalmente assentiu e pegou a varinha, agitando-a incoerentemente. Todos olharam para ele, mas nada aconteceu. Tentou novamente. Nada aconteceu, mas todos olharam para a varinha mesmo assim, desejando que ela se mexesse. Não se mexeu. Bill suspirou e colocou a varinha de lado.
"Há outras formas...?"
"Eu sei de uma." Eles olharam para Bill, mas ele balançou a cabeça, parecendo se desculpar. "Mas é ilegal. Eu nem mesmo sei como fazer isso corretamente e é muito arriscado. Se feito de forma errada causa mais danos que benefícios, mas... mas se não há mais nada..."
Ele não terminou a frase, mas todos sabiam do que estava falando. Até mesmo Percy, que Molly esperou ficar contra aquilo, manteve-se em silêncio.
Houve uma batida suave na porta, e por um instante a ruiva esperou que fosse Albus, para dizer-lhes que tinha pensando e mudara de ideia, que eles iriam salvá-la, qualquer que fosse o custo. Ela abriu a porta, mas não era ele. Era Sirius Black, que lançou-lhe um sorriso triste e perguntou se podia entrar. Foi Sirius quem sentou numa cadeira ao redor da mesa, a quem todos cumprimentaram. Por um segundo, torceu para que ele estivesse ali por causa de Dumbledore, que fosse ele quem estivesse trazendo a mensagem, mas não era.
"Sinto muito."
Houve murmúrios de "não é culpa sua," "não se culpe" ao redor da mesa, mas foi Arthur que falou mais alto.
"Não quero parecer rude, Sirius, mas o que você está fazendo aqui?"
"Eu não concordo com Albus, e quero ajudá-los. Quanto à Lily e James, eles não puderam vir porque têm que falar com o diretor sobre alguma coisa."
"É muito gentil de sua parte."
Sirius sorriu para Arthur, e Molly sentiu que uma pequena parte dela parecia aceitá-lo um pouco mais. Eles não eram próximos, e na maior parte das vezes discutiam nas reuniões da Ordem. Brigavam pela maneira que ele trata Damien, brigaram pela maneira que ela trata os filhos e sobre eles terem permissão para lutar ou não. Discutiam com frequência. Se havia algo em relação a que eles podiam ter opiniões diferentes, normalmente divergiam. Mas ao que parece, finalmente, encontraram algo sobre o que concordavam.
"O que vocês estão planejando fazer?"
Molly e os outros escutaram Percy repetir o que discutiram antes. Ele repetiu com precisão, como sempre, sem deixar nada de fora, o que custou tempo... mas, era Percy, e ele era assim. Sirius escutou e acenou com a cabeça de vez em quando, mas após algum tempo a ruiva ficou inquieta e começou a esquentar algumas sobras da refeição do dia anterior: quando Ginny ainda estava ali. Sentiu vontade de chorar novamente, mas se conteve. Haveria tempo para isso quando tivessem discutido tudo, quando encontrassem um caminho, quando fosse hora de dormir... quando valesse a pena pensar em dormir novamente. Sabia que não dormiria muito, mas aquele era o momento no qual teria tempo para chorar novamente, não agora. Suavemente, enxugou as lágrimas do rosto e concentrou-se em colocar os pratos. Finalmente, seu filho parou de falar e o silêncio tomou conta da cozinha.
Foi Sirius quem o quebrou.
"Eu tenho uma ideia."
Todos olharam para o homem, os olhos cheios de esperança. Se houvesse algo que pudessem fazer... algo que não fosse tão perigoso quanto encontrar o quartel sozinhos... eles fariam. Também procurariam pelo quartel, mas se houvesse algo que fosse um pouco mais provável dar certo... eles fariam.
"Eu vou financiar, então não precisam se preocupar com isso." Molly franziu a testa e estava prestes a reclamar, mas Sirius a impediu com um gesto de mão. "Vamos forçar o Ministério a agir."
Eles o encararam. Aquilo parecia ainda mais improvável do que o plano de encontrar o quartel.
"E como, Sr. Black, o senhor planeja fazer isso?" perguntou Percy.
"Não precisa dessa formalidade sem sentido. Sou eu, Sirius."
A carranca do rapaz se aprofundou. Eles podiam estar todos na Ordem da Fênix – exceto Ron, é claro – mas nenhum de seus filhos tivera muito contato com Sirius antes. E se havia uma coisa que Percy gostava, era de "formalidade sem sentido." Molly quase sentiu vontade de rir, mas não o fez.
"Vamos chamar a atenção do público para isso, é claro."
"Em primeiro lugar, não vejo como quer fazer isso, e em segundo lugar, eu não sei como isso ajudaria," disse Bill. Os outros concordaram.
"Eu vou ao Profeta Diário, tenho um contato lá, tenho dinheiro e eles estão sempre interessados numa boa história. É claro que vão escrever algumas mentiras, é claro que vão fazer parecer mais sensacionalista do que realmente é, mas o público vai ler. E Fudge terá duas opções. Primeiro: agir assim que souber sobre isso ou assim que parecer importante para o público. Vou me assegurar de que será importante para o público. Se ele não fizer nada, vou querer um artigo escrito sobre isso."
"Mas, Sirius… você não acha que isso é muita ingenuidade?" perguntou Arthur.
"O quê? Que o público vai se importar? Mas eles vão! Vocês me dão uma foto de Ginny, parecendo o mais inocente possível, e eu direi a eles o que aconteceu com ela. Eles vão retratá-la como vítima, como a garotinha que não sabia o que estava fazendo, que foi capturada e tudo mais, e que agora está pagando por isso. E então vamos questionar como tal coisa é tolerada em nosso país."
"Essas coisas acontecem todos os dias, Sirius."
"Eu sei disso, Bill. É claro que eu sei! Essa é uma das razões pela qual estou lutando! Mas a maioria das pessoas tem apenas um nome ou já estão mortas. Algumas desaparecem, mas ninguém sabe nada sobre isso. Com um nome, uma foto, a idade dela e a história para contar, ela será primeira página!"
"Mas…"
"É uma oportunidade de ajudar Ginny," disse Molly, olhando com cuidado para os filhos. "E nós vamos ajudá-la."
"É claro que vamos," responderam eles em uníssono. A ruiva sorriu triste e assentiu na direção de Sirius.
"Se acha que há chance de acontecer dessa maneira, então eu quero que você faça."
"Mas, Sirius, sim, desculpa Molly, mas tenho uma última pergunta. Com essa 'história'... eles, você... vai mencioná-lo também, sabe disso, não é?"
Todos sabiam que ele estava falando sobre Harry Potter, sobre o Príncipe das Trevas, sobre aquele que tirara Ginny deles. A ruiva sentiu o ódio queimar dentro de si: aquele que era a única esperança deles.
"Eu sei disso, Arthur. Eu sei como vão retratar Harry. Eu sei que vão colocá-lo como o malvado, que seu nome estará em todo o artigo, e isso vai aumentar mais ainda o sentimento de ódio com relação a ele..."
"Então, por que você quer ajudar?"
"Eu tenho alguns amigos cujas vidas foram quase destruídas porque pensaram ter perdido o filho. Não posso dizer que sei qual é a sensação... mas eu vi como deve ser, e..." Sirius respirou fundo. "Eu sei que vocês não devem querer ouvir isso, mas... encontrar Ginny significa encontrar Harry, e eu faria qualquer coisa para encontrá-lo... e piorar a imagem pública dele mais ainda não é a pior coisa que eu posso fazer, não é?"
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"Melina, tenho uma história para você.
A mulher levantou-se da mesa e sorriu para Sirius Black. Não que estivesse muito feliz por vê-lo novamente. Dois meses atrás teria sido adorável, mas agora? Agora, que finalmente o tinha superado? É claro que agora ele tinha que vir vê-la. Mas ele tinha uma história. Ela forçou um sorriso na face e deixou as lágrimas e palavras raivosas de lado. Era negócios, nada mais, nada menos.
"E sobre o que é essa história?"
"É sobre o mal, e o bem, e sacrifícios. E uma garotinha inocente sendo usada para coisas muito além dela."
"É uma história de amor também?" Apenas aquelas coisas vendiam jornais. Era o que o público queria ler.
"Sim, pode-se dizer que sim."
"Então, me conte!"
E ele colocou uma foto na mesa dela, e a mulher olhou para a foto. Mostrava uma garota feliz e sorridente, talvez com quatorze anos, com olhos brilhantes e luminosos cabelos vermelhos.
"A história é sobre ela. Ginevra Molly Weasley, conhecida como Ginny, filha de Molly e Arthur Weasley, e nos últimos meses ela teve um caso com o Príncipe das Trevas."
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Começara como um dia normal para Cornelius Fudge. Sim, havia uma guerra acontecendo. Sim, ele era o ministro da Magia e era sua responsabilidade encontrar uma forma de acabar com ela, mas parecia não haver uma. Parecia que estavam perdendo, mas ele era o ministro, tinha aurores vigiando sua casa. Não ia a lugar algum sem eles. Ninguém ousaria atacá-lo. Pessoas morriam, e isso não era bom, mas era a guerra… e ele não morrera, ainda estava vivo, bem e podia tomar decisões. Tinha amigos como Lucius Malfoy nas posições mais altas, com muito dinheiro. Estavam todos dispostos a fornecer-lhes os recursos financeiros necessários para fazer o que quisesse. É claro que às vezes eles tinham uma ou duas ideias... mas, no geral, ele estava no comando. Era o que Cornelius Fudge gostava e o que precisava. Mas quando abriu o jornal naquele dia, parecia que era o fim.
Não que ele tivesse notado. Sim, tinha sido primeira página... e era trágico o que acontecera àquela garota inocente – dissera isso a todos os repórteres lá fora – mas não havia nada a fazer. Não sabiam onde ela estava sendo mantida, se ainda estava viva... ele até tinha marcado uma reunião com a família, mas eles rejeitaram. Não era como se pudesse forçá-los a vir. É claro que teria sido melhor para sua imagem, mas forçar a família da pobre garota a vir... não, aquilo teria sido ainda pior, ou assim disseram seus conselheiros. Foram eles quem disseram que deveria tomar cuidado, que deveria pensar em fazer alguma coisa, mas Cornelius sabia que estava no comando. Seus conselheiros podiam aconselhá-lo, mas não podiam decidir. Isso era tarefa sua, e ele sempre levava as tarefas a sério.
E então, uma hora, ou talvez duas, depois, a primeira carta chegara. Não demorou muito e o escritório inteiro estava cheio de cartas… e eram apenas as que tinham passado pelo controle. Eram as que não estavam azaradas, que não eram perigosas. Abriu a primeira calmamente. "Faça algo contra isso!". Mas o que era uma única opinião? Uma opinião contra todos os outros bruxos e bruxas de todo o país! E então mais cartas chegaram: "A pobre garota!", "Você é o ministro da Magia ou não? Faça alguma coisa!", "Você tem aurores! Deixe-os procurar por ela!", "É verdade?".
Falara com os conselheiros, e eles disseram que não esperavam essa reação. É claro que havia pessoas não muito satisfeitas com o ataque ao Expresso de Hogwarts. Mas nenhuma criança fora machucada! Graças ao Ministério, por causa dos aurores que arriscaram as vidas naquele dia. Houve algumas cartas questionando o que ele estava fazendo. E, é claro, o ataque ao Beco Diagonal, mas poucas pessoas tinham sido feridas ou mesmo mortas! Parentes tinham escrito, dizendo que não podia ser daquela forma... mas, nunca, em toda sua carreira, acontecera de as pessoas ficarem assim tão preocupadas! Os conselheiros disseram que provavelmente era devido ao rosto inocente de uma garota normal que podia ser filha de qualquer um. Que as pessoas achavam que ele era culpado por ela tê-lo conhecido! Mas tinha sido ideia de Dumbledore mandá-lo para Hogwarts, não dele. Mas ninguém disse nada sobre isso! Desnecessário dizer que demitira os conselheiros e procurara por alguns novos. Um deles dissera que seria seu fim. É claro que ele não escutara. Este não seria o seu fim! Mesmo que parecesse ser. Era culpa de Dumbledore. É claro que dera uma entrevista a um repórter no momento que percebeu aquilo. Apenas culpa de Dumbledore, ele não devia ter escutado. Deveria ter mandado o Príncipe das Trevas para a prisão. Porque se era culpa de alguém, mas do que de Dumbledore, era do Príncipe das Trevas.
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Harry estava de volta à realidade e não pôde evitar de olhar para o chão e para Wormtail. Aquilo não podia ser verdade. Mas as memórias que assistira sobre ele e o pai... As memórias que pareciam tão estranhas e, ainda assim, pareciam, de alguma forma, familiares para ele. Mas não podia ser. Sentiu os joelhos fraquejarem e lentamente sentou no chão imundo, respirando pesadamente.
"Não pode ser verdade... não pode ser verdade. Essas memórias, elas... elas não fazem sentido!"
O garoto agarrou Wormtail pelos trapos imundos. O homem estava novamente em transe e continuava murmurando "muito tarde... não pude ajudar Harry... muito tarde."
"Você está mentindo! Você está mentindo, você é louco, essas... essas memórias, elas não são nada mais que fragmentos da sua imaginação perturbada! São mentiras! São mentiras!" O jovem o sacudia a cada palavra. Wormtail nem parecia perceber, ele ficava encarando o chão e não lutou para se livrar do aperto.
"Por favor, por favor... diga que é tudo mentira! Por favor... por favor. Ele não pode ter feito aquilo! Ele não mentiria para mim. Ele nunca me machucaria! Por favor... por favor, diga que você está mentindo!"
Harry nem mesmo percebeu as lágrimas correndo por seu rosto. Ele tentou fazer Wormtail falar de novo, mas parecia que o bruxo chegara à exaustão ao compartilhar as memórias. O garoto o soltou e se levantou. Não ia acreditar nele. Era óbvio que esse Comensal estivera trancado naquela cela por muito tempo. Estava louco e delirando, e as memórias que lhe mostrou podiam ser reais em sua mente, mas falsas na realidade. O jovem virou-se para sair da cela e nem mesmo parou para reviver Malfoy.
Não sabia como chegara ali, mas encontrou-se em frente à casa onde os Potters viviam, de novo. Precisava encontrar a verdade, aquelas memórias que assistira não podiam ser verdade. Sequer sabia o que estava procurando, talvez alguma prova de que os Potters não se importavam com ele. O adolescente aproximou-se silenciosamente da casa, um rápido feitiço localizador mostrou que não havia ninguém. Abriu a porta dos fundos com um Alohomora e entrou.
Harry foi direto para os dormitórios no segundo andar. Ele se lembrou de onde costumava dormir. Era no pequeno sótão, o lugar costumava ser tão frio que o garotinho de quatro anos nem mesmo conseguia dormir à noite. Antes de dirigir-se ao sótão, entrou no dormitório principal. Sentiu uma significativa quantidade de magia vinda de lá. O garoto parou e ficou encarando a porta do quarto. Por que havia tanta magia escondida naquele quarto? Talvez tivesse algo a ver com ele. O jovem se lembrou de quando Damien lhe disse que seus pais o mantiveram em segredo para ele. Talvez fosse ali onde esconderam tudo sobre ele. Certamente não tinham mantido o sótão no mesmo estado em que estava. Deviam ter limpado tudo. Talvez houvesse algo no quarto. O adolescente podia dizer que, pela aura mágica, eram feitiços para esconder coisas.
Entrou no dormitório principal, o cômodo era relativamente grande e bem decorado. Harry nem se importou em ver as fotos na mesa de cabeceira, foi atraído pela forte fonte de magia. Aparentemente vinha de uma parede. O garoto andou até a parede e colocou a mão sobre ela. A parede era sólida, mas ele sabia que não estava ali de verdade. Pegou a varinha e usou um "finite incantatem" para eliminar a ilusão, mas não funcionou. Então, olhou para a parede de novo e ficou confuso ao pensar em como removeria aquela ilusão que fora posta ali, para conseguir ver o que estava escondido.
Harry usou outro feitiço. Esse era muito mais forte que "finite incantatem."
"FINITE TRESPASSTRAIN."
Imediatamente, a parede creme começou a dissolver-se e o jovem viu um enorme espaço que estava oculto por trás dela. Havia muitas caixas empilhadas ordenadamente. O garoto rapidamente abriu a mais próxima. Estava cheia de coisas de Hogwarts de Lily e James, havia distintivos, certificados e de todo tipo de coisa. Podia sentir uma dor de cabeça de tensão formando-se. Rapidamente, empurrou a caixa de lado, indo para a seguinte. Essa também estava cheia de tralhas. Foi só quando pegou uma das caixas que ficava mais para baixo, que viu algo que tinha a ver com ele.
Harry abriu a caixa que estava cheia de roupas de bebê. Observou as roupinhas minúsculas e pensou que deviam ser de Damien. Pareciam realmente caras e pouco usadas. Foi quando viu que várias peças tinham as letras "HP" bordadas nelas. O garoto sentou e olhou para elas. Por que eles guardariam suas roupas de bebê? Eles o odiavam!
O adolescente rapidamente pegou outra caixa e o que viu fez seu coração saltar do peito. Estava cheia de presentes embrulhados. Pegou um deles e viu a etiqueta de presente. Dizia: "Feliz Aniversário de 3 anos, Harry." Sentiu como se o vento o tivesse nocauteado. Rapidamente tirou todos os presentes e viu que estavam todos embrulhados e endereçados a ele. Todos tinham mensagens do estilo "Feliz Aniversário, Harry... Feliz Natal, Harry." Com as mãos trêmulas, o garoto segurou um grande presente com um pergaminho onde estava escrito "Feliz Aniversário de 2 anos, Harry, nós sentimos muito a sua falta." Derrubou o presente, que caiu com um estrondo no chão. Não conseguia acreditar. Três daquelas caixas armazenadas não tinham nada além de presentes para ele. Eram presentes de Aniversário e Natal, e havia quinze de cada. Percebeu que os Potters tinham comprado um presente para o último Natal também, mesmo depois do que fizera com James. Notou, com um estalo doentio, que se havia presentes para ele desde que fizera dois anos, aquilo provava que fora levado deles quando tinha cerca de quinze meses. As memórias que tinha dos Potters, do abuso, de fugir quando tinha quatro anos... Era tudo mentira!
A última caixa que abriu, provou que sua vida inteira foi uma mentira. Havia vários álbuns de fotos. O adolescente abriu um álbum grande marrom e viu páginas cheias de fotos de um pequeno bebê de cabelos bagunçados e olhos verdes, sendo abraçado e beijado pelos pais. Observou as fotos com lágrimas rolando pelo rosto. Lágrimas que nem percebeu que estava derramando.
Uma em particular fez o garoto parar para encarar. Era uma foto de James jogando o bebê Harry no ar e o pegando novamente. O bebê ria com vontade e, quando caía, o homem o beijava no nariz. O garoto sentiu o coração apertar dolorosamente ao olhar para as fotos. Outra foto era da criança dormindo no berço e James e Lily debruçados sobre ele, sussurrando palavras de amor e conforto. O jovem leu os lábios da mulher e viu que, de fato, ela estava sussurrando um feitiço protetor sobre ele, para que ninguém pudesse lhe fazer mal.
Outras fotos mostravam Sirius o segurando e brincando com ele, Remus também estava lá e Harry viu que o bebê parecia responder bem a ambos. Ainda não tinha trocado nem duas palavras com Remus. O garoto viu outra foto na última página. Era de James e Lily segurando o bebê e acenando para a câmera. O casal trocava um beijo antes de acenar novamente. Sem saber o porquê, o rapaz arrancou a foto do álbum e colocou no bolso das vestes. Empurrou violentamente os itens para dentro das caixas e executou o feitiço de esconder novamente, assim ninguém saberia que esteve ali.
Levantou-se e silenciosamente saiu de Godric's Hollow. Precisava de respostas e precisava delas agora!
Harry entrou como uma tempestade na Mansão Riddle. Foi direto para o gabinete do pai. Sabia que não era uma boa ideia confrontar Lorde Voldemort num momento como esse, quando mal estava conseguindo controlar o temperamento, mas há muito tempo perdera o medo das consequências. Precisava saber da verdade. Assim que abriu a porta e entrou, percebeu que o bruxo não estava lá. Não o encontraria em lugar algum da mansão também. Com um estalo, percebeu que ele não estava em casa. Assim que enviara a carta, tinha ido ao encontro de alguns lobisomens. Estavam planejando outro ataque. Pensou em Bella em seguida, mas ela tinha ido com ele. Eles só voltariam no dia seguinte.
O garoto se virou e saiu do cômodo novamente, batendo a porta. Seus pensamentos corriam. Eles não estavam em casa, mas não podia esperar. Não agora. Não quando tudo estava daquela forma, quando sentia como se alguém tivesse colocado seu mundo e suas crenças de cabeça para baixo. Precisava acalmar-se, revisar tudo, ver os fatos. Sabia que algo estava muito errado. Sabia que tinha sido enganado, e que, de alguma forma, Voldemort tinha participação nisso. Achava, não, sabia pelas fotos e presentes que acabara de ver que os Potters não eram tão ruins quanto pensava. Eles não tinham feito nada de errado. Não o machucaram. E parecia que a história deles não era uma história no fim das contas. Parecia que era a verdade.
Harry respirou fundo e fechou os olhos, em seguida os abriu e correu em direção aos quartos. Finalmente entendera qual a consequência daquilo. Não era apenas que Lily e James não mentiram, que Dumbledore não mentira. Significava que Voldemort, seu pai, tinha mentido. Não tinha como os dois estarem falando a verdade. Ele sempre dissera que aquela era a verdade, nunca insinuara nada. Quem o machucara, então? Lembrava-se das memórias, as sentia. Sabia que não podiam ser falsas. O medo instalou-se em seu estômago e ele correu ainda mais rápido.
O garoto fez uma parada e encarou a porta do quarto de Ginny. Ele gemeu. O que estava acontecendo com ele? Primeiro foi à casa dos Potters e agora estava ali, mesmo sabendo que ninguém relataria nada, que não tinha que fingir estar passando tempo com ela. Podia apenas dizer a eles que esteve lá... se eles sequer perguntassem. Mas tudo estava uma bagunça, de qualquer forma. E precisava de alguma coisa, apenas qualquer coisa para acalmá-lo e esquecer o que se passava em sua mente. Haveria uma explicação para aquilo. Não era o que parecia, não podia ser.
Ele abriu a porta e entrou, os olhos examinando o quarto antes de pousarem sobre ela. A ruiva estava sentada no sofá mais afastado da porta, lendo algum livro, mas levantara o olhar tão logo ele entrou. Seus olhos se arregalavam mais a cada segundo que olhava para ele. Ele devia estar com uma aparência infernal. Olhou para si mesmo. Suas vestes e suas mãos estavam sujas, parecia que tinha caminhado por horas no meio da lama... Brilhante.
"Foi uma ideia estúpida. Preciso sair." Ele se virou, indo em direção à porta.
"Eu posso… eu posso ir com você?"
Ele parou de andar. Ela podia ir com ele? Para fora? Ele planejava fazer... não planejava nada. Queria apenas ficar longe daquilo, não queria ficar cercado por pessoas das quais queria se esconder, precisava agir com calma.
"É que… eu… eu fiquei aqui dentro o tempo todo… não estou acostumada com isso e eu... eu não vou tentar nada. Eu só... um pouco de ar fresco seria..."
Harry se virou e suspirou.
"Se você se vestir adequadamente em menos de um segundo..."
Ele piscou quando ela jogou o livro de lado e correu para o guarda-roupa, abriu-o e vestindo a primeira capa e o primeiro par de sapatos que conseguiu alcançar.
"Pronto," disse ela enquanto colocava alguns fios de cabelos soltos por trás da orelha.
Harry franziu o cenho, tinha certeza que ela demoraria mais.
Ele andou até a porta, os pensamentos correndo. Não queria que ela fosse, queria? Algo que ela não fosse gostar, algo que ela não fosse fazer...
"Espero que esteja disposta a correr."
"Como?"
"Estou planejando correr," disse ele enquanto abria a porta.
O garoto saiu e então virou-se para ela novamente. Ela mordeu os lábios lentamente e Harry não pôde deixar de observar quando ela enterrou os dentes no lábio inferior. Uma imagem deles se beijando passou por sua mente e ele sacudiu a cabeça.
"Desde que seja lá fora."
Harry lançou-lhe um olhar demorado antes de se virar e caminhar pelo corredor. Ouviu os passos suaves dela logo atrás dele e após mais alguns passos escutou a porta fechar-se atrás deles também. Caminharam pelo corredor, sem se falar. Por um momento, o garoto pensou em ir ao quarto trocar de roupa, mas decidiu por não ir. Em vez disso, acenou a mão sobre a capa e a maior parte da sujeira desapareceu. Pararam em frente à porta que separava o quarto dele do resto da mansão. Suavemente, sibilou a senha e a porta abriu. Ele a segurou para Ginny e enquanto ela passava, murmurando um "obrigada," ele não conseguiu evitar de pensar na maneira que ela havia tentando atacá-lo. Um sorriso se formou nos cantos de seus lábios, mas ele o reprimiu, fechando a porta atrás de si. Acenou para a esquerda, mostrando-lhe por aonde iriam, antes de tomar a dianteira novamente. Não cruzaram com nenhum Comensal da Morte e ele esperou que continuasse assim. Afinal, não estava interessado em explicar o que estavam fazendo.
O jovem pegou alguns atalhos para sair o mais rápido possível, porque a cada segundo que caminhavam pelos corredores sem fim, seus pensamentos e preocupações voltavam, incomodando sua mente. A frustração aumentava, mas tentava ignorá-la, tentava pensar em outra coisa. Finalmente, concentrou-se nos passos dela atrás de si, mas não era o bastante, então, diminuiu a velocidade, caminhando ao lado da garota. Pelo canto do olhou, observou seus movimentos e como olhava ao redor. Era o suficiente para distraí-lo por um tempo. Ela encontrou seus olhos uma vez, fazendo-a corar e olhar para baixo pelo resto da caminhada.
Finalmente, alcançaram a porta e saíram. Estava mais frio do que Harry se lembrava. Na pressa, não percebera que estava nevando. Não percebera muita coisa... estivera muito focado em encontrar o pai. O rapaz suspirou e começou a correr devagar em direção ao bosque. Tentou se concentrar em tudo ao seu redor e esquecer o que estava em sua mente. Ginny o seguia.
A respiração dela estava acelerando e não demorou muito para estar ofegante ao seu lado. Sentiu vontade de revirar os olhos para ela, mas não o fez. Em vez disso, suspirou e diminuiu um pouco o ritmo. Agora estavam correndo um ao lado do outro... mais precisamente, Ginny estava correndo, ele estava trotando. A respiração dela ficou cada vez mais rápida e por fim a garota parou. Ele também parou e olhou atentamente para ela antes de arquear uma sobrancelha.
"Desculpa," disse ela, corando até o fio de cabelo. "Estou sentindo pontadas. "
"Você está respirando errado."
Ela abriu a boca, mas fechou novamente sem dizer nada.
"E seu condicionamento está terrível," adicionou ele.
Ela corou mais ainda, mas lançou um olhar zangado na direção dele também.
"Nem todos nós temos tempo para correr todo dia!"
Harry inclinou a cabeça ligeiramente para o lado e a observou. Ela quase soara como Draco. Por um segundo, sentiu vontade de sorrir.
"Você parece Draco."
"Eu não pareço em nada com Draco Malfoy!" Seu rubor diminuiu um pouco, mas o olhar ficou ainda mais irritado. O garoto olhou para ela fascinado.
"Quem disse que eu estava falando de Draco Malfoy?"
"E estava falando de quem então?" perguntou ela, cruzando os braços.
"Estava falando de Draco, a doninha," disse ele, lembrando-se da conversa que escutara entre o amigo e Lucius... sobre o que quer que fosse.
A ruiva o encarou antes de dar risada, que se transformou numa crise de riso. Entre as gargalhadas, ela falou:
"Ele te contou sobre isso?"
Ele olhou para ela sem entender.
"Ele me contou sobre o quê?"
Ela ficou séria novamente.
"Ele não contou?"
Harry negou com a cabeça.
"Houve uma vez onde Snape não pôde dar aulas... e, bem, Professor Dumbledore teve a ideia de deixar um auror nos ensinar por um dia... e, bem, Moody deu aula à gente, e houve um incidente no qual Malfoy falou algo que ele não gostou e Moody o transformou numa doninha e o deixou saltitando. Eu não estava lá, mas se espalhou pela escola em cerca de uma hora! É um dos dias favoritos de Ron..." Ela sorrira enquanto contava a história, mas no final ficou cada vez mais triste.
Harry balançou a cabeça.
"Aurores e seus 'métodos de ensino.'" Ele fez uma pausa. "Mas Draco como uma doninha..." O jovem riu.
Ginny esboçou um leve sorriso, mas sua tristeza permaneceu.
"Que tal uma corrida de leve?" perguntou Harry, tentando distraí-la dos pensamentos, mas ao mesmo tempo tentando evitar o silêncio... silêncio abria espaço para pensamentos.
Ela gemeu.
"Nós temos que fazer isso?"
"Você queria vir comigo."
"Não podemos apenas andar?"
Harry franziu a testa. Dessa forma ele não se livraria da raiva e da adrenalina que ainda bombeava em suas veias.
"Eu tenho outra ideia... venha."
O garoto acenou com a mão para a direção na qual estavam correndo. Ginny olhou para ele sem entender, mas ele apenas começou a andar e ela o seguiu.
"E qual é a sua ideia?"
"Você vai ver. "
Ela murmurou algo que ele não entendeu, e então falou mais alto:
"É muito à frente?"
Ele olhou para ela por cima dos ombros e viu como a ruiva estava pulando algumas raízes.
"Não..."
"Alguma coisa, pelo menos."
"Você queria sair, certo?"
"Sim… mas eu não pensei em andar e correr por um bosque."
"E o que quer fazer?"
Ele diminuiu o passo novamente, e eles andaram lado a lado. A garota olhou para o céu, que estava pouco visível em meios às árvores imensas.
"Voar seria adorável." Ela fez uma pausa. "Jogar quadribol. "
"Não tem como sem uma vassoura."
Ginny parou de caminhar. Harry continuou.
"Eram... você... as cartas... você estava falando a verdade?"
Sua voz soou um pouco mais alta que um sussurro. Os pensamentos de Harry estavam correndo. Devia mesmo responder àquela pergunta? Não... não devia. Ficou em silêncio e agiu como se não tivesse escutado. Ela não repetiu.
"Você vem?" Ele a ouviu correr para alcançá-lo.
Pelo resto do trajeto eles não conversaram, e o jovem teve tempo para pensar sobre o passado e em quantas vezes fizera aquele caminho... e com quem. E a raiva voltou novamente e todos os sentimentos de antes. Os sentimentos por Ginny só contribuíram para aquilo e ele acelerou o ritmo novamente, na esperança de finalmente poder aliviar sua tensão. Finalmente chegaram à sua sala de treino e ele abriu a porta, deixando-a entrar. Enquanto ligava as luzes, ela olhou atentamente em volta, os olhos se demorando nas espadas e adagas que estavam num canto.
"Pode se sentar ali…" Ele apontou para um banco no outro canto, enquanto caminhava até as adagas.
Pegou algumas antes de olhar na direção da garota. Ela tinha acabado de cruzar os escudos que protegiam alguém de se machucar e sentou-se. Ele acenou a varinha e alguns alvos apareceram e começaram a girar em torno dele. Fechou os olhos por um momento e concentrou-se nos sentimentos antes de abri-los novamente, focando-se no primeiro alvo. Jogou uma adaga, que atingiu o alvo, fazendo-o desaparecer. A adaga caiu no chão e ele a convocou novamente. Ele fez aquilo repetidas vezes, todo tempo fazendo mais alvos aparecerem a cada um que destruía. Depois de um tempo, começou a usar magia para destruí-los também. Não soube por quanto tempo fez aquilo, mas sentiu a raiva desaparecer e as emoções se acalmarem. Imaginou cada um daqueles alvos como uma emoção, como outra pessoa que o machucara, outra pessoa que mentira para ele... ajudara um pouco e finalmente sentiu-se preparado para lidar com aquilo.
Harry parou e os alvos também. Eles desapareceram e o garoto limpou o suor do rosto. Acalmou a respiração também e lembrando-se de Ginny olhou em direção ao banco... mas, ela não estava lá. O rapaz xingou e olhou em volta de novo. Ela não estava em lugar algum. Rapidamente, atravessou a sala e abriu a porta. Piscou em surpresa quando a ruiva caiu de costas, parecia que estivera sentada lá fora, encostada à porta.
"Há quanto tempo está aqui fora?" rosnou ela, vendo as bochechas e o nariz vermelhos dela.
Com um olhar mais atento, percebeu que lágrimas brilhavam em seus olhos também. Ela se sentou e rapidamente as enxugou.
"Eu só precisava de um pouco de ar fresco... desculpa."
"Vamos para dentro. Está congelando lá fora."
E, de fato, a neve tinha parado de cair e estava ficando escuro e mais frio. Ela assentiu e se levantou, limpando a sujeira da capa. Ele fechou a porta atrás dela e sentou-se no chão, olhando para ela por um momento. A garota sentou-se ao seu lado, encostando-se na porta novamente.
O silêncio pairou entre eles por longos momentos, até que Ginny o quebrou.
"Você está com raiva de alguma coisa?"
Harry franziu o cenho.
"Por que você acha isso?"
"Você parecia estar." Ela gesticulou para o lugar onde ele destruíra diversos alvos há alguns instantes.
O rapaz olhou demoradamente para ela.
"Como chegou a essa conclusão?"
"Havia faíscas de magia voando ao seu redor e… eu não sei, sua magia estava meio que brilhando."
Harry piscou surpreso.
"Eu nunca soube que fazia isso."
"Mas faz! Achei que era mais sensato não perturbá-lo quando fui para fora... Mas foi impressionante! Não é de admirar que todos eles estavam tremendo de medo de você."
O garoto sorriu de lado, sabia que ela estava se referindo à Ordem.
"Ele estavam, não estavam?"
"Aham…" Ele a observou começar a desenhar pequenos círculos na perna. "Por que você estava com tanta raiva?"
"Por que estava chorando?"
A ruiva parou antes de começar a desenhar círculos novamente, mas mais rápido do que antes. Harry imaginou que tinha sido por causa dele, mas ela sussurrou:
"Eu... eu sinto falta da minha família."
O rapaz queria dizer que ela não deveria sentir-se assim, mas então se lembrou de como se sentiu em Hogwarts... como se sentia com relação a Damien às vezes.
"Então… por que tanta raiva?"
"Eu…"
Não podia contar a ela, podia? Mas não tinha que realmente dizer sobre o que se tratava... e podia ser bom conversar com alguém sobre aquilo. E com quem conversaria senão com ela? Com Bella? Com seu pai? Com Lucius? Todos eles tinham participação naquilo… e preferia ser torturado a falar com um dos Comensais da Morte sobre isso.
"Eu descobri que estava sendo enganado."
Ginny piscou e olhou para ele. Ele evitou seu olhar e focou-se na parede oposta a eles.
"Pelo Bem ou pelo Mal?"
"Não existe o bem e o mal..."
"Hum… certo." Ela respirou fundo. "Foi o seu... hum... pai?"
"Acho que sim."
Ele olhou assustado quando sentiu uma pequena mão deslizar sobre a sua.
"Vai ficar tudo bem de alguma forma." Ela apertou a mão dele levemente antes de soltá-la bruscamente. Parecia que a garota percebera o que estava fazendo.
"Eu acho que não." Ele riu amargamente e sentiu-a encolher-se um pouco. Ele parou e respirou fundo. "Se for realmente verdade, não vai ficar tudo bem de novo."
"O que…" Ela fez uma pausa. "É o tipo de coisa da qual você só pode fugir?"
Ele não tinha pensado naquela possibilidade. Sua garganta de repente ficou bastante seca e ele engoliu algumas vezes.
"Eu... sim."
"Essas são as piores."
Harry olhou para ela sem entender. Quando ela podia ter tido uma experiência daquele tipo?
"Quando… quando eles descobriram sobre 'nós,' minha família não ficou satisfeita." Algo como culpa revirou-se no estômago dela. "Eles disseram umas coisas bem ruins e eu... eu fugi... foi por isso que eu estava na casa de Luna."
"Luna…?"
"Lovegood, se lembra? O campo…"
Harry se lembrava. Ah, como ela tinha gritado e chorado. Não gostava de pensar naquilo, não dormira naquela noite e sonhara com aquilo nos dias seguintes.
Eles ficaram em silêncio.
"Me promete uma coisa?" perguntou Ginny hesitante.
"O quê?"
"Se for mesmo como está pensando e você fugir e..." Ela respirou fundo. "Você promete que não vai me deixar aqui?"
Harry a encarou, ele não pensara naquilo. Se alguém estivesse em casa... se alguém tivesse confirmado suas suspeitas... ele teria ficado com tanta raiva que teria virado e ido embora. E ela estaria aqui... no quarto... minutos mais tarde numa cela... provavelmente torturada e morta.
"Eu prometo."
Ela sorriu para ele.
"Obrigada." Ela parou de falar por um momento. "Mas você não deveria fugir... quero dizer, eles provavelmente procurariam por você... eu... eu imagino que eles não sejam muito legais quando estão procurando."
Harry bufou.
"Não, eles não são legais quando estão perseguindo as pessoas."
"Está vendo? Você não deveria fugir, os outros também estão à sua procura..."
"Aham… isso seria muito interessante!" disse ele, a voz ficando mais sarcástica a cada palavra.
"Então… talvez você devesse ficar… e… fazê-los pagar aqui."
"Do que está falando?"
"Você não é do tipo que senta e deixa as coisas acontecerem... eu achei que era lógico que você ia querer vingança... se é tão ruim para você pensar em fugir."
Harry olhou para frente, seus pensamentos ficando cada vez mais escuros. Precisava de uma forma para descobrir a verdade. A verdade mesmo, e não algo que era um pouco verdade, mas uma mentira no final. Precisava de algo mais que meias verdades... e então precisava decidir o que fazer com tudo aquilo. Qual seria a pior coisa possível? Ele sorriu com tristeza. A pior coisa seria se os Potter estivessem falando a verdade, se ele tivesse sido sequestrado e, de alguma forma, seu pai... de alguma forma, Voldemort tivesse ordenado que alguém o machucasse para que o garoto estivesse disposto a escutar o que eles dissessem. Ali. Ele pensara. O que faria? Ia querer se vingar... ela estava certa quanto aquilo. Mas qual seria a vingança adequada por tirarem sua vida, por a manipularem, sabendo que ele odiava aquilo? Manipulando-o como vira naquelas memórias? Estremeceu ao lembrar-se da voz de Voldemort: eu mesmo te mato. Só havia uma vingança que seria adequada, e era mais fácil colocá-la em prática ali, onde ele estava por perto, onde ninguém suspeitava de nada, onde podia conseguir informações. Iria apenas apagar as memórias deles, como apagaram a sua...
"Você está certa."
Eles ficaram em silêncio novamente, mas dessa vez foi mais confortável.
"Vai me contar como ele te enganou?"
"É melhor que você não saiba, acredite," disse Harry, levantando-se.
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Depois de levá-la de volta ao quarto, voltara para encontrar Lucius. O homem ainda estava deitado no chão, exatamente como Harry o deixara. Deu uma breve olhada em volta, examinando a área, mas não havia ninguém ali. Ele o amarrou e o reviveu. O homem levou um tempo para cair em si, mas quando o fez, seus olhos se estreitaram.
"Harry? O que está fazendo? O quê…? Por que estou amarrado?"
"Eu sei sobre as mentiras."
"Do que está falando? Que mentiras?"
"Quem eram eles?"
"Quem era quem?"
"As pessoas que me machucaram! As pessoas que fingiram ser os Potter! QUEM ERAM?"
"Eu não sei do que está falando."
"ME DIGA!"
Harry nunca quis que aquilo acontecesse, mas com a raiva aumentando cada vez mais dentro de si e o comando ordenado para Lucius, fez com que as memórias verdadeiras do abuso dele fossem reveladas. O garoto sentiu a mente ser novamente preenchida com lembranças de outra pessoa. Viu alguns flashes rápidos da verdade. Viu a si mesmo com três anos correndo pela cozinha de Godric's Hollow, mas ao invés de James e Lily, ele viu Lorde Voldemort e Bella sentados à mesa. Foi Voldemort quem bateu no Harry de três anos. Foi Voldemort quem bateu nele sem misericórdia com o cinto quando tinha quatro anos. Viu Lucius aparecer na porta da cozinha fingindo ser Sirius. Afastou as memórias da mente, mas não antes de ver Lorde Voldemort segurando sua mão dentro do forno.
O rapaz olhou para o Comensal, que parecia surpreso por não ter conseguido reter as memórias. O moreno levantou-se e ficou em silêncio por um momento, incapaz de se mover. Sua vida inteira fora uma mentira. As lembranças de Lucius mostraram a verdade por trás do abuso. Eles o abusaram e alteraram sua memória para parecer que foram James, Lily e Sirius. Harry ou qualquer outra pessoa não poderia saber que as memórias foram alteradas, já que tudo foi feito quando o garoto era muito novo e sua própria mente as fez parecerem reais. Ninguém que olhasse as memórias do garoto veria as alterações ou os sinais de modificação. Lucius, porém, lembrava de tudo como realmente tinha acontecido.
O rapaz segurou a varinha e tentou fazer sua mente confusa trabalhar, enquanto o homem tentava se soltar.
"Eu posso explicar."
"Eu não quero escutar." Harry lançou-lhe um olhar gélido. "Obliviate!"
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"Você leu os jornais essa manhã?"
Seu herdeiro sacudiu a cabeça.
"Eu estava... ocupado."
"Você e seu brinquedinho estão em quase todos eles."
Harry arqueou uma sobrancelha.
"E sobre o que é?"
"Witch Weekly, por exemplo, fala tudo sobre esse romance secreto e como você a capturou e como a família dela está preocupada e que você deveria dar algum sinal de que ela está bem ou algum lixo desse tipo."
"Eu não sabia que você lia essa revista." O garoto sorriu.
Voldemort estreitou os olhos na direção dele, mas o sorriso do garoto apenas se alargou.
"Eu não leio!" Não mesmo! Quem ele achava que era? "É Bella quem lê."
"Leitor da semana, o que estou dizendo? Leitor do ano: Lorde Voldemort. Você também escreve para o editor? Olá, eu tenho problemas com as pessoas ao meu redor. Elas não fazem o que eu ordeno... o que faço para ser mais popular? Felicidades, To..."
"Se você terminar essa frase, eu não garanto nada."
O jovem revirou os olhos.
"Onde quer chegar?"
"Eu apenas achei que devia saber."
"E agora eu sei. Algo mais?" perguntou Harry, virando-se em direção à janela e olhando para fora.
Voldemort franziu o cenho ligeiramente. Algo estava errado com o garoto. Percebera que algo tinha acontecido no instante que o encontrou, mas não conseguiu descobrir o quê. Esperava que não tivesse nada a ver com a garota, era a última coisa que precisava agora. Ele podia se divertir com ela... mas não podia começar a gostar dela. Mas a quem estava enganando? Harry jamais sentiria algo por ela... ou por garota alguma. Não havia tal coisa como amor. Não haveria nenhum problema em completar o plano.
"Comensais da Morte atacaram uma cidadela essa manhã, um membro da Ordem mora lá. Aconteceu como planejamos. Eles lutaram, eles vão continuar lutando."
O rapaz não disse nada, nem ao menos se virou. Voldemort ficou intrigado.
"Sabe o que isso significa?"
Seu herdeiro deu um breve aceno.
"Ginny Weasley tem que morrer."
