Disclaimer: Nada é meu. Harry Potter (a família Weasley e assim por diante) pertence à JKR e àqueles que publicaram os livros dela. Damien pertence à Kurinoone e a história por trás de Harry meio que pertence a ela também. Eu estou fazendo isso por diversão (e para dormir em paz) e não estou ganhando dinheiro algum com essa história. Há partes da história que foram escritas por JKR e partes que foram escritas por Kurinoone.

Chapter Twenty-One – Trying To Come To Terms With It

(Tentando Entrar em Acordo)

Harry suspirou baixinho, passando a mão pelo cabelo castanho claro antes de bater à porta. Escutou atentamente, tentando ouvir os passos dela. Não conseguiu e franziu o cenho. Ela não estava? Levantou a mão, batendo à porta novamente. Seu coração acelerou. Algo acontecera a ela? Talvez devesse tê-la visitado antes – uma brecha da porta se abriu e os seus olhos castanhos amendoados estavam olhando para ele. Eles se estreitaram com desconfiança e ele cantarolou em aprovação.

"Sim?" perguntou ela, fechando um pouco mais a porta, de modo que ele só podia ver um de seus olhos.

Harry não disse nada, apoiou a mão na porta suavemente, mas não conseguiu abrir mais, parecia que ela colocara todo seu peso contra ela. Um sorriso se formou no canto da boca dele. Ela era boa, estava fazendo melhor do que ele tinha esperado.

"Tudo bem, já chega. Deixe-me entrar, Ginny."

Ela bateu a porta na cara dele. Ele pestanejou e bateu na porta novamente.

"Quem é você?" perguntou ela através da porta.

"Sou eu: Harry."

Ela murmurou alguma coisa dentro do quarto antes de ordenar:

"Diga uma coisa que só você saiba."

"Me pergunte alguma coisa que só eu sei, então."

"Não."

Ele revirou os olhos, pensando no que dizer a ela. Por um instante, ele sorriu de lado, mas então se lembrou da reação da garota e parou. Engoliu em seco. Deveria ou não? Não queria continuar de onde haviam parado da última vez e não queria entrar naquela discussão novamente, mas o que diria então? Ali, no corredor, onde alguém podia ouvir?

"Por favor, Evra."

A garota abriu a porta abruptamente, olhando feio para ele.

"Não me chame assim."

Harry deu de ombros ao entrar.

"Funcionou, não é?"

Ela cruzou os braços, mas se afastou. O garoto fechou a porta e se recostou nela, fitando-a o tempo todo. Quando ela não disse nada e nem se mexeu, ele cruzou os braços também.

Ele viu os olhos dela escurecerem antes de falar:

"Há quanto tempo, Potter."

Ele ainda tinha que lembrar a si mesmo que ela estava se referindo a ele quando dizia "Potter."

"Sentiu minha falta?" perguntou sarcástico.

Ginny balançou a cabeça.

"Você podia ter me dito que não planejava aparecer."

Harry sacudiu os ombros.

"Eu tinha algo a fazer."

Ele observou a garota olhar para ele, traçando cada centímetro de seu rosto com os olhos.

"Você está ridículo," decidiu ela por fim.

Harry arqueou a sobrancelha. Ele sabia que parecia bem diferente do normal, mas essa era a intenção. Enfeitiçara o rosto para parecer que fazia três dias que não se barbeava e estava usando óculos. Os cabelos estavam combinando com os olhos também castanhos, e quando a olhou mais de perto, percebeu, com um sobressalto, que estavam da mesma cor dos dela. Sentiu vontade de gemer. Perfeito.

Quando ela sorriu de lado, ele pensou que ela tinha percebido e que iria comentar, mas isso não aconteceu.

"Mas você seguiu o meu conselho." Ele arqueou a sobrancelha novamente e o sorriso dela se alargou. "Mudou a aparência."

Harry revirou os olhos.

"Eu não fiz isso por sua causa."

Ela bufou.

"Fez sim, admita."

"Não fiz não, Weasley. Eu sou capaz de criar ilusões e enfeitiçar meu cabelo muito bem." Ao ver o jeito que ela olhava para ele, o garoto acrescentou: "e eu sei quando usá-los também."

Ginny revirou os olhos.

"É… e por que não fez isso antes, então? Antes que eu dissesse alguma coisa?"

"Sim, você está certa, isso teria sido de grande ajuda com Amy. Sim, sou eu mesmo. Eu consigo mudar minha aparência, eu sou um bruxo, sabe?" A voz dele estava gotejando sarcasmo.

A garota não falou mais nada sobre aquilo e Harry sabia que tinha vencido aquele round, é claro.

"Então... O que você andou fazendo enquanto eu estive aqui sozinha, sem saber de nada?"

Harry ignorou a pergunta dela.

"Eu esqueci disso da última vez."

Ele estendeu a mão, puxou as calças para cima, soltando o coldre de varinha da sua perna. Quando ela viu o que ele estava fazendo, começou a sorrir. Ele puxou a varinha e atirou o coldre para ela, que o pegou facilmente, é claro.

"Coloque-o. Deve ficar melhor no seu braço."

Harry tirou o casaco e o pulôver, mostrando o dele à garota. Ela assentiu, apertando o coldre entre as pernas e arregaçou as mangas da roupa. Em seguida, tentou prendê-lo no braço esquerdo. Harry franziu o cenho.

"Você não é destra?"

Ginny levantou os olhos.

"Sim, eu sou, mas por que…"

"Então tem que prendê-lo no braço direito."

Ginny franziu a testa.

"E como eu vou tirar a varinha então?"

"Sacudindo seu pulso, é claro."

"Se você diz." Ela mudou de braço e tentou prendê-lo, lutando mais ainda. Ela resmungou antes de olhar nos olhos dele. "Ajuda?"

Harry revirou os olhos e se aproximou dela, pegando o coldre de suas mãos. Ignorou a maneira como suas mãos formigaram quando tocou o braço dela e lhe mostrou onde prender o coldre. Ele, então, alcançou a cadeira onde tinha colocado a varinha e entregou-a a ela.

"Tome cuidado para que ninguém veja você fazendo magia."

Foi a vez de Ginny revirar os olhos enquanto corria os dedos pela varinha. Harry deu alguns passos para trás. Não porque pensava que ela pudesse fazer alguma coisa a ele, mas prometera a si mesmo que manteria distância.

"É claro." Ela apontou a varinha para uma de suas camisas, murmurando suavemente. "Wingardium Leviosa."

A camisa subiu no ar. Um largo sorriso se formou em seu rosto e ela deixou a peça de roupa cair. Rapidamente, avançou até ele, jogando os braços em torno do garoto.

"Obrigada."

Por um instante, Harry sentiu vontade de puxá-la para mais perto, correr as mãos por suas costas – ele deu um passo para trás, afastando-se dela. A garota deixou os braços caírem, franzindo a testa. Em seguida, também recuou, mordendo o lábio. O rapaz a observou segurar a varinha com mais força, antes de colocá-la no coldre, sem olhar para ele. Ela sacudiu o pulso algumas vezes e a varinha apareceu em sua mão. Colocou-a de volta e tentou novamente. A varinha apareceu de imediato. Assentiu levemente e guardou-a de novo. Em seguida, olhou para cima, encontrando o olhar dele.

"O que você tem feito?" perguntou ela, repetindo a pergunta que fizera mais cedo, enquanto se deitava na cama. Parecia que ela queria apenas ignorar o que aconteceu. Sentindo-se aliviado, ele quase suspirou.

"Eu roubei uma Horcrux. Achei que seria óbvio," disse ele, indo em direção à porta e recostando-se na parede ao lado.

Ginny ignorou o sarcasmo dele, seus olhos brilhando.

"Você está com ela, então? É uma de verdade?"

Harry assentiu e a garota sorriu. Ele puxou a longa corrente na qual o prendera. Até então, ninguém lhe dissera nada e ele também não vira nenhum encontro emergencial ser convocado. Bella estava se comportando como sempre, e não parecia que Voldemort lhe punira por nada recentemente.

Com um rápido movimento, ele jogou a corrente para ela. A garota quase caiu da cama tentando pegá-la, mas conseguiu. Passou os dedos sobre o anel, virando-o em suas mãos.

"Já está me dando um anel? Ela olhou para ele e sorriu. Harry desviou o olhar. Ginny não recuou, em vez disso, ela disse: "Joias não, hã?"

"Não é joia, é herança de família."

"Apesar disso, é uma joia."

Harry bufou, mas nada disse. Joia... sério… mas havia algo mais que ele queria, afinal. Ele a deixou observar o anel em silêncio por mais alguns minutos.

"Fascinada com essa também?"

Ela levantou os olhos assustada, seu rosto corando. Silenciosamente, estendeu a corrente para que ele a pegasse. Ele não pegou e ela franziu o cenho.

"Eu andei pensando…" Ele fez uma pausa, observando a confusão no rosto da garota. "Que tal você ficar com ele por um tempo?"

Os olhos dela se alargaram e sua boca se abriu.

"Quê?"

Ele não repetiu a sugestão, mas esperou o choque dela passar.

"Mas… mas, por quê?"

Droga! Torcera para que ela não ficasse desconfiada. Harry tentou não demonstrar.

"Precisa ficar protegido."

Ela franziu a testa mais ainda.

"Eu pensei que você quisesse destruí-las."

"E quero."

Ginny revirou os olhos e olhou com raiva para ele.

"Sabe, suas respostas óbvias estão realmente irritando."

Harry estava se divertindo. Sentiu o canto de sua boca se contrair, mas se impediu de sorrir. Ele só tinha que voltar ao normal e tudo estaria bem.

"Você não perguntou nada que eu pudesse responder."

Ela bufou. Mas era muito mais divertido irritá-la... e ela era quase tão boa em morder a isca quanto Bella.

"Explique," ordenou ela, apontando para o anel.

Quando ela chegara à conclusão de que tinha que sair dando ordens a ele para conseguir o que queria?

"Existem bruxas afirmando coisas…" ela olhou para ele com mais raiva ainda, "pensando que todo mundo pode ver as perguntas que elas..."

A garota jogou a corrente, que ele pegou com facilidade.

"Não foi isso que eu quis dizer, idiota."

Ele arqueou a sobrancelha.

"Voltou com os xingamentos?"

Ginny cruzou os braços e bufou de novo.

"Ótimo, não explique, então. Não sou eu que quer protegê-lo."

Harry tinha que admitir: ela estava ficando cada vez melhor nos jogos sonserinos. Era até melhor se ele acabasse concordando.

"Eu troquei o Horcrux verdadeiro por um falso. Como disse, eu quero destruí-lo, mas ainda não tenho certeza se meu pa... quer dizer, se Voldemort notaria. Ainda não posso assumir esse risco. Mas também não posso arriscar que alguém descubra. Não quero procurar por ele novamente, o que deixa apenas uma opção: eu preciso protegê-lo. Mas eu já estou usando um e é algo que eu não deveria estar fazendo. Não quero que desconfiem da quantidade de magia vinda de mim. Então, pensei que você pudesse usá-lo."

Ela suspirou.

"Isso explica tudo." A garota fez uma pausa e mordeu o lábio. "Mas eu não quero usá-lo."

"Então, não use. Basta colocá-lo na mesa de cabeceira e ficar de olho nele."

Ginny mordeu o lábio de novo. Harry tentou não olhar, mas não conseguiu evitar. O garoto se lembrou das poucas vezes em que podia simplesmente fechar o espaço entre eles e beijá-la. Quando tudo não passava de um jogo...

Ela se contorceu um pouco na cama, suas mãos brincando com a bainha do cobertor. Ainda bem que ele permanecera de pé e não se sentara ao lado dela, onde poderia apenas se inclinar – ele balançou a cabeça. De onde viera aquilo? Harry cerrou os dentes. Devia ter ficado longe mais uma semana.

"Eu não quero ficar sozinha com isso," disse ela finalmente, trazendo-o de volta ao assunto original. O rapaz franziu o cenho. "É só que... a sensação é..." falou ela baixinho. "E se ele souber?"

"Ele não sabe," disse Harry, notando como aquilo a acalmara um pouco.

Ginny olhou para ele, com os olhos visivelmente cheios de inquietação.

"E se isso fizer alguma coisa comigo?"

Harry podia imaginar claramente. Ela deitada naquela mesma cama, os cobertores a envolvendo firmemente, a luz do luar iluminando sua forma, como na Mansão Riddle, sua respiração regular, o anel brilhando, ela acordando, o desejo de usá-lo, ela colocando-o em seu dedo... ele engoliu em seco. E se a machucasse? E se a possuísse? Ele jamais poderia forçá-la a usá-lo. Harry respirou fundo e tentou se acalmar. Ele não faria isso. Não podia fazer isso. Não precisava se preocupar. E por que raios estava se preocupando? A quem estava enganando? Devia ter ficado longe por pelo menos mais duas semanas.

Ele se ouviu perguntar:

"O que aconteceu com 'eu posso cuidar de mim mesma?'" Sabendo que isso a irritaria.

E irritou. Algo nos olhos dela mudou. A vulnerabilidade sumira e foi substituída por um fogo que chamou a atenção dele. Os olhos dela faiscavam quando ficou de pé, disparando na sua direção. Ele se recostou com mais força na parede. A garota pegou a corrente e puxou-a sobre a cabeça, sem quebrar o contato visual. Ela levantou o queixo, obstinadamente.

"Eu quero algo em troca."

Harry piscou. Era a última coisa que esperava que ela dissesse. Ele assentiu, podia lidar com aquilo depois, mas primeiro precisava desesperadamente fugir dela.

E então ela sorriu da mesma forma que sorrira na primeira vez que ele lhe beijara, mas seus olhos brilharam ainda mais intensamente.

"E obrigada por confiar em mim."

Harry quase deixou o queixo cair, tentando pensar em algo para dizer. Ela estava perto demais e seus olhos brilhavam intensamente. E aquele sorriso...

"Você está com fome?"

A alegria da garota diminuiu, ela parecia confusa.

"Aonde quer chegar?"

"Posso começar providenciando alguma coisa para você comer."

Ginny assentiu e ele saiu sem dizer mais nada. Quando fechou a porta, Harry sentiu vontade de bater com força em alguma coisa. Sentia-se idiota, muito, muito idiota. Por que ela o afetava daquela maneira? Suspirou, correndo a mão pelo cabelo enquanto descia para o térreo. Acabara de entregá-la um pouco de seu poder sem sequer pensar duas vezes. Tinha pensado em destruí-lo e nas possíveis consequências. Pensara em usá-lo e na possibilidade de alguém ver – afinal, já usava o medalhão e o amuleto para proteger sua mente em torno do pescoço. Então, ele pensara nela. Parecia perfeito em sua mente: não precisaria se preocupar em mantê-lo a salvo, mas estaria protegido. Não desapareceria de repente e ela ficara fascinada pelo medalhão, então, seria fácil convencê-la, mas... droga!

Ele não tinha pensado na possibilidade de que fosse parecer que confiava nela. E ele tinha mesmo que confiar de alguma forma, porque não tinha nem pensado antes de agir. Nunca teria entregado aquela maldita coisa a Draco... e ele confiava em Draco até certo ponto. Tinha se tornado dependente dela... mesmo sem perceber, o que tornava tudo ainda pior. Parecia que tinha mesmo que pensar em seus sentimentos na próxima oportunidade, que, provavelmente, acabaria sendo em sua cama, deitado acordado naquela noite. Esfregou os olhos por baixo dos óculos que estava usando. Reafirmando sua promessa de não pensar nela nunca mais.

xxx

Alguns minutos depois Harry estava de frente a uma pequena loja, ponderando silenciosamente sobre o que deveria comprar para ela. Optou por comprar primeiro a bebida e decidir sobre a comida depois. Entrou na loja e deu uma olhada nas bebidas à venda.

"Com licença, senhor, pode me deixar passar, por favor?" perguntou Damien, sem reconhecer o irmão.

Harry olhou boquiaberto para ele, sem se mover um centímetro. Não conseguia definir como Damien estava. Por um lado, o menino parecia melhor do que da última vez que ele o vira, pois seus olhos não estavam tão vermelhos, mas, por outro lado, parecia cansado e completamente desgastado. Havia círculos escuros embaixo de seus olhos e seus cabelos pareciam que não viam uma escova há tempos. O brilho usual em seus olhos também tinha sumido.

"Algum problema?" perguntou Damien.

Ele balançou a cabeça e se afastou. O mais novo passou por ele e desapareceu loja adentro. Por um momento, o rapaz pensou em segui-lo, mas não podia. Damy não ia saber quem ele era, e teria que se explicar e provar ser ele mesmo, e alguém podia estar por perto... Mas suas pernas já estavam se movendo, e, num instante, o alcançou. O menino olhou confuso quando ele ficou em sua frente.

"Oi, Damy." Damien arregalou os olhos e abriu a boca, a desconfiança em seu rosto. Antes que o irmão perguntasse, ele acrescentou: "Sou eu, Harry."

"Por que você está com essa aparência?"

Harry franziu os lábios.

"Você é muito confiante." Afinal, até Ginny tinha ficado em dúvida.

Damy sorriu.

"Tudo bem, é você mesmo."

Harry revirou os olhos e se inclinou na direção do menino.

"Onde está seu guarda?"

"Esperando fora da loja. Como você adivinhou?"

"Como se eles fossem deixar você andar por aí sozinho. O que está fazendo aqui?" perguntou Harry. Ele tinha uma ideia... mas tinha que ser muito rápido.

"Eu podia te fazer a mesma pergunta, sabia? E com essa aparência..."

"Olha, eu não tenho tempo para isso. Acha que pode desaparecer comigo por alguns minutos?" perguntou Harry impaciente, olhando em volta. Ninguém os observava.

"Quê…? Por quê?"

"Há alguém que gostaria de te ver também."

Por um momento, a expressão de Damien ficou ainda mais confusa, mas em seguida se desfez.

"Você quer dizer Ginny."

"Psiu." O irmão gesticulou para que ele ficasse calado. "Que tal?"

Damien assentiu ansioso. Harry olhou em volta novamente, mas não havia ninguém. Em um rápido movimento, pegou a mão do outro e desaparatou com ele. Reapareceram em um pequeno beco em frente à pousada. Na aterrissagem, o menino tropeçou.

"Você podia ter me avisado!"

Harry riu de lado.

Por que deveria avisá-los? Eles apenas não prestavam atenção o suficiente ou saberiam o que ele estava prestes a fazer.

"Tudo bem, vamos."

Harry levou Damien até o quarto de Ginny. Bateu de leve na porta, pensando em combinar com ela uma batida especial para a sua segurança. A garota abriu uma fresta e, ao vê-lo, abriu a porta toda e se virou. Ele entrou, gesticulando para o irmão o seguir.

"Uau! Você foi rápido. O que trouxe para mim?"

"Um idiota burro, eu pensei que desse para começar, sabe."

"Ótimo, você enfim está se reconhecendo…" Ela parou, finalmente avistando Damien.

Um largo sorriso se espalhou em seu rosto e ela se atirou sobre o menino, que cambaleou para trás, mas riu e a abraçou. Harry recuou, fechou a porta e os observou.

"Eu não acredito que você está aqui! O que está fazendo aqui? Como você está? Por quanto tempo pode ficar? Harry planej…"

Damien colocou as mãos para cima.

"Calma aí, Ginny. Eu não posso responder tudo de uma vez." Ele fez uma pausa. "Como você está? O que aconteceu com seu cabelo?"

"Mais difícil de ser reconhecida." Ela acenou com a mão, sinalizando que não valia a pena falar sobre aquilo. "Você..." A garota o olhou de cima a baixo. "Você está terrível."

"… obrigado, Ginny."

"O que aconteceu com você?"

Damien parou de sorrir e correu a mão de forma nervosa pelo cabelo, olhando de Harry para Ginny e vice-versa.

"Eu... você..." O menino respirou fundo. "Como você está?"

"Damien, o que houve?" perguntou Ginny, segurando-o pelos ombros.

O garoto ainda estava evitando os olhos dela.

"Ele está te tratando bem?" O menino gesticulou na direção de Harry, que olhou sério para o menino.

"Damien, apenas me diga."

"Ginny, olhe: eu não tenho muito tempo. Pode apenas me dizer como você está e se tudo está tão bem quanto possível?"

"Eu… está sim, mas há algo de errado com você."

Damien balançou a cabeça.

"Eu não posso ficar esse tempo todo. Eles vão me procurar."

Ginny mordeu o lábio.

"Há como nos encontrarmos novamente? Em breve? Com mais tempo?"

"Eu adoraria, Ginny." Um sorriso se formou em seu rosto. Damien virou-se na direção do irmão. "Aqui é longe da loja?"

Harry sacudiu a cabeça.

"É só atravessar a rua."

"Então, eu posso vir." Damien olhou para Ginny novamente. "Que tal amanhã? À tarde? Mais ou menos umas três horas? Não posso prometer estar lá, mas eu vou tentar…"

"E como planeja vir para cá?" interrompeu o mais velho. Ele não estava gostando daquilo. É claro que queria saber o que havia de errado com seu irmão, mas podia imaginar o que era. "É muito perigoso você simplesmente andar por aí..."

"Harry, está tudo bem. Hermione mora aqui perto. Eu vou dizer à mamãe e ao papai que estou com ela, e então pego a capa da invisibilidade e venho até aqui."

Harry franziu o cenho.

"Eu não gosto mesmo assim." Ele encontrou o olhar de Ginny ao olhar na direção da garota.

"Você me deve isso e eu quero," disse ela.

Harry cruzou os braços.

"É perigoso demais."

"Ah, por favor, Harry! Eu tenho o pingente, se algo sair errado."

Ambos olharam suplicantes para ele. O rapaz desviou o olhar, não estava habituado com aqueles olhos de cachorro pidão encima dele. Ele, por fim, suspirou.

"Tudo bem, tudo bem." Ele se rendeu. "Mas, tenha cuidado... e não diga que eu não te avisei." Ambos sorriram largamente. "E você devia voltar, Damien. Eu devia te levar..."

"Não, se é só atravessar a rua, eu mesmo encontro o caminho de volta... e vai ser menos suspeito e se eu aparecer sozinho."

Harry assentiu em aprovação.

"Você tem uma desculpa para seu sumiço?"

"Ainda não." Rapidamente Damien acrescentou: "mas vou pensar em alguma coisa no caminho. Acredite, se tem algo que eu sei fazer, é inventar desculpas."

Harry viu o irmão abraçar Ginny antes de se aproximar dele e abraçá-lo também.

"Se cuidem, vocês dois," sussurrou ele antes de sair do quarto.

Harry e Ginny olharam para a porta fechada por alguns minutos antes de falarem.

"Você o encontrou por acaso?" perguntou ela.

Harry assentiu.

"Eu pensei que você fosse gostar de vê-lo."

"Eu gostei." Ela sorriu brilhantemente para ele. "Obrigada."

"Por…" Harry engoliu em seco, não estava acostumado com aquilo. "Por nada." Ele fez uma pausa. "Eu provavelmente não vou aparecer amanhã."

Por um instante, ele não tinha bem certeza se queria apenas dar privacidade a Damien e Ginny, se queria ficar longe dela ou se queria evitar que seu pai descobrisse.

A garota franziu o cenho.

"Você pode vir se quiser, sabe disso, certo?"

Harry revirou os olhos.

"Eu não estava pedindo permissão."

Ela sacudiu os ombros.

"Eu sei... só estou dizendo. Quando acha que vai aparecer de novo?"

"Sério?" Ela assentiu. "Eu não sei bem, Ginny. Não é como se eu planejasse te visitar. Eu tento fugir sempre que possível." O que era mentira, é claro. "Mas eu tenho que ter cuidado ou eles podem desconfiar de onde estou esse tempo todo."

"Tudo bem…"

Havia um tom de decepção na voz dela? Harry sacudiu a cabeça, olhando em volta do quarto, sem saber o que dizer.

"Devo tentar comprar algo para você comer novamente?" disse ele por fim.

Os olhos dela se encheram de malícia e ele sentiu uma sensação estranha em seu estômago.

"Tem certeza de que é capaz disso?"

xxx.

Ginny deu uma olhada no corredor, nas não havia ninguém ali. Fechou a porta com firmeza e sacudiu o pulso, tirando sua nova varinha. Ainda parecia estranha em sua mão, como algo que não deveria estar ali, como se, de alguma forma, ela estivesse traindo sua varinha de verdade. Sacudiu a cabeça e conjurou um feitiço silenciador.

"O que está fazendo?" perguntou Damien tão estridente atrás dela que quebrou sua concentração. "Você não pode fazer magia!"

"A varinha não tem rastreador." Ela sacudiu a varinha novamente, murmurando o feitiço.

"Quê? Mas é ilegal!"

Um sorriso se formou no rosto da garota.

"Diga a seu irmão da próxima vez que o encontrar."

Ela se virou e viu a expressão intrigada do garoto.

"Por que eu deveria...?"

"Não importa." Ela acenou a mão com desdém. "O que importa mesmo é: o que aconteceu?"

Damien suspirou, sentando-se em uma cadeira que estava no canto.

"Direto ao ponto, hein?"

"Você me conhece… eu estou morrendo aqui sem saber de nada."

Damien se encolheu.

"Não."

Ela se sentou na cama, o encarando.

"Como?"

"Não diga que está morrendo… é..." O menino fez uma careta, gesticulando com as mãos. "Não é certo, com tudo que está acontecendo."

"O que está acontecendo?" perguntou ela novamente, irritada.

Havia algo muito errado com o menino. Ela nunca o vira daquela forma. O último período em Hogwarts tinha sido muito duro para ele, mas não tinha sido tão terrível.

"Você não… você não sabe?"

Damien a encarou, seu rosto cheio de terror. Ele engoliu em seco e a garota ficou inquieta. Será que tinha acontecido algo com algum conhecido seu? Alguém havia... morrido? Ela engoliu em seco também.

"Por favor, me diga, Damy."

"Você… você morreu. Quero dizer… Harry… ele te matou, mas é óbvio que não matou porque você está aqui e..."

O rosto da garota se encheu de alívio.

"Eu já sei disso."

"Graças a Merlin." Damien passou a mão pelo cabelo. "Por um instante eu pensei que você não soubesse."

"Por um instante eu pensei que alguém tinha morrido de verdade. Ninguém morreu, certo?"

"Ninguém da Ordem ou da sua família. Houve um ataque a Hogsmeade, mas não morreram muitas pessoas... foram alguns Comensais da Morte causando estrago."

Ginny assentiu estarrecida.

"O que está acontecendo, então?"

"Tem uma… tem uma guerra acontecendo, sabe. Pelo menos é o que minha mãe e meu pai dizem, mas não é bem assim." Ele fez uma pausa. "Não estou fazendo sentido algum, estou?" Ginny balançou a cabeça sem dizer nada. "Depois de sua morte, houve alguns ataques menores de Comensais da Morte. Nada muito grande, mas meu pai acha que estão preparando algo maior, sabe. Deve saber: Fudge perdeu o cargo depois de sua morte. A imprensa reforçou, era quase como se quisessem que ele saísse. É claro que tudo está uma bagunça agora. Candidatos estão sendo escolhidos, e todos estão tentando desesperadamente colocar alguém na jogada. A Ordem está tentando coletar informações sobre todos eles, mas, até agora, parece que nenhum deles é Comensal. Todos temem estar deixando escapar alguma coisa... Você-Sabe-Quem não desperdiçaria a oportunidade, não é? É claro que a Ordem tem um candidato... sabe, talvez Kingsley Shacklebolt seja ministro em breve. Pelo menos é o que Dumbledore quer. Depois, tem Rufus Scrimgeour, ele é o Chefe dos Aurores. Tem também alguém das antigas famílias... dizem que ele provavelmente é o Comensal da Morte, mas ninguém tem certeza e o último é um empregado do Ministério. O nome dele é Thicknesse. Acho que ele é subordinado de Bones…"

"Tudo bem, o Ministério está um caos. O que mais?"

"Você não entende, Ginny. Eu também não estava interessado nisso, mas meu pai disse que é muito importante, e acho que entendo agora. Imagine o que vai acontecer se a pessoa errada for eleita. Teríamos um Comensal da Morte como ministro. Você-Sabe-Quem assumiria o Ministério e nós teríamos que nos esconder com mais cuidado ainda. Quase todas as pessoas que conheço perderiam o emprego e a caça aos trouxas provavelmente seria legalizada... é terrível. Eu sei que todos tentam não demonstrar, mas estão com muito medo. Todos estão tentando mexer os pauzinhos, mas há a possibilidade de algo dar errado... sem o Ministério, sem os aurores..." Damy estremeceu. "Provavelmente estaríamos perdidos. "

A garota engoliu em seco, mas assentiu. Podia ver que Damien estava assustado, e podia ver porquê.

"E então, com Hogwarts fechada... não há muito no que pensar. Nada para distrair a mente. Nós temos atribuições, é claro, mas não é a mesma coisa... sem quadribol, aulas, travessuras e..." Ele respirou fundo. "Tudo caiu na escuridão. Não apenas no Ministério, mas em casa também. Harry te contou da vez que ele me visitou?"

Ginny assentiu.

"Ele disse que recebeu ordens para te matar, mas que não cumpriu e que te contou a verdade."

"Mas ele não te contou sobre…" Damy parou abruptamente, encarando-a. "Ele o quê?" O rosto do garoto empalideceu de repente, ele abriu a boca e fechou. Então, em um sussurro, repetiu: "Ele recebeu ordens para me matar?"

Ginny assentiu entorpecida.

"Sim, recebeu."

"Ah, Merlin." Ele esfregou as mãos no rosto. "Cada vez fica pior. Eu não fazia ideia... Ah, Merlin. Ele recebeu ordens para me matar. Não posso acreditar no que mandaram ele fazer, no que pediram a ele." O menino estremeceu e quando ela olhou para ele com mais atenção, viu que havia lágrimas brilhando em seus olhos. "Ah, droga. Está tudo bagunçado."

Ginny se levantou, cruzando o espaço entre eles. Ela abriu os braços para ele e o menino se levantou. Eles se abraçaram com força.

"Eu gostaria que vocês pudessem voltar comigo," sussurrou ele suavemente. "Vocês dois."

Ela sentiu lágrimas brotarem em seus olhos e o abraçou com mais força ainda.

"Eu desejo isso todas as noites antes de dormir," confessou baixinho.

Damien se afastou.

"E você não sabe nem da metade ainda."

A garota engoliu em seco, com medo do que estava por vir.

"Então, continue, por favor."

Damien assentiu.

"Sim, é melhor. Tudo bem se eu não explicar com muitos detalhes? Só de pensar sobre isso dói demais e..." Ele enxugou algumas lágrimas.

"Sim, é claro," concordou ela imediatamente.

"Obrigado." Ele fez uma pausa, respirando fundo para se acalmar. "Você tem que saber: não está sendo fácil com meus pais também. Sei que estão brigando com mais frequência. Brigam por causa de Harry, por minha causa, por quase tudo. E meu pai ainda está com raiva de mim por conta de Harry. Ele fala comigo às vezes, mas... é muito difícil, sabe? Toda vez que olho para ele vejo a acusação em seus olhos. Ele acha que foi minha culpa Harry deixar Godric's Hollow novamente. Ele não sabe que Harry sabe da verdade e Harry não sabe..." Ele parou, pensando em alguma coisa. "Sabe, eu não sei mais o que pensar. Simplesmente não sei. Todo dia eu tenho vontade de dizer aos meus pais que eles não precisam se preocupar tanto, que Harry sabe, que você está viva, mas eu estaria traindo Harry e eu prometi não fazer isso e... e tem a coisa de Harry e as memórias e essa coisa de Alex e eu prometi a eles que não contaria..."

"Coisa de Alex?" Ginny o interrompeu, com o coração apertado.

"De alguma forma, Dumbledore conseguiu algumas memórias dele e as assistiu, e numa delas alguém o chamou de Alex, e agora estão tentando encontrá-lo dessa forma..."

O coração dela disparou. Se eles soubessem sobre Alex, se eles descobrissem, poderiam descobrir sobre Amy e poderiam encontrá-la e... com a voz visivelmente cheia de pânico, Ginny disse:

"Nós temos que contar isso a Harry."

"Mas eu prometi…"

"Não, Damien, você não entende. Eles poderiam descobrir sobre mim dessa forma."

"Ah." Os olhos dele se arregalaram. "Ginny, eu não fazia ideia... eu... ah, Merlin!"

"Eu vou contar na próxima vez que ele vier. Tudo vai ficar bem." Ela falou mais para si que para Damien. "Eles não vão descobrir."

"Tem certeza? Se eu soubesse, eu teria…" Mas ele parou. "Eu poderia ter contado a ele antes, ontem, e eu nem pensei nisso."

"Está tudo bem, Damy. Eu vou explicar a ele. Você sabe qual memória eles viram?" Harry ia querer o máximo de informações possíveis.

"Foi numa espécie de clube de luta… ele estava lutando com trouxas. Eu só sei disso."

Provavelmente tinham visto ele no Little John's. Foi assim que Amy tinha chamado o lugar, não foi?

"E, quando? Quando eles assistiram?"

"No dia do ataque a Hogsmeade. Não foi há tanto tempo, foi há alguns dias."

Ginny fechou os olhos, tentando manter a calma. A garota estremeceu, pensando no que eles já poderiam ter descoberto.

"Tem algo mais para me contar?"

"Sobre a memória? Não."

"Tudo bem." Ginny respirou fundo. "O que você pode me dizer, então? Aconteceu mais alguma coisa? Algo que eu deva saber?"

"Eu…" Damien olhou em volta. "É melhor se sentar."

Ela assentiu confusa. Juntos, eles se sentaram na cama.

"Eles..." O menino olhou em volta confuso.

"Damien… o que eles fizeram? E quem são eles?"

Ele engoliu em seco e quando seus olhos se encontraram, ela viu que os olhos dele brilhavam cheios de lágrimas.

"Eles te enterraram, Ginny."

A garota ficou atordoada, não era isso que estava esperando que ele dissesse. É claro que sabia que eles fariam aquilo, mas era algo completamente diferente escutar alguém dizer.

"Eu estava lá, foi terrível. Todos estavam lá e não paravam de chorar e sua mãe fez um escândalo porque meu pai... nós estávamos lá, mas ela não conseguia olhar para ele, porque ele parece muito com Harry e... é só que... tudo está desmoronando, Ginny. Você devia ver sua família... eles estão tão desesperados. Eu nunca vi nenhum deles dessa forma."

A garota fechou os olhos, produzindo em sua mente imagens que se enquadravam no que o garoto dissera. Sonhara com aquilo há algumas noites, tinha visto todos eles e mesmo sabendo que não podia mudar nada e que não podia estar lá, ela se sentia muito culpada. Sabia que era o preço para continuar segura e viva, mas... mas era difícil. Era difícil e uma simples promessa a si mesma não fazia os sonhos, os pensamentos ou a culpa pararem.

Damien continuou, sua voz repentinamente monótona, como se não soubesse como dizer aquilo.

"Ron e eu, bem... não está muito bom com nenhum de seus irmãos no momento, mas com Ron está pior. A gente não está se falando muito. Para ser sincero: estamos nos evitando. Acho que ele não quer olhar para mim, não quer ver Harry em mim e... Hermione acha que ele está com raiva de mim por eu ter ficado ao lado de Harry em Hogwarts... e, eu, bem... eu não consigo olhá-lo nos olhos sem pensar que sei da verdade e eu me sinto tão culpado. Quer dizer, eles estão todos tão tristes e eu não posso fazer nada, mesmo que quisesse e... Ron... não... não está legal, mas... eu... se eu tiver que escolher entre Harry e Ron, eu vou escolher Harry."

"Damien, ninguém está te forçando a escolher."

Mas o menino balançou a cabeça, com um sorriso triste no rosto.

"Eu tenho que escolher. Todos os dias eu tenho que decidir se conto ou não a Ron. E não contando, eu escolho Harry. Todos os dias. Tudo de novo."

"Ele não ia querer isso."

Damien tinha lágrimas nos olhos quando olhou para ela.

"Ele quer, acredite. Harry quer que eu fique calado. Eu tive que prometer. Eu fiz um juramento."

"Ele fez você fazer isso? Mas..."

"Ginny, eu entendo, entendo mesmo. É pela sua segurança e a dele, e não podemos correr esse risco. Ele não pode correr o risco de que eu conte a alguém, então, eu não vou contar."

"Sim, mas você não tem escolha. Ron vai entender quando esse momento chegar."

"Se chegar."

"Damien?"

"Ginny, olha: eu tive muito tempo para pensar em toda essa confusão e no que deve mudar. Se nada drástico acontecer, nada vai mudar. Harry sabe a verdade agora, mas... mas ele fica lá. Ele não pode sequer ir embora, agora que quer ir! E mesmo que ele vá... eles não saberiam sobre você e eu não posso te trair. Eu fiz minha escolha, Ginny, está tudo bem."

"Mas, Damien…"

"Não, Harry vem primeiro. Afinal, ele é minha família."

"Mas Ron é como um irmão para você."

"Eu sei disso Ginny. E isso me machuca. Eu não quero fazer isso, mas Harry é meu irmão e Ron não. Às vezes a família de verdade tem que vir primeiro e isso..." Ele fez uma pausa. "Isso... você... Harry... isso é mais importante que minha amizade com Ron."

Eles ficaram em silêncio, envoltos em pensamentos. Ela queria dizer a Damien que ele não devia fazer aquilo, que ele não podia fazer aquilo, mas... ele estava certo. Aquilo era importante, mas ela queria que tudo se resolvesse. A segurança de Harry e a dela, e a amizade de Damy e Ron... mas podia entender o menino. A pressão sobre ele era demais e ele sentia-se culpado por tudo, assim como ela. Ela cedeu ao impulso de abraçá-lo novamente. Silenciosamente, eles se abraçaram, confortando-se. Nunca se sentira tão próxima a Damien como naquele momento.

"Eu me preocupo com vocês dois o tempo inteiro. Sabe, eu sei da verdade, mas nunca tenho certeza que vocês dois estão bem... porque se não estivessem, eu não saberia. Eu nunca saberia." Ele engoliu em seco. "Eu só queria que tudo isso tivesse acabado ou... que nem tivesse acontecido. Eu queria que ainda estivéssemos em Hogwarts, sem saber de nada sobre isso tudo."

Ginny não disse nada. Sim, às vezes ela também pensava assim, mas aquilo não ajudava em nada. Eles estavam ali agora, não podiam voltar atrás e ela não queria experimentar tudo aquilo de novo. Não estando tão próxima a Harry agora, ela não queria ficar longe dele novamente. Não queria passar por toda aquela confusão da Ordem novamente. Não queria voltar atrás. Queria continuar, encontrar um caminho. Tinha que haver um, só não conseguiam enxergá-lo ainda. Tinha que continuar, tudo tinha que seguir em frente.

"Já chega de falar de mim. Acho que te contei praticamente tudo que está acontecendo comigo no momento. Agora eu quero saber de você. "

"Sobre mim?" perguntou a garota, voltando à realidade.

"Ginny, eu estou vendo que você não está em sua melhor forma também. Também não parece a felicidade em pessoa no momento."

E então ela contou a ele. Contou sobre como foi capturada, sobre o quartel-general do Lado Negro, sobre sua "morte," sobre Harry e como ele a ajudou a escapar, como a levou até Amy e como depois a trouxe para aquela pousada. Contou sobre sua culpa, como sentia falta de tudo e todos, como se preocupava e que não sabia de quase nada. Não mencionou as Horcruxes e nem sobre o que ela e Harry conversavam.

Damy parecia ter percebido aquilo. Ele a escutara com muita atenção, fazendo algumas perguntas de vez em quando, mas, de repente, um sorriso malicioso se formou em seu rosto.

"E o que está acontecendo entre você e Harry?"

Ginny olhou confusa para ele.

"O que você quer dizer?"

"Sabe, isso é estranho, mas…" Ele fez uma leve careta, um rubor surgindo em suas bochechas. "Você teve alguma coisa com ele." A garota o encarou, sem acreditar que ele diria algo desse tipo. "Ah, vamos lá, vocês estão... isso é embaraçoso... vocês estão juntos?"

"Não," respondeu ela secamente.

Damien franziu os lábios.

"Não?" Ele parecia desapontado.

"Não, nós não estamos juntos.," disse Ginny com firmeza.

"Mas, vocês estavam… então, tinha que haver alguma coisa, certo?" perguntou ele novamente, com os olhos cheios de esperança dessa vez.

Ginny olhou desconfiada para ele.

"Damien, você quer que haja alguma coisa?"

O menino sorriu sem graça.

"Seria muito legal, não é?"

Ginny revirou os olhos.

"Você acha?"

"Sim, quero dizer… você e Harry…" Ele parou. "Nós seríamos como uma família de verdade."

"Damien, pare de sonhar, não é bem assim."

"Não é como em Hogwarts, então?"

"Não." Ela fez uma pausa. "Às vezes até parece que nada daquilo jamais aconteceu. Sabe: Hogwarts, as cartas, Hogsmeade..."

"Isso não aconteceu há tanto tempo, Ginny."

"Eu sei, mas tanta coisa aconteceu, e… é diferente."

"Então, vocês nem falam sobre isso? Não mencionam de forma alguma?" perguntou confuso.

"Nunca surgiu nas conversas."

Damien franziu o cenho.

"Então, vocês são amigos?"

"Não, não exatamente."

"E o que vocês são, então? Quer dizer, se não estão juntos e não são amigos... não há muita coisa que vocês possam ser."

"Eu não sei." Ginny fez uma pausa, tentando achar um termo para descrevê-los. "Não dá para classificar." Ela decidiu por fim. "Quero dizer, não há uma palavra que descreva nosso relacionamento, o que acontece com a gente e o que somos agora... é complicado, Damien."

"Então você não o ama mais?"

"Em primeiro lugar, eu nunca o amei," defendeu-se.

"Mas Hermione disse…"

Ginny estreitou os olhos e repetiu:

"Hermione disse?"

"Hum…" O menino engoliu em seco, fugindo do olhar dela.

"Você falou com Hermione sobre isso?"

"Não fui eu que toquei no assunto, Ginny. Simplesmente aconteceu. Acredite, eu não quero ter esse tipo de conversa novamente, mas Hermione precisava conversar sobre tudo que está acontecendo. Essa confusão toda não está sendo fácil para ela também, Ginny. Ela precisava de alguém para escutá-la, e você sabe que Ron nunca conversaria sobre isso e os pais dela jamais entenderiam de verdade e... eu simplesmente estava lá e ela disse que você o amava e que sentia muito por isso ter acontecido dessa forma e... ela se sente culpada também. Acha que deveria ter visto, que deveria ter impedido tudo porque você falou sobre isso e ela sabia de algumas coisas e... é isso."

A garota respirou fundo, esfregando os olhos.

"Está tudo bem, Damy, você não tem que se justificar. Você conversou com Hermione, eu entendi. É que é estranho, sabe?"

"Foi estranho para mim também." Damien estremeceu. "Eu gostaria de ter dito a ela para nunca falar sobre isso comigo."

"Mas eu não amo Harry," disse ela secamente. Damien abriu a boca, provavelmente para lhe dizer o que Hermione dissera. Mas Ginny não queria escutar. "Foi só uma paixonite estúpida de garota. Ele me salvou e eu estava cega. Eu me apaixonei pelo que ele mostrou. Ele era encantador e, sim, isso chamou minha atenção, mas não era real. Eu não o conhecia, e ainda não conheço. Eu nunca poderia amá-lo assim."

Damien suspirou.

"Tudo bem… mas acho que devemos mudar de assunto agora."

Ginny sorriu de lado.

"Sua cabecinha está cheia de belas imagens sobre nós agora?"

"Argh! Isso é nojento." O menino fez uma careta.

"Sabe, teve uma vez que nos beijamos no vestiário do campo de quadribol e ele estava..."

Damien tapou os ouvidos com as mãos, gritando coisas sem sentidos para não a escutar. Ginny ria. Foi nesse momento que a porta se abriu e Harry – usando o disfarce do dia anterior – enfiou a cabeça pela porta. A garota parou abruptamente e Damien abaixou as mãos e começou a gargalhar.

Harry olhou confuso de um para o outro antes de entrar, fechando a porta atrás de si.

"Estou interrompendo alguma coisa?"

Ginny balançou a cabeça em silêncio, olhando feio para Damien para que ele ficasse quieto. É claro que ele não ficou.

"Não, não está. Ginny estava prestes a me contar sobre a vez que vocês se beijaram no vestiário do campo de quadribol."

Ela quis ficar neutra, mas seu rosto queimou de vergonha. Harry arqueou as sobrancelhas.

"Ela contou?" Harry olhou para ela, recostando-se na porta.

"Sim, mas Damien estava gritando a plenos pulmões que não queria escutar. Ele implorou para que eu parasse," disse a garota, tentando agir o mais calma possível.

O mais novo fez careta de novo.

"É nojento, horrível, terrível. É repulsivo."

Harry sorriu de lado.

"Mas Damien, você perdeu alguma coisa, então. Devia ter escutado pelo menos até a parte onde Granger se juntou a nós..." Ele parou.

Damien estremeceu e Harry piscou para Ginny. Ela sorriu agradecida em resposta.

"Então, vocês usaram algum feitiço silenciador no quarto?" perguntou o rapaz quando o irmão se acalmou.

Ginny assentiu.

"Como você…?"

"Eu passei quase cinco minutos batendo na porta," respondeu ele secamente.

"Ah, eu devo ter usado um feitiço que funciona em ambos os sentidos, então. Desculpa."

Harry assentiu.

"Tudo bem." Ele fez uma pausa, olhando para eles. "Você dois se entenderam, então?"

Ginny acenou que sim e pelo canto do olho viu Damien fazer o mesmo.

"Acho que tudo está um pouco melhor agora," adicionou o menino. Eles sorriram um para o outro.

Harry limpou a garganta.

"Na verdade, eu vim pedir a Ginny para me entregar uma coisa..."

Ela franziu a testa, e Damien também. O que ele queria que ela entregasse...?

"Hum... e o que é?"

Harry olhou rapidamente para Damien, e o menino pareceu entender.

"Eu acho que é melhor eu ir embora. Eu não quero correr o risco de mamãe e papai verificarem se estou mesmo com Hermione. É claro que ela não faz ideia de onde estou. Eu... adeus, então. Até... até o próximo encontro."

O menino abraçou a amiga e sorriu tristemente. Ginny sentiu o desespero crescer dentro dela. E quando seria isso? Ela provavelmente mudaria de lugar de novo e ele não ia fazer ideia de onde ela estava, bem como ela não ia saber nada sobre Damien.

O menino, então, se aproximou do irmão, sussurrando alguma coisa que ela não entendeu. Harry engoliu em seco e assentiu brevemente.

"Não há uma forma para mantermos contato?" perguntou ela desesperadamente, tentando pensar em algo antes que Damien fosse embora. O menino deu de ombros e olhou para Harry, que parecia pensar em alguma coisa.

"Há uma forma…" Ele parou, tirando algo do bolso. "Você sabe como funciona um telefone, Damy?"

Confuso, Damien assentiu.

"Mamãe me mostrou há séculos. Ela achou que eu devia saber. Mas o que..."

Tranquilamente, Harry explicou a Damien como aquele "telefone celular" funcionava. Ginny não estava escutando de verdade, ela não entendia de qualquer forma, então, em vez disso, ela observou os dois.

Assim que o menino saiu, Harry disse.

"Você pode me devolver o anel?"

Ginny olhou surpresa para ele.

"Já?" Ele assentiu. "Por quê?"

"Eu descobri que posso destruí-las sem que ele perceba."

Um sorriu se espalhou no rosto dela.

"Essa é uma boa notícia."

Ginny abriu a gaveta na qual colocara o objeto na noite anterior. Em silêncio, ela lhe entregou o anel, feliz por se livrar dele. Não dormira bem aquela noite, verificando o tempo inteiro se ele ainda estava lá, se havia algo de errado com ele. Harry o colocou em seu bolso sem nem mesmo olhar para ele.

"Você não quer fazer isso agora?"

Harry balançou a cabeça.

"É complicado, mas eu vou fazer em breve. E eu tenho que ir, eles não podem perceber que eu saí."

Por um segundo, pareceu que ele queria dizer mais alguma coisa, mas não disse. Esboçou um sorriso bastante cansado antes de sair também, deixando-a sozinha mais uma vez. Ela caiu de costas na cama, talvez depois de tudo conseguisse dormir aquela noite. E então ela se deu conta de seu erro. Ginny saltou da cama, abrindo a porta abruptamente, mas Harry já tinha ido embora, sem fazer ideia de que eles sabiam sobre Alex.