Disclaimer: Nada é meu. Harry Potter (a família Weasley e assim por diante) pertence à JKR e àqueles que publicaram os livros dela. Damien pertence à Kurinoone e a história por trás de Harry meio que pertence a ela também. Eu estou fazendo isso por diversão (e para dormir em paz) e não estou ganhando dinheiro algum com essa história. Há partes da história que foram escritas por JKR e partes que foram escritas por Kurinoone.

Chapter Twenty-Four – The Importance Of Understanding

Harry respirou fundo antes de entrar na cabine telefônica. Pescou algumas moedas do bolso, contou-as silenciosamente e em seguida enfiou algumas delas. Pegou o telefone e discou o número que Damien lhe dera.

Enquanto esperava, apertou o telefone com mais força até ouvir uma voz.

"Alô, residência dos Potter."

Empurrou mais moedas no aparelho, respirando fundo novamente. Podia fazer aquilo, e tinha que fazer, eles mereciam. Mas isso não facilitava em nada. Abriu a boca, mas as palavras que formulara anteriormente em sua cabeça não foram encontradas, então, tornou a fechá-la.

"Alô? Alô?" perguntou James. Harry podia ouvir a confusão em sua voz. Agarrou o telefone com mais força ainda e fechou os olhos, tentando bloquear a memória que veio em sua mente.

Um precipício, Harry disparando uma maldição em um James ferido e ensanguentado, James caindo do penhasco, desaparecendo de vista.

Harry piscou furiosamente, segurando o telefone com tamanha força que os nós de seus dedos ficaram brancos.

"Alô, tem alguém aí?" James tornou a perguntar. "Não sei, ninguém responde," disse ele mais baixo, obviamente falando com alguém ao seu lado.

"Pai," disse ele por fim, forçando a palavra a sair. O Patrono tinha sido tão mais fácil que aquilo. Ele apenas falou e ele se foi. Agora, James podia responder, podia gritar com ele em resposta.

"Harry? sussurrou James.

"Sim, sou eu." Ele fechou os olhos, esperando os gritos começarem. Era o que merecia depois de tudo.

"Harry! Você está bem?"

Harry franziu a testa e tornou a abrir os olhos.

"Eu... eu estou bem. Eu só quero dizer que... que eu... eu sinto muito!" O jovem fez uma pausa, dando chance a James para dizer alguma coisa, mas não veio nada do outro lado. "Eu devia ter te dado uma chance. Eu... eu devia ter te escutado. Desculpa por nunca ter te dado uma chance. Desculpa por tudo! Por tudo o que disse e fiz a você. Sinto muito, eu tive que ir embora ontem. Eu..."

"Harry, escute. Você não precisa se desculpar. Eu não culpo você. Você não sabia da verdade." A voz dele estava muito tranquila. "Mas você... você descobriu agora, não foi?"

"Sim, eu…" Mas a voz falhou e Harry fechou os olhos.

"Onde está você? Me diga onde você está e eu vou buscá-lo," disse James com urgência.

Harry abriu os olhos de repente, um súbito pânico tomando conta dele.

"Não!"

"Harry, por favor, você não entende. Você está em perigo! Deixe-me ajudá-lo," disse o pai, a voz cheia de desespero.

"Você não pode me ajudar. Não depois de... tudo."

"Harry, se você está falando sobre Ginny, nós vamos encontrar uma forma. Podemos encontrar uma. Vamos trabalhar nisso. Sei que está se sentindo culpado, mas…"

"Não, pai, não. Eu não quero envolvê-los em mais problemas. Eu não posso simplesmente voltar para casa e esperar que todos me deixem em paz. Isso não vai acontecer! Se eu for para casa, o Ministério vai querer que você me entregue a eles," falou Harry em voz baixa.

"E você acha vou fazer isso?" perguntou James.

"Você não terá escolha. Se não me entregar, eles também vão jogá-lo em Azkaban. Você não pode se envolver, Damien precisa de você, m-mamãe precisa de você!"

"Harry…" começou James, mas o filho o cortou.

"Eu só liguei para me desculpar. Se houvesse outro jeito, eu estaria em casa num piscar de olho. Mas eu abri mão da minha chance quando fugi de Hogwarts, quando fiz aquilo com você e Sirius, com Ginny e... Ninguém vai me dar outra chance. Não importa o que você ou qualquer um diga a eles."

"Harry! Não! Você não entende. Você terá outra chance! Eles não podem simplesmente fazer isso com você. Harry, por favor me diga onde está. Nós vamos conversar sobre tudo quando você estiver em casa… apenas… apenas me deixe ajudá-lo!"

"Pai, você não entenderia. Ninguém entenderia. Muito menos sua Ordem ou o Ministério."

"É claro que eu entenderia, Harry. Eu já vi e enfrentei o bastante para entender. Eu já vi aurores matarem também, e eles tinham seus motivos e não foram punidos, e foi a mesma coisa com você, eles vão entender. Eles vão entender seus motivos, você só precisa vir para casa. Tudo vai ficar bem."

"Não, pai. Nada vai ficar bem e eu não posso voltar para casa."

"Mas você precisa ficar a salvo, Harry. Todos estão atrás de você. Você não pode enfrentar os Comensais e os aurores!"

"Não precisa se preocupar. Eu sou muito bom em me esconder."

"Harry, não faça isso, por favor!" implorou James. "Deixe-me trazê-lo para casa."

O coração de Harry se partiu.

"Tchau pai. Por favor, pare de me procurar. Não se envolva em mais problemas por minha causa."

"Harry, não! Não..."

Mas ele desligou, recostando-se no telefone frio e respirando fundo novamente.

xxx

Harry fechou a porta e recostou-se nela por um momento. Custou muito manter a calma e o controle ao dizer a eles o quão arrependido estava. Pelo menos sabiam que estava arrependido...

Balançou a cabeça, afastando a lembrança. Caminhou até a pequena cadeira ao canto e sentou-se, desencolhendo silenciosamente a segunda caixa. Desembalou o segundo telefone celular. Acabara de conectar carregador quando seu celular tocou.

"Sim."

"É Damy." Veio a voz de seu irmão do outro lado.

Harry dera o novo número ao menino quando ligara para lhe pedir o número do telefone dos Potter.

"Ei, Damy."

"Oi, Harry. Você está bem?" disse o mais novo, cheio de preocupação.

Harry revirou os olhos, irritado. Por que todo mundo lhe fazia aquela pergunta?

"Eu estou bem."

"Eu ouvi o seu telefonema com papai."

"Você está em casa?" perguntou Harry, o provável cenário enchendo sua cabeça. "Tem certeza de que eles não podem te ouvir? Te encontrar? Ver você com o celular?"

"Meu Deus, acalme-se. Não é como se eu nunca tivesse feito nada escondido antes."

"Então você se certificou de que eles não possam te encontrar? De forma alguma?"

"Pare de ser paranoico! Você devia ver o que está acontecendo aqui. Ninguém está interessado no que eu estou fazendo."

Harry franziu a testa.

"O que está acontecendo?"

"Papai estava cochichando com tio Sirius e tio Remus, e mamãe estava prestes a contatar Dumbledore quando eu saí."

Harry praguejou.

"Eles ainda estão me procurando?"

"O que você acha? Que com um telefonema eles cessariam as buscas?" perguntou Damien com a voz cheia de descrença. "Papai está se comportando pior ainda agora. Está muito desesperado, dizendo que deveria ter dito algo diferente e que reagiu errado e que devia ter te forçado a dizer onde estava ou que deveria ter te convencido... acho que mamãe disse algo sobre rastrear o número, mas tio Sirius disse que não era necessário." Damien fez uma pausa. "Papai disse que você estava muito abalado, por isso eu queria ver se você estava bem."

"Eu disse que estou bem, não disse?" perguntou Harry, irritado.

"Estou tentando descobrir se você está apenas me dizendo que está bem quando na realidade não está.

"E o seu plano inteligente é me perguntar quantas vezes puder para ver se eu me entrego?" perguntou Harry com sarcasmo.

"Está funcionando?" perguntou Damien divertido.

"É claro, estou tremendo de medo, tentando bolar um plano em minha cabeça, mas não consigo porque estou muitíssimo assustado."

Damien riu do outro lado.

"Então vai me dizer a verdade quando eu usar minha voz ameaçadora agora, porque vai ficar ainda mais assustado?"

"Vamos escutar, eu gostaria de dar boas risadas."

Damien ficou em silêncio e em seguida suspirou.

"Eu perdi essa, não foi?"

Harry riu.

"Sim, perdeu."

"Mas, Harry, você devia conversar com alguém se não está se sentindo bem, sabe disso, certo?" perguntou Damien, soando sério.

"O que há com todos vocês? Teve uma conversa com o papai sobre mim?"

"É claro que não. Mamãe sempre diz que quando estamos pra baixo, devemos conversar com alguém que possa nos entender. Eu estava triste e conversei com Ginny e mamãe estava certa: eu me senti muito melhor depois disso." Damien respirou fundo. "Sabe que pode conversar comigo, certo?"

Harry rangeu os dentes.

"Você não entenderia."

"Eu vou tentar entender. E você pode me explicar até que eu entenda."

"Não é tão fácil, Damien."

Quando o menino não disse nada, Harry achou que o convencera e que podiam mudar de assunto. Mas estava errado.

"Converse com Ginny, então."

"Por que eu conversaria com ela sobre isso? Ela não entenderia mais que você."

"Vocês estão em situações parecidas." Harry abriu a boca para protestar. "Sabe, vocês dois não podem voltar para casa, estão fugindo juntos, longe da família e dos amigos. Vocês podiam apenas... compartilhar isso, não é?"

"Damy…" Harry fez uma pausa. "O que está tentando fazer?"

Damien riu, mas parecia distante. Harry estreitou os olhos.

"Damien...!"

"Pode ajudar vocês dois, sabe? Ela também não parecia bem quando a vi pela última vez. Ela é minha amiga, não quero que ela sofra. E se você pode ajudá-la..." Ele fez uma pausa e respirou fundo. "Talvez vocês possam resolver seja o que for que haja entre vocês também."

"'Seja o que for que haja entre nós...?' Não há nada entre a gente!"

Damien bufou.

"Apenas… converse com ela e resolva isso."

"Não há nada para ser resolvido aqui." Harry fez uma pausa. "Damien, você está tentando nos juntar?"

"Quê? Não! É claro que não!" disse ele depressa.

"Então, tá…" Harry riu, tentando ignorar a sensação estranha que de repente se apoderou dele. "Não tem imagens suficientes em sua cabeça ainda?"

"Eu não estou tentando juntá-los!" negou o menino.

"Então… você já conversou com ela sobre isso?" perguntou Harry, brincando com o cabo do carregador.

"Por quê? Interessado?" Podia imaginar o sorriso no rosto de Damien.

Harry revirou os olhos.

"Apenas curioso sobre o que ela disse… só isso."

Damien ficou em silêncio, provavelmente pensando em alguma coisa.

"Damy?"

"Apenas compartilhe com ela," disse Damien de repente. "Converse com ela. Converse de verdade. Ela não te conhece e eu sei como você fica todo fechado e não fala nada sobre coisa alguma."

Harry franziu a testa.

"Ela disse que não me conhece?"

Damien suspirou.

"Por favor, não diga a ela que eu te disse."

"Não vou dizer."

"Obrigado. Em primeiro lugar, eu não devia ter te contado." O menino suspirou. "Apenas se abra com ela. Não faça com ela o que fez comigo. Ela... ela não tem uma motivação para tentar se aproximar de você como eu tinha." Damien fez uma pausa. "Ela pode simplesmente parar, sabe disso, certo?"

O coração de Harry apertou e ele esfregou os olhos. Já tinha o bastante para se preocupar, por que tinha que desenvolver aqueles sentimentos agora? Só queria se livrar deles, não fazer algo sobre aquilo. Era a hora errada para algo daquele tipo. Mas os comentários indiferentes dela durante o café o atingiram mais do que esperara. Por um instante, permitiu-se imaginar como seria se ela parasse. Se ela parasse de perguntar se ele estava bem, se ela parasse de aparecer para vê-lo, se ela parasse de apertar sua mão, se ela parasse de sorrir para ele, se ela parasse com as brincadeiras e provocações, se ela pedisse para ir para casa. Mas ela ainda não tinha parado, tinha?

"Basta ser agradável com ela, Harry."

"Não faço o tipo agradável," repetiu ele automaticamente.

Damien riu.

"Talvez seja hora de começar, hã?"

xxx

Ginny estava sentada numa cadeira em seu quarto, olhando pela janela. A garota ergueu os olhos quando alguém bateu três vezes na porta. Houve uma pausa e outra batida. Ela se levantou e abriu a porta para Harry.

"Voltei."

Ela sorriu para ele.

"Obrigada por me informar."

"Eu comprei o telefone celular para você."

"Ótimo." Ela gesticulou para que ele entrasse. "Você pode até se sentar," provocou.

"Sobre aquilo…" Ele passou a mão pelo cabelo.

"Sim…?" perguntou ela quando ele parou de falar. O garoto sorriu um tanto tímido e Ginny o encarou. "Eu devia te perguntar algo por segurança." Ela brincou. "Há algo errado com você?"

Harry suspirou.

"Não, nada de errado."

O garoto sentou-se e Ginny abancou-se na outra cadeira.

"Fez a ligação?"

"Hã?" Ele olhou nos olhos dela. "Hum... sim... eu liguei para o meu pai."

"Ligou?" perguntou ela, surpresa.

"Só disse que estou bem, pedi desculpas…" A voz dele falhou e ele olhou pela janela.

Ginny franziu a testa levemente e mordeu o lábio, perguntando-se porque ele de repente lhe contou algo sem que ela suplicasse para que o fizesse. Não que estivesse reclamando.

"Isso é bom." Ela fez uma pausa. "O que ele disse?"

Ele tornou a encará-la.

"Ele quer que eu volte para casa. É claro que eu disse que não vou voltar. Damy disse que ele está muito desesperado."

"Você falou com Damy também? Como ele está?"

Harry afundou mais na cadeira e ela observou o garoto esticar as pernas.

"Nós não falamos muito sobre isso... mas ele parecia bem, bem melhor que da última vez."

"Graças a Merlin."

"Na verdade, ele disse que foi por sua causa. A conversa de vocês o ajudou muito."

Ginny sorriu.

"Bom saber que isso o ajudou. Me ajudou também."

Harry assentiu e voltou os olhos para a janela. Ela fez o mesmo, imaginando o que Damien fez… o que sua família fez. A pontada que estava se tornando familiar demais para seu gosto voltou. Harry ganhou sua atenção novamente quando puxou uma coisa pequena que a garota supôs ser o telefone celular. Ele a entregou sem dizer nada. Ginny pegou e virou o objeto em suas mãos, olhando-o de todos os ângulos. Inclinou a cabeça, verificando se parecia diferente daquele ponto de vista. Ergueu os olhos e viu que ele a observava, sorrindo levemente. A garota prendeu a respiração.

"Hã?"

Harry sacudiu a cabeça.

"Nada."

Ginny baixou os olhos novamente.

"Então... como essa coisa funciona?"

"Telefone celular," corrigiu ele ao aproximar sua cadeira da dela. "Está vendo o pequeno fone de ouvido vermelho?"

"Esse aqui?" Ela apontou para o estranho símbolo vermelho.

"Sim. Pressione-o até que o visor…" Ele apontou para o pequeno quadro verde-acinzentado. "Brilhe."

Ela o fez e quase largou o celular no chão quando, de fato, o visor brilhou antes de escurecer. Fascinada, ela olhou para o objeto, lendo "PIN."

"E agora?"

Harry puxou um pedaço de papel do bolso, desdobrando-o silenciosamente.

"Tudo bem, você tem que apertar zero, cinco, dois e sete."

Ele segurou o papel próximo ao telefone para que ela pudesse olhar. Ginny encarou os pequenos números. Aquilo era algum tipo de piada, não era? 0527... 05 e 27... 5 e 27…

"Ginny? Ginny?"

A garota balançou a cabeça, tentando esquecer o que associara àqueles números. Ela os pressionou sem olhar para Harry, mas enquanto o fazia apareciam apenas pequenas estrelas.

"Está certo?" perguntou ela, intrigada.

Ele se inclinou para mais perto dela.

"Sim, está tudo certo. Agora aperte o botão no canto superior esquerdo."

Ela obedeceu e viu, com olhos arregalados, os números desaparecerem e o aparelho emitir um som. Um slogan apareceu e em seguida sumiu. Havia apenas mais símbolos estranhos agora.

"Você acabou de ligá-lo. Pode mudar o código se não conseguir se lembrar."

"Eu consigo me lembrar," murmurou ela. "Eu sempre vou ter que apertar esses números?"

"Quando ligar o celular, sim. Mas provavelmente vai mantê-lo ligado a maior parte do tempo, de qualquer forma."

"Tudo bem… e como eu faço uma ligação?"

"Cada telefone tem um número especial. Você só precisa apertar o fone de ouvido verde e o número de telefone para o qual quer ligar." Ele puxou um pedaço de pergaminho e escreveu três sequências de números. "O primeiro é o meu número." Ele acrescentou o próprio nome ao lado dos números. "O segundo é de Damien e o último é o dos meus pais." O garoto acrescentou os nomes deles também e entregou-lhe o pergaminho. "Não deve ligar para eles se quiser evitar ataques cardíacos, mas em caso de emergência..."

Ela assentiu em silêncio, guardando o pedaço de pergaminho no bolso.

"Quando o telefone tocar assim…"

Ele pegou outro celular e apertou alguns números. O telefone dela vibrou e fez barulho. A garota derrubou o celular no colo e, com olhos arregalados, encarou o objeto. Harry riu e ela olhou para ele.

"Ele não morde," brincou Harry e ela pegou o aparelho. "Você tem que apertar o fone de ouvido verde." Ela o fez. "Coloque-o em sua orelha." Ela obedeceu e franziu a testa. "Não, você está segurando de cabeça para baixo." Ele alcançou o telefone e, ainda sorrindo, virou-o ao contrário. "Pode falar nele agora e eu posso te escutar." Ele gesticulou em direção ao próprio telefone e apertou alguma coisa. Outro barulho estranho veio do aparelho dela. "É esse o som que faz quando a pessoa do outro lado desliga. Você tem que pressionar o fone de ouvido vermelho para desligar também."

Ela fez como ele disse.

"Ainda tem mais alguma coisa que eu preciso saber?" perguntou Ginny, virando o objeto nas mãos novamente. Que coisinha estranha… os trouxas inventarem algo assim…

"Você vai se acostumar depois que fizer algumas ligações. Mas tem outra coisa que você precisa muito saber." Ele tornou a enfiar a mão no bolso e puxou um cabo longo, com algo preso a ele.

"Uma tomada," disse ela. Ele assentiu e entregou à garota, que correu os dedos sobre o objeto. "Meu pai é fascinado por elas." Ela sorriu triste, lembrando-se da forma que o rosto de seu pai se iluminava quando colocava as mãos em uma delas.

"Você está bem?" Ela ergueu o olhar e encontrou os olhos verdes de Harry, cheios de preocupação.

Ginny sorriu para ele.

"Sim… estou apenas pensando neles."

"Eu…" Ele sentiu dificuldade em falar.

"Está tudo bem." Sob o olhar duvidoso dele, ela acrescentou: "Sério." Ginny virou o telefone, procurando pelo local no qual devia colocar a tomada. Ela encontrou. "Você está bem?" perguntou ela casualmente.

"Eu…" Ela ergueu o olhar e encontrou os olhos perturbados dele. "Não é nada com que eu não possa lidar."

"Se…" Ela desviou o olhar e mordeu o lábio, tentando achar a melhor forma de dizer aquilo. "Se precisar de alguém para conversar... eu estou aqui."

Ginny virou a cabeça e o garoto encarou seus olhos.

"Sem ofensas, mas... você não entenderia."

"Possivelmente não." Ela o encarou, olhando em seus olhos, desejando que ele entendesse seu ponto de vista. "Mas eu escutaria."

xxx

Damien, Ron e Hermione estavam sentados à mesa da cozinha n'A Toca, em meio a uma difícil discussão sobre Herbologia. Era mais Hermione falando, Damien rabiscando algumas anotações, para evitar olhar para alguém, e Ron olhando pela janela. O rosto do ruivo jamais estivera tão pálido, seus olhos avermelhados e os cabelos mais bagunçados do que nunca.

Por mais que tentasse, Ron não conseguia tirar os olhos do campo onde jogavam quadribol. Onde costumavam jogar quadribol. Sem Ginny… tentaram uma vez. Os gêmeos contra ele e Charlie. Pensaram que seria uma mudança, que seria legal, que poderiam se divertir um pouco depois do que acontecera... mas terminara com um gritando com o outro, culpando um ao outro. Palavras muito ofensivas foram ditas naquele dia e eles não podiam apagá-las. Charlie tentara se desculpar com Ron, mas não parecia certo e Ron sabia que seu irmão ainda estava com raiva. Não valia a pena se desculpar se não fosse de verdade. Mesmo assim, não teria significado nada para Ron. Ele mesmo se culpava, afinal. Todos os dias. A cada hora. A cada minuto.

Ron fechou os olhos e respirou fundo. Ela era tão jovem e não fizera nada de errado. Era só uma menina. Sua irmãzinha, que só queria que todos fossem felizes, que podia fazer os outros sorrirem e alegrar os seus dias. Não era justo. Ela não merecia aquilo. Ninguém merecia… mas não mudava nada. Ginny…

Seus olhos se abriram quando, de repente, um som engraçado foi ouvido ao redor deles. Vinha de Damien.

"O que é isso?" perguntou Ron, um pouco mais rude do que pretendia.

Foi muito difícil até mesmo olhar para o melhor amigo. O ruivo tentou pegar a coisa de Damien.

"Nada, não é nada." Damien tentou esconder o objeto, que continuava emitindo sons de aviso.

"É alguma coisa de Fred e George? Deixa-me dar uma olhada. Eu preciso de algo para, para..."

"Não, não é. Não é nada." O som parou. "Eu vou só..." Damien fez um gesto estranho. "Toalete," disse por fim e saiu apressado.

Ron olhou confuso para Hermione. Ela se inclinou para perto dele e sussurrou:

"É um telefone celular."

Sob a expressão confusa dele, ela acrescentou:

"Uma coisa que os trouxas usam para se comunicar."

"Por que ele tem algo assim?"

Hermione abaixou a cabeça, pensando em algo antes de falar novamente.

"Eu não sei. Não pode ser da mãe dele, seria inútil. Ela pode falar com ele pela lareira ou pelo telefone deles..."

Ron distinguiu os passos de Damien nas escadas. Naqueles dias, dava para escutar tudo que acontecia dentro de casa.

"Vamos ficar de olho nele," decidiu por fim. Ele precisava pensar em outra coisa.

Hermione assentiu e recostou-se depressa, tentando parecer concentrada em seu livro. Era evidente que ela estava tentando se desviar de alguma coisa. No passado, aquela visão teria feito Ron sorrir.

"Eu não estou me sentindo bem," disse Damien quando os alcançou. "Acho que vou para casa."

Ambos assentiram e Damien guardou as coisas. Pelo canto do olho, Ron viu Hermione acenar a varinha. Ele não era tão bom nessas coisas para entender o que ela estava fazendo, mas era Hermione, é claro que ela já tinha um plano.

Damien ativou sua Chave do Portal e desapareceu.

"O que você fez?" perguntou Ron.

"Feitiço Rastreador," disse ela, sorrindo levemente.

"Esperta." Ron olhou à volta. Não havia ninguém ali que pudesse impedi-los ou segui-los. "Vamos segui-lo agora."

Hermione olhou preocupada para o garoto, mas ele apenas desviou o olhar e se levantou. Ela murmurou um feitiço e bateu em um pedaço de pergaminho em branco. Linhas e cores apareceram subitamente, preenchendo todo o pergaminho. A garota olhou intensamente para o desenho. Ron apenas se debruçou para olhar também, quando ela se espantou.

"É perto da minha casa. O que ele está fazendo lá?"

Ron deu de ombros.

"Vamos descobrir. Podemos usar uma Chave do Portal."

"Tem certeza que devemos fazer isso?" perguntou ela.

"Você não quer saber o que ele está fazendo?"

"Nós podemos perguntar a ele…"

"É, ele parecia mesmo disposto a nos contar. Vamos, Hermione, eu preciso muito de uma aventura, alguma coisa para esquecer."

Mas ele não queria esquecer. Ron abriu a boca, pronto para se corrigir, mas os olhos de Hermione amoleceram e ela assentiu.

"Tudo bem, vamos."

Ela tirou a Chave do Portal da bolsa. Ron a segurou também. Ela sussurrou a senha e eles foram levados para longe.

Aterrissaram no quarto de Hermione. Silenciosamente, caminharam para fora da casa e seguiram o pequeno ponto que era Damien. Logo não precisaram mais do mapa, avistaram o garoto de cabelos escuros fazendo seu caminho decidido em direção a um pequeno prédio.

Hermione guardou o mapa depressa e eles o seguiram, com muito medo de perdê-lo de vista caso desviassem os olhos por um segundo sequer. Observaram-no parar diante de uma porta e bater quatro vezes. Esconderam-se rapidamente na próxima esquina. O que Damien estava fazendo ali e porque ele não contara a eles...

Os olhos de Ron quase saltaram quando viu quem abriu a porta. Harry – o assassino de Ginny – fez sinal para Damien entrar. E ele entrou, sem parecer nem um pouco surpreso. O ruivo rangeu os dentes e cerrou os punhos. Damien mentira para ele, não lhe contara. Sabia onde ele estava e não dissera a ninguém ou ele estaria apodrecendo sem alma numa cela em Azkaban.

"Aquele era mesmo… era mesmo Harry?" sussurrou Hermione ao seu lado. "Nós devíamos..."

Ron segurou a varinha em seu bolso com força.

"Eu vou entrar. Você volta. Chame a Ordem. Não, chame o Ministério."

"Ron, se Damy está lá dentro…"

"Eu vou entrar. Ele vai pagar, Hermione. Ginny… ela…"

"Eu também vou," disse ela decidida.

"É muito perigoso! Não posso deixar que ele te machuque! Você tem que voltar..."

"Não! Eu vou entrar também." Ela sacou a varinha, com uma expressão determinada no rosto e, antes que Ron pudesse impedi-la, já tinha caminhado pelo corredor e aberto a porta. Ron correu atrás dela e entrou também.

Seus olhos pousaram nele imediatamente.

"VOCÊ!" gritou ele, a varinha tremendo.

Ron mal piscou os olhos, mas ele já estava de pé. Tinha que conjurar um feitiço – uma maldição – mas não veio nada. Queria apenas fazê-lo pagar. Ron gritou, e, de repente, seus braços foram empurrados para trás e sua varinha caiu no chão. Algo afiado estava definitivamente muito perto de sua garganta. O ruivo engasgou e se contorceu, mas era em vão.

Seus olhos se focaram em Hermione, que estava perto da porta com o rosto visivelmente em pânico. Ela levantou a varinha, que também tremia.

"Você não quer fazer isso de verdade, Granger," rosnou ele por trás de Ron.

Damien já estava na porta, mas ao invés de correr e gritar, ele a fechou e trancou.

"Seu traidor!" acusou Ron.

Uma porta se abriu.

"O que diabos está acontecendo aqui... ah!"

Ele conhecia aquela voz, mas não podia ser. Não podia ser. Estava ficando louco.

"Ron?" perguntou ela.

A coisa afiada em sua garganta desapareceu e de repente conseguiu mexer os braços de novo. O ruivo se virou e ali estava ela. Mas não era ela, o cabelo estava errado. Não podia ser...

"Gi-Gi-Ginny?" gaguejou ele. "Mas… mas…"

Outra varinha atingiu o chão e ela corria em sua direção, atirando-se sobre ele.

"Ah, Merlin, Ron." Ela soluçou e o moletom dele estava ficando molhado, mas o rapaz não ousou se mexer um centímetro. Tinha que ser um pesadelo. Um pesadelo desesperador e cruel. Se a tocasse, ela desapareceria e ele acordaria e… ele mexeu os braços lentamente, mas ela ainda estava ali. Ron a puxou para mais perto, abraçando-a. Piscando os olhos, notou que também estava chorando, murmurando o nome dela repetidas vezes.

O ruivo virou a cabeça e viu que Hermione olhava para eles com os olhos arregalados, as mãos fechadas sobre a boca e a varinha também esquecida aos seus pés.

"Como, como...?"

Ginny se afastou dele, enxugando as lágrimas.

"Oi, Ron."

Ele a encarou, estendendo a mão para tocá-la. Ela era sólida.

"Você está... você está viva?"

A garota assentiu. Novas lágrimas escorrendo de seus olhos, as quais ela rapidamente limpou também.

"Eu... sim... estou viva."

"Mas, como… como é possível?" Ron a encarou e em seguida procurou Hermione com os olhos, olhando interrogativamente para ela. Ela saberia a resposta, ela sempre sabia de tudo.

"Eu…"

Ginny fechou a boca e se virou. Ron seguiu seus olhos e eles pousaram em Harry, que estava em pé na porta da qual ela viera, segurando três varinhas. Uma delas era claramente a de Ron.

"Minha varinha," exigiu ele, estendendo a mão.

Harry estreitou os olhos.

"Você pode pegá-la quando eu tiver certeza de que não vai tentar aquela façanha novamente."

"Pare de ser paranoico," acusou Ginny e andou até ele.

Ron queria agarrá-la, queria colocá-la atrás de si para protegê-la, queria... mas ela apenas segurou as mãos de Harry e olhou para ele. Ele afrouxou o aperto e ela pegou as varinhas. Ginny deu meia volta e entregou uma a Ron e a outra a Hermione, colocando a última no bolso.

"Que droga! O que vocês estão fazendo aqui?" exclamou Damien, saindo do transe.

Ron desviou os olhos da irmã e olhou para o amigo.

"Podemos perguntar a mesma coisa! O que você está fazendo aqui? E como...?" Ele apontou para Ginny.

"Como souberam que ele estava aqui?" perguntou Harry, olhando zangado para Damien.

"Nós o seguimos," disse Hermione calmamente.

Damien olhou assustado da garota para Harry.

"Isso não é possível!" gritou Damy.

"Ótimo, Damien, brilhante! Você sequer percebeu dois escolares te seguindo, como acha que pode lidar com Comensais da Morte? Aurores? Nossos pais?"

Damien abaixou a cabeça com vergonha.

"Sinto muito, Harry! Eu só... eu…"

"Me poupe das suas desculpas esfarrapadas," replicou Harry. "Eu realmente não quero fazer isso..." De repente, ele segurou a própria varinha. Ron deu um passo para trás e levantou a sua também. "Ginny, arrume suas coisas," disse ele calmamente.

"Como é?" indagou ela sem acreditar.

"Você me ouviu. Arrume. Suas. Coisas." Ele a encarou.

A garota cruzou os braços.

"O que está fazendo?"

"Eu vou modificar a memória deles." Hermione engasgou e a varinha de Ron balançou, tinha que desarmá-lo de alguma forma. "A memória dos três."

"Harry…!" suplicou Damien. "Você não pode… não depois, não depois de tudo... você não pode..."

Harry levantou mais ainda a varinha. Pelo menos eles não iam morrer, pensou Ron sombriamente.

"Você não vai fazer isso de jeito nenhum," replicou Ginny.

Incrédulo, Ron observou a irmã colocar-se à frente da varinha de Harry, olhando para ele.

"Ginny… venha cá… fique longe..."

"Cala a boca, Ron." Ela olhou para o irmão por cima do ombro e em seguida virou-se para Harry.

"Afaste-se." Harry olhou fixamente para ela.

"O que você vai fazer, hein? Modificar minha memória também?" perguntou irritada.

"Se for preciso," disse ele calmamente, encarando-a.

"Ginny, venha para cá. Agora!" tentou Ron novamente, mas ela nem mesmo reagiu dessa vez.

"Desculpe informar, mas isso não é possível." A garota puxou a gola da camisa, os outros olhando confusos para ela. Em seguida, puxou uma longa corrente. "Isso parece familiar?"

"Ah, merda," xingou, Harry. Por um instante, pareceu prestes a exigir que Ginny devolvesse e Ron estava pronto para fazer o que fosse necessário, mas Harry não o fez. Em vez disso, abaixou a varinha. "Eles não podem saber," disse ele baixinho.

"Por que não?" perguntou ela no mesmo tom voz.

"Eles podem contar."

"Eles não vão contar." Ele abriu a boca, mas ela acrescentou: "Deixe-me falar com eles, o.k.?"

Eles se encararam. Ron trocou olhares com Damien e Hermione, que parecia tão confusa quanto ele, mas em seguida seus olhos brilharam enquanto Damien sorriu. Acabara de virar a cabeça na direção de Harry e Ginny quando Harry assentiu.

"Se sobrar pelo menos um pouquinho de dúvida..."

Ginny assentiu.

"Tudo bem, mas dê uma chance a eles."

Ginny se virou para encará-los, enquanto Harry ainda segurava a varinha com firmeza.

"Aconteça o que acontecer, vocês não podem contar a ninguém onde estamos." Ela olhou para todos eles, um após o outro, seus olhos perfurando os deles. "Porque como todos devem ter notado: eu devia estar morta, mas não estou."

"Como…?" perguntou Ron, ainda incrédulo.

"Muito complicado. Resumindo: Harry não me matou, ele salvou minha vida aquele dia. Ele deixou Você-Sabe-Quem e agora estamos fugindo, combatendo-o."

"Mas, por que… porque você não volta para casa? Por que nós não soubemos...?" perguntou Ron.

Tudo tinha sido uma mentira. O vazio de repente tomou conta dele. Ginny mentira para ele, mentira para eles também. Ela não voltara para casa.

"Ninguém pode descobrir que eu ainda estou viva, pois traria um monte de problemas para Harry e todos começariam a procurar por mim também, o que provavelmente acabaria comigo sendo morta de verdade. Você não quer que isso aconteça, não é?"

Ron sacudiu a cabeça automaticamente, girando a cabeça de Harry para Ginny.

"Harry não vai atacar você," disse Ginny por fim. "Certo?"

Harry arqueou a sobrancelha.

"É ele quem está apontando a varinha para mim!"

Ginny olhou de um para o outro e suspirou.

"Guardem as varinhas." A garota olhou para Hermione. "Todos vocês." Hermione o fez, Harry a obedeceu muito relutante, assim como Ron. "Obrigada. Ron... eu..." Ela virou-se apenas para ele, lágrimas brilhando em seus olhos novamente. "Eu sinto muito. Nem por um segundo acredite que eu não queria voltar para casa... eu só... eu..."

Ginny mordeu o lábio, que tremia. Ron sabia o que isso significada: ela estava prestes a chorar, tipo chorar, chorar mesmo. Ela não fazia isso há séculos.

O ruivo deu um passo à frente, pronto para abraçá-la, para tentar o que sua mãe fazia quando aquilo acontecia, mas ergueu os olhos e percebeu que não era o único. Todos eles tinham se adiantado. Seus olhos se focaram em Harry, que tinha os braços estendidos na direção dela. O garoto abaixou os braços novamente e Ron o ultrapassou, puxando-a para perto. Ela enterrou a cabeça no moletom do irmão, molhando-o ainda mais.

"Está tudo bem, Ginny. Eu… só... pare... eu só..." Ele tentou achar as palavras certas, mas não havia nada certo para dizer.

"É, Weasley, se recomponha."

Ginny ficou rígida nos braços do irmão.

"Harry!" disse Damien horrorizado. "Você não pode dizer uma coisa dessas!"

Mas Ginny se afastou de Ron e limpou as lágrimas.

"Está tudo bem, Damien."

Ron a encarou. O que tinha acontecido com ela? Ela nunca iria...

"O quê? Não está nada bem…"

"Não está, mas… pare. Eu vou gritar com ele depois." Ela olhou feio para Harry. "Isso é uma promessa."

"Mal posso esperar," disse Harry secamente.

Eles se encararam e Ginny virou-se em seguida, sorrindo para eles.

"Podem prometer que não vão dizer nada? Tem que ficar em segredo."

"Eu já fiz um juramento," disse Damien baixinho. Os olhos de Ron dispararam para o menino.

"Você…?"

"Sim, olha, Ron, eu sinto muito. Eu não podia dizer nada. Ia colocá-los em risco e eu... eu não posso." Ele apontou para Ginny e Harry. "Eu só quero que eles fiquem seguros."

Ron o encarou, tentando compreender tudo. Ginny estava viva e bem, e eles estavam ali, discutindo sobre não contar. Seria capaz de fazer isso? Seria capaz de esconder de todo mundo? Mas qual era a outra opção? Esquecer o que aconteceu? Afundar-se no tormento de se culpar pela morte dela novamente?

"Eu vou fazer um juramento também," disse Hermione, dando um passo à frente. "Mas com uma condição."

"É? Qual?" perguntou Ginny.

"Eu quero ajudar."

Todos a encararem, mas foi Harry quem falou.

"O quê? Você quer ajudar?" Ele olhou incrédulo para ela.

Hermione manteve-se firme, encarando-o.

"Sim, eu quero ajudar. Você pode pensar que não podemos manter isso em segredo, mas eu vou fazer um juramento. Eu não vou trair vocês dois, não vou contar a ninguém. Considere um pagamento por salvar nossas vidas."

Harry parecia um pouco surpreso, mas a surpresa logo desapareceu e ele zombou dela.

"Eu não preciso de sua ajuda. Você não pode oferecer qualquer ajuda. O que faz você ao menos pensar que tem capacidade de me ajudar? Merlin! Você, todos vocês, pensam que isso é algum tipo de jogo, um estúpido projeto escolar! É a vida real! Vocês não têm a menor chance contra o mais estúpido dos Comensais da Morte, como diabos esperam poder me ajudar a lutar contra Voldemort?"

Os quatro adolescentes se encolheram quando Harry gritou a palavra "Voldemort," mas mantiveram-se em silêncio.

"Vocês não podem me ajudar! Não há nada que possam fazer para me ajudar! Na verdade, iam apenas me causar problemas, se alguém estiver, por exemplo, seguindo vocês."

"Você está errado, Harry. Eu posso te ajudar. Eu já te disse uma vez, são as coisas simples que podem ajudar, você apenas tem que estar pronto para aceitar." Hermione respirou fundo. "Você está certo. Nenhum de nós é muito bom em duelo. Não temos a menor chance contra os Comensais da Morte, quanto mais contra V-Voldemort."

Ron se engasgou, assim como Damien e Ginny, mas Hermione o encarou. Era a primeira vez que ela dissera o nome dele. Os pensamentos de Ron aceleraram, tentando entender o que estava acontecendo ali. Em um momento eles o odiavam, no próximo estavam tentando ajudá-lo? Podia entender onde Hermione estava querendo chegar e com Ginny estando viva... ele queria protegê-la, queria ajudá-la... mas conseguiria fazer aquilo?

"Mas você pode precisar da minha ajuda de outras formas. Não posso falar por ninguém, mas eu vou te ajudar de todas as maneiras possíveis. Você vai precisar de alguma espécie de contato, um link com o mundo mágico, que pode ser eu. Nós todos podemos ajudar com isso. Seja o que for que vai fazer, estou certa de que podemos ajudá-lo assim. Não estou dizendo que estaremos com você no campo de batalha. Estou só dizendo que podemos ajudar com as coisas simples, mesmo que seja apenas para te apoiar."

"Por que ia querer fazer isso? Não somos amigos, caramba, eu fui horrível com você. Por que está me oferecendo ajuda? Você não devia sentir nenhum tipo de lealdade com relação a mim!" disse Harry, verdadeiramente confuso. "Posso entender se quiserem manter a situação de Ginny em segredo, mas..."

Hermione sorriu tristemente para Harry.

"Me diga, Harry, se Voldemort ganhar, o que acha que vai acontecer ao mundo mágico? O que aconteceria com pessoas como eu? Como meus pais? Seríamos os primeiros a ser exterminados. Trouxas e nascidos trouxas serão os primeiros alvos, seguidos por famílias como as de Ron. Famílias que foram rotuladas como 'traidoras do sangue.' Seremos perseguidos e assassinados, todos nós. Esse é o objetivo dele, não é? 'Que a magia pertença apenas aos Sangue Puro.' É por isso que estou fazendo isso, Harry. Não quero sentar e deixar o meu destino e o destino da minha família nas mãos de outras pessoas. Não quero ficar para trás, ver o nosso lado perder a guerra e não ser capaz de fazer nada. Eu quero participar para assegurar o meu futuro. O Ministério e a Ordem não vão nos deixar ajudar. Se eu puder ajudar a derrotar Voldemort, de qualquer forma que seja, então estou pronta para fazer qualquer coisa, e isso inclui ajudar você. Você está certo, eu não tenho nenhuma lealdade com relação a você, mas estou pronta para te dar uma segunda chance, se me der uma chance também."

Harry parecia estar travando uma batalha interna e Ron viu que Ginny abriu a boca, mas foi Harry quem falou primeiro:

"Você tem noção do que aconteceria se fossem pegos? Vocês iriam para Azkaban por ajudar um criminoso procurado. Seriam punidos por não me entregar."

Ron estremeceu. Azkaban. Hermione estava muito pálida, mas limpou a garganta. Sua voz ainda tremia quando ela falou.

"Vamos enfrentar essa situação quando e se esse momento chegar. Se eu puder garantir o destino dos meus pais e dos outros nascidos trouxas, então é um preço que estou disposta a pagar."

Ron jamais vira Hermione tão corajosa. Algumas vezes, em momentos tranquilos, ele se perguntara porque ela não estava na Corvinal. É claro que nunca reclamara. Quem teria feito seu dever de casa, então? Mas agora... Ele a encarou com admiração. Como ela era capaz de ver tudo e de pensar em tudo e... e de enfrentá-lo daquela maneira e...

"Vocês têm a mesma opinião que ela?" perguntou Harry.

Ron virou a cabeça e viu que o rapaz olhava para ele. O ruivo engoliu em seco. Ajudar aquele que queria matar naquela mesma manhã? A única coisa que o permitia continuar? Ron encarou Ginny. Azkaban. Ginny.

"Sim."

Ginny sorriu alegremente para o irmão, que sorriu de volta. Ron não tinha certeza com relação a Harry, mas tinha certeza quanto a Ginny. E Hermione. E Damien. E a guerra. Não podia continuar olhando através de uma janela o tempo inteiro. Ali estava algo a fazer e ele não dissera que precisava fazer alguma coisa?

"Eu ainda estou dentro também, é claro," disse Ginny, virando-se para Harry novamente. "Não há nada para fazer por aqui mesmo."

Harry revirou os olhos, mas a garota sorriu.

"Vocês todos têm que fazer o que eu disser, e têm que seguir todas as minhas ordens. Combinado?"

"Combinado!" Vieram as respostas de Hermione, Damien e Ron em uníssono

Ginny franziu a testa e o encarou.

"De forma alguma! Eu não vou fazer tudo que você me mandar!" A garota cruzou os braços e todos olharam para ela.

"Ginny…" começou Damien, mas Harry suspirou.

"Quê?" perguntou irritada. "Vocês não sabem como ele é! Eu não ia sequer poder sentar, pelo amor de Merlin!"

Ron franziu o cenho, assim como Hermione e Damien, mas o rosto sério de Ginny de repente mudou e a garota deu uma risada. Ela sorriu para Harry e, Ron prendeu a respiração, o rapaz sorriu de volta brevemente e revirou os olhos de novo.

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"Dissimulada, muito dissimulada," disse Harry depois que ela fechou a porta atrás de Ron, Hermione e Damien.

"Quê?" perguntou ela ao se virar.

"A forma que você trata seu irmão: muito dissimulada." Ele se recostou na porta do banheiro.

"Não faço ideia do que você está falando."

Harry arqueou a sobrancelha.

"Seu 'ah, por favor, você tem que me proteger.'" Ele imitou a voz dela. Pelo menos foi isso que ela imaginou que estivesse fazendo, porque soou ridículo.

"Eu não disse isso." Ela franziu o cenho para ele, seu bom humor desaparecendo lentamente.

"Podia muito bem ter dito. Sua expressão corporal gritou isso!"

"Eu não fiz isso! Não foi assim…"

"Ah, vamos, pode parar de fingir."

"Fingir o quê? Não estou fingindo! E não foi assim! Eu não preciso ser protegida!" retrucou ela. "E o que foi aquele 'recomponha-se?' Eu já te disse isso alguma vez? Eu podia ter dito também! Posso ver quando há algo de errado com você, e simplesmente não fala sobre isso! Pelo menos eu estou mostrando minhas emoções, não me escondendo delas como um maldito covarde!"

Harry a encarou.

"O que… o que você disse?" A voz dele estava perigosamente baixa e seus olhos estavam escurecendo.

"Eu…" Ela falou com dificuldade e respirou fundo. "Eu não quis dizer isso... eu só..."

Ginny mordeu o lábio, contrariada. Não era aquilo que queria dizer, mas... ele e sua estupidez...

"E pare de fazer isso!" gritou ele.

Ela estava prestes a gritar de volta, mas ficou confusa. Ergueu o olhar e encontrou os olhos dele, que brilhavam novamente.

"Parar de fazer o quê?"

"Isso!" Ele apontou para ela. "Morder o lábio! Apenas... pare com isso."

"Quê? Eu devo parar de morder meu lábio? Por quê?"

"Eu…" Harry passou a mão pelo cabelo, olhando contrariado para ela. "Eu só..." Ele se esforçou para falar. "Eu odeio isso!"

Ginny o encarou.

"Você odeia quando eu morda meu lábio?" Ela cruzou os braços. "Bem, eu odeio a forma como me trata às vezes, como consegue ser tão babaca... e a forma como os ameaçou quase agora! Como me ameaçou! Modificar nossas memórias? Sério?" gritou ela.

"Eu…" Harry pareceu perdido por um segundo, mas em seguida sua expressão inteira se transformou em raiva. "Diga o que eu devia ter feito, então? Hã? Apenas deixá-los ir embora e contar a todo mundo sobre você? Viu a forma que seu irmão olhou para mim? Ele estava pronto para me assassinar! O que seria para ele apenas contar ao seu pai? Seu pai? Esse lugar ficaria cheio de aurores procurando você para te levar para casa e me procurando para levar ao dementador mais próximo! E assim que alguém no Ministério souber que você está viva, haverá Comensais da Morte procurando por você também. Você sabe o que meu pai vai fazer comigo se algum dia descobrir que você está viva?"

"Em primeiro lugar: Ron não faria isso. E mesmo que ele fizesse, meu pai não faria isso."

"É claro que fariam! Eles querem a minha alma, Ginny. O beijo do dementador me aguarda! Cinco mil galeões para aquele que oferecer alguma pista sobre mim ao Ministério!"

"Eu… eu diria a verdade a eles, então!"

Harry riu sarcasticamente.

"Acorde! Eles nunca te escutariam! Eles sequer perderiam tempo te escutando." Harry começou a caminhar de um lado para o outro. "E mesmo que você, de alguma forma, contra todas as circunstâncias, conseguisse contar a alguém: eles iam querer acabar comigo, me deixar sem alma. Não importa o que realmente aconteceu."

"Isso não é verdade," disse Ginny teimosa, observando-o.

Harry parou de andar e a encarou.

"É claro! É assim que o Ministério trabalha."

Ginny deu um passo na direção dele.

"Mas isso ainda não te dá o direito de nem ao menos tentar conversar com eles!"

"É, bem, foi assim que fui educado!" disse ele, gesticulando muito. "Eu fui ensinado a reagir dessa forma. É assim que eu sou. Se não consegue lidar com isso, é problema seu, não meu!"

"Só porque te ensinaram isso, não significa que você sempre tem que ser assim! Isso. É. Pura. Bobagem!" disse ela, enfiando o dedo no peito dele a cada palavra.

Eles se encararam furiosamente antes de Ginny baixar os olhos para os próprios sapatos, tentando organizar os pensamentos e se acalmar. Não ajudaria em nada gritarem um com o outro.

"Você teria mesmo feito aquilo? Teria modificado minha memória? A de Damien?" perguntou ela lentamente.

"Eu teria tentado." Ela encontrou os olhos perturbados dele. "Eu... teria sido difícil... quero dizer, depois... depois de tudo." Ele gemeu e fechou os olhos, respirando fundo e esfregando-os em seguida.

"Harry…?"

O garoto abriu os olhos.

"Eu... eles..." Ele se esforçou para continuar. "Eu não acho que teria conseguido. Seu irmão: provavelmente sim. Granger: provavelmente. Mas você… e Damy…"

"Por que faz diferença?"

Ele a encarou por um longo momento antes de dar um passo para trás e se virar, andando em direção à janela, olhando para o lado de fora.

"Voldemort modificou minhas memórias também."

Os olhos de Ginny se arregalaram.

"Ah... eu... eu não..."

"Sempre que eles faziam algo de errado, limpavam da minha mente. Sempre que eu chegava perto de descobrir a verdade, eles também faziam isso. Voldemort, ele... ele certificou-se de que eu nunca descobrisse, certificou-se de que eu jamais o deixasse."

"A verdade? Descobrir o quê?" perguntou ela suavemente.

"Eles... você sabe como eu 'cheguei' até eles?" perguntou Harry com a voz baixa também.

"Você foi levado, não foi?"

"Por Peter Pettigrew, sim, mas não é assim que eu me lembro." Ele apoiou a cabeça na janela. Ginny não sabia se deveria se aproximar dele, se deveria fazer alguma coisa. Ficou onde estava. "Eles... eles criaram 'minha vida' encima de mentiras. Assumiram o lugar deles. Eles..." Ele lutou para continuar. "Por meio de ilusões, me fizeram acreditar que ainda estava em Godric's Hollow, que passei muito mais tempo lá do que realmente passei. Eles se passaram por minha família: Lucius era Sirius, Bella minha mãe e Voldemort meu pai. Eles... vamos dizer que não me trataram muito bem. Eles me mostraram uma face do 'Lado da Luz' que me fez odiar tudo sobre ele. Eu me lembro de ter fugido aos quatro anos e de tê-los encontrado e... Voldemort me fez acreditar que salvou minha vida, me fez ser grato por estar com eles. Foi assim que me manipularam para fazer o que quisessem. Eu só... é..." Ele parou de falar.

"Isso é horrível. Eu não tinha ideia…" Ginny parou de falar também. O que dizer diante daquilo? "Eu sinto muito."

Harry se virou lentamente e, por um instante, ela pensou ter visto lágrimas brilhando nos olhos dele.

"Pelo o quê? Não é culpa sua..."

"Eu sei. É só…"

Ela seguiu o impulso repentino e atravessou o quarto, abraçando-o com força. Ele endureceu nos braços dela e tentou dar um passo para trás, mas ela não o soltou.

"Ginny..." disse ele sofregamente.

"Apenas me abrace de volta," murmurou ela contra seu peito.

"O que pretende alcançar com isso?"

Ela o apertou com mais força ainda e lentamente ele cedeu, envolvendo os braços ao redor dela, puxando-a para mais perto. Ginny sorriu quando ele levantou um pouco o queixo e o apoiou em sua cabeça.

"Eu não teria gostado de fazer a mesma coisa com eles, com você, mas às vezes..." murmurou ele.

"Está tudo bem, não aconteceu nada," sussurrou ela de volta. "Eles juraram não contar sobre nós. Não vai chegar a esse ponto." Ela escutou o coração ainda acelerado dele. "Obrigada por me contar," disse ela ainda mais baixo.

Harry se afastou e ela o soltou. Ele evitou os olhos dela e andou ao redor, caminhando até sua bolsa. Ela o observou procurar por alguma coisa.

"O que você está…?" perguntou confusa.

"Feitiços, certo?" perguntou ele sem olhar para ela.

"Hã?"

"Sua matéria favorita: Feitiços, certo?"

"Sim, mas, o quê…?" perguntou ainda confusa. Ele lembrava...

"Você parecia entediada mais cedo." Ele tirou vários livros. "E está perdendo partes importantes de sua educação por minha causa."

"Sim, bem…" Ela se aproximou do garoto, que lhe entregou um livro.

"É o único livro de Feitiços que eu trouxe…"

"Algo sobre Defesa provavelmente seria melhor, de qualquer forma."

Ele assentiu e entregou-lhe mais dois livros.

"Melhor ler esse aqui primeiro." Ele apontou para o de capa mais escura. "E se tiver alguma dúvida... basta me perguntar."

Ela abraçou os livros.

"Harry…?" Ele finalmente levantou o olhar e encontrou seus olhos. "Obrigada."

"É… É o mínimo que eu posso fazer."

xxx

James respirou fundo e olhou para os melhores amigos. Sirius assentiu para ele enquanto Remus deu-lhe um sorriso encorajador. Lily apertou seu braço.

"Vá em frente, James," murmurou ela suavemente.

Ele assentiu e segurou o pedaço de pergaminho com mais força ainda. Sua mão tremia. Apertou os números, verificando inúmeras vezes se os digitara corretamente. Ele, então, apertou o telefone na orelha, escutando o toque, o coração batendo tão depressa no peito que pensou que poderia estourar. Talvez devesse ter deixado Lily fazer a ligação. Mas queria fazer aquilo. Foi ele quem estragara o último telefonema e queria mostrar que podia fazer da forma correta. Era sua tarefa trazer o filho para casa, afinal, era por sua culpa que ele não estava lá. E tinham esperado tempo demais. Tinham conversado sobre como fazer aquilo, o que ele devia falar, como ia convencê-lo...

"Vamos, Harry, atenda," pediu silenciosamente. "Que seja o número certo."

"É você, Harry? O número está diferente…"

James quase derrubou o telefone.

"Damien?"